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ÓTIMA APOSTILA SOBRE DROGAS - 47 PÁGINAS
Tipologia: Notas de estudo
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Conceito
Em todas as sociedades sempre existiram "drogas". Entendem-se assim produtos químicos ("psicotrópicos"ou"psicoativos"), de origem natural ou de laboratório, que produzem efeitos, sentidos como prazeirosos, sobre o sistema nervoso central. Estes efeitos resultam em alterações na mente, no corpo e na conduta. Na verdade, os homens sempre tentaram modificar o humor, as percepções e sensações por meio de susbstâncias psicoativas, com finalidades religiosas ou culturais, curativas, relaxantes ou simplesmente prazeirosas. Estudos têm demonstrado diferentes motivações para o uso de drogas: alívio da dor, busca de prazer e busca da transcedência são razões encontradas nos diversos grupos sociais ao longo da história. Antigamente, tais usos fizeram parte de hábitos sociais e ajudaram a integrar as pessoas na comunidade, através de cerimônias, rituais e festividades. Hoje, tais costumes são esvaziados em conseqüência das grandes mudanças sócio- econômicas. Características da modernidade, como a alta concentração urbana ou o poder dos meios de comunicação, modificaram profundamente as interações sociais. No decorrer desse processo o uso de drogas vem se intensificando. Produtos antigos ou recentes, legais ou ilegais, conheceram novas formas de fabricação e comercialização, indo ao encontro de novas motivações e novas formas de procura. Hoje, diante da diversidade de produtos, é fundamental o conhecimento do padrão de consumo e efeitos das substâncias psicoativas, já que o uso e abuso de drogas representa uma questão social complexa.
Os fatores de risco para uso ou abuso de drogas
Quanto aos fatores de risco relacionados ao abuso de drogas, eles são maiores para certas pessoas, em função das suas condições de vida. Assim, são mais inclinadas ao uso as pessoas:
Dependência
Quando se precisa de tais meios artificiais, significa que há algo errado consigo mesmo ou nas relações com os outros. Recorrer a produtos químicos continuadamente apresenta-se então como uma saída possível, como se elas fossem uma "poção mágica" contendo a "solução". Na falta do produto ao qual a pessoa se acostumou, ela é invadida por sensações ou "sintomas" penosos, indo de nervosismo, inquietação ou ansiedade ao impulso de obtê-lo de novo, a qualquer custo. Este estado chama-se dependência. O dependente de drogas deve ser considerado como um doente. Este necessita de ajuda e tratamento para entender as razões de seu abuso e iniciar sua reinserção social. Distingue-se a dependência física da dependência psíquica. Dependência física A dependência física ocorre quando o organismo acostuma-se à presença do produto, sendo que a sua falta provoca os sintomas da síndrome de abstinência (p.ex. delirium tremens, no alcoolismo). Enquadram-se produtos como o álcool, a nicotina, os produtos derivados do ópio.
Dependência psíquica A dependência psíquica instala-se quando a pessoa se acostuma a viver sob os efeitos de um produto psicoativo. Ela é dominada então por um impulso, quase incontrolável, de se administrar a droga com freqüência, para não experimentar o mal-estar da falta, conhecido como "fissura". Significa, portanto, o apego da pessoa àquele estado de bem-estar. Diante da complexidade de diferenciar os dois tipos, a OMS recomenda hoje falar apenas dependência , caracterizada (ou não) pela síndrome de abstinência.
Escalada
Chama-se escalada a passagem de um consumo ocasional a um uso intenso ou contínuo ( escalada quantitativa ), ou ainda a mudança de um uso de produtos "leves" para outros considerados "pesados " ( escalada qualitativa ). É importante assinalar que o produto psicoativo pode criar dependência, em função do modo de usar, do contexto e da personalidade. Assim, a evolução para a escalada não é nem automática nem irreversível.
Tolerância
Fala-se de tolerância quando o organismo reage à presença de uma substância psicoativa através de um processo de adaptação biológica. Ele o incorpora em seu funcionamento de modo a responder cada vez menos ao produto. Logo, para obter os mesmos efeitos, é necessário aumentar a dosagem. Esta elevação, comparável à escalada quantitativa, aumenta os riscos de uma superdosagem ( "overdose" ), capaz de provocar morte súbita por parada respiratória ou cardíaca, como no abuso da cocaína, por exemplo.
Tipos de usuários de drogas
É útil distinguir vários tipos de usuários de drogas, segundo critérios científicos, para desfazer o preconceito de que todo usuário seja "viciado" ou "marginal". Assim, a UNESCO distingue quatro tipos: experimentador : limita-se a experimentar uma ou várias drogas, em geral por curiosidade, sem dar continuidade ao uso; usuário ocasional : utiliza uma ou várias substâncias, quando disponível ou em ambiente favorável, sem rupturas nas relações afetivas, sociais ou profissionais; usuário habitual ou "funcional" : faz uso freqüente, ainda que controlado, mas já se observam sinais de rupturas; usuário dependente ou "disfuncional" (toxicômano, drogadito, dependente químico): vive pela droga e para a droga, descontroladamente, com rupturas em seus vínculos sociais, podendo haver marginalização e isolamento. O uso de drogas, portanto, não leva automaticamente a estados de dependência. Passa-se ao abuso com a perda de controle sobre o uso, em conseqüência de certas dificuldades ou fatores de risco, que variam de pessoa para pessoa, do contexto social e familiar. A compreensão dessas dificuldades e dos fatores de risco é crucial na ajuda ao dependente de drogas. anual do Multiplicador
O Tabaco:
O uso do tabaco surgiu aproximadamente em 1000 a.C., nas sociedades indígenas da América Central, em rituais mágico-religiosos. A planta, chamada Nicotiana tabacum , chegou ao Brasil provavelmente por migração de tribos Tupis-Guaranis. Quando os portugueses aqui desembarcaram, tomaram conhecimento do tabaco através do contato com os índios. A partir do século XVI o seu uso disseminou-se pela Europa, onde foi usado até para curar as enxaquecas de Catarina de Médici, rainha da França. Suas folhas foram comercializadas sob a forma de fumo para cachimbo, rapé, tabaco para mascar e charuto, até que, no final do século XIX, iniciou-se a sua industrialização sob a forma de cigarro. Seu uso espalhou-se de forma epidêmica por todo o mundo, ajudado pela publicidade e marketing. A folha do tabaco, pela importância econômica do produto no Brasil, foi incorporada ao brasão da república. A partir da década de 60, surgiram os primeiros relatórios médicos relacionando o cigarro à doença no fumante e, a seguir, no não fumante. Fumar, a partir de então, passou a ser encarado como vício que precisa ser combatido.
uma epidemia, levou a um conflito com a Inglaterra, conhecido como Guerra do Ópio. Os ingleses, que detinham o monopólio do comércio do ópio, obrigaram a China a liberar a importação da droga: como resultado, em 1900, metade da população adulta masculina chinesa era descrita como dependente da droga. Amplamente aceito como droga recreativa no Oriente e comprado livremente em armazéns na Inglaterra e nos Estados Unidos até fins do século XIX, o ópio provocou o surgimento de “casas de ópio” na maioria das cidades européias. Foi somente no início desses século que seu consumo começou a ser proibido.
A heroína, droga semi-sintética derivada da morfina, foi sintetizada a partir da morfina em 1874, mas só veio a ser empregada extensivamente na medicina depois do início do presente século. A companhia Bayer, da Alemanha, iniciou sua produção em escala comercial, em 1898, como um novo remédio contra a dor. Embora tenha tido uma aceitação ampla, o primeiro controle abrangente da heroína nos Estados Unidos só veio a ser adotado com a promulgação da Lei de Narcóticos Harrison, de 1914.
A coca e seus derivados:
A coca é um arbusto de folhas persistentes, que cresce em grande parte da América do Sul, em particular nas regiões andinas. Suas folhas são mastigadas há séculos, nas montanhas e altiplanos, pela população indígena. Segundo certos pesquisadores esse hábito existe há quatro mil anos, como mostram determinados achados arqueológicos. Porém, o hábito de mastigar a folha da coca - o chamado “coquear'' - não representa nem a única, nem talvez a mais importante função social dessa planta: ela ocupa um lugar de destaque na esfera comunitária e ritual dessas populações. Tentando reprimir esse hábito, invasores espanhóis no início da colonização correram o risco de provocar uma descaracterização étnica com consequências imprevisíveis, senão um colapso social. De fato, o hábito de “coquear” faz parte de uma adaptação biológica e sócio-cultural, em um contexto geográfico e climático altamente desfavorável. Mastigar a folha de coca tem por objetivo evitar o cansaço, a sede e a fome (ou pelo menos suas sensações) e aguentar melhor o frio, às vezes intenso. Existe também o uso medicinal da coca, sob forma de “chá de coca”, ao qual se atribui propriedades específicas para problemas digestivos, estancar hemorragias, tratar feridas etc. Os curandeiros apelam para o “espírito da coca” em rituais acompanhados pela comunidade inteira. Ela é aplicada no recém-nascido para a secagem do cordão umbilical, que, em seguida, é enterrado junto com folhas de coca, representando, assim, um talismã para o resto da vida do indivíduo. Nos funerais, rituais são realizados para apaziguar os espíritos (da coca) e assegurar a tranquilidade pós-morte do falecido. Percebe-se com isso que, se é desejável intervenções repressivas no tráfico da cocaína, essas intervenções não devem atingir a população andina, pois destruiria seus valores culturais milenares. Os proprietários das grandes plantações e os traficantes que comercializam a droga nos países industrializados é que devem sofrer intervenções repressivas. A cocaína pura, o principal ingrediente psicoativo da planta da coca, foi isolada, pela primeira vez, na década de 1880. Foi utilizada para fim anestésico em cirurgia oftalmológica, para a qual não existia, até então, qualquer droga adequada. Tornou-se particularmente útil na cirurgia de nariz e garganta por causa de sua capacidade de anestesiar o tecido, enquanto produzia, simultaneamente, a constrição dos vasos sangüíneos, e limitava, assim, a hemorragias.
A maconha
A planta do cânhamo ou Cannabis sativa cresce de forma silvestre praticamente em todas as regiões tropicais e temperadas do mundo. A planta é de fácil cultivo, podendo atingir de 30 cm a 6 m, dependendo do solo, do clima e do cultivo. Esta planta vem sendo cultivada desde as épocas mais remotas para a obtenção da fibra resistente de seu caule, da semente para uso em misturas alimentícias e do óleo para servir de ingrediente de tintas, bem como para a extração de suas substâncias biologicamente ativas, altamente concentradas nas folhas e nas partes superiores dos ramos florescentes. Os produtos derivados da planta são usados por milhões de seres humanos há quatro ou cinco mil anos, em virtude de suas propriedades medicinais. Conforme a região e o procedimento de extração, eles são chamados de haxixe, marijuana, cânhamo ou maconha. Em 1839, entrou para os anais da medicina ocidental com a publicação de um artigo sobre seu potencial terapêutico, inclusive suas possíveis aplicações como analgésico e agente anticonvulsivo. No decorrer do restante de todo o século XIX, alegou-se que essa planta era eficaz no tratamento de toda uma gama de doenças físicas e mentais. Com a introdução de muitas novas drogas sintéticas no século XX, houve um esfriamento no
interesse sobre seu uso medicamentoso. Os controles impostos com a promulgação da Lei de Tributação sobre a Maconha, em 1937, reduziram ainda mais seu emprego na medicina, e por volta de 1941, foi excluída da Farmacopéia Norte-Americana e do Formulário Nacional. Seu uso terapêutico hoje em dia é restrito a algumas partes da Ásia, para o tratamento de determinadas enfermidades e seu emprego é de tradição secular em alguns países, principalmente naqueles onde o consumo de álcool é proibido. Sua utilização medicinal corresponde a uma longa tradição entre povos africanos e asiáticos. No Brasil, parece que foi introduzida pelos escravos que a consumiam e conheciam as suas propriedades já na África, sendo largamente difundido nos estados do Nordeste, em particular, na Bahia e no Maranhão, onde até hoje existe um consumo recreativo a nível popular. Considerada como "droga da moda" nos anos 60, no auge da contestação hippie (junto com o LSD), a maconha continua a ser muito fumada até hoje em dia, em particular nas faixas jovens, mas perdeu o seu destaque em favor dos inalantes nas classes desfavorecidas e da cocaína nas classes média e alta. Para exemplificar o uso popular da maconha, citamos o exemplo da Jamaica. Conhecida há centenas de anos, a ganja (droga derivada da planta Cannabis ) é facilmente cultivada e produzida, embora seu consumo seja considerado ilegal. Certas seitas atribuem-lhe poderes místicos e divinos, especialmente o de afastar os espíritos do mal. O operário jamaicano encontra na ganja energia para trabalhar e relaxamento após o trabalho, e oferece a droga mesmo aos filhos para que fiquem "mais inteligentes". Nessa população, fumar a ganja é um rito (como mastigar a coca nos Andes) e não fator de alienação ou desintegração social: o seu uso constitui um complexo de crenças, atitudes e costumes compartilhados por toda a comunidade. Porém, há diferenças entre as classes sociais. Na população de baixa renda, a criança aprende a utilizar a erva muito cedo, sendo possível que se coloque chá de ganja até nas mamadeiras. Nas classes média e alta, no entanto, a droga é condenada, mas os adolescentes a utilizam mesmo assim, seja como contestação às autoridades e valores tradicionais, seja por curiosidade, para incrementar o prazer sexual, para fazer descobertas psicodélicas etc. Os estudos antropológicos indicam que a cultura cria automatismos de proteção que atenuam o perigo dos entorpecentes. Nada é mais importante, por exemplo, do que aprender a dosar para obter exatamente o efeito desejado, e nada mais. Esses mecanismos explicam, talvez, o fato da intoxicação crônica por maconha parecer relativamente inofensiva nos operários jamaicanos. Em compensação, a situação parece mais grave quando se trata dos jovens de classe média, embora aí o número de fumantes seja bem menor: fala-se de abandonos escolares, episódios psicóticos, reações de pânico e outros distúrbios do comportamento. Percebemos, assim, que entre as classes sociais de uma mesma população podem ocorrer mudanças quanto à significação do uso de uma droga, tanto no que diz respeito aos propósitos do uso, quanto às formas de utilização.
Outros alucinógenos:
Todas as grandes civilizações oferecem exemplos de uso de outras substâncias alucinógenas, além da maconha: o ritual de cogumelos nas Américas, o emprego de cogumelos tóxicos por curandeiros e feiticeiros da Ásia, a utilização de certos vegetais na feitiçaria européia da Idade Média etc. A mescalina (extraída do cacto mexicano peiote) era, e ainda é muito empregada e venerada como amuleto ou alucinógeno nas regiões montanhosas do México, bem antes da chegada dos conquistadores espanhóis. Era usada por certos índios como remédio ou para visões que permitissem profecias. Ingerido em grupo, pode induzir estados de transe durante certos ritos. Embora os alucinógenos sejam encontrados no mundo inteiro, a maioria dessas substâncias é encontrada e usada nas Américas e na África. Centenas de tribos primitivas, como os Astecas, Toltecas, Navajos e Huicholes utilizavam peiote, psilocibina (extraída de um cogumelo), iagê, sementes de ipoméia e dezenas de outras substâncias alucinógenas, com fins religiosos, sociais, mágicos e culturais. A psilocibina, considerada sagrada por certas tribos indígenas mexicanas, é usada como instrumento de culto em rituais religiosos, induzindo alucinações. Outros “ pós milagrosos”, obtidos a partir de ervas, cipós ou cascas de árvores, são usados por tribos da América do Sul em rituais místicos, com o intuito de entrar em comunicação com os seus deuses. No Brasil, drogas alucinógenas são até hoje muito usadas nos rituais de tribos indígenas, com a finalidade de obter cura de doenças, proteger a comunidade contra ataques mágicos e propiciar bem-estar, boas caçadas etc. Nesse caso, a droga é de uso coletivo, e não individual, funcionando como elemento apaziguador e sociabilizante, servindo de ligação entre o mundo humano e o sobrenatural.
milhares de discos pop, com a comercialização da arte psicodélica, transformaram esses anti-heróis em verdadeiros ídolos da juventude, com os quais as drogas encontraram um veículo formidável de difusão. Em síntese, esses jovens, ao repudiarem a sociedade competitiva, materialista e consumista, denunciando suas contradições e falhas, criaram um movimento baseado em uma mística da música, da comunhão da droga, como forma alternativa e mais verdadeira de viver. Mas como era de se esperar, a evolução da conjuntura econômica das sociedades ocidentais trouxe mudanças profundas nesse quadro, relegando a segundo plano a procura pacata de prazeres floridos e de convivências mais harmoniosas. A recusa do modelo dos pais, a exaltação de novos modos de viver e a cordialidade, cederam lugar, muitas vezes, ao desespero, violência e auto-destruição. As tentativas de vida alternativa foram boicotadas ou “recuperadas” pela sociedade “liberal”, e, diante do impacto da crise econômica e das necessidades básicas, o movimento se desarticulou. É importante ressaltar aqui a contradição máxima das sociedades industriais: ao se apresentarem como dinâmicas e integradoras, surgem, no entanto, como extremamente rígidas e incapazes de adotar e integrar o revolucionário, o novo. Culpa-se muito o movimento hippie pela difusão das drogas, principalmente as alucinógenas. No entanto, esquece-se que esse movimento permitiu que algumas vias de acesso fossem abertas na sociedade industrial, tais como a criação do fenômeno de vida comunitária, tentativas para modificar a estrutura familiar, o movimento de emancipação das mulheres e de afirmação dos negros, o movimento gay, a antipsiquiatria etc. Trata- se, pois, de não esquecer ou desvalorizar movimentos dessa índole, pois constituem propostas alternativas que surgiram em um mundo impregnado pela cosmovisão tecnológica.
O uso atual de drogas:
Atualmente, a droga não tem mais aquele caráter revolucionário; o seu uso banalizado faz parte agora das chamadas regras tóxicas de convivência. O uso de drogas não se restringe mais a uma certa classe social ou a determinada faixa etária, tomando, pelo contrário, um caráter generalizado, apesar de responder a motivações diferentes nas diversas classes sociais. No entanto, podemos concluir que tanto jovens quanto adultos fazem uso de drogas porque a realidade social não está atendendo às necessidades humanas. O adulto, em geral, o faz para se manter integrado a uma sociedade que não está mais podendo ocultar suas contradições, e o jovem, porque não aceita ou não consegue sintonia com uma sociedade incoerente. Cabe aqui, mais uma vez, enfatizar toda a contradição que a sociedade mantém com relação à questão das drogas: ao mesmo tempo que vai contra o uso de algumas, permite e incentiva o uso de outras. Num primeiro momento, podemos dizer que a droga é um sintoma, uma disfunção produzida pelas sociedades atuais, tanto em contextos de países em pleno desenvolvimento, quanto em outros subdesenvolvidos. Nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, como o Brasil,, o consumo de drogas obedece a complexos fatores sócio-culturais, que, unidos à pobreza, à alta taxa de desemprego e ao analfabetismo oferece condições para o abuso e o tráfico ilícito. Podemos dizer que nesses países, a droga responde a carências bem objetivas, inclusive a nível da fome por falta de alimentos como da fome de viver melhor. Nos países desenvolvidos, o uso de drogas resulta de seus excessos, ou seja, excesso de racionalização, de organização, de equilíbrio e de regulamentação. Podemos ver o uso de drogas nesses países como algo que denuncia a tendência marcante das sociedades desenvolvidas a “coisificar”, robotizar o homem, e, nesse sentido, tem o caráter de defesa, obviamente que não a mais adequada. Não podemos esquecer, inclusive, que outros fenômenos de massa denunciam esse grande mal estar, tais como o aumento de delinquência, o grande número de tentativas de suicídio entre os jovens, assim como o aumento da patologia entre eles. É possível prevenir o uso de drogas? A resposta a essa questão varia segundo a forma como se analisa o problema. Se a crença é de que toda a questão reside no produto, é razoável, então, pensar que eliminando-o, o problema estará resolvido. No entanto, tal visão e os procedimentos que daí resultam se deparam com sérios obstáculos. Em primeiro lugar, o uso de drogas é ocorrência de todos os tempos e de todos os povos; em segundo lugar, essa idéia se depara com o fato de que em qualquer país algumas drogas são permitidas e têm seu uso incentivado, constituindo-se em importante fonte de rendimentos. Na verdade, por ser o uso de drogas um assunto altamente controvertido, resulta igualmente controvertida sua prevenção, sendo este palco para posições muito divergentes. Uma coisa é certa: para que o atual consumo de drogas diminua, para que se possa “desdrogar” a sociedade moderna, são necessárias mudanças estruturais e qualitativas, onde toda ação preventiva esteja voltada para a busca de uma sociedade saudável, que estimule as pessoas, tirando-as do anonimato, que conscientize-as sobre os efeitos nocivos das drogas, que dê alternativas de satisfação, prazer, realização pessoal e transcendência. As condições de vida e ambiente criadas pela sociedade industrial são prejudiciais à saúde do homem e a droga é um sintoma que denuncia que algo não está funcionando bem; por isso assusta, inquieta, ameaça.
O que leva uma pessoa a fazer uso de drogas? Pode-se fazer uso de drogas e não se tornar um dependente? O adolescente, devido à “crise” por que passa no seu desenvolvimento, está mais vulnerável a usar drogas? Como entender melhor o adolescente?
Uma das questões com a qual nos defrontamos constantemente é: o que leva uma pessoa a usar drogas? Tal questionamento é difícil de responder, uma vez que não podemos dar uma resposta generalizada que sirva a todo e qualquer indivíduo que use drogas. O que existe são várias tentativas de responder a essa questão, levando-se sempre em consideração as diferenças individuais e, consequentemente, os diferentes tipos de vínculos que as pessoas estabelecem com a droga. Geralmente, o pensamento que circula pela sociedade é que o indivíduo que usa drogas, independente de fazê-lo uma vez ou mais, está irremediavelmente perdido, como se a droga por si só tivesse um poder mágico de provocar dependência. Acredita-se hoje que não é apenas o produto que intervém na dependência, mas também o indivíduo com a sua personalidade, seu corpo e seu momento dentro da sociedade e da família. Isso nos leva novamente à afirmativa: a droga não é boa nem má - depende do uso que dela se faz. Analisaremos, a seguir, o fenômeno das motivações para o uso de drogas, tomando como base a classificação de Helen Nowlis (Unesco, 1975/1982), que distingue 4 tipos básicos de usuários de drogas, a saber: o experimentador, o usuário recreativo ou ocasional, o usuário habitual, o dependente ou toxicômano.
“Pouco a pouco o clássico conflito das gerações se transforma num abismo entre as gerações jovens, que criam seus próprios sistemas de valores baseados, essencialmente, em suas próprias experiências, e os nossos valores, baseados na experiência do passado. Como se tais valores não pudessem ser transmitidos. Nesse abismo entre as gerações, as drogas são mais um sintoma, um discurso do mundo.” Claude Olievenstein
1. A adolescência e as drogas:
Atualmente, considera-se cada vez mais o uso de drogas na adolescência como algo inserido nas ocorrências normais dessa fase do desenvolvimento humano. A necessidade de experimentar emoções novas e diferentes, correr riscos, ser do contra etc. leva muitos adolescentes a querer conhecer as drogas. Estudos realizados com adolescentes mostram que a maioria dos jovens apenas experimenta ou usa ocasionalmente e moderadamente drogas, como, por exemplo, a maconha. Esses estudos ainda sugerem que o consumo de múltiplas drogas por jovens é uma decorrência, e não a causa de dificuldades psicológicas e sociais. Com base nesses dados, acreditamos na eficácia de um trabalho preventivo junto aos jovens que ainda não são dependentes. Para que se possa trabalhar preventivamente com essa população, é fundamental que conheçamos o que se passa na adolescência.
Aspectos gerais da adolescência:
Literalmente, adolescência significa o processo geral de crescimento. Em termos físicos, refere-se ao período da vida compreendido entre a puberdade e o desenvolvimento completo do corpo, cujos limites se fixam, geralmente, nas meninas dos 12 aos 21 anos e nos meninos dos 14 aos 25 anos. Isso não quer dizer, no entanto, que um rapaz de 26 anos, por exemplo, não é mais adolescente: existem, dentro dessas faixas etárias grandes variações. As mudanças psicológicas que ocorrem nesse período são, em grande parte, decorrentes de mudanças a nível do corpo do adolescente. As transformações corporais maiores e visíveis acabam sendo associadas à maturidade, sendo cobrado, principalmente por adultos, uma atitude adulta desses jovens. Isso os leva à
o encontro com o outro. Com a instalação da dependência, a toxicomania polariza a vida do jovem em torno dessa experiência, bloqueando, dessa forma, suas possibilidades de investimento fora da droga. Podemos fazer, também, uma relação entre o uso de drogas e a manipulação da idéia de morte, fato comum em níveis variados, a todos os adolescentes. A idéia de morte é uma função estruturante da personalidade adolescente, pois é no confronto com a morte que ele descobre o valor da vida, testa sua autonomia e sua liberdade, toma consciência de tornar-se adulto e encontra uma ocasião de afirmar o seu eu. Algumas civilizações ritualizaram esse jogo, impondo aos adolescentes provas perigosas por que eles deveriam passar para serem considerados adultos. São os chamados ritos de passagem ou ritos de iniciação. Em nossa sociedade, poderíamos fazer uma relação com os jovens que brincam com a morte, nas brincadeiras perigosas tão típicas da adolescência, como corridas de moto, “pegas” de carros, nos esportes violentos e na própria utilização de drogas. A droga também pode funcionar como uma forma de transgredir, de provar a capacidade dos pais de dizer não, de contestar o mundo dos adultos, indo de encontro às normas e valores destes. Quando o jovem recorre ao uso de drogas, ele pode estar negando a sociedade e se recusando a ter uma existência socialmente limitada. O adolescente está constantemente em busca de algo, de um referencial que facilite a sua entrada na sociedade dos adultos, passagem difícil e que, às vezes, é sentida com uma profunda impotência pelo adolescente. Nesse sentido, poderíamos dizer até que quanto mais a sociedade reprime as drogas, mais elas vão ter um significado tentador, pois, se algo é pintado como perigoso, proibido, haverá sempre mais razão para ser usado como uma arma da rebeldia adolescente. Na adolescência a droga aparece como uma oportunidade que se apresenta de ser contra as normas, de contestar, testar as possibilidades do corpo, transgredir, de buscar sua identidade através da absorção dos costumes de seu grupo etc. Nesse sentido, a droga surge no contexto da adolescência normal. No entanto, a presença continuada da droga pode extrapolar esse uso normal e passar a ser um sintoma individual denunciando que algo não vai bem. O adolescente precisa e pede um porto seguro, em que ele possa confiar e, principalmente, com quem possa conversar. O adulto deve, pois, procurar compreendê-lo dentro de suas possibilidades. Cremos que um dos caminhos possíveis para mudar esse tal estado de coisas está no estímulo de uma sociedade mais pensante, onde o jovem seja incentivado em sua criatividade, onde os seus questionamentos sejam ouvidos, para que juntos possamos lutar por um mundo melhor, onde a droga, se não for possível extinguí-la, seja apenas uma entre numerosas possibilidades de se conseguir obter prazer, o que pode traduzir na fala de um adolescente: “Eu experimentei, gostei, mas tinha coisas mais gostosas prá fazer na vida.
0 ( ) Podemos distinguir três funções gerais, atribuídas alternativa ou simultaneamente à ingestão de drogas, em contextos sociais que variam segundo a organização e as crenças de uma determinada sociedade: 1- superar a angústia existencial, 2- entrar em contato com o sobrenatural, 3- obter prazer. 1 ( ) O uso de maconha por um adolescente do Rio de Janeiro ou Brasília não se distingue do uso de “ganja” por um adolescente da classe operária da Jamaica; ambos fumam por curiosidade, para incrementar o prazer sexual, para fazer descobertas psicodélicas ou para fugir das normas impostas pelos adultos. 2 ( ) Se a cocaína é obtida a partir da coca, as intervenções repressivas devem atingir a todos que possuem plantações de coca, inclusive as populações andinas. 3 ( ) A droga utilizada pelo movimento hippie da década de 60 participava como um elemento desintegrador e destrutivo, levando os utilitários à marginalização e à loucura, o que determinou o fim do movimento.
4 ( ) O uso abusivo de drogas resultou de evoluções características das sociedades modernas, desde o início da industrialização, que provocou choques culturais, com consequente abandono de valores tradicionais sem se encontar valores novos com potencial de integração cultural. Proliferou como uma solução, um consolo ou um meio de tolerar os estados de frustração, miséria ou desânimo.
0 ( ) Estudos realizados com jovens consumidores de múltiplas drogas sugerem que o consumo excessivo é a causa e não consequência de dificuldades psicológicas e sociais. 1 ( ) É devido à existência de um uso inicial de drogas na adolescência que se deve trabalhar preventivamente, no sentido de proibir e penalizar o uso de drogas, mesmo lícitas, como o cigarro, o álcool e o lança-perfume. 2 ( ) A droga pode funcionar como uma forma do adolescente afirmar-se como igual dentro do seu grupo, buscando sua identidade, segurança e estima pessoal. 3 ( ) O uso de tranquilizantes pelos adultos se compara ao uso de drogas alucinógenas pelos adolescentes: ambos tentam suportar ou recusar passivamente as condições sócio-econômicas, familiares e/ou culturais inseridas em seu contexto de vida. 4 ( ) O adolescente necessita renunciar à relação infantil de dependência para poder encontrar a sua identidade de adulto; precisa fazer luto das imagens parentais protetoras que lhe cercavam a infância, cabendo o mesmo aos pais, o que provoca um distanciamento que muitas vezes é ressentido como abandono. Uma vez que vê quebrada a imagem de perfeição que tinha dos pais e, durante a fase de transição para novos pontos de referência, o adolescente pode buscar a droga como elemento paliativo de equilíbrio emocional
0 ( ) Responsabilizar-se, no texto, se refere às consequências das escolhas de cada um em relação ao consumo de drogas. 1 ( ) O que diferencia o usuário habitual do dependente toxicômano é que no primeiro caso é a partir do uso da droga que o indivíduo consegue funcionar e no segundo, tudo que o indivíduo realiza é com a finalidade última de conseguir a droga. 2 ( ) O experimentador e o usuário recreativo são traficantes potenciais, uma vez que existe uma procura ativa da droga e a realidade de não poder passar sem ela. 3 ( ) A legalização das drogas poderia amenizar a toxicomania, uma vez que sua distribuição poderia ser controlada, como o álcool, evitando-se o uso abusivo das mesmas. 4 ( ) Segundo especialistas, não são as drogas ilícitas, e sim o álcool, o maior problema do Brasil em dependência química. Isso, em parte, pode ser explicado pelo fato dos pais alertarem os jovens contra os males das drogas ilícitas e, até mesmo incentivarem o uso precoce do álcool em comemorações festivas e como forma de aproximação.
0 ( ) A toxicomania no jovem é, muitas vezes, mais do que um sintoma individual: é o sintoma de um desequilíbrio familiar. Em alguns casos, pode estar relacionada a crises da adolescência, mas pode também ser uma reação a conflitos e desequilíbrios da estrutura familiar. 1 ( ) Uma mudança nas interações familiares possibilita uma modificação das regras relacionais do sistema familiar e a consequente saída do jovem de papel de “bode expiatório” e de portador do sintoma familiar. 2 ( ) O tratamento forçado em clínicas de recuperação de drogados é uma medida eficaz, pois, além de desintoxicar o organismo, retira o jovem do contexto de uso da droga, evitando uma recaída. 3 ( ) A força de vontade de vencer e superar o vício é o fator mais importante na recuperação de drogados, mesmo sem o apoio familiar.
É corriqueiro ouvir dizer que os países desenvolvidos declaram como drogas legais aquelas que eles mesmo fabricam (ou sintetizam), e como drogas ilegais as substâncias naturais contrabandeadas de países do sul. Comente esta afirmação!
Considerar as drogas como um problema de saúde pública significa:
a ( ) atentar ao tráfico de drogas ilícitas b ( ) preconizar intervenções repressivas entre os usuários c ( ) atentar às prevalências do uso em diversas regiões ou camadas sociais d ( ) implantar campanhas antidrogas apontando os perigos para a saúde e ( ) preocupar-se com o custo social do uso de drogas
a ( ) situa-se acima dos padrões internacionais conhecidos b ( ) está crescendo gradualmente, segundo levantamentos recentes c ( ) privilegia as drogas ilícitas d ( ) provoca evasão escolar em ampla escala e ( ) representa uma fuga diante de situações sócio-econômicas intoleráveis
a ( ) álcool, fumo e inalantes b ( ) medicamentos, maconha e inalantes c ( ) inalantes, maconha e cocaína d ( ) maconha, álcool e cocaína e ( ) álcool, maconha e inalantes
Dê sugestões concretas e que lhe pareçam executáveis: como baixar o custo social causado pelo uso indevido de drogas.
O fenômeno da toxicomania resulta da confluência de três dimensões. No triângulo abaixo, indique essas dimensões, escrevendo seus nomes em cada vértice:
Um usuário de drogas durante uma sessão de terapia atribui grande peso na determinação do seu estado à falta de disciplina em sua casa. A qual dimensão estava ele se referindo?
ABL, sexo feminino, 15 anos, estava no banheiro do colégio, quando uma colega lhe passou um cigarro aceso, dizendo ser maconha. Encorajou-a a experimentar, contou-lhe dos efeitos extraordinários que a droga proporciona. ABL puxou um trago, porém, sentiu náuseas e logo vomitou, sendo sua primeira e última experiência com drogas. Dadas as características do uso de drogas, ABL se qualificaria em qual categoria de usuário?
( ) habitual ( ) dependente ( ) experimentador ( ) recreativo
Toxicomania
(1) transgressão ( ) imitar uma “estrela” rock (2) jogo com a morte ( ) brincar de “roleta russa” (3) droga como fator de união ( ) praticar furtos (4) procura de ídolos ( ) portar arma de fogo ( ) participar de uma “rodada” de cocaína
Na atualidade, a maior ameaça que pais enfrentam em relação a seus filhos é seguramente a possibilidade do uso abusivo de drogas. Esse não é um medo irreal. O senso comum vê na toxicomania uma problemática individual relacionada à classe social e à personalidade; quase uma doença física ou psíquica do jovem. A própria família do usuário de drogas assume, por desinformação, uma atitude preconceituosa, procurando, inconscientemente, negar a existência do problema, até que a realidade se interponha. A toxicomania no jovem é, muitas vezes, mais do que um sintoma individual: é o sintoma de um desequilíbrio familiar. Em alguns casos, pode estar relacionada a crises de adolescência, mas pode também ser uma reação a conflitos e desequilíbrios da estrutura familiar. A história individual, a natureza do vínculo do usuário com a família, seu papel na estrutura familiar, os mitos característicos a cada família e as patologias familiares são alguns dos elementos importantes para a compreensão do fenômeno e a intervenção terapêutica. A família deve ser conscientizada de que é parte da problemática do jovem e como tal deve assumir sua parte de responsabilidade na solução do problema. É comum os pais questionarem: como são as famílias típicas de um usuário de drogas; qual sua classe social e que problemas essas famílias enfrentam; em suma qual é a parte de “culpa” dos pais na dependência dos filhos às drogas? O imaginário popular tenta responder a essas questões apontando o fator classe social como determinante de excessos ou faltas. Nas famílias ricas, os “filhinhos de papai” usariam a droga porque “sempre tiveram tudo em excesso”. Não teriam, portanto, aprendido a lidar com as frustações, limitações, faltas e outras contingências da existência humana. Na adolescência - momento de responsabilizarem-se por si próprios - procurariam nas drogas a “infância perdida”, prazerosa, sem limitações e responsabilidades. Nas famílias de baixa renda, encontraríamos uma situação inversa, ou seja, carência acentuada de serviços e bens sociais (educação, moradia, alimentação, vestuário, transporte, saúde, lazer), que estimularia o amadurecimento precoce. Convivendo com muitas privações, as crianças seriam levadas a assumir responsabilidades de adulto, o que estaria na origem da busca das drogas como paliativo à fome, ao medo e ao abandono familiar e social. As drogas seriam, nesse caso, a alternativa de prazer mais acessível. Embora essas hipóteses pareçam coerentes, estão longe de colocar o problema em toda sua abrangência, pois o uso de drogas não se explica apenas pelo contexto social. A personalidade do jovem, o significado que ele dá à droga e seu papel individual dentro do contexto familiar são aspectos de grande relevância para a comprensão da toxicomania. A nível familiar , a conduta de sacrifício consiste no fato de que o adolescente recebe sobre si uma parte da violência e dos sofrimentos da família. O alcoolismo do pai, o abuso de medicamentos pela mãe, as condutas delinquenciais do irmão, os conflitos do casal, tudo se apaga em favor de um único culpado, que é toxicômano. A nível grupal , podemos considerar a toxicomania como uma conduta de sacrifício dos jovens enquanto grupo, que seriam designados como vítimas expiatórias, para que se estabeleça contra eles uma unidade social. A família é o contexto mais próximo do jovem e participa ativamente de seu problema. Devemos levar em conta o sofrimento da família e do jovem dependente de drogas, que é portador do sintoma familiar, e procurar o significado desse sintoma dentro da organização familiar. Uma mudança nas interações familiares possibilita uma modificação das regras relacionais do sistema familiar e a consequente saída do jovem do papel de “bode expiatório” e de portador do sintoma familiar. Essa mudança faz com que a família funcione sem necessidade do sintoma toxicomaníaco, proporcionando uma organização menos rígida do sistema e dando acesso a uma autonomia real para os diferentes membros da família.
As principais drogas psicotrópicas, e que são usadas de maneira abusiva, de acordo com a classificação mencionada aqui, estão relacionadas abaixo:
Depressores da Atividade do SNC (Sistema Nervoso Central):
Estimulantes da Atividade do SNC:
Perturbadores da Atividade do SNC:
A saúde da humanidade, entre outros fatores, depende tanto da pureza da alta atmosfera quanto dessa pequena porção de ar que está à volta de cada um de nós, em casa ou no local de trabalho. E a coisa vai mal. Nada menos de 8 mil pessoas morrem diariamente no mundo, em decorrência do câncer de pulmão provocado pela fumaça do cigarro. O número de vítimas nesta década poderá atingir o sinistro patamar dos 30 milhões, segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS). O tabaco é uma droga poderosa que pode viciar num prazo de um a três meses. A nicotina provoca mais dependência física que a cocaína, e por isso é mais difícil largar o cigarro. Embora o tabaco não altere o estado mental da pessoa, e prejudique incomparavelmente menos suas relações sociais, tem um mecanismo de implantação do vício semelhante ao das drogas ilegais. A partir da tragada, em sete segundos a nicotina chega ao cérebro através da circulação sanguínea e entra em contato com os receptores das células nervosas, a região da membrana que opera seu reconhecimento. As células nervosas liberam mensageiros químicos chamados de neurotransmissores para completar o fluxo de informação entre elas. O que a nicotina faz é “enganar” a célula nervosa, imitando o comportamento de seu neurotransmissor, chamado acetilcolina. Em condições normais, a acetilcolina libera dopamina, um estimulante que está associado à sensação de prazer - é uma sensação passageira. A nicotina, plugada na célula, porém, prolonga esse período agradável. Inibe-se o fluxo de informação entre as células, ao mesmo tempo que se amplifica a duração do bem-estar. A dependência só acontece porque o organismo reage ao logro, criando novos pontos de ligação da acetilcolina. A saída, então, é fumar mais, sempre em busca da sensação original - o mecanismo clássico das drogas. A nicotina atua como estimulante, aumentando os níveis de adrenalina no sangue, e também como relaxante. O impulso nervoso é transmitido de uma célula a outra, e delas para os sistemas que controlam a atividade de glândulas de secreção interna como a supra-renal e a tireóide. Os fumantes aprendem a extrair do cigarro o efeito desejado. Se estão tensos e ansiosos, fumam para relaxar. Quando estão com sono, buscam na nicotina a excitação e a atenção que precisam para desenvolver suas tarefas. Não é desculpa: é isso mesmo o que acontece. Outros efeitos da nicotina são a melhora da memória e da concentração, o aumento da
vigilância, a sensação de prazer e a diminuição da raiva. O fumo acelera o metabolismo, produz maior gasto calórico e diminui a fome. O organismo se habitua a cargas regulares de nicotina, entrando em desequilíbrio quando ela é suspensa. Aí começa o inferno do fumante: ele fica irritado, ansioso, insone e pode até vomitar. Em situações mais sérias, a reação se caracteriza como crise de abstinência, expressão mais comumente usada em relação ao álcool e às drogas ilícitas. O fumante anseia por manter no sangue a concentração habitual de nicotina, capaz de garantir sensações que considera agradáveis, como relaxamento muscular e alívio de tensão. Mas tudo se esvai como uma nuvem. Como a nicotina se decompõe em seu organismo, em média, entre 20 e 30 minutos, o fumante trata logo de acender outro cigarro quando sente declinar o nível dessa substância no sangue. Existem hoje mais de 60 mil trabalhos comprovando os malefícios do tabagismo. Investigações epidemiológicas mostram que esse vício é responsável por 75% dos casos de bronquite crônica e enfisema pulmonar, 80% dos casos de câncer do pulmão e 25% dos casos de infarto do miocárdio. Além disso, segundo pesquisas, os fumantes têm risco entre 100% e 800% maior de contrair infecções respiratórias bacterianas e viróticas, câncer da boca, laringe, esôfago, pâncreas, rins, bexiga e colo do útero, como também doenças do sistema circulatório, como arteriosclerose, aneurisma da aorta e problemas vasculares cerebrais. A probabilidade de aparecimento desses distúrbios tem relação direta com o tempo do vício e sua intensidade. A mulher que fuma duplica a velocidade de envelhecimento, com mais propensão às rugas e à celulite, e triplica as dificuldades de cicatrização. Quando associado a pílulas anticoncepcionais, o cigarro vira um torpedo: neste caso a mulher aumenta em oito vezes, em relação ao homem, a chance de sofrer um infarto. Quando a gestante fuma, a criança também fuma. O feto recebe elementos tóxicos da circulação materna. A presença dessa substância eleva a frequência cardíaca do feto e age sobre seus centros nervosos, provocando a redução dos movimentos torácicos. Descolamentos de placenta, sangramentos, rupturas de bolsa e abortos espontâneos também são favorecidos pelo tabagismo. O cigarro também pode afetar a vida sexual das pessoas. Na mulher o tabagismo tende a antecipar a menopausa para antes dos 40 anos, se ela começou a fumar antes dos 17 anos ou fumou um maço por dia ao longo de duas décadas. Além disso, o fumo reduz o transporte do óvulo na trompa. No homem, o hábito de fumar tira dos espermatozóides mobilidade, volume e concentração em cada ejaculação. Predispõe também à impotência, pois o efeito vasoconstritor da nicotina aumenta o risco de bloqueio das artérias que irrigam o pênis, dificultando a ereção. Em geral, a pessoa adota o vício do tabagismo entre 12 e 20 anos. os meninos começam a fumar para se auto-afirmar perante os pais e amigos, além de exibir-se e impressionar as meninas, e assim se tornam dependentes da nicotina. Na vida adulta, eles precisam do cigarro para se sentirem mais seguros e importantes. Após 20 anos de tabagismo, começam a sentir efeitos negativos, mas nem sempre é fácil abandoná-lo.
A cocaína é um pó branco obtido do arbusto da coca (Erythroxylon coca) ou epadú , uma planta cultivada em certas regiões da Bolívia e do Peru. As populações pobres do Peru e da Bolívia costumam mascar folhas de coca para aliviar as dores ou esquecer a fome. Entre os viciados de todo o mundo, a cocaína costuma ser inalada ou injetada na veia, fumada com tabaco ou ingerida com bebida alcoólica. Com o tempo, a inalação provoca feridas nas mucosas nasais. Doses elevadas injetadas por via venosa provocam a morte. Logo após a inalação, o cansaço desaparece e o indivíduo sente-se cheio de energia, agitado e eufórico. Há também sensação de grande força muscular e vivacidade mental. A cocaína não provoca dependência física, porém provoca forte dependência psíquica. Logo depois de aspirada, a cocaína produz uma intensa vasoconstrição, diminuindo a circulação sanguínea da mucosa local e dando ao usuário a sensação de respirar melhor. Quando utilizada regularmente, provoca inflamação e danos na mucosa do nariz, podendo chegar a perfurar o septo nasal (cartilagem central que separa as narinas). No restante do aparelho respiratório, as consequências mais frequentes são: dores no peito, aumento da frequência respiratória, taquicardia e falta de ar. Além disso, o uso continuado da droga pode causar hipertensão arterial (pressão alta), inchaço pulmonar e hemorragia nos alvéolos (estruturas do pulmão onde ocorrem as trocas gasosas), seguida de eliminação de sangue pela tosse. Com o consumo habitual surgem perturbações de memória, perda da capacidade mental, apatia, delírios de perseguição e alucinações; o indivíduo pode se tornar agressivo e perigoso, sendo capaz de atos anti- sociais graves. As pessoas que abusam da cocaína não relatam a necessidade de aumentar a dose para sentir os mesmos efeitos, ou seja, a cocaína praticamente não induz tolerância; não há também descrição convincente de uma síndrome de abstinência, quando a pessoa para de usar cocaína abruptamente. Existem, sim, os sintomas de retirada