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Material de filosofia da Universidade de Tiradentes
Tipologia: Notas de aula
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Neste tema, vamos estudar o que é a disciplina de Metodologia Científica e por que ela é importante para a sua formação acadêmica e profissional. Como estamos no início dos conte- údos da disciplina, estudaremos também técnicas e procedimentos para organização dos estudos e um melhor aproveitamento no estudo de textos. É importante destacar que o seu suces- so nos estudos e, consequentemente, profissional, depende apenas de você, da sua capacidade de ir em frente e de buscar “aprender a aprender”. Você perceberá que a Metodologia Científica vai se tor- nar uma auxiliar fundamental em seus estudos.
Ao terminar a leitura e as atividades do Tema 1, você deverá ser capaz de: entender a importância da disci- plina para a formação acadêmica e profissional; adotar procedimentos e técnicas na organização dos estudos; desenvolver o hábito pela leitura, realizando análises de texto; praticar as técnicas de sublinhar, esquematizar, resumir e fichar no estudo de texto.
O segundo tema de Filosofia e Cidadania tratará dos instrumentos que formam as (in)consci- ências de um povo. Quando mecanismos de ideolo- gização atuam no sentido de manipular e controlar as massas populacionais, a cidadania lhes é negada. É preciso que se promovam as defesas necessárias contra o processo de manipulação so- cial. A educação será sempre uma das principais forças a serviço da formação de cidadãos cons- cientes, dinâmicos e comprometidos eticamente.
Ao terminar a leitura e as atividades do Tema 2, você deverá ser capaz de: identificar os mecanismos de ideo- logização que impedem a constru- ção da cidadania; apontar caminhos e instrumentos de formação de cidadãos comprometidos e engajados com a utopia de uma reali- dade mais justa e mais equitativa; desenvolver o hábito pela leitura, realizando análises de texto; demonstrar como tudo – a educação, o conhecimento, a religião, a política etc. – pode se transformar em instru- mentos de ideologização, a serviço da manipulação e do controle social; afirmar a educação como impor- tante instrumento de construção da liberdade e da formação e preserva- ção da cidadania.
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aparecem explicitamente e nem sempre são percebidos por aqueles que neles estão envolvidos. Essa falta de clareza pode fazer com que equívocos históricos sejam cometidos e direcionamentos desastrosos sejam tomados. Daí a impor- tância fundamental da compreensão dos aspectos ideológicos que estão impli- cados no processo de construção da história.
Há milhões de anos que existem seres pensantes neste planeta. O pro- cesso evolutivo se fez de acordo com a compreensão que os seres humanos tive- ram a respeito de seu mundo, desde os períodos mais primitivos até o mundo contemporâneo. A lenta travessia da humanidade por um mundo fechado em sua perspectiva mágica e submissa diante da natureza, transitando por um raciona- lismo que irrompe com extrema dificuldade, explode finalmente num desenvolvi- mento tecnicista e cientificista exacerbado. O temor do homem primitivo diante da natureza, que obstaculizava a sua vida de todas as maneiras, cede espaço para uma natureza conhecida e coadjuvadora. Entretanto, essa descoberta e esse do- mínio da natureza, muitas vezes, transformaram-na em um terreno minado. No passado, o homem dava a tudo uma explicação religiosa. A natureza era sagrada e imutável e o homem se dobrava, com temor, diante dos deuses e espíritos que impregnavam a todos os seres do mundo circundante. Hoje, ele reduz a natureza e o mundo todo a meros objetos, submetidos aos seus capri- chos e interesses predatórios. Nada mais o intimida e diminui o ímpeto de seu controle, manipulação e subjugação. Tudo o que é tecnicamente realizável e eco- nomicamente interessante é executado inapelavelmente. Com instrumentos po- derosos, produzidos por uma tecnologia cada vez mais sofisticada, nada escapa à ferocidade de sua ação devastadora. O homem se transformou em objeto e vítima do mundo que ele mesmo construiu. Submetido agora a novos deuses, erigidos pelas suas próprias mãos, a eles se dobra com fascinação e reverência. É a liturgia científica que canta hinos de louvor à tecnologia moderna como se ela fosse um valor absoluto. Os dogmas desta nova religião são as verdades da ciência. Nada existe e nada se sustenta fora dessa perspectiva. Só é verdadeiro o que pode ser tocado, experimentado, pesquisado, medido, comprovado e con- sumido. O cientificismo se constitui para o homem moderno na metáfora da religião a que se submetia o homem primitivo.
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O homem, desbancado de seu lugar de primazia, passa a ser um coadju- vante do moderno mundo da tecnologia. A ela se submete, com ela se satisfaz e em função dela vive; através dela, cria um mundo artificial que, às vezes, acaba se vol- tando contra ele próprio. É um terreno minado que pode explodir sobre sua própria cabeça. Jamais o homem conseguiu tanto poder através de seu arsenal tecnológico. Virtualmente, nada mais existe que não possa ser submetido e controlado. Na sua relação com o mundo, tudo a seu tempo, pode ser solucionado. Todavia, paradoxal- mente, o século da ciência e da técnica terminou e já se adianta em um novo milênio sem que se resolvessem os mais graves e primários problemas da humanidade. Ja- mais houve tanta miséria, tantas diferenças sociais e econômicas. Nunca o homem morreu tanto por falta de condições mínimas de sobrevivência. Além disso, ele paga um tributo muito caro à mega máquina que construiu: morre no trânsito e se mutila no lugar em que trabalha para ganhar o pão de cada dia. Essas são as contradições que precisam ser equacionadas pelo homem moderno. O homem moderno se vê, de um lado, enredado por tecnologias que ele mesmo criou e, por outro, com a gigantesca tarefa de domesticá-las e colocá-las a seu serviço, minimizando a sua voracidade. Duas das primeiras contradições a serem desintegradas são os mitos do progresso indefinido e a crença inabalável na neutralidade científica. É preciso relativizar e reduzir o nível de absolutiza- ção^2 que tais mitos atingiram. O progresso a qualquer preço, possibilitado por meios tecnológicos cada vez mais sofisticados e poderosos, deixou de ser uma condição humanizadora para se tornar um fim em si mesmo. Do ponto de vista do senso comum, quando se fala em ciência, pensa- se logo nas ciências exatas, também denominadas ciências duras, de modo que os modelos de conhecimento científico que se impõem como ideais absolutos passam a ser a matemática, a física, a química, a biologia etc. Este conceito de ciência carrega em seu bojo a convicção de que os seus procedimentos, meios e fins, são pautados pela máxima objetividade, pelo rigorismo metodológico e pela mais absoluta neutralidade. Somente as ciências humanas, também deno- minadas ciências moles, são consideradas passíveis de relativização, por causa da natureza de seus conteúdos e pela postura daqueles que com elas trabalham. Assim, são questionados os historiadores, os estudiosos do comportamento hu- mano, os sociólogos e humanistas, mas nunca os que atuam num centro de pes-
2 Refere-se à crença nas verdades e no poder da ciência e da técnica como uma nova re- ligião, com seus deuses, sua liturgia, seus tributos e sua adoração...
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as mudanças climáticas resultantes do superaquecimento do planeta e os con- sequentes fenômenos aterradores que têm acontecido; discute a ambivalência dos avanços da engenharia genética, no que diz respeito à ética da utilização de embriões humanos para a realização de procedimentos com células tronco; está notando, cada vez mais, o estresse resultante da poluição sonora e visual; não tolera, há muito, as perigosas experiências atômicas que proliferam pelo mundo na forma de usinas fora de controle, armamentos e explosões experimentais que ameaçam a vida na terra; toma consciência, cada vez de forma mais generali- zada, das contradições resultantes de uma farmacopeia que se coloca mais a serviço da saúde econômica dos laboratórios do que em favor dos benefícios que ela apregoa; sente na pele e teme as consequências da redução de elementos das camadas superiores da atmosfera que filtram as radiações nocivas aos seres vivos. E assim, toda sorte de paradoxos tecnológicos são percebidos como facas de dois gumes a espreitar e ameaçar o homem moderno. Diante dessa realidade, o grande desafio que se impõe é ajudar o ho- mem de hoje a ampliar, cada vez com mais clareza, a consciência de si e do mun- do que o rodeia e, sobretudo, a superar as contradições concretas e ideológicas em que se vê mergulhado. Na medida em que o conhecimento científico se torna o ponto de partida, o meio e o fim de tudo, é preciso recuperar os verdadeiros valores da ciência e da técnica. É preciso que o homem seja recolocado no centro e no comando do sistema global. Isso só será possível com o desenvolvimento de uma postura ética na relação consigo mesmo, com os outros seres humanos, com todos os demais seres vivos e com todo o universo que o cerca.
Você compreenderá mais claramente o processo de ideologização se obser- var, por exemplo, um programa de televisão, uma novela, um noticiário ou discurso político e tentar identificar os valores subjacentes aos conteúdos veiculados. Observe o que é dito e o que é mostrado e verifique os conceitos de homem, de mulher, de consumo, de relações pessoais, de política etc. Se você prestar bem atenção, será fácil perceber que as maneiras de pensar e de agir do povo são formadas muito mais por aquilo que é ingerido homeopa- ticamente sem que os indivíduos se deem conta de que estão bebendo o que
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outros querem que eles pensem e façam. Comece esse exercício de analisar criticamente tudo o que lhe é passado e você estará desenvolvendo mecanis- mos de defesa para não se tornar alguém alienado, mas um cidadão lúcido e participativo.
Assim como a ciência, também a religião pode se transformar em aparelho de ideologização. No conceito original e simples de ideologia, a religião assume seu papel verdadeiro de transmitir ideias, ideais e valores. É a dimensão da fé que nos projeta para o infinito e nos confere um significado maior para a travessia huma- na. Assim, todas as religiões, em princípio, apresentam valores que conduzem para uma realidade imanente amorosa, solidária, ética e de esperança e apontam tam- bém para a dimensão do transcendente, ou seja, assim como iluminam a travessia terrena, indicam o caminho para a vida futura, na dimensão espiritual. Porém, a melhor das doutrinas religiosas, quando mal apresentada ou mal compreendida, pode se transformar em instrumento de dominação, de alienação e de manipulação. Isso quer dizer que uma doutrina religiosa pode se transformar em instrumento de ideologização. Em nome de Deus já se comete- ram os maiores absurdos ao longo da história humana. Mesmo o cristianismo, doutrina de Jesus Cristo, foi utilizada para concentrar poder e riquezas, além de subjugar e matar muita gente. Talvez poucas instituições se prestam tanto para desvios e manipulações quanto as instituições religiosas. Assim como, em nome de Deus, a nossa vida adquire um significado maior, também se legitimam con- troles e se propagam interpretações enganosas e escravizadoras. A política também é uma realidade essencial na construção e no exer- cício da cidadania e que se presta em seus discursos e, sobretudo, em suas prá- ticas, para a exploração de povos inteiros. Assim, um grupo de espertos, açam- barcando os espaços políticos, conduzem-nos em seus próprios benefícios, ao invés de transformar o poder em força de promoção do bem comum, que é o seu verdadeiro significado. Os meios de comunicação social, como formadores de opinião, se pres- tam de um modo muito especial para a ambiguidade da manipulação ideologi- zante. Tudo o que é veiculado pode ser maquiado de forma que seja compreen- dido de maneira equivocada. Tudo vai depender dos conteúdos escolhidos, da como são trabalhados e comunicados e, sobretudo, dos objetivos que sempre
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Você encontrará todo o conteúdo no Ambiente Virtual de Aprendizagem, na forma de vídeos, podcast, nos objetos de aprendizagem e no fórum de discus- são do tema, na busca de respostas para problemas de conteúdo, por e-mail e no chat.
JOHANN, Jorge Renato (org.). Introdução ao método científico. 3. ed. Canoas: ULBRA, 2003.
O organizador desse livro escreve um dos capítulos intitulado Ciência e Ide- ologia, em que explicita todo o processo de construção do conhecimento, desde a Antiguidade até os dias atuais, demonstrando como os mecanismos de ideologização sempre estiveram presentes, movendo a roda da história da humanidade.
MANHEIM, Karl. Ideologia e utopia. São Paulo: LTC, 1986.
Karl Manheim faz a distinção entre ideologia total e ideologia parcial. A primeira se refere à ideologia como a simples construção de ideias, ideais e valores; a segunda se refere ao processo de mascaramento da realidade, de manipulação e de controle. Aponta a utopia de uma realidade em que, pelo processo de conscientização, os seres humanos podem se defender dos meca- nismos que os reduzem a meros objetos inconscientes.
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O escola se apresenta como uma das forças sociais mais importantes no processo de construção da utopia de um novo homem e de uma nova sociedade. As mudanças haverão de acontecer através da educação. Será educando e for- mando cidadãos que teremos um povo fazedor de sua própria história. Todavia, como isso se viabilizará se historicamente a escola e os processos educativos sem- pre se prestaram como instrumentos de reprodução da ideologia dominante? A educação brasileira começa com a chegada dos jesuítas, em 1549, a partir do momento em que um papa romano declara que índio era gente. Por- tanto, se os indígenas passaram a ser considerados seres humanos, era preciso salvá-los. Isso significava a sua alfabetização no intuito de serem evangelizados. A educação jesuítica se estende por mais de dois séculos, reproduzindo uma ideologia religiosa e, ao mesmo tempo, veiculando a ideologia política de uma colonização predatória da coroa portuguesa. Com a chegada da família imperial ao Brasil, em 1808, a educação bra- sileira vai ser promovida significativamente. Porém, o modelo econômico e po- lítico agroexportador engendrado ao longo de todo o período colonial, continua durante o período imperial, favorecendo os interesses do coronelismo. Também a educação se prestará somente como um produto de consumo das elites, ou seja, quem era educado eram os filhos dos donos das grandes fazendas. Assim a educação reproduz a estrutura de classes e a estrutura de poder. Com a substituição do modelo econômico agroexportador coronelis- ta para o modelo industrializado, a partir de 1930, a educação vai ser pensada como uma força social a serviço de uma sociedade urbanizada e industrializa- da. Nesta condição, a educação se constitui num instrumento de formação da força de trabalho. A culminância desse modelo de desenvolvimento autônomo, abrangente e de ampla mobilização política e educacional se deu com a proposta da pedagogia do oprimido, de Paulo Freire, no princípio dos anos sessenta. Com a revolução militar de 1964, o autoritarismo se sobrepôs à socie- dade brasileira de uma maneira violenta, a serviço de um modelo de desenvol- vimento econômico associado ao capital multinacional e excludente do ponto de vista social. A educação passa a ser utilizada, a partir de então, como força de preparação de mão de obra barata, a serviço de um capitalismo concentrador e voraz. Produz-se um verdadeiro apagão cultural durante as décadas de sessenta,
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se supervalorizam as ciências exatas. As ciências humanas, em que predomi- nam os aspectos da subjetividade, simplesmente são consideradas de segunda categoria e os cursos de quem as procuram como de status menor. Formam-se profissionais “frios e calculistas”, para os quais só é digno de crédito o que pode ser objetivado, mensurado e avaliado do ponto de vista numérico e financeiro. Adaptam-se os indivíduos a uma sociedade hierarquiza- da em que, por exemplo, um engenheiro ou um médico tem muito mais valor do que um pedagogo ou músico. As profissões de alta tecnologia são para aqueles mais bem preparados e que necessária e fatalmente serão os mais bem sucedi- dos. As ciências humanas são para aqueles que não tiveram competência para disputar um concurso mais difícil e, portanto, haverão de ser sempre em manti- dos em tarefas menos importantes e muito mal pagas. O comportamento do aluno será determinado por normas rígidas, em que ele deverá controlar “as suas emoções, a sua imaginação, a sua sensibilidade e a sua afetividade” (BERTRAND; VALOIS, 2005, p. 101). O aluno será conside- rado um número e como tal ele deverá se ajustar aos padrões e normas aceitos pela maioria. Sua história, sua carga emocional e suas características individuais precisam se diluir no nivelamento grupal. O aluno terá que se conformar às ex- pectativas da família, da sociedade do entorno e responder às leis do mercado. A pretensa neutralidade científica, apregoada pelo paradigma tecnológico, não existe. Sempre que se constrói o conhecimento, esta construção é teleológica. Isto quer dizer que sempre a tarefa do cientista é condicionada pelos interesses de quem a financia e sempre haverá interesses em jogo. Toda prática científica está im- pregnada dos valores do contexto em que ela se realiza. Mesmo que um profissional da educação que atue dentro de e a partir de um paradigma tecnológico, industrial e racional, afirme a sua desvinculação de qualquer tipo de valores, estará implicita- mente fazendo uma opção pela defesa da situação dominante. De acordo com o paradigma tecnológico^3 , os critérios para o di- recionamento das pesquisas científicas são determinados pelos ganhos finan- ceiros futuros e têm que ser levados adiante de qualquer jeito. A disseminação desta perspectiva desenvolve um senso comum de que tudo o que é produzido pela tecnologia é resultado de processos objetivos, amorais e desvinculados de
3 Paradigma tecnológico é o modelo de sociedade que se expressa na supervalorização de tudo o que é científico e técnico , em função de interesses econômicos imediatos a serem atingidos incondicionalmente, ou seja, a qualquer custo, mesmo que sejam prejuízos humanos e naturais.
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qualquer contexto em que ela se insere. É preciso que se faça urgentemente uma ciência da ciência, isto é, uma profunda reflexão ética que lhe devolva seu verdadeiro significado a serviço de um desenvolvimento sustentável.
Mudança de Paradigma
A educação aparecerá como uma possibilidade para que se construa um novo milênio de acordo com as exigências da dignificação humana. A aprendi- zagem se apresentará como um direito e a educação como um dever para todos os membros de uma sociedade. O progresso possível para a sociedade mundial se fará se a educação for colocada como a grande ferramenta construtora desta realidade. Este processo educativo, tanto formal, quanto informal, entendido tanto como dever quanto como direito de todos os seres humanos, haverá de se estender por toda a vida. Existir como ser humana haverá de ser, daqui para frente, um esforço contínuo de se educar. Neste contexto atual, Baptista (2005, p. 62) reafirma a importância e o significado da presença do professor como um agente especial desta construção permanente, diz ela: “os professores farão a diferença”. O mundo incomensu- rável das informações poderá passar através das modernas tecnologias de co- municação, mas estas não poderão substituir a dimensionalidade do afeto e das trocas através das experiências vividas. A educação haverá de acontecer de fato no universo das relações que se estabelecem cotidianamente entre todos os en- volvidos no processo educativo. Baptista (2005, p. 63) conclui que “a autoridade pedagógica do educador está na sua atitude e na sua presença física”. O lugar da escola será o lugar em que todas as vivências são experiências entre pessoas vivas e atuantes, que se alegram, que sofrem, que vivem conflitos, que expe- rienciam sucessos e onde também terão que administrar resultados negativos, com tudo o que esta convivência representa de possibilidades e de dificuldades. E neste palco, o professor aparecerá como um dos atores principais e como um grande ponto de referência. Esta condição implicará a exigência de uma postura ética fundamental. Uma exigência que brota deste contexto de uma sociedade aprendente é o compromisso que a escola terá de se abrir para todos os demais participantes desta sociedade. Impõe-se à escola a exigência ética de se transformar sempre mais em uma instituição inclusiva, onde caberão pessoas de todas as idades e de
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sofríveis. Será natural, na mente e no coração do mestre, o sentimento de rejei- ção e de revide. Porém, aqui se impõe a vigilância ética de lembrar sempre que ele é um educador e que se impõe permanentemente o esforço de se sobrepor a todos os dissabores com maturidade. À indiferença e à resistência cabem postu- ras firmes e serenas. Lançar a semente em terra árida muitas vezes será a marca da tarefa de um profissional da educação. Somente um profundo sentimento ético o manterá sereno e equilibrado diante dos desafios que se apresentam. Nas palavras de Freire (2001), esta postura ética do educador exige dele o exercício pessoal de desenvolver e manter uma atitude positiva e deci- sória frente à vida. A esperança de que os seres humanos e o mundo são trans- formáveis não poderá arrefecer na tarefa cotidiana de um educador. Somos positivos não por ingenuidade ou por acreditarmos que tudo possa se resolver por um toque de mágica. Seremos homens e mulheres positivos e esperanço- sos exatamente porquanto compreendemos que os desafios são permanentes e que as dificuldades estarão continuamente a se interpor em nossos caminhos. A educação e os educadores podem muito, mas não podem tudo. Esta consciência propiciará a tão necessária serenidade e certeza de que, apesar de muitos desen- cantos, poderemos continuar a semeadura em todo tipo de terreno, do mais fér- til ao mais árido, escorregadio e arenoso. Os frutos aparecerão em quantidades por vezes surpreendentes e de onde menos se espera. É conhecido, no ciclo biológico das águias, o momento em que os filho- tes são empurrados pela mãe para o precipício para que aprendam a voar. É um momento doloroso e difícil para ela. Os filhotes ainda nunca voaram. Porém, se não correrem o risco de despencar, com certeza jamais se soltarão e saltarão para as alturas. É a isso que Baptista (2005, p. 84) se refere quando fala do dever de antecedência. É na proximidade e na relação simbiótica^4 com o educando que se desenvolve a aprendizagem e acontece o processo educativo. A prática educativa exige o exercício da aventura para o desconhecido. Partindo de pontos de referência que nos dão a segurança necessária através de experiências já vividas, saltar no vazio do novo fará parte de prática cotidiana de um educador. A fidelidade a uma herança cultural não significa um atrelamento passivo a um passado anacrônico. Os valores recebidos são atualizados e refor- çados por uma nova interpretação crítica e criativa. Promover e estimular este
4 Relação simbiótica é uma profunda aproximação empática , solidária e de cumplicidade com o educando para fazer acontecer o processo educativo.
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discernimento responsável constitui-se em um imperativo ético fundamental que cabe à tarefa educativa. A vigilância ética da prática educativa haverá de evitar o processo de domesticação e de endoutrinamento , no dizer de Baptista (2005, p. 88).
Um professor forma através dos próprios valores. Antes de tudo, ele próprio será um modelo. Mais do que suas palavras, será a sua postura ética o prin- cipal modelador de valores para seus alunos. Por mais que se multipliquem os modelos impostos por uma sociedade pluralista e paradoxal, o professor haverá de se lembrar que a sua presença imprime marcas muitas vezes inde- léveis nas mentes e nos corações daqueles a quem ele atinge em seu espaço especial de atuação.
Diz Baptista (2005, p. 93) que “educar é entusiasmar, encher de espe- rança, alegrar dias de descoberta, animar fomes novas, despertar desejos. Mas educar é também contrariar, constranger e desagradar”. Isto quer dizer que ser professor implica também o exercício da autoridade. Exercer a sua autoridade não significa sucumbir em um autoritarismo, fruto de arrogância e de inseguran- ça. O educando necessita do balizamento seguro de quem indica os caminhos que podem e os que não podem ser seguidos. A contrariedade e a frustração muitas vezes farão parte de nossas vidas. Lidar com situações que nos impõem limites é condição de amadurecimento. Para isso, o professor terá que definir com clareza as regras que determinam o caminho a ser percorrido. A compreensão dos por- quês das exigências pedagógicas legitima o consenso em torno de sua anuência e acatamento. Nenhum tipo de proximidade afetiva com os alunos pode represen- tar um afrouxamento de parâmetros seguros para uma convivência enriquecedo- ra. A educação se dará na medida exata da firmeza e ao mesmo tempo da ternura com que os educadores se movimentarem em seu meio pedagógico. A coerência entre o discurso e ação exige que a escola seja por excelên- cia um laboratório dos valores democráticos. A escola, como um dos primeiros e principais espaços de socialização, haverá de introduzir o educando nas primei- ras experiências democráticas de participação da vida coletiva.
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qualquer outro componente do processo educativo, serão os seres humanos que haverão de ter a precedência e o fator humano será o determinante maior de seus resultados; defesa do primado dos critérios pedagógicos sobre os critérios de or- dem financeira ou administrativa : infelizmente, em uma sociedade capitalista, a precedência na ordem dos valores que norteiam as ações educativas e pedagógicas são os valores materiais e finan- ceiros que predominam. Em outras palavras, a escola se tornou um bom negócio em nossa sociedade, onde o lucro acaba sendo o supremo escopo de toda atividade humana. O próprio ser hu- mano é reduzido a sua capacidade de produzir e consumir. Em uma sociedade do ter, o ser é retirado de seu lugar de original grandeza. Isto se manifesta nos mais variados momentos da vida da escola, da estrutura curricular ao processo de avaliação, das relações interpessoais às escolhas e decisões administrativas; valorização da escola como laboratório de democracia : a busca de aproximação entre educação e ética inclui a substituição da auto- cracia pela participação de todos os componentes do espaço edu- cativo. Não haverá melhor lugar do que uma escola para o exer- cício da participação e da responsabilidade individual e coletiva. Esta experiência se dará desde a postura diretiva compartilhada até o envolvimento de todos os educandos no assumir de todas as tarefas que dizem respeito ao dia a dia da escola; ênfase no componente axiológico dos projetos educativos : todos os projetos educacionais enfatizarão os valores que os nortearão. O sentido de direção é condição fundamental do sucesso de qual- quer iniciativa dentro da escola. Esta direção evidenciará uma grande e significativa razão de crescimento para todos os envol- vidos no projeto. Fazer por fazer, sem um porquê que lhe confere um significado relevante, na maioria das vezes, será algo desmo- tivador e inócuo. A razão da existência da escola estará bem clara para todos. Esta razão será definida em valores que a tornem uma grande motivação para se viver e para lutar pela sua consecução; concepção da escola como comunidade estruturada em torno de va- lores, relacionamentos e ideais : estes valores estarão expressos no projeto pedagógico. Ocorre que, em nossas escolas, um projeto pedagógico geralmente existe por ser uma exigência legal até
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mesmo para seu credenciamento. Entretanto, não passa de um documento arquivado junto aos demais papéis que compõem o acervo burocrático da autorização de seu funcionamento. Um projeto pedagógico que clarifique e identifique uma comunidade estruturada em torno de valores e ideais, haverá de ser um baliza- mento vivo e presente nas ações e nas práticas cotidianas de todos os que compõem o corpo escolar; entendimento da escola como instituição aprendente, prospectiva- mente orientada por uma ética do futuro, do bem comum, da solida- riedade, da paz, da esperança e da justiça : este entendimento re- sume todo o significado maior da existência de uma instituição educativa que pretenda aproximar a educação à ética. Um espaço especificamente organizado para a construção do conhecimento e da vida de cidadãos será orientado por uma perspectiva que apon- ta para a utopia de um amanhã melhor para todos.
Baptista (2005) reconhece no plano curricular um campo privilegiado para o exercício do compromisso ético e moral dos professores e elenca uma sé- rie de práticas que o viabilizam: estimular a curiosidade e o espírito crítico dos alunos; prestar atenção nas necessidades educativas especiais; propiciar acesso a recursos de aprendizagem; acreditar no sucesso educativo de todos os alunos; buscar meios para atualização das competências pedagógicas; inscrever a ética como conteúdo obrigatório dos cursos de formação de professores. Muitas vezes a prática pedagógica de muitos profissionais deixa de ser verdadeiramente uma experiência educativa por não perceberem ou compreenderem o que efetiva- mente se espera deles. Quando se fala de exigências éticas, estes não conseguem relacionar a sua prática específica como professores desta ou daquela disciplina com os valores que precisam impregnar a sua presença em sala de aula. Assim, o discurso monológico acaba embotando e silenciando toda a curiosidade, cria- tividade e criticidade dos alunos; tendo como desculpa a sobrecarga de trabalho e o grande número de alunos a serem atendidos, não se presta atenção para as necessidades e idiossincrasias dos que estão à sua frente; os recursos tecnoló- gicos para uma melhoria na aprendizagem não são manuseados por falta de treinamento ou por simples acomodação; a busca de aperfeiçoamento pedagó- gico não acontece pela carência de oportunidade, por falta de tempo ou simples- mente por desinteresse de quem deveria buscá-los. Assim se repetem durante