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Uma análise histórica, filosófica e científica do sorriso, desde sua presença no barroco até as últimas descobertas neurocientíficas. O texto aborda a diferenciação entre sorrisos genuínos e falsos, sua evolução entre primatas e humanos, a classificação e análise estética de diferentes tipos de sorrisos, e a importância do sorriso na comunicação humana.
Tipologia: Notas de estudo
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Orientador: Professora Isabel Ritto Co-orientador: Professor Doutor Paulo Jorge Valejo Coelho
Resumo
O sorriso é um comportamento inato e universal; é definido pela curvatura ascendente das comissuras labiais, movimento produzido pelo músculo zigomático maior. O sorriso é expressão de emoções positivas, mas também pode ser utilizado para dissimular sentimentos negativos, prevalecendo assim o seu carácter social. Um sorriso verdadeiro é caracterizado pela acção conjunta do zigomático maior e orbicular do olho, que eleva a pálpebra inferior, e provoca rugas no canto externo do olho. A universalidade do sorriso admite diferenças significativas, causadas por factores como a cultura, o género e a idade, que regulam a frequência e a intensidade da exibição do sorriso. No percurso filogenético, o sorriso evolui da exposição silenciosa dos dentes. Ambos desempenham funções de apaziguamento, de vínculo afectivo e coesão social. Porém, o ser humano tem capacidade para controlar e ajustar o sorriso às circunstâncias sociais. O sorriso acompanha todo o percurso ontogenético do ser humano; inicialmente espontâneo e reflexo, evolui para um comportamento social e instrumental. O riso, procedente da play face dos primatas, é uma fase mais intensa de um processo muscular idêntico ao sorriso. No entanto, possui um carácter extrovertido que se manifesta através da vocalização, e desempenha uma função exclusivamente social. A boca é o elemento mais dinâmico do rosto, e um sorriso estético resulta da harmonia facial e do equilíbrio entre os dentes e o tecido mole. A Arte expressa uma ampla série de emoções humanas. O sorriso arcaico e a expressão sorridente das esculturas góticas consistem numa convenção artística. O Barroco apresenta uma pluralidade de sorrisos, sendo provavelmente o movimento artístico mais significativo quanto à presença do sorriso. A expressão ambígua de Mona Lisa é a revelação do poder do sorriso humano. Um sorriso fechado, desvanecido pelo sfumato , apenas perceptível através da visão periférica.
Palavras-chave Sorriso, Anatomia Artística, Mona Lisa
Abstract
The smile is an innate and universal behavior; it is defined by the elevation of the mouth‟s extremities, a movement produced by the zygomatic major muscle. A smile is an expression of positive emotions, but it can also be used to hide negative feelings, prevailing here its social nature. A genuine smile is characterized by the joint action of the zygomatic major and orbicularis oculi, which raises the lower eyelid and causes wrinkles on the outer corner of the eye. The universality of the smile admits differences caused by factors such as culture, gender and age, which regulate the frequency and intensity of the smile‟s occurence. In the phylogenetic path, smile evolves from silent bared-teeth. Both play a role of appeasement, emotional bonding and social cohesion. However, human beings have the ability to control and adjust the smile to social situations. The smile is a constant presence on the human being‟s ontogenetic path; initially spontaneous and a reflex, it evolved into a social and instrumental behavior. Laughter, coming from primate‟s play face , is the most intense phase of a muscular process similar to the smile. However, laughter has an extroverted nature which manifests itself through vocalization, and fulfills a social function only. The mouth is the most dynamic element of the face, and the beauty of the smile results from facial harmony and the balance between the teeth and soft tissue. Art expresses a wide range of human emotions. The archaic smile and the smiling face of gothic sculptures consist of an artistic convention. The Baroque presents a wide range of smiles, being probably the most significant art movement regarding the presence of the smile. The ambiguous expression of Mona Lisa reveals the power of the human smile. A closed smile, faded by sfumato , is only perceptible through peripheral vision.
Key-Words Smile, Artistic Anatomy, Mona Lisa
Abreviaturas
cit. – citado
p. - página
Siglas
FACS – Facial Action Coding System – Sistema de Codificação da Acção Facial
REM – Rapid Eye Movement – Movimentos Oculares Rápidos
AU – Action Unit – Unidade de Acção
AUs – Action Units – Unidades de Acção
Figura 1. FACS – AUs do rosto superior e do rosto inferior.
Figura 2. Duchenne demonstra a acção do músculo zigomático maior. (Fonte: BOULOGNE, Duchenne de – Mécanisme de la Physionomie Humaine ,1876)
Figura 3. Charles Le Brun, a expressão da alegria e o riso.
Figura 4. Charles Le Brun, Estudo dos olhos humanos.
Figura 5. Músculo orbicular dos olhos. Acções do músculo orbicular dos olhos. (Fonte: Eliot Goldfinger, Human Anatomy for Artists ; Valerie Winslow, Classic Human Anatomy )
Figura 6. Músculo elevador comum do lábio superior e da asa do nariz. Acção do músculo elevador comum do lábio superior e da asa do nariz. (Fonte: Eliot Goldfinger, Human Anatomy for Artists ; Valerie Winslow, Classic Human Anatomy )
Figura 7. Músculo zigomático maior. Acção do músculo zigomático maior. (Fonte: Eliot Goldfinger, Human Anatomy for Artists ; Valerie Winslow, Classic Human Anatomy )
Figura 8. Músculo risórios. Acção do músculo risórios. (Fonte: Eliot Goldfinger, Human Anatomy for Artists ; Valerie Winslow, Classic Human Anatomy )
Figura 9. Diferentes tipos de sorriso. (Fonte: FAIGIN, Gary – The Artist‟s Complete Guide to Facial Expression , New York: Watson-Guptill Publications, 1990)
Figura 10. O sorriso falso. (Fonte: FAIGIN, Gary – The Artist‟s Complete Guide to Facial Expression , New York: Watson-Guptill Publications, 1990)
Figura 11. Sorriso genuíno e Sorriso falso (Fonte: BOULOGNE, Duchenne de – Mécanisme de la Physionomie Humaine , 2ª ed. Paris: [s.e.], 1876)
Figura 12. Músculos da face do chimpanzé. Vista frontal e de perfil. (Fonte: SZUNYOGHY, András - Escuela de Dibujo de Anatomia )
Figura 13. Músculos da face humana. Vista frontal e de perfil. (Fonte: Valerie Winslow, Classic Human Anatomy)
Figura 14. Expressões faciais de alegria do chimpanzé. (Fonte: Ladygina-Kots et al. - Infant chimpanzee and human child: a classic 1935 comparative study of ape emotions and intelligence ).
Figura 15. Exposição silenciosa dos dentes ( silent bared-teeth (AU10 + AU12 + AU25). (Fonte:
Figura 16. Comparação morfológica entre o chimpanzé e o Homem. (Fonte:
Figura 36. “ Prato fundo”.
Figura 37. Proporção regressiva do sorriso e aplicação da proporção áurea às dimensões dentárias.
Figura 38. Índice do sorriso.
Figura 39. Exposição dos dentes, diversos ângulos. (Fonte: Valerie Winslow, Classic Human Anatomy; Emilio Freixas, Como dibujar o rostro humano ).
Figura 40. Rostos de esculturas de heróis mortos.
Figura 41. Koré Peplos , Moscophoros e O Cavaleiro Rampin.
Figura 42. Afrodite, Eros e Pã
Figura 43. O Sarcófago dos Esposos e Apolo de Veios (pormenores).
Figura 44. Anjo Sorridente , Catedral de Reims (pormenor).
Figura 45. Catedral de Bamberg, O Último Julgamento , 1228
Figura 46. Estátua Equestre de Can Grande della Scala, senhor de Verona e Estátua jacente de Filipe III na Abadia de Saint-Denis.
Figura 47. Andrea Verrocchio, David e Anjo com golfinho.
Figura 49. Obra de Durer e obras Jan Sanders van Hemessen.
Figura 50. Obras de Leonardo da Vinci.
Figura 51. Giovanni Francesco Carotto, Portrait of a Child with a drawing.
Figura 52. Obras de Antonello da Messina.
Figura 53. Bernini, O Êxtase de Santa Teresa de Ávila e A Verdade.
Figura 54. Caravaggio, Cupido Triunfante e São João Baptista.
Figura 55. Obras de Annibale Carracci.
Figura 56. Obras de Rubens.
Figura 57. Obras de Frans Hals.
Figura 58. Obras de Judith Leyster.
Figura 59. Rembrandt, Auto-retratos.
Figura 60. Rembrandt, retratos femininos.
Figura 61. Obras de Giusepe de Ribera.
Figura 62. Obras de Gerard van Honthorst.
Figura 63. Giacomo Francesco Ceruti, Head of a man in blue e Head of a man in red.
Figura 64. Vigéé-Lebrun, auto-retratos.
Figura 65. Obras de Vigéé-Lebrun.
Figura 66. Houdon, estátuas e bustos de Voltaire e Busto da mulher do artista.
Figura 67. Obras de Franz Xaver Messerschmidt.
Figura 68. Goya, Retrato do Tio Paquete e Domingos Sequeira, A filha do artista ao piano
Figura 69. Carpeaux, A Dança, 1869 e pormenores de esculturas.
Figura 70. Costa Mota Tio, Monumento a Chiado.
Figura 71. Teixeira Lopes, A Verdade e Baco.
Figura 72. António Ramalho, Senhora de Preto.
Figura 73. Honoré Daumier, Bustos.
Figura 74. Obras de Auguste Renoir.
Figura 75. Rodin, Head of a Laughing Boy.
Figura 76. Obras de Andy Warhol.
Figura 77. Obra de Pablo Picasso.
Figura 78. Obra de Jean Dubuffet.
Figura 79. John de Andrea, Seated Figure.
Figura 80. Lucian Freud, Smiling Girl.
Figura 81. Obras de Juan Münoz.
Figura 82. Obras de Richard Stipl.
Figura 83. Obras de Chen Wenling.
Objectivos e conteúdos O presente trabalho é um estudo multidisciplinar sobre o movimento mais lindo e feliz do ser humano^1 – o sorriso. O acto de sorrir pode ser definido como: [suRír] V. (Do lat. subridere) 1) afastar ligeiramente os lábios e levantar um pouco os cantos da boca, numa expressão de alegria, prazer, divertimento… ou, mais raramente, de resignação, ironia…; fazer um sorriso; 2) dirigir a alguém um sorriso; dar um sorriso; 3) ter um aspecto alegre; 4) provocar desejo; tornar-se apetecível; 5) favorecer alguém com bem-estar ou felicidade; ser favorável.^2 O acto de sorrir pode ainda ser definido como: “dar ou esboçar sorriso; mostrar um modo risonho ou agradável à vista; manifestar ou exprimir quaisquer sentimentos por meio de um sorriso e principalmente a satisfação, a incredulidade, a ironia ou o desprezo; mostrar bom modo ou agrado a alguém; transparecer de modo alegre; evocar com o sorriso ternura ou saudade; ser favorável; manifestação de qualquer sentimento ou estado de alma pelo sorriso; a expressão ou sinal de alegria, luz, claridade, etc”.^3 E ainda, contrair ligeiramente os músculos faciais, mostrando uma expressão alegre como manifestação de boa disposição, agrado, aprovação, ironia, etc; rir com moderação, sem fazer ruído^4. O sorriso pode, então, ser definido como: [suRizu] s.m. (Do lat. subrisus , particípio passado de subridere “sorrir”) 1) expressão sorridente através de um ligeiro e silencioso movimento da boca e dos olhos; acto ou efeito de sorrir. 2) Manifestação de agrado, de contentamento^5. O sorriso é “ uma expressão facial que se verifica nos limites da curva da boca quando os lábios se movem até se ver os dentes. Usualmente o sorriso expressa sentimentos positivos como a felicidade, o prazer, o divertimento ou a amizade, mas, às vezes, expressa tristeza, insatisfação e desgosto ”^6.
Este capítulo introdutório é constituído por duas partes: inicialmente definimos objectivos e enunciamos os conteúdos deste projecto, e seguidamente apresentamos uma síntese sobre os principais estudos desenvolvidos ao longo dos séculos e nas diversas áreas sobre as expressões faciais.
(^1) Celso Gomes Pinto cit. por José Mondelli, Estética e Cosmética em Clínica Integrada Restauradora , pág. 273 (^2) Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia de Ciências de Lisboa, Verbo, II Vol. p. (^3) Cit. por Freitas-Magalhães, A Psicologia do Sorriso Humano , 2009, p. (^4) Infopédia - Dicionário da Língua Portuguesa (^5) Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia de Ciências de Lisboa, Verbo, II Vol. p. (^6) Procter cit. por Freitas-Magalhães, A Psicologia do Sorriso Humano , 2009, p.
As imagens que apresentamos constituem apenas uma amostra da pesquisa efectuada, e incidem particularmente no rosto e expressão das personagens representadas. Por limitações óbvias, optamos por apresentar uma selecção de alguns movimentos artísticos, artistas e obras mais significativos da representação do sorriso na Arte, e assumimos desde já o carácter incompleto e inacabado deste capítulo. Não nos propomos a uma interpretação criativa e crítica dessas obras de arte, mas antes analisamos o panorama geral da produção artística dos movimentos e/ou autores, e tentamos, o quanto possível, relacioná-las com o contexto sociocultural e histórico em que foram produzidas. O Sorriso de Mona Lisa é uma análise ao quadro de Leonardo da Vinci, incontornável no tema do sorriso, e portanto, assume um lugar de destaque no âmbito da perspectiva artística. Mona Lisa , embora sem data ou assinatura, é o único retrato de Leonardo cuja autoria permanece inquestionável. A ambiguidade da obra tem produzido uma infindável quantidade de conjecturas. Neste capítulo, abordamos questões como a identidade do modelo e a história subjacente ao mítico sorriso, assim como o contexto histórico-cultural em que a obra foi produzido, e a educação artística de Leonardo. Convictos da estruturação deste trabalho, mas conscientes da incompletude e natureza ensaística deste, não pretendemos apresentar uma análise exaustiva, mas somente apresentar uma compilação de conhecimentos.
O estudo da expressão facial da emoção O rosto é um dos aspectos mais individuais do ser humano, a sua identidade, aquilo que o caracteriza e distingue dos outros indivíduos. É a parte mais visível do nosso corpo, e uma das mais dinâmicas e expressivas. A face raramente permanece em repouso; em constante mutação, experimenta alterações a cada instante como reacção a diversos estímulos, interiores e exteriores. Alguns destes movimentos musculares são reconhecidos como reflexos de estados emocionais, e transmitem uma multiplicidade de informação sobre as emoções e intenções do indivíduo. Assim, a emoção, cujo vocábulo deriva do latim emovere que significa deslocar, e que por sua vez, deriva de movi , que significa literalmente mover , confere movimento ao rosto. Essas alterações da musculatura facial resultam em elementos comportamentais, e são utilizadas como sinais para transmitir a motivação actual e futura de um indivíduo. O rosto, capaz de exibir mais de dez mil expressões^7 funciona, desta forma, como um veículo de comunicação silenciosa, não verbal, do domínio da cinésica.^8 A comunicação é um processo psicológico que permite a transmissão interpessoal de ideias, sentimentos e atitudes, e é condição para a existência dos grupos e das
(^7) Ekman, cit. por Freitas-Magalhães, A Psicologia das Emoções: O Fascínio do Rosto Humano , 2009 (^8) Cinésica:, também denominada cinética, é a disciplina do campo da comunicação não-verbal que estuda o significado expressivo dos gestos e dos movimentos corporais que acompanham os actos linguísticos (posturas, expressões faciais, etc).
sociedades. O aspecto expressivo das emoções assume uma grande importância na comunicação e coordenação da interacção social, facilitando a coesão do grupo e regulando as relações sociais do indivíduo. A expressão facial permite a manifestação das emoções e das atitudes interpessoais, o envio de sinais inerentes à interacção em curso, e a manifestação de aspectos típicos da personalidade do indivíduo. O termo expressão facial refere-se à fisionomia, e está associada à manifestação de emoções, paixões da alma, estados de espírito. A expressão pressupõe que o rosto manifeste uma alteração momentânea provocada por um estado emocional específico de tal modo que os efeitos produzidos nos seus traços são directos e imediatos.^9
O estudo científico da expressão facial da emoção teve um dos principais impulsos no século XIX, e remonta a Darwin, o autor da teoria evolucionista, com a publicação do livro The Expression of Emotions in Man and Animals , em 1872. Para Darwin a expressão é qualquer comportamento ou alteração corporal visível causado pela emoção. Qualquer acção que acompanhe regularmente um dado estado de espírito é reconhecida como expressiva.^10 Darwin desenvolveu a ideia de que o processo evolucionário se aplica não só a estruturas orgânicas, mas também à expressão das emoções. Considerava a expressão das emoções essencial para a vida das espécies que vivem em grupo, na medida em que essas expressões comunicam as emoções do indivíduo, e contribuem para a regulação das interacções sociais. Segundo essa perspectiva, a expressão facial evoluiu para comunicar o comportamento futuro provável do indivíduo que a executa. A maior parte do sistema de comunicação parece voltada para a organização do comportamento social. Assim, a publicação d‟ A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais pode ser considerada o ponto de partida para o estudo da emoção e do comportamento facial. No entanto, e apesar do reconhecimento actual da importância do trabalho de Darwin como os primeiros estudos científicos da expressão facial, na época da sua publicação foram considerados polémicos e não obtiveram muita aceitação por parte da comunidade científica. Só na década de 70 do século XX Darwin foi revisitado por cientistas interessados no estudo das emoções e da sua expressão. Ekman foi um dos revivalistas dos estudos de Darwin com a publicação, em 1973, do livro Darwin and Facial Expression: a century of research in review , em homenagem ao centenário do trabalho de Darwin. Este livro é uma compilação com uma perspectiva analítica da investigação produzida no último século na área da expressão facial. Enaltecendo a actualidade das inferências de Darwin, Ekman aponta, no entanto, a inconsistência metodológica da sua pesquisa.
(^9) Artur Ramos, Retrato, o desenho da presença , p. 166 (^10) Darwin, A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais , 2006, p.
Figura 1. FACS – AUs do rosto superior e do rosto inferior.
Em Portugal a investigação da expressão facial das emoções é um domínio pouco desenvolvido. O FEELab – Laboratório de Expressão Facial, da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Fernando Pessoa no Porto, tem sido a principal entidade no estudo da expressão facial das emoções. Freitas-Magalhães, fundador e actual director do FEELab é uma autoridade na investigação das expressões faciais em Portugal, particularmente do sorriso humano, e um dos mais conceituados investigadores da área a nível mundial. Desde 2003 que o grupo coordenado pelo investigador se dedica ao estudo das emoções dos portugueses, no projecto Uma Década de Sorriso em Portugal , com conclusão em 2013.
No século XIX, Duchenne de Boulogne desenvolveu uma experiência cujo principal desígnio era que “[…] as leis que governam as expressões do rosto humano podem ser descobertas mediante o estudo da acção muscular ”.^12 Com o objectivo de encontrar uma ligação entre as expressões e a alma, e determinar os músculos envolvidos em cada expressão emocional, Duchenne explorou a função muscular através da estimulação eléctrica. O processo consistia em aplicar eléctrodos na superfície da pele, e pela acção de pequenas descargas eléctricas provocava a contracção voluntária e individual dos músculos, produzindo no rosto uma expressão específica, independentemente do estado emocional do indivíduo. O principal modelo era um homem que Duchenne denominava como “ velho desdentado, de cara magra, cujas feições, sem serem absolutamente feias, resultam triviais e ordinárias ”^13 , que tinha a particularidade de ter a pele do rosto praticamente insensível a qualquer estímulo doloroso. A experiência de Duchenne permite a
(^12) Duchenne, Mécanisme de la Physionomie Humaine (^13) Duchenne, Mécanisme de la Physionomie Humaine , p.
identificação do músculo associado a cada emoção, e revela a causa das linhas, rugas e pregas da face em movimento. O estudo individual do movimento muscular demonstra que a contracção isolada de um único músculo é suficiente para exprimir uma emoção no rosto, mas provoca alterações em todos os traços fisionómicos. O estudo de Duchenne do mecanismo do movimento facial providenciou os fundamentos para a investigação actual do comportamento facial. A experiência de Duchenne ficou registada por meio fotográfico no livro Mécanisme de la Physionomie Humaine.
Figura 2. Duchenne demonstra a acção do músculo zigomático maior.
No domínio artístico, Charles Le Brun, pintor francês do século XVII, distinguiu-se pelo estudo da fisiognomia direccionado aos pintores. Em 1668, Le Brun proferiu na Academia Real de Pintura e Escultura de França, a Conferência sobre Expressões em Geral e Particulares , que se tornou uma referência constante nos estudos de fisiognomia posteriores. Com base nos pensamentos de René Descartes expressos no seu último texto As Paixões da Alma , escrito em 1649, Le Brun aproxima a pintura à filosofia, e considera o estudo da fisionomia como uma ciência empírica, que estuda as paixões da alma humana. Desenvolveu o estudo das alterações fisionómicas, concentrando-se particularmente nas que são produzidas pela alma e se manifestam no rosto. A alma modifica o corpo, as paixões provocam movimento no rosto, alterando os seus traços e a sua forma. Para Le Brun, a paixão é um movimento da alma e a base da alma é a glândula pineal, localizada no centro do cérebro. Na sua conferência sobre a expressão das paixões, Le Brun fornece aos seus colegas os critérios gráficos e as explicações teóricas para representar de forma correcta as paixões. Uma tipologia passional, acompanhada por desenhos ilustrativos de diagramas e figuras de expressão, estabelecendo, deste modo, um sistema prático, de