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Apostila de IPT da Prof. Hélide
Tipologia: Notas de estudo
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Não perca as partes importantes!



















Ler significa aproximar-se de algo que acaba de ganhar existência. Ítalo Calvino
O ato de ler é soberano. Implica desvendar e conhecer o mundo. É pela leitura que desenvolvemos o processo de atribuir sentido a tudo o que nos rodeia: lemos um olhar, um gesto, um sorriso, um mapa, uma obra de arte, as pegadas na areia, as nuvens carregadas no céu, o sinal de fumaça avistado ao longe e tantos outros sinais. Lemos até mesmo o silêncio!
Nos dias de hoje, a comunicação, mesmo presencial, está mediada por uma infinidade de signos. Na era da comunicação interplanetária, estabelecemos infinitas conexões com pessoas de todos os cantos do mundo, o que nos obriga a decodificar um universo poderoso de mensagens e a nos adaptar a elas: comunidades virtuais do Orkut, conversas pelo MSN, compras e negócios fechados pela rede e, se essa informação foi dominantemente verbal até então, agora se torna também visual com a chegada do YouTube.
Sabemos o quanto a força da imagem exerce fascínio e entendemos, definitivamente, que não há mais como sobreviver neste mundo sem que haja, de nossa parte, uma adaptação constante no que se refere ao acesso às diferentes linguagens disponíveis.
É importante saber o nome das coisas. Ou, pelo menos, saber comunicar o que você quer. Imagine-se entrando numa loja para comprar um... um... como é mesmo o seu nome? “Posso ajudá-lo, cavalheiro?” “Pode. Eu quero um daqueles, daqueles...” “Um... como é mesmo o nome?” “Sim?” “Pomba! Um... um... Que cabeça a minha. A palavra me escapou por completo. É uma coisa simples, conhecidíssima.” “Sim senhor.” “O senhor vai dar risada quando souber.” “Sim senhor.” “Olha, é pontuda, certo?” “O quê, cavalheiro?” “Isso que eu quero. Tem uma ponta assim, entende? Depois vem assim, assim, faz uma volta, aí vem reto de novo, e na outra ponta tem uma espécie de encaixe, entende? Na ponta tem outra volta, só que esta é mais fechada. E tem um, um... Uma espécie de, como é que se diz? De sulco. Um sulco onde encaixa a outra ponta, a pontuda, de sorte que o, a, o negócio, entende, fica fechado. É isso. Uma coisa pontuda que fecha. Entende?” “Infelizmente, cavalheiro...” “Ora, você sabe do que estou falando.” “Estou me esforçando, mas...” “Escuta. Acho que não podia ser mais claro. Pontudo numa ponta, certo?” “Se o senhor diz, cavalheiro...” “Como, se eu digo? Isso já é má vontade. Eu sei que é pontudo numa ponta. Posso não saber o nome da coisa, isso é um detalhe. Mas sei exatamente o que eu quero.” “Sim senhor. Pontudo numa ponta.” “Isso. Eu sabia que você compreenderia. Tem?” “bom, eu preciso saber mais sobre o, a, essa coisa. Tente descrevê-la outra vez. Quem sabe o senhor desenha para nós?” “Não. Eu não sei desenhar nem casinha com fumaça saindo da chaminé. Sou uma negação em desenho.” “Sinto muito.” “Não precisa sentir. Sou técnico em contabilidade, estou muito bem de vida. Não sou um débil mental. Não sei desenhar, só isso. E hoje, por acaso, me esqueci do nome desse raio. Mas fora isso, tudo bem. O desenho não me faz falta. Lido com números. Tenho algum problema com os números mais complicados, claro. O oito, por exemplo. Tenho que fazer um rascunho antes. Mas não sou um débil mental, como você está pensando.” “Eu não estou pensando nada, cavalheiro.” “Chame o gerente.” “Não será preciso, cavalheiro. Tenho certeza de que chegaremos a um acordo. Essa coisa que o senhor quer, é feito do quê?” “É de, sei lá. De metal.” “Muito bem. De metal. Ela se move?” “Bem... É mais ou menos assim. Presta atenção nas minhas mãos. É assim, assim, dobra aqui e encaixa na ponta, assim.” “Tem mais de uma peça? Já vem montado?” “É inteiriço. Tenho quase certeza de que é inteiriço.” “Francamente.” “Mas é simples! Uma coisa simples. Olha: assim, assim, uma volta aqui, vem vindo, vem vindo, outra volta e clique, encaixa.” “Ah, tem clique. É elétrico.” “Não! Clique, que eu digo, é o barulho de encaixar.” “Já sei!” “Ótimo!” “O senhor quer uma antena externa de televisão.” “Não! Escuta aqui. Vamos tentar de novo...” “Tentemos por outro lado. Para o que serve?” “Serve assim para prender. Entende? Uma coisa pontuda que prende. Você enfia a ponta pontuda por aqui, encaixa a ponta no sulco e prende as duas partes de uma coisa..” “Certo. Esse instrumento que o senhor procura funciona mais ou menos como um gigantesco alfinete de segurança e...”
“Mas é isso! É isso! Um alfinete de segurança!” “Mas do jeito que o senhor descrevia parecia uma coisa enorme, cavalheiro!” “É que eu sou meio expansivo. Me vê aí um... um... Como é mesmo o nome?”
(Luís Fernando Veríssimo. Para gostar de ler. v.7. São Paulo, Ática, 1982.)
A linguagem nasce da necessidade humana de comunicação; nela e com ela, o homem interage com o mundo. Para tratarmos das diferentes linguagens de que dispomos, verbais e não verbais, precisamos, inicialmente, pensar que elas existem para que possamos estabelecer comunicação. Mas o que é, em si, comunicar?
Se desdobrarmos a palavra comunicação, teremos:
Comunicação: “comum” + “ação”, ou melhor, “ação em comum”.
De modo geral, todos os significados encontrados para a palavra comunicação revelam a idéia de relação. Observe:
Comunicação: deriva do latim communicare , cujo significado seria “tornar comum”, “partilhar”, “repartir”, “trocar opiniões”, “estar em relação com”.
Podemos assim afirmar que, historicamente, comunicação implica em participação , interação entre dois ou mais elementos, um emitindo informações, outro recebendo e reagindo. Para que a comunicação exista, então, é preciso que haja mais de um pólo: sem o “outro” não há partilha de sentimentos e idéias ou de comandos e respostas.
Leia o cartum a seguir e procure reconhecer como o humor se produz na situação apresentada.
Para que a comunicação seja eficiente, é necessário que haja um código comum aos interlocutores.
O que é a linguagem?
Linguagem é a capacidade humana de articular conhecimentos e compartilhá-los socialmente. Assim, todo e qualquer processo humano capaz de expressar e compartilhar significação constitui linguagens: tirar fotos, pintar quadros, produzir textos e músicas, escrever jornal, dançar, etc. As linguagens fazem parte das diversas formas de expressão representadas pelas artes visuais, pela música, pela expressão corporal e pela escrita.
A comunicação dá-se, assim, por intermédio de algum tipo de linguagem que, como vimos, altera-se de acordo com o uso que as pessoas fazem dela. Verbais ou não verbais, criamos sinais que têm significado especial para o grupo humano do qual fazemos parte.
Veja, por exemplo, a tela de Portinari:
Ao pintar os trabalhadores rurais em atividade, Portinari revela, com precisão, uma importante questão social: a vida sofrida dos lavradores nas lavouras do café que, ao cumprir longas jornadas de trabalho, misturam-se à terra, numa interminável fila de homens e mulheres anônimos, com mãos e pés enormes, sugerindo, talvez, o excesso e a força de tanto trabalho. Não há céu, não há horizonte; o predomínio da cor marrom reforça o drama vivido por esses trabalhadores.
Diante do não verbal, como espectadores, experimentamos a emoção que o quadro desperta, não porque seu significado esteja expresso em palavras, mas porque ele exibe a síntese do sentimento do artista.
Podemos concluir, assim, que a linguagem é múltipla e, a partir da combinação de seus variados códigos, promove a interação entre os seres humanos, permitindo a expressão do que pensa e do que sente.
Nossa língua apresenta uma imensa possibilidade de variantes lingüísticas, tanto na linguagem formal (padrão) quanto na linguagem informal (coloquial). Elas não são, assim, homogêneas. Especialmente no que se refere ao coloquial, as variações não se esgotam. Alguns fatores determinam essa variedade. São eles:
É importante salientar que cada variedade tem um conjunto de situações específicas para seu uso e, de modo geral, não pode ser substituída por outra sem provocar, ao menos, estranheza durante a comunicação. O texto de Luis Fernando Veríssimo ilustra uma dessas situações inusitadas:
Aí, Galera
Jogadores de futebol podem ser vítimas de estereotipação. Por exemplo, você pode imaginar um jogador de futebol dizendo “estereotipação”? E, no entanto, por que não?
_- Aí, campeão. Uma palavrinha pra galera.
_- Posso dirigir uma mensagem de caráter sentimental, algo banal, talvez mesmo previsível e piegas, a uma pessoa à qual sou ligado por razões, inclusive, genéticas?
Correio Braziliense, 13/05/1998.
Podemos concluir daí que cada variedade tem seus domínios próprios e que não existe a variedade “certa” ou “errada”. Para cada situação comunicativa existe a variante “mais” ou “menos” adequada. É certo, no entanto, que é atribuída à variante padrão um valor social e histórico maior do que à coloquial. Cabe, assim, ao indivíduo – competente lingüisticamente - optar por uma ou outra variante em função da situação comunicativa da qual participa no momento.
Por fim, citando Bechara (1999), a linguagem é sempre um estar no mundo com os outros, não como um indivíduo em particular, mas como parte do todo social, de uma comunidade.
A palavra “texto” é bastante familiar no âmbito escolar e fora dele, embora, de modo geral, não o reconheçamos em diversas de suas ocorrências. Certamente já ouvimos: “Que texto interessante! Seu texto está confuso! Faça um texto sobre “suas férias”...
No entanto, no que diz respeito especialmente à leitura, muitas vezes os alunos lêem fragmentos do texto e buscam entender partes isoladas que, sem relação com as demais — com o todo —, levam o leitor, provavelmente, a chegar a conclusões precipitadas e até mesmo erradas sobre o sentido do texto.
Os estudos mais avançados na área da Lingüística Textual, a partir da década de 60, detiveram-se em explicar as características próprias da linguagem escrita concretizada em forma de texto e não em forma de um mero amontoado de palavras e frases.
Para a Lingüística Textual, a linguagem é o principal meio de comunicação social do ser humano e, portanto, seu produto concreto — o texto — também se reveste dessa importante característica, já que é por intermédio dele que um emissor transmite algo a um receptor, obedecendo a um sistema de signos/regras codificado. O texto constitui-se, assim, na unidade lingüística comunicativa básica.
Inicialmente, faz-se necessário expor o conceito de “texto”, por ser ele o elemento fundamental de comunicação. Vejamos o conceito proposto por Bernárdez (1982):
Texto é a unidade lingüística comunicativa fundamental, produto da atividade verbal humana, que possui sempre caráter social: está caracterizado por seu estrato semântico e comunicativo, assim como por sua coerência profunda e superficial, devida à intenção (comunicativa) do falante de criar um texto íntegro, e à sua estruturação mediante dois conjuntos de regras: as próprias do nível textual e as do sistema da língua”.
Alguns elementos nos parecem centrais nessa definição. São eles:
a. Um texto não é um aglomerado de frases; o significado de suas partes resulta das correlações que elas mantêm entre si. Uma leitura não pode basear-se em fragmentos isolados do texto. Observe a seqüência:
Marilene ainda não chegou. Comprei três melancias. O escritório de Sérgio encerrou o expediente por hoje. A densa floresta era assustadora. Ela colocou mais sal no feijão. O vaso partiu-se em pedacinhos.
paletó [...] Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, telefone, agenda, copo com lápis, canetas, blocos de notas, espátula, pastas, caixas de entrada, de saída [...] Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques, memorandos, bilhetes [...] Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projetos de filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-negro, giz,
papel.
Enfim, o texto Circuito fechado é uma crônica — um texto narrativo curto —, cujo tema é o cotidiano e leva o leitor a refletir sobre a vida. Usando somente substantivos, o autor produziu um texto que termina onde começou. Essa estrutura circular tem relação com o título e com a rotina que aprisiona o homem nos dias atuais.
b. O texto tem coerência de sentido e o sentido de qualquer passagem de um texto é dado pelo contexto (unidade maior em que uma unidade menor está inserida. Exemplo: a frase serve de contexto para a palavra, o texto para a frase etc.)
Se não levarmos em conta as relações entre as partes do texto, corremos o risco de atribuir a ele um sentido oposto àquele que efetivamente tem.
c. Todo texto tem um caráter histórico, não no sentido de narrar fatos históricos, mas no de revelar as concepções e a cultura de um grupo social numa determinada época.
http://www.propagandasantigas.blogger.com.br/
A interação pela linguagem materializa-se por meio de textos, sejam eles orais ou escritos. É relevante, no entanto, reconhecer que fala e escrita são duas modalidades de uso da língua que, embora se utilizem do mesmo sistema lingüístico, possuem características próprias. As duas não têm as mesmas formas, a mesma gramática, nem os mesmos recursos expressivos. Para a compreensão dos problemas da expressão e da comunicação verbais, é necessário evidenciar essa distinção.
Para dar início às suas reflexões, leia o texto de Millôr Fernandes, a seguir.
A vaguidão específica
"As mulheres têm uma maneira de falar que eu chamo de vago-específica." Richard Gehman
— Maria, ponha isso lá fora em qualquer parte. — Junto com as outras? — Não ponha junto com as outras, não. Senão pode vir alguém e querer fazer coisa com elas. Ponha no lugar do outro dia. — Sim senhora. Olha, o homem está aí. — Aquele de quando choveu? — Não, o que a senhora foi lá e falou com ele no domingo. — Que é que você disse a ele? — Eu disse pra ele continuar. — Ele já começou? — Acho que já. Eu disse que podia principiar por onde quisesse. — É bom? — Mais ou menos. O outro parece mais capaz.
— Você trouxe tudo pra cima? — Não senhora, só trouxe as coisas. O resto não trouxe porque a senhora recomendou para deixar até a véspera. — Mas traga, traga. Na ocasião nós descemos tudo de novo. É melhor, senão atravanca a entrada e ele reclama como na outra noite. — Está bem, vou ver como.
FERNANDES, Millôr. Trinta anos de mim mesmo. São Paulo, Círculo do Livro, 1976, p.77.
No texto, o autor revela ironia ao atribuir às mulheres o falar de modo vago e por meio de elipses. No entanto, tais características são próprias do texto oral, em que a interação face-a-face permite que os interlocutores, situados no mesmo tempo e espaço, preencham as lacunas ali existentes, já que ambos, ancorados em dados do contexto e no conhecimento partilhado que possuem, são capazes de compreender e produzir sentido ao que se diz.
Em nossa sociedade, fundamentalmente oral, convivemos muito mais com textos orais do que com textos escritos. Todos os povos 1 , indistintamente, têm ou tiveram uma tradição oral e relativamente poucos tiveram ou têm uma tradição escrita. No entanto, isso não torna a oralidade mais importante que a escrita. Mesmo que a oralidade tenha uma primazia cronológica sobre a escrita, esta, por sua vez, adquire um valor social superior à oralidade.
A escrita não pode ser tida como representação da fala. Em parte, porque a escrita não consegue reproduzir muitos dos fenômenos da oralidade, tais como a prosódia, a gestualidade, os movimentos do corpo e dos olhos, entre outros. Ela apresenta, ainda, elementos significativos próprios, ausentes na fala, tais como o tamanho e o tipo de letras, cores e formatos, sinais de pontuação e elementos pictóricos, que operam como gestos, mímica e prosódia graficamente representados.
Observe a transcrição de um texto falado, retirado de uma aula de História Contemporânea, ministrada no Rio de Janeiro, no final de década de 70. Procure ler o texto como se você estivesse “ouvindo” a aula.
... nós vimos que ela assinala... como disse o colega aí,,, a elevação da sociedade burguesa... e capitalista... ora... pode-se já ver nisso... o que é uma revolução... uma revolução significa o quê? Uma mudança... de classe... em assumindo o poder... você vê por exemplo... a Revolução Francesa... o que ela significa? Nós vimos... você tem uma classe que sobe... e outra classe que desce... não é isso? A burguesia cresceu... ela ti/a burguesia possuía... o poder... econômico... mas ela não tem prestígio social... nem poder político... então... através desse poder econômico da burguesia... que controlava o comércio... que tinha nas mãos a economia da França... tava nas mãos da classe burguesa... que crescera... desde o século quinze... com a Revolução Comercial... nós temos o crescimento da classe burguesa... essa burguesia quer... quer... o poder...ela quer o poder político... ela quer o prestígio social... ela quer entrar em Versalhes... então nós vamos ver que através... de uma Revolução...ela vai... de forma violenta... ela vai conseguir o poder... isso é uma revolução porque significa a ascensão de uma classe e a queda de outra... mas qual é a classe que cai? É a aristocracia... tanto que... o Rei teve a cabeça cortada... não é isso?
Dinah Callou (org.). A linguagem falada culta na cidade do Rio de Janeiro – materiais para seu estudo. Elocuções formais. Rio de Janeiro, Fujb, 1991, p. 104-105.
É possível notar que o texto é bastante entrecortado e repetitivo, apresenta expressivas marcas de oralidade e progride apoiando-se em questões lançadas aos interlocutores, no caso, aos alunos. Isso não significa que o texto falado é, por sua natureza, absolutamente caótico e desestruturado. Ao contrário, ele tem uma estruturação que lhe é própria, ditada pelas circunstâncias sociocognitivas de sua produção.
No entanto, tais características, próprias do texto oral, são consideradas inapropriadas para o texto escrito. E por quê?
Para entender essa questão, inicialmente, faz-se necessário observar a distinção entre essas duas modalidades de uso da língua, proposta por Marcuschi (2001:25):
Metade se aloja do lado direito dele.
Um monte de gente se junta do lado esquerdo.
Todos os dias, deparamo-nos com diferentes textos durante as mais diversas situações comunicativas das quais participamos socialmente: anúncios, relatórios, notícias, palestras, piadas, receitas etc. Veja, por exemplo, o que podemos fazer quando queremos:
Podemos consultar a seção cultural de um dos jornais da cidade ou uma revista especializada, ler num outdoor sobre o lançamento de um filme que lhe agrada ou, ainda, pedir a opinião de um amigo.
Podemos consultar um guia de ruas da cidade ou, ainda, perguntar a alguém que conheça o trajeto. Quem sabe até pedir que essa pessoa lhe desenhe o caminho?
Podemos mandar um e-mail, um convite pelo correio, telefonar ao colega, enviar um “torpedo” pelo celular.
Em todas as situações descritas acima, utilizamos textos em diferentes gêneros, isto é, para situações e/ ou finalidades diversas, lançamos mão de um repertório diverso de gêneros textuais que circulam socialmente e se adaptam às diferentes situações de comunicação. Cada um desses gêneros exige, para sua compreensão ou produção, diferentes conhecimentos e capacidades.
De modo geral, todos os gêneros textuais têm em comum, basicamente, três características:
Os gêneros surgem, situam-se e integram-se funcionalmente nas culturas em que se desenvolvem. O conjunto dos gêneros é potencialmente infinito e mutável, materializado tanto na oralidade quanto na escrita. Eles são vinculados à vida cultural e social e contribuem para ordenar e estabilizar as atividades comunicativas do seu dia-a-dia. Assim, são exemplos de gêneros textuais: telefonema, carta, romance, bilhete, reportagem, lista de compras, piadas, receita culinária, contos de fadas etc.
Para Bronckart (1999), a apropriação dos gêneros é um mecanismo fundamental de socialização, de inserção prática nas atividades comunicativas humanas.
Nesta aula daremos início ao estudo de alguns fatores importantes para a qualidade de um texto. Como você já viu, em aulas anteriores, o que é um texto, isto é, quais as características básicas que nos permitem considerar um texto como tal, passaremos aos itens relativos à qualidade textual, que compreendem: coesão e coerência; clareza e concisão e correção gramatical.
Coesão e coerência
Para entendermos a noção de coesão/coerência, primeiramente devemos considerar a hierarquia de valores que existe de uma palavra a um texto. É essa hierarquia que determina a coesão/coerência, tendo em vista ser o texto um “todo” de significado, ou seja, para considerarmos que um texto seja um “texto”,
temos que levar em consideração sua organização sintático-semântica em primeiro lugar.
Assim, a coesão equivale à relação entre as palavras, entre as orações, entre os períodos, enfim, entre as partes que compõem um texto. Quando chegamos ao “todo”, ao sentido global, temos a coerência do texto. Então, um fator depende do outro, isto é, a coerência pressupõe a coesão.
Exemplificando: o falante de língua portuguesa não reconhece coesão e coerência em uma seqüência como:
Dia é muito este especial vida minha em.
No entanto, esse mesmo falante reconheceria como coerente (e coesa) a seqüência:
Este dia é muito especial em minha vida.
Houve organização sintático-semântica na segunda seqüência, o que não ocorreu na primeira.
Segundo Koch (1998), “o conceito de coesão textual diz respeito a todos os processos de seqüencialização que asseguram (ou tornam recuperável) uma ligação lingüística significativa entre os elementos que ocorrem na superfície textual”.
Essa coesão pode ser estabelecida por meio de mecanismos referenciais e/ou seqüenciais, segundo os estudos lingüísticos. Para entendermos melhor, vejamos a proposta didática dessas classificações, feita por Platão & Fiorin (1999).
Coesão por retomada ou por antecipação (coesão referencial)
a. Retomada ou antecipação por uma palavra gramatical
São classes gramaticais (artigos, pronomes, numerais, advérbios, verbos) que funcionam, no texto, como elementos de retomada (anafóricos) ou de antecipação (catafóricos) de outros termos enunciados no texto.
Exemplo:
Estamos (a) reunidos para examinar o caso. Eu, a diretoria e vocês entendemos que não se trata de uma questão simples. Ela (b) deve ser analisada com muita cautela, por isso nós (c) nos encontramos aqui.
No pequeno trecho, podemos observar as expressões destacadas e verificar que:
(a) “Estamos” é o verbo que antecipa o sujeito “eu, a diretoria e vocês”. Na seqüência, é um elemento catafórico.
b. Retomada por palavra lexical (substantivos, verbos, adjetivos)
Além das palavras gramaticais, há outra forma de se retomar as palavras no texto. É o mecanismo de substituição por sinônimos, por hiperônimo, por hipônimo ou uma antonomásia.
No exemplo anterior, podemos observar um desses mecanismos. Em “... de uma questão simples”, o substantivo “questão” retoma “o caso” por um processo de substituição por sinônimos.
A relação de hipônimo/hiperônimo corresponde à relação de “contém” / “está contido”. O primeiro está contido no segundo e vice-versa. Por exemplo, cachorro é hipônimo de mamíferos e vice-versa.
Quanto à antonomásia, é o processo de substituição de um nome próprio por um comum ou de um comum por um próprio. Geralmente é utilizado para personalidades.
Exemplo: A Rainha dos baixinhos estréia novo filme_._ (Em vez de Xuxa estréia novo filme).
Dentre os mecanismos de coesão referencial, há também a elipse, quer dizer, o apagamento de palavras (que podem ser recuperadas pelo contexto) em uma seqüência, para que não haja repetição indevida.
Exemplo: O Presidente da República anunciou novas medidas. Ø Baixou os juros, Ø elevou o salário mínimo e, ainda, Ø regulamentou a criação de novos empregos.
Veja que o símbolo Ø representa o sujeito “O Presidente da República”, que foi omitido para evitar repetição na seqüência. Trata-se da elipse do sujeito.
Coesão por encadeamento de segmentos textuais (coesão seqüencial)
a. Coesão por conexão
Estabelecida por conectores (ou operadores discursivos), que fazem a relação entre segmentos do texto. Esses conectores, além de estabelecer relação lógico-semântica entre as partes do texto (de causa, finalidade, conclusão etc.), têm função argumentativa, que segundo FIORIN & PLATÃO (1999) podem ser dos seguintes tipos:
Os que marcam uma gradação numa série de argumentos orientada no sentido de uma determinada conclusão (até, mesmo, até mesmo, inclusive, ao menos, pelo menos, no mínimo, no máximo, quando muito). Ex.: Ele tem todas as qualidades para vencer o concurso: é alto, magro e até inteligente.
Os que marcam uma relação de conjunção argumentativa (ligam argumentos em favor de uma conclusão, como: e, também, ainda, nem, não só... mas também, tanto...como, além de, além disso, a par de). Ex.: O cliente não recebeu o produto solicitado e, ficou, ainda, insatisfeito com o que recebera.
Os que indicam uma relação de disjunção argumentativa (argumentos que levam a conclusões opostas, como: ou, ou então, quer...quer, seja...seja, caso contrário). Ex.: Todos os convocados pelas autoridades competentes devem apresentar-se ou serão intimidados a fazê-lo.
Os que marcam uma relação de conclusão (portanto, logo, por conseguinte, pois, quando não introduz a oração). Ex.: Ele foi classificado o melhor corredor. Recebera, pois, o maior prêmio. (Está implícito que quem fosse considerado o melhor corredor, receberia o melhor prêmio).
Os que estabelecem uma comparação entre dois elementos, com vistas a uma conclusão (a favor ou contra). Ex.: Não sei se o trabalho ficará bom, mas esse pedreiro é tão eficiente quanto o outro.
Os que introduzem uma explicação ou justificativa (porque, já que, que, pois). Ex. É melhor não mexer no material, já que não tem a intenção de comprá-lo.
Os que marcam uma relação de contrajunção (mas, porém, contudo, todavia, no entanto, entretanto, embora, ainda que, mesmo que, apesar de que). Ex.: O governo abriu financiamento de casas à classe média, porém há uma grande parte da população sem casa própria.
Os que introduzem argumento decisivo , como um acréscimo à informação (alíás, além do mais, além de tudo, além disso, ademais). Ex.: Ela tirou tudo do armário, espalhou no quarto e não terminou a arrumação. Aliás , nem deveria ter começado.
Os que indicam uma generalização ou uma amplificação da informação anterior (de fato, realmente, aliás, também, é verdade que). Ex.: Não bastasse estar atrasado, também esqueceu o ingresso no bolso da calça.
Os que especificam ou exemplificam o que foi dito. Ex.: Todos ficaram insatisfeitos com a decisão da mãe. O filho mais velho deixou de falar com ela.
Os que marcam uma relação de retificação , ou seja, uma correção, um esclarecimento, um desenvolvimento ou uma redefinição do conteúdo anterior. (ou melhor, de fato, pelo contrário, ao contrário, isto é, quer dizer, ou seja, em outras palavras). Ex.: O candidato não honrou seu compromisso, isto é, não cumpriu o que prometera em campanha eleitoral.
Os que introduzem uma explicitação , uma confirmação ou uma ilustração do que foi informado. (assim, desse modo, dessa maneira).Ex.: Encontramo-nos em período de crise econômica. Assim, o comércio de produtos eletrônicos está em baixa.
b. Coesão por justaposição
Esse tipo de coesão pode ser estabelecido com ou sem elementos de ligação. Quando há conectores, estes podem ser:
Os que marcam seqüência temporal. Ex.: A mulher abandonara o lar. Um ano depois, estava arrependida.
Os que marcam uma ordenação espacial. Ex.: À direita fica o portão de entrada para o prédio.
Os que especificam a ordem dos assuntos no texto. Ex.: Primeiramente, devo declarar que aceito a proposta.
Os que introduzem um dado tema ou servem para mudar o assunto na conversação. Ex.: Devemos nos unir para uma decisão acertada. Por falar nisso, estamos todos no mesmo barco.
Algumas observações:
1 – Quando não há conectores, eles podem ser inferidos pelo contexto.
Ex.: Não assistirá à conferência. Está atrasada. (subentende-se um conector que estabeleça relação de causa na segunda oração, como “porque”)
2 – Quanto à manutenção do tema no texto, trata-se da articulação tema (dado) e rema (novo), que se dá na perspectiva oracional ou contextual.
Ex.: Vamos descrever, então, o interior da casa. A sala é ampla e se divide em dois ambientes. Os quartos são bem arejados. A cozinha comporta toda a família nos horários de refeição.
Coerência e progressão textual
A pesca Affonso Romano de Sant’Anna
o anil o anzol o azul o silêncio o tempo o peixe
a agulha vertical mergulha
a água a linha a espuma
Para melhor compreensão, passemos a verificar essas duas etapas: da organização discursivo-textual e da elaboração dos parágrafos.
Organização discursivo-textual
Do ponto de vista de quem produz o texto, é preciso que haja conhecimento das condições de produção, ou seja, é preciso saber para quê, para quem e por quê o texto será produzido. Além dessas, o tipo de texto também é uma condição de produção, visto que o gênero determina as características de cada texto, o que pressupõe o conhecimento delas para a organização discursivo-textual adequada.
Uma primeira preocupação deve ser com a pessoa do discurso, na cena enunciativa, tendo em vista que o uso da 3ª ou da 1ª pessoa produz efeito de objetividade ou subjetividade. Dizemos efeito porque este é resultado da intenção do locutor (para com o interlocutor) de “afastar-se” ou “aproximar-se” da enunciação quando faz a escolha.
A partir desse primeiro posicionamento, o sujeito assume “a voz” que seja mais conveniente à produção do texto-discurso. Trata-se da relação entre enunciação e enunciado, ou ainda, “o que se diz” e “o que se quer dizer”.
É dessa escolha enunciativa que se pode avaliar se o texto-discurso é objetivo ou subjetivo, se o sujeito aproxima-se ou distancia-se do ponto de vista que há no texto. Enfim, o modo de dizer, o que se pretende dizer depende dessas escolhas prévias. Após essa primeira seleção, torna-se necessário saber que tipo de texto pretende-se produzir, isto é, se o texto é descritivo, narrativo ou argumentativo.
Nesse sentido, Emediato (2004:136) propõe o seguinte quadro:
ENUNCIATIVO relação de influência (EU-TU) Ponto de vista situacional (EU – Contexto) Relato sobre o mundo (ELE)
(Nomear, Localizar, Qualificar e Quantificar). NARRATIVO Construir uma sucessão de ações de uma história no tempo em torno de uma busca e de um conflito, com actantes e personagens.
(Relações lógicas, tipos de argumentos).
Convencer é apresentar provas e, por isso, os argumentos “demonstram”, ou seja, comprovam o que está sendo dito. Persuadir é “levar o outro a acreditar”, por isso é um ato retórico, ou seja, o sujeito- enunciador deve construir os argumentos para persuadir “o outro”.
Texto descritivo
O texto descritivo tem por base um sujeito observador, o qual descreve o mundo de maneira objetiva ou subjetiva. A primeira diz respeito a uma descrição da realidade tal como ela é, em que o sujeito tem como objetivo primeiro informar sobre objetos, pessoas ou lugares. Quanto à segunda, é a descrição em que o sujeito descreve a realidade como a sente, passando a exprimir a afetividade que tem em relação ao objeto, pessoa ou lugar descrito.
A descrição opõe-se à narração pelo seu caráter estático, em que o tempo não tem tanta importância, pois não há transformação de estados e ações, o que compete ao texto narrativo. Desse modo, o ponto de vista do sujeito observador é fundamental e depende tanto de sua posição física (em relação ao que descreve) quanto de sua atitude afetiva (relativa ao objeto descrito).
Leia este trecho de um texto descritivo:
A feira era enorme, num vasto prado que a defrontava com os muros da cidade. As barracas de lona, de madeira, de tapetes, de ramagens, alinhavam em grandes ruas. No topo do mastro flutuavam bandeirolas. E homens enfardelados como orientais, mulheres com pluma na cabeça, outras com trajo de nações estranhas, conservavam-se por trás dos balcões, onde, seguindo a rua e os misteres, se desdobravam panos, reluziam jóias em caixas gradeadas, se perfilavam frascos de essência, se amontoavam as peles, se confundiam as armas tauxiadas. N’outras ruas, sob tendas de lona, havia cozinhas, grandes barricas de cerveja ou de vinho. E os saltimbancos ocupavam um lugar perto do rio, que longos olmeiros assombravam. Em volta, por toda a vasta planície, era uma confusão de carros descarregados, de pilas de madeira, de cavalgaduras presas pelas patas, de grandes gigos onde se debatiam aves.
Apenas as portas da cidade se abriram, a multidão começou a encher as ruas da feira [...]
Eça de Queirós. Obra completa. Rio de Janeiro: José Aguilar. 1970, p. 1530.
Tauxiada: ornamentada, lavrada de embutidos de ouro, prata etc.
Saltimbanco: elemento de um elenco de artistas populares itinerantes.
Gigo: cesto de vime, estreito e alto.
Texto narrativo
Podemos dizer que a história do homem confunde-se com a história da narrativa. Contos fantásticos e maravilhosos, fábulas, parábolas, histórias de suspense constituíram, durante muito tempo, a principal forma de transmissão de conhecimento e registro da memória dos mais diversos povos.
O texto narrativo, ao contrário do descritivo, é dinâmico, pressupõe a transformação de estados e o encadeamento de ações. Para tanto, torna-se necessária a criação dos elementos fundamentais de uma narrativa: personagens, tempo e espaço. Há narração quando os personagens, por meio de ações, transformam-se no tempo e no espaço determinados no desenvolvimento do texto. Esse conjunto constitui o que se denomina enredo.
Portanto, para que um texto seja narrativo, é preciso criar personagens (e apresentá-los), instaurar um problema que determinará o conflito central em torno do qual os personagens relacionam-se em busca da solução. Quando chega ao auge, tem-se o clímax e daí em diante torna-se necessário apresentar a resolução do problema, que constitui o desfecho. Normalmente, um texto narrativo, contém, ainda, uma moral, que corresponde a uma avaliação, a um juízo de valor implícito no texto.