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Apostila de FVC do prof. Sérgio Zani
Tipologia: Notas de estudo
1 / 145
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Por que precisamos dos n´umeros complexos?
Antes de responder a esta quest˜ao vamos dar uma olhada porque j´a precisamos estender o
conceito de n´umeros para podermos resolver algumas equa¸c˜oes alg´ebricas simples. Primeira-
mente, assumiremos os naturais, N = { 1 , 2 ,... }, como o conceito primordial de n´umero. Nos
n´umeros naturais est˜ao definidas duas opera¸c˜oes: a adi¸c˜ao (+) e a multiplica¸c˜ao (· ou ×).
Tamb´em existe uma ordem natural nestes n´umeros (<). Considere o seguinte
Problema 1 Encontre um n´umero natural que somado a 2 resulta em 1.
Se n for este tal n´umero natural, dever´a satisfazer
n + 2 = 1. (1.1)
Como o lado esquerdo da equa¸c˜ao 1.1 ´e sempre maior do que 2 1 < 2 vemos que n˜ao existe
solu¸c˜ao para este problema dentro dos n´umeros naturais. Assim, primeira extens˜ao do conceito
de n´umero se faz necess´aria. Da´ı surgem os n´umeros inteiros
que ampliam o conceito dos n´umeros naturais e preservam as opera¸c˜oes e a ordem que j´a
existiam anteriormente. O elemento 0 ´e tal que 0 + m = m para todo M ∈ N e, dado n ∈ N,
−n denota o inteiro que satisfaz (−n) + n = 0. Note que problema 1 tem solu¸c˜ao em Z.
Vejamos o seguinte
Problema 2 Encontre um n´umero inteiro cujo dobro seja a unidade.
Se n fosse um inteiro que solucionasse este problema dever´ıamos ter
2 n = 1. (1.2)
Por´em, o lado esquerdo de 1.2 ´e par, enquanto que o n´umero um ´e ´ımpar. Ou seja, n˜ao existe
solu¸c˜ao para o problema 2 dentro dos n´umeros inteiros. A solu¸c˜ao ´e ampliar mais uma vez
o conceito de n´umeros estendendo-o para o conjunto dos n´umeros racionais. Aqui a extens˜ao
possui supremo, isto ´e, existe um n´umero real c tal que x ≤ c para todo x ∈ X e se d ∈ R
satisfizer esta mesma propriedade ent˜ao c ≤ d. Note que o conjunto X = {x ∈ R; x > 0 , x
2
´e n˜ao vazio, pois 1 ∈ X, e ´e limitado superiormente por 2, por exemplo. Desta maneira, X possui
supremo em R. Pode-se provar que o supremo de X, digamos c, satisfaz c
2
= 2, resolvendo-se,
assim, o problema 3 em R.
Considere o
Problema 4 Encontre um n´umero cujo quadrado seja igual a − 1.
Se x ∈ R ´e solu¸c˜ao deste problema ent˜ao ter´ıamos x
2
= − 1. Isto ´e imposs´ıvel, visto que como
x 6 = 0 ent˜ao ter´ıamos x > 0 ou −x > 0 e assim,
x
2
= x · x = (−x) · (−x) > 0 ,
uma contradi¸c˜ao.
Antes de continuarmos, talvez seja natural tentar explicar porque se deveria resolver um
problema como 4. Uma motiva¸c˜ao para isto pode ser dada pela equa¸c˜ao diferencial que descreve
o movimento do pˆendulo:
y
′′
Note que as fun¸c˜oes e
x
e e
−x
, x ∈ R satisfazem y
′′
− y = 0 e, portanto, ´e natural procuramos
solu¸c˜ao de 1.5 da forma y(x) = e
λx
. Somos levados a
(λ
2
λx
= 0, x ∈ R,
ou seja, o quadrado de λ deve ser igual a − 1.
(x 1
, y 1
) · (x 2
, y 2
) = (x 1
x 2
− y 1
y 2
, x 1
y 2
y 1
Por outro lado,
(x
2
, y
2
) · (x
1
, y
1
) = (x
2
x
1
− y
2
y
1
, x
2
y
1
1
y
2
Comparando as express˜oes acima obtemos o que quer´ıamos mostrar.
(1, 0) · (x, y) = (1x − 0 y, 1 y + 0x) = (x, y).
(u, v) =
x
x
2
2
y
x
2
2
e obtemos
(x, y) · (u, v) = (x, y) ·
x
x
2
2
y
x
2
2
x
2
x
2
2
−y
2
x
2
2
−xy
x
2
2
xy
x
2
2
Exerc´ıcio 1 Mostre que se (x, y) 6 = (0, 0) ent˜ao o inverso multiplicativo de (x, y) ´e ´unico.
Se n ∈ N e z ∈ C definimos z
n
= z
n− 1
· z, n ≥ 2 , z
1
= z. O inverso multiplicativo de um
n´umero complexo z n˜ao nulo ser´a denotado por z
− 1
e se m ´e um inteiro negativo, definimos
z
m
= (z
− 1
−m
. Se z
1
, z
2
∈ C, e z
2
= 0, definimos
z
1
z
2
= z
1
z
− 1
2
As opera¸c˜oes de multiplica¸c˜ao e adi¸c˜ao se relacionam atrav´es da distributividade como pode
ser visto na seguinte
Proposi¸c˜ao 2 Para quaisquer pares (x 1
, y
1
), (x
2
, y
2
), (x
3
, y
3
) ∈ C tem-se
((x
1
, y
1
) + (x
2
, y
2
)) · (x
3
, y
3
) = (x
1
, y
1
) · (x
3
, y
3
) + (x
2
, y
2
) · (x
3
, y
3
Prova: Por um lado, temos
((x
1
, y
1
) + (x
2
, y
2
)) · (x
3
, y
3
) = (x
1
2
, y
1
2
) · (x
3
, y
3
= (x
1
x
3
2
x
3
− y
1
y
3
− y
2
y
3
, x
1
y
3
2
y
3
3
y
1
3
y
2
Por outro,
(x
1
, y
1
) · (x
3
, y
3
) + (x
2
, y
2
) · (x
3
, y
3
= (x
1
x
3
− y
1
y
3
, x
1
y
3
3
y
1
) + (x
2
x
3
− y
2
y
3
, x
2
y
3
3
y
2
= (x
1
x
3
2
x
3
− y
1
y
3
− y
2
y
3
, x
1
y
3
2
y
3
3
y
1
3
y
2
Comparando as express˜oes acima obtemos o que quer´ıamos mostrar.
Defini¸c˜ao 1 O conjunto C munido das opera¸c˜oes de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao definidas acima ´e
chamado de corpo dos n´umeros complexos.
Vale a pena observar que as seguintes propriedades
dizem que o subconjunto dos n´umeros complexos dado por R = {(x, 0); x ∈ R} ´e preservado
pela adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao. Desta forma, ´e natural identificarmos R com o conjunto dos
n´umeros reais. Em outras palavras: podemos assumir que o conjunto dos n´umeros reais ´e um
subconjunto dos n´umeros complexos.
Como j´a observamos, C ´e um espa¸co vetorial sobre R com respeito `a adi¸c˜ao e a multiplica¸c˜ao
por escalares reais. Al´em do mais, por seus elementos serem pares ordenados, C ´e um espa¸co
vetorial bidimensional sobre R. Desta forma, como (1, 0) e (0, 1) formam uma base, todo par
z = (x, y) ∈ C se escreve de maneira ´unica como
z = x(1, 0) + y(0, 1).
J´a vimos que (1, 0) ´e o elemento neutro da multiplica¸c˜ao e como (1, 0) ∈ R, vamos denot´a-lo
tamb´em por 1.
Vejamos o comportamento de (0, 1). Temos
ou seja,
2
Assim, o n´umero complexo (0, 1) possui quadrado rec´ıproco aditivo do elemento neutro da
adi¸c˜ao. Usaremos a nota¸c˜ao i = (0, 1), obtendo
i
2
Com isto, todo elemento z = (x, y) ∈ C pode ser escrito de modo ´unico como z = x1 + yi, ou
ainda z = x + yi. Tamb´em escreveremos z = x + iy.
Dado z = x + iy, x, y ∈ R, o n´umero x ´e chamado de parte real do n´umero complexo z
e ´e denotado por <z. O n´umero y ´e chamado de parte imagin´aria do n´umero complexo z e ´e
denotado por =z. Temos z = 0 se e somente se <z = =z = 0.
Com esta nova nota¸c˜ao, as opera¸c˜oes em C podem ser escritas da seguinte forma
J´a vimos que um n´umero complexo z = x+iy, x, y ∈ R ´e uma representa¸c˜ao de um par ordenado
(x, y). Assim, podemos represent´a-lo num plano cartesiano xOy, identificando o eixo x com os
n´umeros reais (os m´ultiplos de 1 = (1, 0)). O eixo y representa os m´ultiplos de i = (0, 1) e ser´a
denominado de eixo imagin´ario.
6
3
y
x
i
Com esta vis˜ao geom´etrica dos n´umeros complexos, definimos o m´odulo de z = x+iy, x, y ∈
R, como |z| =
x
2
2
. A partir da´ı, definimos a distˆancia entre dois n´umeros complexos z
1
e z 2
como |z
1
− z
2
E imediato que valem as desigualdades <z ≤ |<z| ≤ |z| e =z ≤ |=z| ≤ |z|.
O conjugado de z = x + iy, x, y ∈ R, ´e definido como z = x − iy. Geometricamente, z ´e a
reflex˜ao do vetor que representa z com rela¸c˜ao ao eixo real.
Note que valem as seguintes propriedades elementares
Proposi¸c˜ao 3 Para todo z, z 1
, z
2
∈ C temos
= z 1
Exerc´ıcio 2 Prove as propriedades acima.
6
3
y
x
i
z
s
z¯
Tamb´em temos
Proposi¸c˜ao 4 Para todo z, z 1
, z
2
∈ C temos
2
= zz
1
z
2
= z
1
z
2
1
z
2
| = |z
1
||z
2
Exemplo 3 Determine todos os valores a ∈ R para que
a + i
1 + ai
seja real.
Temos
a + i
1 + ai
a + i
1 + ai
1 − ai
1 − ai
a − a
2
i + i + a
1 + a
2
2 a
1 + a
2
1 − a
2
1 + a
2
Assim,
a + i
1 + ai
= 0 ⇐⇒ a
2
= 1 ⇐⇒ a = 1 ou a = − 1.
Exemplo 4 Dados θ ∈ R e z = cos θ + i sen θ, encontre |z|.
Temos
|z|
2
= zz = (cos θ + i sen θ)(cos θ − i sen θ) = cos
2
θ + sen
2
θ = 1.
Logo, | cos θ + i sen θ| = 1. §
Exemplo 5 Resolva a equa¸c˜ao iz + 2z + 1 − i = 0.
Colocando x = <z e y = =z, vemos que z satisfaz a equa¸c˜ao acima se e somente se
i(x + iy) + 2(x − iy) = −1 + i ⇐⇒ 2 x − y + i(x − 2 y) = −1 + i
2 x − y = − 1
x − 2 y = 1
⇐⇒ x = y = − 1.
Exemplo 6 Determine todos os n´umeros complexos cujo quadrado seja igual ao conjugado.
Um n´umero complexo z = x + iy, x, y ∈ R ´e solu¸c˜ao deste problema se e somente se
z
2
= z ⇐⇒ (x + iy)
2
= x − iy ⇐⇒ x
2
− y
2
x
2
− y
2
= x
2 xy = −y ⇔ y = 0 ou x = − 1 / 2
Se y = 0 a primeira equa¸c˜ao acima ´e equivalente a x
2
= x cujas solu¸c˜oes s˜ao x = 0 ou x = 1.
Se x = − 1 /2 a primeira equa¸c˜ao acima ´e equivalente a y
2
= 3/4 cujas solu¸c˜oes s˜ao y =
3 /2 ou y =
Assim, o conjunto das solu¸c˜oes do problema ´e dado por
1 + i
1 − i
Dado um n´umero complexo z 6 = 0, podemos represent´a-lo em coordenadas polares como
z = r cos θ + ir sen θ = r(cos θ + i sen θ), (4.1)
onde r = |z| e θ ´e o ˆangulo que o vetor representado por z faz com o eixo real medido no sentido
anti-hor´ario em radianos. Devido `a periodicidade das fun¸c˜oes seno e cosseno, ´e evidente que a
equa¸c˜ao 4.1 continua v´alida se substituirmos θ por θ + 2kπ, k ∈ Z. Um ˆangulo θ que satisfaz
4.1 ´e chamado de argumento do n´umero complexo z e ´e denotado por arg z. Enfatizamos que
existem infinitos argumentos para um mesmo n´umero complexo. Por´em, dado um intervalo de
n´umeros reais da forma I = [θ 0
, θ
o
6
θ
z
r
i
x
y
Colocando z = x + iy 6 = 0, x, y ∈ R, vemos que r =
x
2
2
. Vejamos como se comporta
o arg z ∈ [0, 2 π). Se z for um n´umero real ent˜ao arg z = 0 se
z ´e um n´umero imagin´ario puro ent˜ao arg z =
π
2
se =z > 0 e arg z =
3 π
2
se =z < 0. Finalmente,
se <z 6 = 0 e =z 6 = 0 ent˜ao θ = arg z fica determinado pela equa¸c˜ao
tan θ =
=z
<z
e pelo quadrante onde se encontra o vetor que representa z.
Observa¸c˜ao 1 Dois n´umeros complexos coincidem se e somente se tˆem o mesmo m´odulo e
seus argumentos diferem por um m´ultiplo inteiro de 2 π.
A representa¸c˜ao 4.1 continua v´alida quando z = 0, tomando r = 0 e θ ∈ R arbitr´ario.
Prova: Basta notar que
z 1
z 2
= [r 1
(cos θ 1
)][r 2
(cos θ 2
= r
1
r
2
(cos θ
1
cos θ
2
− sen θ
1
sen θ
2
1
sen θ
2
2
sen θ
1
= r 1
r 2
(cos(θ 1
) + i sen(θ 1
Corol´ario 1 Se r j
e θ
j
representam o m´odulo e um argumento, respectivamente, de z
j
para j = 1, 2 , z 2
= 0, ent˜ao r
1
/r
2
e θ
1
− θ
2
representam o m´odulo e um argumento de z
1
/z
2
Prova: Temos
z
1
z
2
z
1
z
2
|z
2
2
r
2
2
r 1
r 2
(cos(θ 1
− θ 2
) + i sen(θ 1
− θ 2
r
1
r 2
(cos(θ
1
− θ
2
) + i sen(θ
1
− θ
2
Observa¸c˜ao 2 Seja z o
= cos θ
o
o
, θ
o
- Dado z ∈ C, temos que z
o
z ´e a rota¸c˜ao do
vetor que representa z pelo ˆangulo θ o
no sentido anti-hor´ario. Se θ
o
< 0 a rota¸c˜ao ´e no sentido
oposto.
A observa¸c˜ao acima segue imediatamente da proposi¸c˜ao 6 e do corol´ario 1 notando-se que
|z o
A proposi¸c˜ao 6 se estende, por indu¸c˜ao finita, da seguinte maneira:
Proposi¸c˜ao 7 Se r j
e θ
j
representam o m´odulo e um argumento, respectivamente, de z
j
para j = 1,... , n ent˜ao r 1
· · · r
n
e θ
1
n
representam o m´odulo e um argumento de
z 1
· · · z
n
Tomando z = z
1
= · · · = z
n
obtemos o seguinte
Corol´ario 2 Se r e θ representam o m´odulo e um argumento, respectivamente, de z ∈ C, ent˜ao
para todo n ∈ N temos
z
n
= r
n
(cos(nθ) + i sen(nθ)).
Al´em do mais, se z 6 = 0, a f´ormula acima ´e valida para todo n ∈ Z.
Corol´ario 3 (De Moivre) Para todo θ ∈ R e todo n ∈ Z temos
(cos θ + i sen θ)
n
= cos(nθ) + i sen(nθ).
Prova: Basta notar que | cos θ + i sen θ| = 1.
Exemplo 9 Mostre que
{i
n
; n ∈ Z} = {− 1 , 1 , −i, i}.
Como i = cos
π
2
π
2
, obtemos i
n
= cos
nπ
2
nπ
2
. Agora, se n ∈ Z, podemos escrever
n = 4k + r onde r ∈ { 0 , 1 , 2 , 3 } e ent˜ao
i
n
= cos
(4k + r)π
(4k + r)π
= cos
rπ
rπ
1 , se r = 0
i, se r = 1
− 1 , se r = 2
−i, se r = 3.