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Comunicação e expressão - Livro 03
Tipologia: Resumos
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Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar os sujeitos sócio-históricos envolvidos em uma produção textual. Explorar dados implícitos e explícitos de um texto, no intuito de realizar leituras mais profundas. Selecionar elementos com maior precisão e adequação, em virtude dos objetivos propostos em uma produção textual.
Para aperfeiçoar a sua habilidade na leitura e na produção de textos, aqui você irá analisar o texto como uma atividade. Assim, identificará os aspectos sociointeracionistas que o constituem, implícita ou explicita- mente. O exercício se fundamenta na busca de respostas para perguntas simples, tais como: quem fala no texto? Para quem fala? O que fala? Como fala? Por que fala? Na medida em que você encontrar as respostas, irá se aprofundar na leitura, construindo sentidos mais originais, bem como aperfeiçoando a sua técnica de produção textual.
A linguagem, compreendida como um lugar de interação humana, possui caráter interlocutivo e é construída socialmente. Nesse sentido, ela é um instrumento de comunicação e também uma forma de expressar pensamen- tos. Assim, você não deve conceber a linguagem apenas como um código que transmite informações. Precisa compreendê-la como modo de interagir:
ideia se acentua “[...] com a introdução de uma concepção histórico-discursiva de sujeito e da afirmação de uma ordem social na qual se inscreve a linguagem, vista a partir de uma perspectiva dialógica.” (MORATO, 2004, p. 330). Em seu livro Desvendando os segredos do texto , Koch (2002) aborda questões relativas às concepções de língua, sujeito, texto, sentido, contexto e gêneros discursivos. Essas questões, para a autora, estão entrelaçadas. Por isso, é complicado isolá-las para definir conceitos. Para a teórica, na concepção sociointeracional da linguagem, há a interação dos sujeitos ativos com as ações linguísticas, cognitivas e sociais. Isso ocorre de modo dialógico, com o texto, o contexto e a língua. Nessa perspectiva lin- guística, os textos permitem a organização do mundo, bem como a produção, a preservação e a transmissão de saber pelo homem. Nessa ideia, Koch explica que a concepção de sujeito de linguagem vai variar conforme a concepção adotada de língua. Quer dizer, língua e sujeito são indissociáveis, é impossível não pensar em ambos. Dessa forma, a teórica propõe três posições clássicas acerca de língua, texto e sentido. São elas (KOCH, 2002):
1. Predomínio, ou exclusividade, da consciência individual no uso da linguagem; 2. Assujeitamento; 3. Lugar de interação. A primeira traz a ideia de que o responsável pelo sentido é o sujeito da ação. Além disso, compreende a língua como uma representação de pensamento. Assim, o texto, que seria um produto do pensamento, é entendido como uma representação mental do autor. Quem deve captar a mensagem, portanto, é o leitor/ouvinte. Aqui há um sujeito ativo, consciente, que constrói a sua história; ele é ativo e responsável pelo sentido. Há, assim, o predomínio da consciência individual no uso da linguagem. John Locke (1689) é um dos estudiosos da perspectiva do predomínio da consciência individual no uso da linguagem. De acordo com Koch (2002), ele dizia que a comunica- ção verbal é uma forma de telementation, ou seja, a transmissão exata de pensamentos da mente do falante para a do ouvinte.
No caso do assujeitamento, perspectiva ligada à análise do discurso, entra em jogo a desconstrução do sujeito. É como se ele não fosse mais dono do seu próprio discurso, mas apenas resultado do seu inconsciente e de uma ideologia, sendo determinado pelo sistema. Um dos teóricos que trabalha essa concepção é Possenti (apud KOCH, 2002), que diz que o indivíduo não é dono de seu discurso e de sua vontade. Na verdade, sua consciência, quando existe, é produzida de fora, e ele pode não saber o que faz e o que diz. O teórico afirma que, para a compreensão de textos, é necessário ter conhecimento linguístico, além de outros conhecimentos e experiências: “Penso que a A. D. ganharia se propusesse uma teoria psicológica, na qual o sujeito fosse ‘clivado pelo inconsciente’, mas não fosse reduzido a uma peça que apenas sofre efeitos. Certamente, há domínios em que os sujeitos só sofrem efeitos, mas há outros em que sua atuação é demandada e verificável.” (POSSENTI apud KOCH, 2002). A terceira proposta, o lugar de interação, possui sujeitos como atores/ construtores, e o texto é o lugar de interação. Nesse caso, uma decodificação de mensagem ou uma representação mental não concebe a compreensão e a produção de sentidos. Quer dizer, o sentido do texto se constrói na interação entre texto e sujeitos. Assim, há uma atividade interativa muito complexa de produção de sentidos “[...] que requer um vasto conjunto de saberes (enci- clopédia) e sua reconstrução no interior do evento comunicativo.” (KOCH, 2002, p. 17). Desse modo, a teórica defende a concepção sociointeracional de lingua- gem, para sujeito, língua, texto e sentido, como um local de interação para os sujeitos ativos, comprometidos em uma atividade sociocomunicativa. Esta corresponde, no caso do produtor do texto, a dizer. E, no caso do interpretador, a uma participação ativa na construção de sentido do texto. Vista como forma de interação, essa forma de entender a linguagem está sustentada no objetivo de desenvolver, no aluno, maior proficiência em práticas de oralidade, de leitura e de escrita. A língua, estudada e analisada em situações reais de uso, tende a favorecer a ampliação do domínio linguístico.
Assim, a ação da linguagem nas formações sociais resulta nos textos. Estes são produzidos conforme os objetivos, interesses e questões particulares, que podem determinar qual texto será usado em certa situação. Depois do uso, podem servir como exemplo para produção de outros textos (BRONCKART, 2012). Sobre texto, Marcuschi (1996, p. 61) afirma que [...] não sendo um produto acabado, objetivo, como uma espécie de depósito de informações, mas sendo um processo , o texto se acha em permanente elaboração e reelaboração ao longo de sua história e ao longo das recepções pelos diversos leitores. Em suma, um texto é uma proposta de sentido e ele se acha aberto a várias alternativas de compreensão. Mas todo cuidado é pouco, pois o texto também não é uma caixinha de surpresas ou algum tipo de caixa preta. Se assim fosse, ninguém se entenderia e viveríamos em eterna confusão. Assim, você pode entender a língua como atividade de interação verbal que ocorre entre dois ou mais interlocutores. A materialidade linguística usada para produzir interação é o texto, e a linguagem é a interação, a troca. Quando se percebe o texto como evento de interação, é possível identificar os sujeitos envolvidos no processo de comunicação. A definição por Beaugrande (apud KOCH, 2002) diz que texto é um “[...] evento comunicativo no qual convergem ações linguísticas, cognitivas e sociais.”. A concepção da autora é de um evento dialógico de interação entre os sujeitos sociais_._ Para Koch, nesse processo de interação há um jogo de linguagem. Primeiro, o produtor/planejador recorre a uma série de estratégias de organização textual, viabiliza seu projeto, que é “o dizer”. Posteriormente, se organiza estrategica- mente de dada forma. A partir das escolhas feitas, estabelece limites quanto às leituras, viabiliza o texto. Então, finalmente, o leitor/ouvinte lhe oferece a interpretação, procedendo a construção dos sentidos, a partir do modo como o texto se encontra. Nessa perspectiva interacionista, há uma concepção funcional e contex- tualizada para fundamentar um ensino de língua individual e socialmente produtivo e relevante. A língua só se atualiza a serviço da comunicação inter- subjetiva, em situações de atuação social e por meio das práticas discursivas, materializadas em textos orais e escritos.
Você pode entender os sujeitos sociodiscursivos do texto ao encontrar respostas para perguntas como: quem fala no texto? Para quem fala? O que fala? Como fala? Por que fala? Em que contextos? Com que outros textos dialoga? Você pode obter essas respostas analisando as intertextualidades do texto, que podem ser implícitas ou explícitas.
A comunicação na perspectiva sociointeracionista permite que você amplie sua visão da interação. Considerando essa concepção, você pode verificar quais são as intertextualidades implícitas ou explícitas do texto, de modo que possa realizar leituras mais aprofundadas. Antes disso, é necessário compreender do que se trata a intertextualidade, termo que ficou conhecido por meio dos estudos da crítica literária Julia Kristeva. De acordo com a teórica, todo texto é um intertexto numa sucessão de textos pré-existentes ou que ainda serão produzidos (KRISTEVA, 1969). Antes de Kristeva, Mikhail Bakhtin alegou, ainda na década de 1920, que cada texto retoma outros que lhe antecedem (BAKHTIN, 2000). Isso faz com que os textos se reafirmem, se neguem ou provoquem a elaboração de novos textos. Bakhtin não aborda o termo “intertextualidade”, mas suas ideias se encontram às de Kristeva no tocante de que ambos compreendem que um texto sempre mantém relação com outros. De acordo com Bakhtin (1997), um texto só existe em diálogo com outros. Afinal, a compreensão e a avaliação se processam a partir da relação dialógica estabelecida. Todo texto se constrói pelo que é dito explicitamente – como o que está em frases, palavras, períodos – e também por aquilo que não é explícito – no caso, os elementos implícitos, mas que têm importância significativa na construção de sentido do texto. Com isso em vista, é importante você compreender que
e recepção dependem do conhecimento de outros textos. Para o autor, as relações de intertextualidade são constituídas entre os textos no processo de construção e avaliação da textualidade. ANDRADE. R. J. Qualidade e equidade na educação básica brasileira: as evidências do SAEB 1995-2003. Tese de doutorado. Belo Horizonte: Faculdade de Educação da UFMG, 2008. BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000. BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. In: BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997. p. 278-326. BRONCKART, J. P. Atividade de linguagem, textos e discurso: por um interacionismo sociodiscursivo. 2.ed. São Paulo: EDUC, 2012. DURAN, G. R. As concepções de leitura e a produção do sentido no texto. Prolíngua, João Pessoa, v. 2, n. 2, jul./dez. 2009. GONÇALVES, A. V. O fazer significar por escrito. Selisigno – IV Seminário de Estudos sobre Linguagem e Significação, Londrina, v. único, p. 1-10, 2004. GOULARTE, R. S. Interação, interacionismos: situando o interacionismo sociodiscursivo. Linguagens e Cidadania, Santa Maria, v. 12, p. 1-15, 2010. KOCH, I. G. V. Desvendando os segredos do texto. São Paulo: Cortez, 2002. KRISTEVA, J. Introdução à semanálise. São Paulo: Perspectiva, 1969. MACHADO, T. H. S.; ROSA, C. M.; PRADO, T. B. Abordagem de pressupostos e suben- tendidos em exercícios de leitura e interpretação de texto. Akrópolis, Umuarama, v. 18, n. 2, p. 131-140, abr./jun. 2010. MARCUSCHI, L. A. Exercícios de compreensão ou copiação nos manuais de ensino de língua? Em Aberto, Brasília, ano 16, n. 69, jan./mar. 1996. MORATO, E. M. O interacionismo no campo linguístico. In: MUSSALIM, F.; BENTES, A. C. (Org.). Introdução à linguística: fundamentos epistemológicos. São Paulo: Cortez, 2004. v. 3. PLATÃO, F. S.; FIORIN, J. L. Para entender o texto: leitura e redação. 7. ed. São Paulo: Ática, 2000.
GERALDI, J. W. O texto na sala de aula. Cascavel: Assoeste, 1984.