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Álgebra Linear I, Notas de estudo de Matemática

Atualizado em 23 de Agosto de 2010. Contém os quatro primeiros capítulos do curso de Álgebra Linear quase completos. Contém também dois apêndices sobre Conjuntos e o Axioma da Escolha.

Tipologia: Notas de estudo

Antes de 2010

Compartilhado em 23/08/2010

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Algebra Linear
Germ´an Ignacio Gomero Ferrer 1
Universidade Estadual de Santa Cruz UESC,
Rodovia Ilh´eus/Itabuna, km 16, Ilh´eus
45650-000 Bahia BA, Brasil
23 de agosto de 2010
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Algebra Linear´

Germ´an Ignacio Gomero Ferrer 1

Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC,

Rodovia Ilh´eus/Itabuna, km 16, Ilh´eus

45650-000 Bahia – BA, Brasil

23 de agosto de 2010

(^1) e-mail: [email protected]

Sum´ario

  • Introdu¸c˜ao
  • 1 Espa¸cos Vetoriais
    • 1.1 Alguns exemplos conhecidos
      • 1.1.1 O plano R
      • 1.1.2 O espa¸co Rn
      • 1.1.3 O espa¸co Cn
      • 1.1.4 O espa¸co Kn
    • 1.2 A defini¸c˜ao de espa¸co vetorial
    • 1.3 Espa¸cos de fun¸c˜oes sobre um corpo
      • 1.3.1 Espa¸cos de seq¨uˆencias
      • 1.3.2 Espa¸cos de fun¸c˜oes
      • 1.3.3 Espa¸cos de matrizes
      • 1.3.4 Fun¸c˜oes reais de vari´aveis reais
    • 1.4 Espa¸cos de fun¸c˜oes sobre um espa¸co vetorial
      • 1.4.1 Espa¸cos de matrizes
      • 1.4.2 Fun¸c˜oes vetoriais de uma e v´arias vari´aveis
      • 1.4.3 Sequˆencias de fun¸c˜oes
    • 1.5 Propriedades elementares dos espa¸cos vetoriais
  • 2 Subespa¸cos Vetoriais
    • 2.1 Subespa¸cos e n˜ao–subespa¸cos
      • 2.1.1 Exemplos simples de subespa¸cos vetoriais
      • 2.1.2 Exemplos n˜ao t˜ao simples de subespa¸cos vetoriais
      • 2.1.3 Exemplos menos simples
      • 2.1.4 Alguns contraexemplos
    • 2.2 Interse¸c˜ao de subespa¸cos
      • 2.2.1 Interse¸c˜ao de dois subespa¸cos
      • 2.2.2 Interse¸c˜ao de uma quantidade finita de subespa¸cos
      • 2.2.3 Interse¸c˜ao de uma fam´ılia de subespa¸cos
    • 2.3 Soma de subespa¸cos vetoriais
      • 2.3.1 Uni˜ao de subespa¸cos
      • 2.3.2 Soma de dois subespa¸cos
      • 2.3.3 Soma direta de dois subespa¸cos
    • 2.4 Espa¸cos afins
      • 2.4.1 Caracterizando espa¸cos afins
      • 2.4.2 Espa¸cos afins e parti¸c˜oes
      • 2.4.3 Exemplos de espa¸cos afins
  • 3 Transforma¸c˜oes Lineares
    • 3.1 Morfismos entre espa¸cos vetoriais
      • 3.1.1 Exemplos gerais
      • 3.1.2 Transforma¸c˜oes lineares em Geometria Anal´ıtica
      • 3.1.3 Alguns isomorfismos interessantes
    • 3.2 Propriedades das transforma¸c˜oes lineares
      • 3.2.1 N´ucleo e Imagem
      • 3.2.2 Espa¸cos quociente
      • 3.2.3 Opera¸c˜oes entre transforma¸c˜oes lineares
    • 3.3 Transforma¸c˜oes afins
      • 3.3.1 Caracteriza¸c˜ao das transforma¸c˜oes afins
      • 3.3.2 Sistemas lineares
  • 4 Bases e Dimens˜ao
    • 4.1 Representa¸c˜ao matricial de operadores
      • 4.1.1 Bases canˆonicas
      • 4.1.2 Matrizes como operadores lineares
    • 4.2 Combina¸c˜oes lineares
      • 4.2.1 Defini¸c˜oes b´asicas
      • 4.2.2 Combina¸c˜oes lineares e conjuntos geradores
      • 4.2.3 Combina¸c˜oes lineares e transforma¸c˜oes lineares
    • 4.3 Base de um espa¸co vetorial
      • 4.3.1 Independˆencia linear e bases
      • 4.3.2 Existˆencia de bases
    • 4.4 Dimens˜ao
      • 4.4.1 Bases e transforma¸c˜oes lineares
      • 4.4.2 Cardinalidade de bases
      • 4.4.3 Mudan¸cas de bases
  • A Teoria de Conjuntos
    • A.1 Conjuntos e fun¸c˜oes
      • A.1.1 Fun¸c˜oes e subconjuntos
      • A.1.2 A fun¸c˜ao inversa
      • A.1.3 Algumas fun¸c˜oes importantes
      • A.1.4 Composi¸c˜ao de fun¸c˜oes
      • A.1.5 Produto cartesiano de dois conjuntos
      • A.1.6 Opera¸c˜oes com conjuntos
    • A.2 Fam´ılias de conjuntos
      • A.2.1 Opera¸c˜oes com fam´ılias
      • A.2.2 Coberturas e parti¸c˜oes
      • A.2.3 Potˆencia de uma fun¸c˜ao
      • A.2.4 Imagem inversa
      • A.2.5 Produto cartesiano de uma fam´ılia de conjuntos
  • B O Axioma da Escolha
    • B.1 Sobre a existˆencia de fun¸c˜oes de escolha
    • B.2 O Axioma da Escolha
      • B.2.1 Enunciados equivalentes ao Axioma da Escolha
      • B.2.2 Proposi¸c˜oes equivalentes ao Axioma da Escolha
    • B.3 Vers˜oes restritas do Axioma da Escolha
      • B.3.1 O Princ´ıpio das Escolhas Dependentes
      • B.3.2 O Axioma da Escolha Enumer´avel

Introdu¸c˜ao

Sistemas de equa¸c˜oes alg´ebricas lineares, sistemas de rela¸c˜oes de recorrˆencia, sistemas de equa¸c˜oes em diferen¸cas, sistemas de equa¸c˜oes diferenciais lineares (sejam estas ordin´arias ou parciais), sistemas de equa¸c˜oes integrais lineares, e misturas destas, todas elas s˜ao sistemas lineares. A Algebra Linear ´´ e a geometria dos sistemas lineares. O espa¸cos vetoriais s˜ao as solu¸c˜oes dos sistemas homogˆeneos e os espa¸cos afins dos heterogˆeneos. Neste texto se estuda a Algebra Linear deste ponto de vista.´ Segue–se daqu´ı que este n˜ao ´e um texto convencional de Algebra Linear em v´´ arios sentidos. N˜ao nos restringimos a estudar apenas espa¸cos vetoriais reais, nem nos contentamos com in- cluir tamb´em apenas os espa¸cos complexos, pois existem sistemas lineares muito interessantes definidos sobre outros corpos. Do mesmo modo, n˜ao nos restringimos apenas ao caso finito dimensional pois existem sistemas lineares de dimens˜ao infinita (enumer´avel e n˜ao enumer´avel) fundamentais nas aplica¸c˜oes. Por outro lado, a pesar de ter sempre presentes as vastissimas aplica¸c˜oes da Algebra Linear´ dentro e fora da Matem´atica, n˜ao lhes dedicamos aten¸c˜ao especial. Os cap´ıtulos sobre aplica¸c˜oes s˜ao inclu´ıdos apenas para ilustrar o uso e a relevˆancia das constru¸c˜oes te´oricas, muitas das quais s˜ao altamente abstratas e portanto justificam a apresenta¸c˜ao de motiva¸c˜oes adicionais, al´em das puramente est´eticas do ponto de vista matem´atico.

Nesta se¸c˜ao vamos ver uma quantidade infinita de exemplos. Come¸camos com o plano real, velho conhecido dos cursos de Geometria Anal´ıtica denotado por R^2 , e continuamos com os espa¸cos formados por n–uplas de n´umeros reais (para cada n ∈ N temos um exemplo de espa¸co vetorial). Por ´ultimo, estendemos as id´eias utilizadas no caso real para apresentar espa¸cos vetoriais formados por n–uplas de outros tipos de n´umeros.

1.1.1 O plano R^2

O plano R^2 , conhecido tamb´em como plano real, ´e o conjunto formado pelos pares ordenados de n´umeros reais. Sabemos isto porque j´a estudamos Geometria Anal´ıtica Plana. Formalmente temos

R^2 = {(α, β) / α, β ∈ R}. (1.1)

Todos n´os sabemos somar pares ordenados. Por exemplo, a seguinte soma n˜ao ´e mist´erio para ningu´em lendo este texto,

(3, 5) + (1, −2) = (4, 3). (1.2)

Do mesmo modo, todos sabemos multiplicar um n´umero por um par ordenado, por exemplo,

5(2, −1) = (10, −5). (1.3)

Saber isto est´a ´otimo no n´ıvel de um primeiro curso de Geometria Anal´ıtica, mas agora esta- mos no territ´orio da Algebra Linear. Nosso objetivo nesta se¸´ c˜ao ´e usar propriedades alg´ebricas elementares dos n´umeros reais para deduzir propriedades alg´ebricas elementares do plano real. As propriedades dos n´umeros reais que vamos utilizar se seguem todas do fato de R ser um corpo, ou seja, de que existem duas opera¸c˜oes bin´arias comutativas e associativas

σ : R × R → R (x, y) 7 → x + y e μ : R × R → R (x, y) 7 → xy

tais que valem as seguintes afirma¸c˜oes (veja tamb´em a Defini¸c˜ao 1.9).

A1. Existe um n´umero 0 ∈ R tal que para todo n´umero x ∈ R vale x + 0 = x.

A2. Para cada n´umero x ∈ R existe um n´umero −x ∈ R tal que x + (−x) = 0.

M1. Existe um n´umero 1 ∈ R tal que para todo n´umero x ∈ R vale 1x = x.

M2. Para todo n´umero x ∈ R \ { 0 } existe um n´umero x−^1 ∈ R tal que xx−^1 = 1.

D. Para quaisquer n´umeros x, y, z ∈ R vale x(y + z) = xy + xz.

Estas propriedades s˜ao bastante conhecidas e vamos adot´a-las como verdadeiras mesmo sem apresentar uma prova. Na verdade, em certas situa¸c˜oes estas propriedades se tomam como parte da defini¸c˜ao do sistema dos n´umeros reais. A primeira tarefa a cumprir para atingir nosso objetivo, ´e a de descrever formalmente as duas opera¸c˜oes bin´arias conhecidas em R^2 por quem j´a estudou Geometria Anal´ıtica Plana. Para realizar esta descri¸c˜ao ´e fundamental esclarecer melhor a nota¸c˜ao que vai ser usada.

Pela defini¸c˜ao do plano real dada pela express˜ao (1.1), se x ∈ R^2 ent˜ao x ´e um par ordenado de n´umeros reais. Vamos denotar sempre cada n´umero deste par por x 1 e x 2 , e chama–los de primeira e segunda componentes de x. Resumimos isto de maneira formal do seguinte modo^1

x ∈ R^2 ←→ ∃x 1 , x 2 ∈ R , x = (x 1 , x 2 ). (1.4)

Al´em disso, para as opera¸c˜oes em R^2 usamos nota¸c˜oes muito similares `as usadas para escrever as opera¸c˜oes em R.

σ : R^2 × R^2 → R^2 (x, y) 7 → x + y e μ : R × R^2 → R^2 (λ, x) 7 → λx.

Observe que σ ´e uma opera¸c˜ao bin´aria interna, enquanto μ ´e externa. Vamos ent˜ao descrever formalmente o que s˜ao estas duas opera¸c˜oes, ou falando de modo mais simples, vamos dizer agora como se executam estas opera¸c˜oes.

Adi¸c˜ao de pontos. Dados dois pontos x, y ∈ R^2 , temos que dizer qual ´e o ponto x + y ∈ R^2. Em outras palavras, pela express˜ao (1.4) sabemos que existem x 1 , x 2 , y 1 , y 2 ∈ R, tais que x = (x 1 , x 2 ) e y = (y 1 , y 2 ), e definir a adi¸c˜ao consiste em indicar quais s˜ao as componentes de x + y ∈ R^2. A defini¸c˜ao ´e

(x + y) 1 = x 1 + y 1 e (x + y) 2 = x 2 + y 2. (1.5)

A primeira igualdade define quem ´e a primeira componente do ponto x + y ∈ R^2 , a segunda igualdade define quem ´e a segunda componente. Em outras palavras,

x + y = (x 1 + y 1 , x 2 + y 2 ) , (1.6)

ou equivalentemente,

(x 1 , x 2 ) + (y 1 , y 2 ) = (x 1 + y 1 , x 2 + y 2 ). (1.7)

Compare a soma em (1.2) com a express˜ao geral (1.7).

Multiplica¸c˜ao de um n´umero por um ponto. Dados um ponto x ∈ R^2 e um ´numero real λ ∈ R, temos que dizer qual ´e o ponto λx ∈ R^2. Em outras palavras, se x 1 , x 2 ∈ R s˜ao as componentes de x ∈ R^2 , definir a multiplica¸c˜ao consiste em indicar quais s˜ao as componentes de λx ∈ R^2. A defini¸c˜ao ´e

(λx) 1 = λx 1 e (λx) 2 = λx 2. (1.8)

Novamente, a primeira igualdade define quem ´e a primeira componente do ponto λx ∈ R^2 , a segunda igualdade define quem ´e a segunda componente. Em outras palavras,

λx = (λx 1 , λx 2 ) , (1.9)

ou equivalentemente, λ(x 1 , x 2 ) = (λx 1 , λx 2 ). (1.10) Compare o produto em (1.3) com a express˜ao geral (1.10). (^1) Observe que a express˜ao (1.4) ´e equivalente `a express˜ao (1.1), ou seja, as duas f´ormulas expressam a mesma

defini¸c˜ao do plano R^2 , s´o que est˜ao escritas de forma diferente.

novamente a express˜ao (1.6), para quaisquer x, y ∈ R^2 temos

x + y = (x 1 + y 1 , x 2 + y 2 ) = (y 1 + x 1 , y 2 + x 2 ) = y + x.

A comutatividade dos reais ´e usada duas vezes na passagem da primeira para a segunda linha, uma vez em cada componente.

A2. (A adi¸c˜ao de pontos em R^2 ´e associativa) Prova. Vamos realizar de novo a prova de duas maneiras equivalentes.

  1. As primeiras componentes de x + (y + z) e de (x + y) + z s˜ao

(x + (y + z)) 1 = x 1 + (y + z) 1 = x 1 + (y 1 + z 1 ) e ((x + y) + z) 1 = (x + y) 1 + z 1 = (x 1 + y 1 ) + z 1.

Lembrando que a adi¸c˜ao em R ´e associativa temos

x 1 + (y 1 + z 1 ) = (x 1 + y 1 ) + z 1 ,

e portanto (x + (y + z)) 1 = ((x + y) + z) 1. Em palavras, a primeira componente do ponto x + (y + z) ´e igual a primeira compo- nente do ponto (x + y) + z. Realizando exatamente os mesmos passos nas segundas componentes chegamosa conclus˜ao de que a segunda componente de x + (y + z) ´e igual `a segunda componente de (x + y) + z. Acabamos de provar que x + (y + z) tem as mesmas componentes que (x + y) + z, logo s˜ao o mesmo ponto do plano, ou seja x + (y + z) = (x + y) + z.

  1. Usando a express˜ao (1.6) e apelando `a associatividade dos reais, para quaisquer x, y, z ∈ R^2 temos

x + (y + z) = (x 1 + (y + z) 1 , x 2 + (y + z) 2 ) = (x 1 + (y 1 + z 1 ), x 2 + (y 2 + z 2 )) = ((x 1 + y 1 ) + z 1 , (x 2 + y 2 ) + z 2 ) = ((x + y) 1 + z 1 , (x + y) 2 + z 2 ) = (x + y) + z.

A associatividade dos reais ´e usada duas vezes na passagem da segunda para a terceira linha, uma vez em cada componente.

A3. (O plano R^2 tem elemento neutro) Prova. Aqui tamb´em vamos realizar a prova de duas maneiras equivalentes.

  1. A primeira componente de x + 0 ´e

(x + 0) 1 = x 1 + 0 1 = x 1 + 0 = x 1.

Em palavras, a primeira componente do ponto x + 0 ´e igual a primeira componente do ponto x. Realizando exatamente os mesmos passos nas segundas componentes chegamosa conclus˜ao de que a segunda componente de x + 0 ´e igual `a segunda componente de x. Acabamos de provar que x + 0 tem as mesmas componentes que x, logo s˜ao o mesmo ponto do plano, ou seja x + 0 = x.

  1. Usando a express˜ao (1.6), para todo x ∈ R^2 temos

x + 0 = (x 1 + 0 1 , x 2 + 0 2 ) = (x 1 + 0, x 2 + 0) = (x 1 , x 2 ) = x.

A4. (Todo ponto do plano tem inverso aditivo) Prova. Mais uma vez, vamos realizar a prova de duas maneiras equivalentes.

  1. A primeira componente de x + (−x) ´e

(x + (−x)) 1 = x 1 + (−x) 1 = x 1 + (−x 1 ) = 0.

Em palavras, a primeira componente do ponto x + (−x) ´e zero. Realizando exata- mente os mesmos passos na segunda componente chegamos `a conclus˜ao de que a segunda componente de x + (−x) ´e zero. Ou seja x + (−x) = 0.

  1. Usando a express˜ao (1.6), para todo x ∈ R^2 temos

x + (−x) = (x 1 + (−x) 1 , x 2 + (−x) 2 ) = (x 1 + (−x 1 ), x 2 + (−x 2 )) = (0, 0) = 0.

As outras propriedades ficam como exerc´ıcio.

1.1.2 O espa¸co Rn

Vamos generalizar um pouco o exemplo visto acima. Dado n ∈ N, considere o espa¸co formado pelas n–uplas ordenadas de n´umeros reais, chamado de espa¸co real n–dimensional, e denotado por Rn. Formalmente temos

Rn^ = {(x 1 , x 2 ,... , xn) / x 1 , x 2 ,... , xn ∈ R}. (1.11)

O plano real corresponde ao caso n = 2. O caso n = 3 deve tamb´em ser familiar dos cursos de Geometria Anal´ıtica. Tomando por exemplo n = 5, ´e f´acil adivinhar como somar 5–uplas

Da mesma forma que no caso do plano R^2 , completado o primeiro passo, deveriamos a continua¸c˜ao investigar quais propriedades elementares de Rn^ se seguem destas defini¸c˜oes. Ob- servando as provas das propriedades alg´ebricas de R^2 realizadas acima, podemos perceber que o procedimento seguido foi decompor a prova correspondente para cada componente do par. Esta observa¸c˜ao leva a pensar na possibilidade de agir do mesmo modo em Rn. Esta estrat´egia deveria funcionar pois as opera¸c˜oes acima foram definidas componente a componente. De fato esta estrat´egia funciona. Observe a seguir que as propriedades elementares de Rn^ s˜ao formalmente idˆenticas `as propriedades deduzidas para R^2. Observe que as provas s˜ao tamb´em formalmente idˆenticas.

Teorema 1.2 O espa¸co Rn^ com as opera¸c˜oes de adi¸c˜ao de pontos e multiplica¸c˜ao por um n´umero dadas por (1.16) e (1.17) tem as seguintes propriedades.

A1. Para quaisquer x, y ∈ Rn^ vale x + y = y + x

A2. Para quaisquer x, y, z ∈ Rn^ vale x + (y + z) = (x + y) + z.

A3. Se (^0) i = 0, com i ∈ In, ent˜ao para todo x ∈ Rn^ vale x + 0 = x.

A4. Dado x ∈ Rn, se (−x)i = −xi para todo i ∈ In, ent˜ao x + (−x) = 0.

M1. Para quaisquer α, β ∈ R e x ∈ Rn^ vale α(βx) = (αβ)x.

M2. Para todo x ∈ Rn^ vale 1 x = x.

D1. Para quaisquer α, β ∈ R e x ∈ Rn^ vale (α + β)x = αx + βx.

D2. Para todo α ∈ R e x, y ∈ Rn^ vale α(x + y) = αx + αy.

Prova. Novamente, provamos apenas as propriedades referntes `a adi¸c˜ao.

A1. (A adi¸c˜ao de pontos em Rn^ ´e comutativa) Prova. Vamos realizar a prova de duas maneiras equivalentes.

  1. As primeiras componentes de x + y e de y + x s˜ao

(x + y) 1 = x 1 + y 1 e (y + x) 1 = y 1 + x 1.

Lembrando que a adi¸c˜ao em R ´e comutativa temos

x 1 + y 1 = y 1 + x 1 ,

e portanto (x + y) 1 = (y + x) 1. Em palavras, a primeira componente do ponto x + y ´e igual a primeira componente do ponto y + x. Realizando exatamente os mesmos passos para todas as outras componentes chegamosa conclus˜ao de que x + y tem as mesmas componentes que y + x, e portanto s˜ao o mesmo ponto de Rn, ou seja x + y = y + x.

  1. Exatamente o mesmo procedimento que acima pode ser realizado seguindo um estilo diferente. Para todo i ∈ In e todo x, y ∈ Rn^ temos

(x + y)i = xi + yi = yi + xi = (y + x)i.

Como x + y tem as mesmas componentes que y + x, segue–se x + y = y + x. Observe que a comutatividade dos reais ´e usada n vezes na passagem da primeira para a segunda linha, uma vez em cada componente.

Um exame cuidadoso mostra que as duas maneiras de provar a comutatividade de pontos em Rn^ s˜ao idˆenticas. Contudo, o segundo modo de escrever a prova ´e mais elegante e se presta para generaliza¸c˜oes interessantes, como veremos nas pr´oximas se¸c˜oes. No que segue vamos utilizar apenas o segundo modo de escrever as provas.

A2. (A adi¸c˜ao de pontos em Rn^ ´e associativa) Prova. Para todo i ∈ In temos

(x + (y + z))i = xi + (y + z)i = xi + (yi + zi) = (xi + yi) + zi = (x + y)i + zi = ((x + y) + z)i.

Como x + (y + z) tem as mesmas componentes que (x + y) + z, segue–se x + (y + z) = (x + y) + z. Observe que a associatividade dos reais ´e usada n vezes na passagem da segunda para a terceira linha, uma vez em cada componente.

A3. (O espa¸co Rn^ tem elemento neutro) Prova. Se para todo i ∈ In vale 0i = 0, ent˜ao temos

(x + 0)i = xi + 0i = xi + 0 = xi.

Como x + 0 tem as mesmas componentes que x, segue–se que x + 0 = x.

A4. (Todo ponto de Rn^ tem inverso aditivo) Prova. Definindo (−x)i = −xi para todo i ∈ In, temos

(x + (−x))i = xi + (−x)i = xi + (−xi) = 0.

Como todas as componentes de x + (−x) s˜ao nulas, segue–se que x + (−x) = 0.

As outras propriedades ficam como exerc´ıcio.

M1. Dados x, y ∈ R^2 temos

xy = (x 1 , x 2 )(y 1 , y 2 ) = (x 1 y 1 − x 2 y 2 , x 1 y 2 + x 2 y 1 ) = (y 1 x 1 − y 2 x 2 , y 1 x 2 + y 2 x 1 ) = (y 1 , y 2 )(x 1 , x 2 ) = yx.

M2. Dados x, y, z ∈ R^2 temos

x(yz) = (x 1 , x 2 )((y 1 , y 2 )(z 1 , z 2 )) = (x 1 , x 2 )(y 1 z 1 − y 2 z 2 , y 1 z 2 + y 2 z 1 ) = (x 1 (y 1 z 1 − y 2 z 2 ) − x 2 (y 1 z 2 + y 2 z 1 ), x 1 (y 1 z 2 + y 2 z 1 ) + x 2 (y 1 z 1 − y 2 z 2 )) = ((x 1 y 1 − x 2 y 2 )z 1 − (x 1 y 2 + x 2 y 1 )z 2 , (x 1 y 1 − x 2 y 2 )z 2 + (x 1 y 2 + x 2 y 1 )z 1 ) = (x 1 y 1 − x 2 y 2 , x 1 y 2 + x 2 y 1 )(z 1 , z 2 ) = ((x 1 , x 2 )(y 1 , y 2 ))(z 1 , z 2 ) = (xy)z.

M3. Dado x ∈ R^2 temos

1 x = (1, 0)(x 1 , x 2 ) = (1x 1 − 0 x 2 , 1 x 2 + 0y 1 ) = (x 1 , x 2 ) = x.

M4. Dado x ∈ R^2 \ { 0 } temos

xx−^1 = (x 1 , x 2 )

x 1 x^21 +x^22 ,^

−x 2 x^21 +x^22

x^21 x^21 +x^22 −^

−x^22 x^21 +x^22 ,^

−x 1 x 2 x^21 +x^22 +^

x 1 x 2 x^21 +x^22

x^21 +x^22 x^21 +x^22 ,^0

D. Para todo x, y, z ∈ R^2 vale

x(y + z) = (x 1 , x 2 )(y 1 + z 1 , y 2 + z 2 ) = (x 1 (y 1 + z 1 ) − x 2 (y 2 + z 2 ), x 1 (y 2 + z 2 ) + x 2 (y 1 + z 1 )) = (x 1 y 1 + x 1 z 1 − x 2 y 2 − x 2 z 2 , x 1 y 2 + x 1 z 2 + x 2 y 1 + x 2 z 1 )) = ((x 1 y 1 − x 2 y 2 ) + (x 1 z 1 − x 2 z 2 ), (x 1 y 2 + x 2 y 1 ) + (x 1 z 2 + x 2 z 1 )) = (x 1 y 1 − x 2 y 2 , x 1 y 2 + x 2 y 1 ) + (x 1 z 1 − x 2 z 2 , x 1 z 2 + x 2 z 1 ) = (x 1 , x 2 )(y 1 , y 2 ) + (x 1 , x 2 )(z 1 , z 2 ) = xy + xz.

Isto completa a prova.

O corpo definido no Teorema 1.3 ´e chamado de corpo dos n´umeros complexos e ´e denotado por C. Observe que 1 = (1, 0) ´e o elemento neutro para a multiplica¸c˜ao em C, entanto que i = (0, 1) tem a seguinte propriedade curiosa,

i^2 = (0, 1)^2 = (0, 1)(0, 1) = (− 1 , 0). (1.20)

Esta observa¸c˜ao vai nos permitir daqui a pouco recobrar a nota¸c˜ao convencional usada para trabalhar com os n´umeros complexos, mas antes precisamos de um resultado pr´evio.

Teorema 1.4 O conjunto C 0 = {(a, b) ∈ C / b = 0} ´e um subcorpo de C isomorfo a R.

Prova. Considere a fun¸c˜ao injetiva

η : R → C a 7 → (a, 0).

Temos η(R) = C 0. Por outro lado, para todo a, b ∈ R valem

η(a) + η(b) = (a, 0) + (b, 0) = (a + b, 0) = η(a + b)

e

η(a)η(b) = (a, 0) · (b, 0) = (ab, 0) = η(ab).

Segue–se que η ´e um isomorfismo de R sobre sua imagem C 0. Considere a opera¸c˜ao bin´aria

μ : R × C → C (α, x) 7 → η(α)x.

Teorema 1.5 O corpo dos n´umeros complexos, com a adi¸c˜ao dos n´umeros complexos e multiplica¸c˜ao por n´umeros reais dada por μ, satisfaz o Teorema 1.1.

Prova. Levando em conta que C ´e apenas outro nome para R^2 , e que a adi¸c˜ao de n´umeros complexos ´e a adi¸c˜ao de pares ordenados, a prova do teorema ´e uma conta simples que mostra que a opera¸c˜ao μ : R × C → C ´e a multiplica¸c˜ao de um n´umero por um par ordenado. Para todo a ∈ R e x ∈ C temos

μ(a, x) = η(a)x = (a, 0)(x 1 , x 2 ) = (ax 1 , ax 2 ) = a(x 1 , x 2 ) = ax ,

e portanto μ : R × C → C ´e a multiplica¸c˜ao por escalares em R^2.

Como a, b ∈ R, devemos ent˜ao encontrar solu¸c˜oes reais do sistema

a^2 − b^2 + 1 = 0 e 2 ab = 0.

Temos ent˜ao a = 0 e b = ±1, ou seja x = (0, 1) = i ou x = (0, −1) = −i.

A equa¸c˜ao x^2 + 1 = 0 tamb´em pode ser escrita na forma x^2 = − 1 ,

o que induz a pensar que x =

−1, e portanto x = i. Mas pelo Lema 1.7 sabemos agora que x = i ou x = −i. Como surguiu este −i? Acontece que −1 tem duas ra´ızes quadradas, ou seja, existem dois n´umeros (complexos) cujo quadrado ´e −1, e portanto a opera¸c˜ao de tirar a raiz quadrada n˜ao est´a bem definida. Quando trabalhamos com n´umeros reais apenas, ao escrever o s´ımbolo √^ pressup˜oe–se que estamos nos referindo `a raiz positiva. Esta conven¸c˜ao n˜ao ´e mais poss´ıvel ao trabalharmos com n´umeros complexos. N˜ao h´a n´umeros complexos positivos nem negativos. A express˜ao i =

−1 tem valor hist´orico e nem´onico, mas n˜ao ´e v´alida como igualdade matem´atica. A igualdade que vale ´e i = (0, 1), e vale por defini¸c˜ao. No entanto, esta nota¸c˜ao antiga continua sendo ´util, pois permite escrever as opera¸c˜oes de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao de n´umeros complexos de um modo mais familiar. Dados x, y ∈ C, onde

x = x 1 + x 2 i e y = y 1 + y 2 i ,

temos

x + y = (x 1 + y 1 ) + (x 2 + y 2 )i e xy = (x 1 y 1 − x 2 y 2 ) + (x 1 y 2 + x 2 y 1 )i.

Estamos prontos agora para apresentar o espa¸co Cn, onde n ∈ N, llamado de espa¸co com- plexo n–dimensional e formado pelas n–uplas ordenadas de n´umeros complexos. Formalmente temos

Cn^ = {(x 1 , x 2 ,... , xn) / x 1 , x 2 ,... , xn ∈ C}. (1.24)

A esta altura do campeonato todo mundo j´a imagina como se somam duas n–uplas orde- nadas de n´umeros complexos, e tamb´em como se multiplica um n´umero complexo por uma n–upla ordenada. Do mesmo modo que nos casos anteriores, o nosso objetivo agora ´e enten- der formalmente estas duas opera¸c˜oes, assim como extrair propriedades alg´ebricas elementares induzidas em Cn^ por elas. Pela Defini¸c˜ao (1.24), se x ∈ Cn^ ent˜ao x ´e uma n–upla ordenada de n´umeros complexos. Vamos denotar cada n´umero desta n–upla ordenada sempre por x 1 , x 2 ,... , xn, e chama–los de primeira, segunda,... , n–´esima componentes de x. Resumimos isto de maneira formal do seguinte modo

x ∈ Cn^ ←→ ∀i ∈ In , ∃xi ∈ C , x = (x 1 , x 2 ,... , xn). (1.25)

A descri¸c˜ao das duas opera¸c˜oes ´e apenas uma c´opia do caso real. σ : Cn^ × Cn^ → Cn (x, y) 7 → x + y

e μ : C × Cn^ → Cn (λ, x) 7 → λx.

Adi¸c˜ao de pontos. Dados dois pontos x, y ∈ Cn, para cada i ∈ In temos

(x + y)i = xi + yi. (1.26)

Multiplica¸c˜ao de um n´umero por um ponto. Dados um ponto x ∈ Cn^ e um ´numero com- plexo λ ∈ C, para cada i ∈ In temos

(λx)i = λxi. (1.27)

Completada a descri¸c˜ao das opera¸c˜oes em Cn, podemos agora deduzir algumas propriedades elementares deste espa¸co. Neste ponto n˜ao deve ser mais surpresa que estas propriedades e suas provas sejam formalmente idˆenticas `as correspondentes de Rn. Temos de fato o seguinte teorema.

Teorema 1.8 O espa¸co Cn^ com as opera¸c˜oes de adi¸c˜ao de pontos e multiplica¸c˜ao por um n´umero dadas por (1.26) e (1.27) tem as seguintes propriedades.

A1. Para quaisquer x, y ∈ Cn^ vale x + y = y + x.

A2. Para quaisquer x, y, z ∈ Cn^ vale x + (y + z) = (x + y) + z.

A3. Se (^0) i = 0, com i ∈ In, ent˜ao para todo x ∈ Cn^ vale x + 0 = x.

A4. Dado x ∈ Cn, se (−x)i = −xi para todo i ∈ In, ent˜ao x + (−x) = 0.

M1. Para quaisquer α, β ∈ C e x ∈ Cn^ vale α(βx) = (αβ)x.

M2. Para todo x ∈ Cn^ vale 1 x = x.

D1. Para quaisquer α, β ∈ C e x ∈ Cn^ vale (α + β)x = αx + βx.

D2. Para todo α ∈ C e x, y ∈ Cn^ vale α(x + y) = αx + αy.

1.1.4 O espa¸co Kn

J´a vimos at´e o momento exemplos de espa¸cos vetoriais sobre o corpo dos n´umeros reais e sobre o corpo dos n´umeros complexos. Surge uma pergunta natural, existem espa¸cos vetoriais sobre outros corpos? Uma inspe¸c˜ao detalhada das provas das propriedades de Rn^ e Cn^ nos mostra que sim. De fato, em momento algum nestas provas foi utilizado o fato das componentes das n– uplas serem especificamente n´umeros reais ou complexos. Utilizamos apenas propriedades dos n´umeros (reais ou complexos) resumidas no fato deles formarem corpos. Veja por exemplo que para mostrar a comutatividade da adi¸c˜ao de duas n–uplas, n˜ao ´e importante se as n–uplas s˜ao formadas por n´umeros reais ou complexos. O que realmente importa ´e que a soma entre os elementos que formam estas n–uplas ´e comutativa. Observando que os n´umeros racionais formam tamb´em um corpo, a mesma constru¸c˜ao feita para Rn^ nos permite construir espa¸cos vetoriais similares sobre os n´umeros racionais, temos assim os espa¸cos Qn. Por exemplo, Q^3 ´e o espa¸co das ternas ordenadas de n´umeros racionais.