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OBESIDADE ZERO, Notas de estudo de Nutrição

Projeto que propõe ações de combate a obesidade infanto-juvenil

Tipologia: Notas de estudo

2014

Compartilhado em 23/06/2014

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giovana-cezar-1 🇧🇷

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A ARTE DO MOTOR - 1993
Na sua obra, ‘L’Art du Moteur’, ao refletir sobre os motores da história, evidencia o quanto
as inovações técnicas transformam as relações entre os indivíduos e a Natureza nas suas
múltiplas vertentes. Segundo Virilio, os cinco motores da história: máquina a vapor, motor a
explosão, o elétrico, o motor informático e o do software, contribuíram para uma ‘tecnização
do território’, tornando, assim, o espaço geográfico cada vez mais mecanizado, com
profundas alterações no modo de produzir, nas formas de circulação e de consumo do espaço.
Na sua opinião, a modernidade tomou o Homem de tal forma que este não consegue mais
viver sem ela.
Portanto, toda a história moderna está ligada à invenção de motores. Do motor a vapor ao
motor informático e à inferência lógica, passando pelo motor elétrico e pelo motor a
explosão, as relações de produção e nossa informação sobre o mundo foram definitivamente
transformadas. Hoje, em plena era da ‘informação total’, paradoxalmente marcada pela
‘industrialização do esquecimento’, este livro rememora que cada um desses motores
modificou radicalmente a nossa percepção. A arte é uma “Arte do Motor”.
De forma mais explícita, Virilio radica a história moderna na invenção dos motores, porque,
segundo o mesmo, o motor a vapor é responsável pela criação da primeira máquina que
serviu à revolução industrial, permitindo a visão do mundo,através do comboio, a visão em
desfile que prenuncia a visão do cinema. O motor da explosão propiciou o surgimento do
avião e do automóvel. O Homem pôde obter uma informação e visão inéditas, responsável
pela visão aérea. O motor elétrico deu origem à turbina, à eletrificação e criou a visão noturna
das cidades. Favoreceu o cinema, que é uma arte do motor. O foguete que facultou ao
Homem fugir da atracção terrestre e obter uma visão da Terra a partir da Lua. Por fim, a
inferência lógica do software responsável pela digitalização da imagem, do som e pelo
surgimento da realidade virtual. Este último metamorfoseia a nossa relação com o real a
partir da possibilidade de criação de uma outra realidade que funciona ao vivo, em tempo
real.
Virilio tenta demonstrar que cada motor provocou não só uma mutação da produção, mas
também uma nova concepção e visão do mundo. ‘A Arte do Motor’ é a arte do quarto motor,
o motor informático que gera a informação, uma terceira dimensão da matéria. Com efeito,
até Claude Shannon, Norbert Wiener, Alain Turing e outros, consideram que a matéria
apenas era vista segundo o ângulo da massa e da energia. A partir das décadas de 40 e 50 do
século passado, a matéria é vista segundo uma terceira forma: a da informação, a nova forma
de energia. Existem três estados de energia: a energia potencial – poder – a energia cinética –
ação – e, por fim, a energiacibernética, isto é, a informação.
Neste ensaio, Virilio analisa ainda a amplitude das novas tecnologias e aponta os riscos do
totalitarismo da colônia global multimidiática. Especialista em questões estratégicas, mostra
claramente como o imperialismo da comunicação em tempo real é um componente essencial
do complexo militar-informacional contemporâneo que impõe à sociedade uma noção de
informação como algo puramente estatístico. Ao mostrar que toda arte é uma Arte de Motor,
Virilio reflete sobre as transformações dos motores e as suas consequências nas modificações
radicais da percepção. Verifica-se o declínio da realidade dos fatos, desvalorização dos
tempos locais, poluição das distâncias.
Atualmente, quando este autor aborda a questão das ciências da informação, pensa-se que ele
se vai debruçar exclusivamente sobre a questão da informática mas, isso não é verdade, pois,
após uma leitura atenta de muitas das suas obras, podemos verificar que ele trabalha sempre o
mesmo tema: a velocidade, simplesmente, o seu ponto de aplicação evolui de livro para livro,
evidenciando a transversalidade da velocidade, que é a relatividade e não um fenômeno,
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A ARTE DO MOTOR - 1993

Na sua obra, ‘L’Art du Moteur’, ao refletir sobre os motores da história, evidencia o quanto as inovações técnicas transformam as relações entre os indivíduos e a Natureza nas suas múltiplas vertentes. Segundo Virilio, os cinco motores da história: máquina a vapor, motor a explosão, o elétrico, o motor informático e o do software, contribuíram para uma ‘tecnização do território’, tornando, assim, o espaço geográfico cada vez mais mecanizado, com profundas alterações no modo de produzir, nas formas de circulação e de consumo do espaço. Na sua opinião, a modernidade tomou o Homem de tal forma que este não consegue mais viver sem ela. Portanto, toda a história moderna está ligada à invenção de motores. Do motor a vapor ao motor informático e à inferência lógica, passando pelo motor elétrico e pelo motor a explosão, as relações de produção e nossa informação sobre o mundo foram definitivamente transformadas. Hoje, em plena era da ‘informação total’, paradoxalmente marcada pela ‘industrialização do esquecimento’, este livro rememora que cada um desses motores modificou radicalmente a nossa percepção. A arte é uma “Arte do Motor”. De forma mais explícita, Virilio radica a história moderna na invenção dos motores, porque, segundo o mesmo, o motor a vapor é responsável pela criação da primeira máquina que serviu à revolução industrial, permitindo a visão do mundo,através do comboio, a visão em desfile que prenuncia a visão do cinema. O motor da explosão propiciou o surgimento do avião e do automóvel. O Homem pôde obter uma informação e visão inéditas, responsável pela visão aérea. O motor elétrico deu origem à turbina, à eletrificação e criou a visão noturna das cidades. Favoreceu o cinema, que é uma arte do motor. O foguete que facultou ao Homem fugir da atracção terrestre e obter uma visão da Terra a partir da Lua. Por fim, a inferência lógica do software responsável pela digitalização da imagem, do som e pelo surgimento da realidade virtual. Este último metamorfoseia a nossa relação com o real a partir da possibilidade de criação de uma outra realidade que funciona ao vivo, em tempo real. Virilio tenta demonstrar que cada motor provocou não só uma mutação da produção, mas também uma nova concepção e visão do mundo. ‘A Arte do Motor’ é a arte do quarto motor, o motor informático que gera a informação, uma terceira dimensão da matéria. Com efeito, até Claude Shannon, Norbert Wiener, Alain Turing e outros, consideram que a matéria apenas era vista segundo o ângulo da massa e da energia. A partir das décadas de 40 e 50 do século passado, a matéria é vista segundo uma terceira forma: a da informação, a nova forma de energia. Existem três estados de energia: a energia potencial – poder – a energia cinética – ação – e, por fim, a energiacibernética, isto é, a informação. Neste ensaio, Virilio analisa ainda a amplitude das novas tecnologias e aponta os riscos do totalitarismo da colônia global multimidiática. Especialista em questões estratégicas, mostra claramente como o imperialismo da comunicação em tempo real é um componente essencial do complexo militar-informacional contemporâneo que impõe à sociedade uma noção de informação como algo puramente estatístico. Ao mostrar que toda arte é uma Arte de Motor, Virilio reflete sobre as transformações dos motores e as suas consequências nas modificações radicais da percepção. Verifica-se o declínio da realidade dos fatos, desvalorização dos tempos locais, poluição das distâncias. Atualmente, quando este autor aborda a questão das ciências da informação, pensa-se que ele se vai debruçar exclusivamente sobre a questão da informática mas, isso não é verdade, pois, após uma leitura atenta de muitas das suas obras, podemos verificar que ele trabalha sempre o mesmo tema: a velocidade, simplesmente, o seu ponto de aplicação evolui de livro para livro, evidenciando a transversalidade da velocidade, que é a relatividade e não um fenômeno,

responsável pela relação entre os fenômenos, vista como um aspecto essencial da vida.

isto é, a inseminação do corpo físico humano pelas biotecnologias, possibilitada pelo

desenvolvimento da tecnologia. Virilio comenta que a tecnologia está a propiciar uma colonização do corpo, produzindo até mesmo uma invasão microfísica do corpo e surgindo assim como último recurso, ou recurso de ponta, para domesticar o homem.Segundo ele, houve uma modificação no espaço ocupado pelas tecnologias de ponta, que deixou de ser o universo sem fronteiras do ambiente planetário para ocupar nossos órgãos. “A perda, ou mais exatamente, o declínio exclusivo da ausência de intervalo das teletecnologias do tempo real resulta inevitavelmente na intrusão intra orgânica da técnica e das suas micromáquinas no seio do que vive” (AAM, 1996: 92). O “corpo-próprio” sofre o ataque da biotecnologia – que agora é capaz de povoar as entranhas do sujeito. As novas técnicas suplantam revoluções como a industrial e a provocada pela transmissão imediata de informação pelos meios de comunicação de massa. A revolução de agora é a dos transplantes, que têm em si o poder de povoar o corpo vital com técnicas estimulantes, afirma Virilio. Se durante toda a sua história a técnica se desenvolveu no sentido do corpo geofísico, agora ela caminha na direcção do corpo físico, excitando-o e estimulando-o ao máximo como forma de compensação diante da inércia a que está condenado pelas modernas formas urbanas de vida: Não se pode descrever melhor o estado dos lugares de nossa pós-modernidade onde os superexcitantes são prolongamentos de uma sedentaridade metropolitana em vias de generalização acelerada, notadamente graças a essa tele-ação que substitui doravante a ação imediata. A inércia, a passividade do homem pós-moderno exige um acréscimode excitação, não somente através das práticas desportivas abertamente desnaturalizadas, mas também no caso de atividades quotidianas em que a emancipação corporal devida às técnicas da tele acção em tempo real liquida as necessidades tanto de vigor quanto de esforço muscular (AAM, 1996: 93). No prefácio do livro A Arte do Motor (1996), Araújo adverte para “a aceleração metabólica vertiginosa” que, no extremo, propende à irradiação de toda a substância, de todo o traço, de toda a extensão, podendo arrastar o Homem para uma “inusitada experiência da desmaterialização cujas consequências são imprevisíveis”. Em suma, Virilio analisa nesta obra os destinos de um mundo onde a cidadania e a democracia ficam cada vez mais condicionados à imagem, e o real – os factos – são marginalizados e escamoteados por um “complexo informacional”.

Sinopse - A arte do motor - Paul Virilio Neste ensaio, o filósofo e urbanista Paul Virilio discute a amplitude das novas tecnologias e aponta para os riscos do totalitarismo da colônia global multimidiática. Especialista em questões estratégicas, o autor mostra claramente como o imperialismo da comunicação em tempo real é um componente essencial do complexo militar-informacional contemporâneo que impõe à sociedade uma noção de informação como algo puramente estatístico. Mostrando que toda arte é uma Arte de Motor, Virilio reflete sobre as transformações dos motores e suas conseqüências nas modificações radicais da percepção. Em A Arte do Motor, Paul Virilio alerta sobre a tendência em tornar o “inválido equipado para superar sua deficiência transformando-se subitamente em modelo para o válido superequipado com próteses de todos os tipos” (VIRILIO: 1996, 92). Virilio (AAM, 1996: 67-77) ilustra, com detalhe factual, que os princípios constitutivos da dromocracia, atrelados aos interesses de guerra, já estavam assentes, no âmbito da inteligência logística, estratégica e táctica, na época da formação do Império Romano. A dromocracia assim comparece com estatura mais setorial e concentrada, embora com reconhecida expressividade e violência, por vinculação a grupos ou a estratos sociais de privilégio e/ou de ofício. A suamanifestação fenomenológica liga-se, por isso, exclusivamente, à categoria de processo, não à de estrutura dinâmica a que porventura poderia pertencer. Ao longo da sua obra, cujos temas se localizam no âmbito da reflexão sobre os prós e contras da utilização sistemática e desenfreada das novas tecnologias Paul Virilio é, sem dúvida, um dos seus maiores e mais influentes críticos da era digital. Embora reconheça algumas vantagens às novas tecnologias define a era da informática como algo perigoso, porque nos pode levar à perda da noção da realidade, quebra distâncias e territorialidades e, ainda, proporciona uma quantidade excessiva de informações. Virilio (AAM, 1996: 134) preocupa-se com esta busca desenfreada do homem pela informação, porque considera que faz com que o homem fique preso ao desenvolvimento das tecnociências, onde os animais são modificados geneticamente, onde o homem aprende a trocar os seus órgãos quando percebe que eles já não são eficientes para suprir as suas funções vitais gerando a cultura do “descartável”. Estando o acesso ao novo facilitado acabaremos por, tornar-nos meros “fantoches” da tecnologia. A sua evolução poderá decorrer à semelhança com a nossa degradação e perda da nossa identidade biológica e cultural. Paul Virilio trabalha também o conceito de acidente. Ele diz que o naufrágio só existe, porque inventaram o navio, a queda do avião só existe, porquehá o avião, então, na realidade, pensamos: “Se vamos ter naufrágios, vamos eliminar os navios”. Não é isso o que ele quer que pensemos, e sim que cada invenção tem o lado negativo. Para Paul Virilio o espaço criado pelas novas tecnologias não é um espaço de virtualidades, um vetor para a criação de uma realidade mais positiva mas, um espaço de simulação, no sentido de realidade falsificada e manipulada. “A desinformação não se restringiria somente à maquiagem dos fatos, ela atacaria também o princípio de realidade para tentar introduzir discretamente um novo tipo de universo: um universo virtual, forma última de uma desrealização cósmica” (Virilio, AAM, 1996: 124).

Virilio assinala que um dos objectivos da fusão homem/máquina é a tentativa de vencer a inércia física que as tecnologias, até então separadas do corpo, impuseram ao Homem. Para ultrapassar os limites físicos, é preciso construir, tecnicamente, um corpo equipado com máquinas que se mostre capaz de estimular de modo eficaz as faculdades humanas, acelerando-as. Vivemos a era da colonização tecnológica do corpo. É a dimensão física, atrofiada, que se acelera e se redimensiona ao incorporar em si a potência e a velocidade dos aparelhos. Esta é a revolução das transplantações e implantações de micromáquinas que encontram o seu lugar dentro do homem. A redução das dimensões físicas dos aparelhos, a miniturização, permiteque o Homem os transporte consigo. As máquinas já se tornaram uma espécie de vestimenta e o corpo passou a ser um ponto de apoio, um veículo, um meio locomotor e de transporte para esses instrumentos técnicos. Cada vez mais é impossível a manutenção e o abastecimento dos corpos desprovidos da absoluta presença múltipla de objetos eletrônicos. Fazer do corpo um suporte para os aparelhos eletrônicos é uma experiência importante para a total intimidade do homem com a máquina. Isso quer dizer que o tempo das próteses primitivas, como a perna de pau, ficou para trás. Os atuais são pequenos objetos, muitos deles acionados remotamente, controlados por computadores, ligados às redes de comunicação e satélites. Tal como cada membro do nosso corpo, a calculadora, o relógio digital, o telemóvel, a TV, o computador portátil ou de bolso, o walk-man, jogos e agendas eletrônicas, controles remotos, pagers, sensores, e amplificadores, são peças que ajudam a compor a aparência dos indivíduos, por exemplo, um executivo, e configuram uma etapa decisiva da construção do corpo informatizado. Um corpo cuja extensão e a potência estão a ser ampliadas incessantemente. Ter os aparelhos eletrônicos como uma segunda pele é apenas uma dimensão do uso das máquinas. A interacção homem/máquina não se completa enquanto os aparelhos estiverem instalados na superfície. Para Virilio, a mistura e a aceleração só sedão quando esses objetos se deslocam, invadem e se instalam no interior dos organismos. A transplantação de órgãos e a implantação de micro - máquinas é uma outra etapa da construção técnica do corpo que revoluciona a existência humana. Esse é o domínio da biotecnologia. Neste sentido, Virilio (MH, 1998: 32) advoga que “para que o homem possa funcionar na mesma velocidade que as novas máquinas, ou seja, em tempo real, ao “vivo”, precisará introduzir “motores” no vivente. Para acelerá-lo”. O corpo passa a ser alimentado pelas tecnologias que estimulam as suas faculdades. Elas são capazes de manter a estrutura física, revigorar os membros e os órgãos, acelerar a inteligência, a memória, os movimentos, a percepção, o modo de ser, pensar e agir de cada indivíduo. “Desde a Revolução Industrial, e daquela provocada pelas transmissões instantâneas da era dos grandes meios de comunicação de massa, começa agora a última das revoluções, a dos TRANSPLANTES, o poder de povoar, digo, de alimentar o corpo vital com técnicas estimulantes, como se a física (a microfísica) se prestasse a concorrer a partir de então com a química da nutrição e com os produtos dopantes...” (Virilio, AAM, 1996: 92). Esse será o momento da realização do sonho humano do físico potencializado e alimentado pelas tecnologias. Esse corpo/prótese desenvolve e requer novas práticas nutricionais em que os estimulantesnaturais são substituídos pelos químicos que, por sua vez, são também substituídos por outros puramente técnicos, favorecendo a mutação dos indivíduos. Quando as máquinas/veículos se deslocarem da superfície para o interior, o corpo adquire nova função: passa a ser uma embalagem, um abrigo para os aparelhos. A tecnologia está a deixar de vestir o corpo. Ele está a tornar-se uma vestimenta para as próteses. “Quanto menor a

excitants modernes. Dessa forma, deixa de se poder separar o novo eugenismo da mobilização geral dos afectos, mobilização emocional que passa por uma fase de “motorização” do organismo em que o indivíduo se torna subitamente a embalagem, a tampa dos motores das micromáquinas susceptíveis de transplantar a vida e fazer a transfusão dos seus influxos, graças aos programas informáticos” (Virilio, AAM, 1996: 112). Qualquer membro ou órgão que demonstrar sinal de cansaço ou que provoque esteticamente algum desagrado pode ser substituído; novos implantes podem ser feitos, outras micromáquinas podem alimentar com mais precisão toda a elaborada simetria arquitetural do organismo. Tanto as tecnologias, que se colam na pele, quanto as que servem de recheio, estão a transformar-se em componentes do próprio corpo. Deixam de ser objectos estranhos, artificiais, invasores, mas uma outra“natureza” e “realidade” corporal. A mistura do técnico e do vivente elimina a antiga oposição entre o natural e o artificial. Segundo Virilio, já não se pode falar de um corpo estranho que se aloja no organismo, uma vez que ele passa a fazer parte integrante da estrutura anatómica. Tem-se agora um ritmo estrangeiro que habilita o corpo a vibrar e a movimentar-se num uníssono com a máquina. A simbiose homem/máquina permite que organismos sintéticos miniaturizados colonizem o corpo, modifiquem a sua arquitectura e reajustem a consciência que cada um tem de si e do mundo. Para que o homem recupere o seu lugar num mundo sem fronteiras e a sua locomoção, precisa ampliar as suas limitações corporais por meio de máquinas incessantemente redimensionadas. Elas podem devolver sentido ao corpo e inseri-lo no universo técnico que prima pela velocidade, resistência, potência, dinamismo e precisão. A lei da seleção artificial cria, segundo Virilio, a verdadeira “integração técnica”. Cabe a ela determinar as novas condições e motivações existenciais. De um lado, a construção desse indivíduo centra-se nos dispositivos capazes de alongar a expectativa de vida e melhorar quantitativamente a saúde e, de outro, no próprio desejo de viver revigorado pelas técnicas modelares, alimentares e cirúrgicas. “(...) Não queremos somente viver melhor, com o conforto e o consumo de bens ou de medicamentos, mas vivermais fortemente, desenvolver a intensidade nervosa da vida através da ingestão de produtos biotecnológicos que complementariam assim os alimentos e outros produtos químicos mais ou menos estimulantes” (Virilio, AAM, 1996: 107). O corpo assim “restaurado” e recuperado coloca-nos a questão da sua própria nutrição como mais uma modalidade do ato de equipar tecnicamente a estrutura física. “Depois da ingestão de alimentos reconstituintes, frutos da agricultura, preparamo-nos para digerir, alimentarmonos de produtos dopantes de todas as origens, não somente químicos com a voga de excitantes modernos - como o álcool, o café, o fumo, a droga ou os anabolizantes - mas também técnicos com os produtos da biotecnologia, as pastilhas inteligentes capazes, diz-se, de super excitar as nossas faculdades mentais” (Virilio, AAM, 1996: 93). O objetivo dos transplantes e dos recentes nutrientes técnicos é acelerar o corpo, excitá-lo de modo a suplantar o ritmo da vida conhecido até então. A super excitação dos indivíduos visa integrar os aspectos físico e o mental, aperfeiçoar os reflexos, construir a dinâmica vital pela hiper vitalidade do sujeito. Como advoga o autor: “Não se irá provocar somente o desenvolvimento dos músculos ou a flexibilidade das articulações através de exercícios rítmicos e dos produtos anabolizantes, mas também estimular as funções nervosas, a vitalidade da memória ou daimaginação, promovendo uma reestruturação das sensações através das novas práticas mnemotécnicas” (Virilio, AAM, 1996: 95).

Seguindo o pensamento de Virilio, com tantas modificações no corpo o que se preconiza não é adaptar o espaço ao nosso corpo, mas ao contrário, remodelar o nosso corpo em função de uma situação realmente nova. No cotidiano, as pessoas já estão envolvidas no uso de muitas técnicas que possibilitam uma vida mais longa num corpo sempre mais jovem e forte. Deste modo, pensamos, que a realidade atesta o quanto muitos indivíduos se dão conta que o organismo precisa de ser reestruturado para se adaptar a toda esta mudança ambiental por onde ele, em velocidade, transita. É apenas o começo do equipamento técnico que envolve a construção do corpo. Está mesmo em questão é a radical extensão da duração da vida. Para Virilio, o corpo adapta-se para sobreviver às pressões do meio natural, cujas condições são dadas pela biosfera. As próteses da era industrial invadem o organismo para corroborar esse incessante processo de adaptação. Já as próteses da era virtual, desmaterializadas, garantidas pela manipulação genética e pela informática, estão a serviço da construção do meta corpo, capazes de enfrentar as pressões artificiais da tecnosfera. São próteses interativas que funcionam em tempo real. E aqui o corpo só resiste e funciona por causa dos excessos, dos estimulantes e dosexcitantes tecnológicos. Virilio enfatiza que na história da aceleração este é um momento decisivo. O corpo liberta-se das condições de existência tradicional para se inserir na velocidade absoluta das teletecnologias. Virilio acredita que aqui as referências míticas são essenciais para se compreender as teletecnologias. Estamos a deixar de lado os atributos humanos para conquistar, pela técnica, os divinos, começando pela imediaticidade, instantaneidade, omnipresença e aproximando-se da vida eterna, sem começo e sem fim, aquém do nascimento e além da morte. Nada disso seria possível se não vivêssemos a era da completa valorização do corpo técnico; e quanto mais nos desligarmos da Terra, que é sempre a referência básica existencial e física, mais nos separamos do nosso corpo. Deixamos para trás os suportes materiais e as experiências imediatas para nos exilar na imaterialidade de um novo outro, o mundo, um novo outro modelo corporal, num eterno presente da contínua atualização. “Depois da super estrutura e da infra-estrutura ontem, pode-se prever a partir de então um terceiro termo, a intra-estrutura, já que a recente miniaturização tecnológica favorece agora a intrusão fisiológica, ou mesmo a inseminação do ser vivo pelas biotecnologias” (Virilio, AAM, 1996: 91). A partir da análise de que o lugar da técnica é no interior do organismo, Virilio distingue duas modalidades de corpo aoprocurar responder à questão se é possível parar, não enfrentar esses desafios: Primeiro, continua a existir um corpo inválido que se cerca de próteses para controlar o seu meio sem se deslocar fisicamente. É o homem que opta pela inércia, que insiste em parar, em fugir das leis da aceleração. É o sujeito que usa as máquinas para potencializar e estender as funções corporais, mas que também deseja fugir delas em muitos momentos. Segundo o mesmo autor, podemos ter um corpo válido, super equipado de telecomandos de todo tipo. Esse é o homem que escolhe submeter-se à fatalidade e ao luxo do excesso, ao prazer de estar sempre a testar, para expandir e superar os seus limites físicos. O corpo válido é aquele sempre actualizado. A construção do corpo informatizado não é uma etapa, mas um processo sem vislumbre de fim. Ele é, em si mesmo, sideral e valoriza a forma nómada da corporalidade. Sob a era da obsessão do corpo perfeito, quando a estrutura anatômica dos indivíduos se converte em pura linguagem e está protegido e integrado às novas próteses de comunicação, o risco maior, segundo Virilio, está sempre longe da perseguição da forma física. Ele configura-se na recusa ou na impossibilidade de alguém se manter com um corpo tecnicamente adequado, porque assim, tanto os órgãos e os membros como a mente e os

ritmos humanos serão insuficientes, anacrónicos. Aquele homem, cujo corpo nãoesteja integrado na performance dos aparelhos técnicos, será um novo excluído da sociedade tecnológica. Enfim, as próteses da era electrónica são cada vez mais imateriais, primam pela inteligência e memória. A sua recente característica é a invisibilidade. O suporte físico das máquinas, na sociedade tecnológica, é cada vez mais reduzido e a tendência é facilitar a correspondência entre o animado e o inanimado, o fora e o dentro, o material e o imaterial, sem que para isso seja necessário alterar a aparência humana que muitos preferem preservar. As próteses da era da informática estão mais para a virtualidade e a transparência do que para o corpo, o visível e o aparente. Segundo esta ordem de pensamento, não poderemos inferir que pensar a máquina é pensar o humano? É possível investigar a evolução das máquinas do mesmo modo que se pode analisar a série evolutiva dos seres vivos. E um aspecto em destaque é a corporalidade, integrando desde as características típicas do corpo de cada um, homem e máquina, passando pelo estágio das comparações e, finalmente, perseguindo a simbiose própria da biotecnologia. Em síntese, toda máquina, a mais simples ou a mais complexa, contém uma dimensão corporal estabelecida em três referências fundamentais: a sua materialidade, a organização interna que combina diversos elementos ou circuitos e a energia que garante o seu funcionamento.