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Apostila para Sociologia Comte e Durkheim
Tipologia: Notas de estudo
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O presente artigo apresenta alguns dos elementos da teoria política de Augusto Comte, dentro da sua Sociologia Estática, como componentes do que se poderia denominar sua teoria do Estado. Assim, após apresentar alguns dos pressupostos teóricos e metodológicos do fundador do Positivismo, o artigo concentrase na exposi ção de suas teorias das pátrias e do Poder Temporal. Enquanto as pátrias constituem a base física da organização política, como resultante da união das famílias, nelas dandose as rela ções de classe, o Poder Temporal é a própria função governativa, cujo âmbito de atuação é a ordem material da sociedade. Complementarmente ao Poder Temporal há o Poder Espiritual, responsável pela ordem intelectual e moral da sociedade, o que inclui a fiscalização e a legitimação do outro poder. Palavraschave: Augusto Comte; Positivismo; teoria pol ítica; pátrias; Poder Temporal; Poder Espiritual. I. INTRODUÇÃO^1 Autor mais conhecido por suas elaborações filosóficas na área da ciência, Augusto Comte – nascido Isidoro Augusto Maria Francisco Xavier Comte, em 1798 – pesquisou extensamente em Sociologia, inclusive no que atualmente denominamos Ciência Política. De modo mais específico, se considerarmos que "teoria do Estado" significa uma elaboração intelectual definindo os principais atributos do poder político em uma sociedade, estabelecendo suas relações com os diversos grupos sociais, suas funções e formas de atuação e de legitimação, além de sua de sua evolução ao longo do tempo – então, sem dúvida, Augusto Comte possui uma "teoria do Estado". Como outros autores clássicos da Ciência Polí tica ou da Sociologia, desde sempre Augusto Comte preocupouse com a aplica ção prática de suas elaborações, como recentemente lembrou Angèle Kremer Marietti (2003). Ocorre que, filósofo das ciências, tinha como preocupação também constituir a nascente Sociologia do mesmo estatuto epistemológico e "científico" que as demais ciências previamente constituídas, isto é, conjunto de
e Política por seus comentários e sugestões, assim como ao amigo Ângelo Torres, pelos extensos comentários que fez sobre este texto. Como de praxe, os eventuais problemas do artigo são de responsabilidade do autor. proposições abstratas baseadas na observação de um tipo de fenômeno; além disso, exigia que fosse uma ciência geral da sociedade, isto é, aplicável a todas as sociedades, independentemente de local ou época
foram traduzidas livremente pelo autor.
não é de fácil compreensão, pois mantinha seus escritos necessariamente abstratos, com uma linguagem característica e, preocupado com as aplicações práticas, a todo instante avaliava instituições, soluções propostas ao longo da história e alternativas^3. A perspectiva que adotamos aqui referese ao conjunto da obra de Augusto Comte, especialmente sobre as chamadas "obras de maturidade"^4 , na etapa final da vida do pensador, considerandoas integrantes de um sistema intelectual. Esses livros – justamente os menos conhecidos do público universitário e os mais importantes no conjunto da obra do autor – são os que reúnem o grosso de suas elaborações políticas, uma série dos quais não por acaso chamase Sistema de pol ítica positiva, publicados entre 1851 e 1854. Não nos interessa, portanto, realizar uma investigação sobre a evolução do pensamento do autor ao longo do tempo, isto é, uma pesquisa arqueológica. II. PRELIMINARES TEÓRICO METODOLÓGICAS II.1. A lei dos três estados e a classificação das ciências
aqui apenas as elaborações teóricas (isto é, abstratas) de Comte mais diretamente relacionadas ao que hoje chamaríamos de Estado; não pretendemos, portanto, sugerir uma "Ciência Política" a extrairse de uma especializa ção do pensamento comteano. Da mesma forma, não pretendemos realizar uma comparação mais ou menos sistemática dessa obra com as elaborações mais recentes em Sociologia ou na Ciência Política: não por descurar desse tipo de investigação, mas porque não seriam cabíveis nos limites deste texto. A esse respeito, em todo caso, podese consultar com grande proveito Lopes (1946), Fletcher (1981), Torres (1997), Destefanis (2003), Lacerda Neto (2003) e Lacroix (2003).
escritos, além de vários opúsculos e o conjunto de sua correspondência e os chamados Opúsculos de filosofia social, de sua juventude. As séries de escritos são: Sistema de filosofia positiva, publicado entre 1830 e 1842, em seis volumes, avaliando filosoficamente o conjunto das ciências como constituíramse at é então, com vistas à fundação de uma nova, a Sociologia; Sistema de política positiva, publicado entre 1851 e 1854, em quatro volumes, em que, fundada a Sociologia, procura aplicar os princípios anteriormente descobertos para a solução dos problemas sociais; Síntese subjetiva, que, prevista para ser em quatro volumes, acabou tendo apenas um, de 1856, em virtude do falecimento do autor; a meta da Síntese seria aplicar a algumas questões específicas, mas de altíssima importância (educação, organização econômica da sociedade), os princípios sociológicos. A "lei dos três estados" é a base de todo o sistema, pedra angular sem a qual não é possível compreender nem sua lógica nem seus objetivos. Seu enunciado final é o seguinte: "Cada entendimento oferece a sucessão dos três estados, fictício, abstrato e positivo, em relação às nossas concepções quaisquer, mas com uma velocidade proporcional à generalidade dos fenômenos correspondentes" (COMTE, 1934, p. 479). Em outras palavras, o ser humano pensa cada concepção e cada fenômeno de três formas sucessivas: primeiramente, fazendo referência a vontades exteriores ao fenômeno em questão. Essas vontades têm sedes muito claras, muito determinadas: em um processo de antropomorfização da realidade, o ser humano considera que seres dotados de sentimentos, pensamentos e atos semelhantes aos seus próprios atuam na realidade, provocando os fenômenos: são os deuses, e o modo de pensar é o teológico^5. No enunciado acima, seria o modo fictício de pensar, por motivos evidentes. Em seguida, o ser humano apela a abstrações, que, consideradas conscientemente como abstrações, são dotadas ainda de vontade: é a metafísica. Um autor que, sem se filiar ao Positivismo, percebeu com clareza o caráter da metafísica foi o historiador das relações internacionais JeanBaptiste Duroselle, como se percebe na citação abaixo: "Em nenhum campo, a reificação dos conceitos se passa tão facilmente quanto no domínio das forças, precisamente porque estas são visíveis apenas em seus efeitos. São designadas então por um nome anteriormente personalizado (Zeus para explicar o raio, Posídon para as ondas, Éolo para os ventos). Esse nome, em períodos mais recentes, deixa de ser de uma pessoa mítica e tornase abstrato. Por ém, antes que se encontre a explicação científica, o nome abstrato não é mais real que os deuses do Parnaso. E, portanto, dáse a ele uma esp écie de vida". E mais adiante: "E os que me dirão: realmente, o 'grande capital' não existe concretamente, porém 'tudo se passa como se' ele existisse, eu responderia que 'tudo se passa como se' é a própria fórmula pela qual se reificam os conceitos" (DUROSELLE, 2000, p. 3435; grifos no original). A citação acima indica com clareza como a
variando em função da quantidade e da generalidade das vontades na natureza, bem como da abstração dos raciocínios: o fetichismo, a astrolatria, o politeísmo e o monoteísmo.
II.2. Outros elementos teóricometodol ógicos Vistas as duas formulações fundamentais de toda a obra comteana, podemos passar a algumas outras considerações preliminares, que aliás indicam o caráter de suas elaborações e sugerem algumas perspectivas que adiante apresentaremos. A teoria sociológica comteana, ainda que formando um sistema coerente, do ponto de vista lógico dividese em duas partes: a Sociologia Estática e a Sociologia Dinâmica. A primeira analisa os elementos permanentes da sociedade, aquelas instituições e aqueles fatos que em todas as sociedades existem, por mais variados que sejam ou pareçam. Os elementos da "ordem" são em número de cinco: a religião, o governo, a linguagem, a família e a propriedade. Por outro lado, a Sociologia Dinâmica concentrase nas formas como as sociedades evoluem ao longo do tempo, ou seja, como os cinco elementos da Sociologia Estática desenvolvemse. Ali ás, a lei dos três estados, nesse sentido, é claramente uma lei da Sociologia Dinâmica, sua fundadora e seu primeiro resultado sistemático. Para nossos propósitos apenas a Sociologia Estática será considerada: a evolução do "governo" com o passar do tempo não terá nossa atenção aqui. Por outro lado, a metodologia de Augusto Comte, como indicado acima, seria hoje denominada de "holística", por tomar o conjunto da sociedade como unidade analítica. Para ele, o indivíduo como unidade social é uma abstração sofística, "tão irracional quanto imoral", surgida com a desagregação do sistema social católicofeudal e at é o momento em que escrevia – talvez até ainda hoje – sem ser substituída por outro sistema social; na verdade, a unidade fundamental de análise em Sociologia deve ser a família. Além de indicar a anarquia mental, a ascensão do individualismo como suposta origem da sociedade – por exemplo, nas diversas obras contratualistas (Hobbes, Locke, Rousseau) – revela um desenvolvimento sistemático do egoísmo, erigido em padrão moral e intelectual, a despeito de preocupações com a sociedade como um todo. "Pegando o contrapé da ideologia metafísica própria aos philosophes das Luzes e inspirador das tempo, atrasados e perturbadores'. Tal foi a declaração decisiva com que terminei, no Palais Cardinal, no domingo 19 de outubro de 1851, meu terceiro Curso filosófico sobre a história geral da Humanidade" (COMTE, 1934, p. 1). negações revolucionárias, Augusto Comte recusase a considerar o indivíduo como a unidade humana de base. Esse princípio egoísta parecelhe igualmente errôneo em Biologia, em que o indivíduo não existe senão por e para a espécie, e em Sociologia, em que a célula fundamental é a família" (ARNAUD, 1965, p. 125). Para nós o fato de Comte perceber a família como a verdadeira "célula social" é secundário; importa mais notar a negação do indivíduo como base lógica e real da sociedade, ao mesmo tempo em que a própria sociedade como um todo, em seus diversos níveis (família, pátria, Humanidade) ou não, é estudada. Na verdade, essa consideração pode ser generalizada como sendo, sempre, a primazia do espírito de conjunto sobre o de partes; no caso da sociologia, o espírito de conjunto não se refere apenas à percepção sincrônica, estática da sociedade: não importa somente perceber a sociedade como perfazendo um todo em um instante dado qualquer. Muito mais importante, porque definidor da própria sociedade humana – por ser sua característica específica –, é a consideração da historicidade humana: o que nos faz humanos é a possibilidade de uma geração somarse a outra, desenvolvendo continuamente suas características. Assim, portanto, "[...] na pesquisa das leis sociais, o espírito deve indispensavelmente proceder do geral para o particular, isto é, começar por conceber, em seu conjunto, o desenvolvimento total da espécie humana, não distinguindo nele, a princípio, mais do que um número muito pequeno de estados sucessivos" (COMTE, 1972, p. 153). É em virtude de sua historicidade que o ser humano pode, ao longo de sua evolução, desenvolverse; é por esse motivo que a Sociologia Dinâmica não pesquisa apenas as condições do movimento e o próprio movimento das sociedades, como também, e talvez principalmente, a direção que a sociedade toma em seu desenvolvimento. Aliás, Comte seguia o passo de outros filósofos, pois, como: "Pascal e Fontenelle, como Comênio e Leibniz, insistiram sobre um tema de importância central: o sujeito cognoscitivo não é o indivíduo isolado, mas a humanidade inteira que progride no tempo. A humanidade, não esse ou aquele homem, tornouse o protagonista efetivo do processo da história" (ROSSI, 1996, p. 74). Outro elemento que cumpre uma função
importante nas obras de Augusto Comte é sua concepção de natureza humana. Sendo a Humanidade um todo, tem ela, todavia, órgãos individuais, cuja base física tem uma tríplice característica, de sentimentos, de pensamentos e de atitudes práticas. Todas as instituições humanas visam a satisfazer, de alguma forma, essas características, mais ou menos isoladas umas das outras ou combinadas entre si. Além disso, por meio de uma refinada análise fisiológica, ele chegou à conclusão de que os sentimentos têm a primazia nas ações humanas, ou seja, os homens agem movidos por seus instintos afetivos; para tanto, a inteligência despertase, a fim de determinar os meios mais adequados para realizar os desideratos; com isso, evidentemente, o ser humano põese em a ção, seja para investigar, seja para direta e propriamente agir: esse mecanismo foi sintetizado na frase: "Agir por afeição e pensar para agir", em que a "afeição" representa todos os sentimentos, altruístas e egoístas. Para Augusto Comte, o ser humano possui dez instintos afetivos, sete egoístas e três altruístas, isto é, uns voltados para a conservação direta do próprio indivíduo e outros relativos ao relacionamento com outros: instintos nutritivo, sexual, materno, destruidor, construtivo, orgulho e vaidade, por um lado, e apego, veneração e bondade, por outro. Do primeiro para o último, a intensidade diminui, o que equivale a dizer que o ser humano é tanto "bom" quanto "mal", mas, principalmente, que o egoísmo é naturalmente mais forte, é naturalmente preponderante no ser humano. Em outras palavras: ainda que a humanidade seja principalmente a obra sucessiva das diversas gerações umas após as outras, os indivíduos entregues a si mesmos tendem (frise se: tendem) a ser egoístas, isto é, a desconsiderar os demais. As instituições sociais, nesse sentido, existem, por um lado, para satisfazer as necessidades humanas e, por outro, para regular o egoísmo dos indivíduos. (Aliás: esse é, precisamente, o papel do governo nas sociedades.) Gustavo Biscaia de Lacerda ([email protected]) é Mestre em Sociologia Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e sociólogo da mesma instituição. LACERDA, Gustavo Biscaia. Elementos Estáticos da teoria política de Augusto Comte: as pátrias e o Poder Temporal. Revista de Sociologia e Política, Curitiba, n. 23, nov. 2004.
Disponível em: Referência completa para o livro: DURKHEIM, Emile. As Regras do Método Sociológico. 9. ed. São Paulo: Ed. Nacional, 1978.