Docsity
Docsity

Prepare-se para as provas
Prepare-se para as provas

Estude fácil! Tem muito documento disponível na Docsity


Ganhe pontos para baixar
Ganhe pontos para baixar

Ganhe pontos ajudando outros esrudantes ou compre um plano Premium


Guias e Dicas
Guias e Dicas


Percepção e Espaço na Filosofia de Merleau-Ponty: Fenomenologia da Percepção, Teses (TCC) de Filosofia

Uma análise da relação entre percepção e espaço no início da filosofia de merleau-ponty, com ênfase na obra fenomenologia da percepção. O autor ressalta que, para merleau-ponty, a compreensão de um espaço situado ou de dimensões vividas pelo sujeito implica em certa simultaneidade entre a percepção e o espaço, contrapondo-se ao racionalismo e ao empirismo. O corpo permite o registro da noção da construção espacial, sendo ele o fundador das pessoas na construção do esquema corporal. O documento aborda as questões da percepção do espaço, da intencionalidade, da estrutura, do corpo, da percepção e do mundo percebido, buscando articular estes pressupostos com o alvo principal da filosofia de merleau-ponty.

Tipologia: Teses (TCC)

2020

Compartilhado em 11/11/2020

maria-luiza-rabelo-dias-trrindade-1
maria-luiza-rabelo-dias-trrindade-1 🇧🇷

1 documento

1 / 41

Toggle sidebar

Esta página não é visível na pré-visualização

Não perca as partes importantes!

bg1
FACULDADE SÃO BENTO DA BAHIA
CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO LATU SENSO EM FILOSOFIA
CONTEMPORÂNEA
MARIA LUIZA RABELO DIAS TRINDADE
PERCEPÇÃO DO ESPAÇO EM MERLEAU PONTY
Salvador
2007
pf3
pf4
pf5
pf8
pf9
pfa
pfd
pfe
pff
pf12
pf13
pf14
pf15
pf16
pf17
pf18
pf19
pf1a
pf1b
pf1c
pf1d
pf1e
pf1f
pf20
pf21
pf22
pf23
pf24
pf25
pf26
pf27
pf28
pf29

Pré-visualização parcial do texto

Baixe Percepção e Espaço na Filosofia de Merleau-Ponty: Fenomenologia da Percepção e outras Teses (TCC) em PDF para Filosofia, somente na Docsity!

FACULDADE SÃO BENTO DA BAHIA

CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO LATU SENSO EM FILOSOFIA

CONTEMPORÂNEA

MARIA LUIZA RABELO DIAS TRINDADE

PERCEPÇÃO DO ESPAÇO EM MERLEAU PONTY

Salvador 2007

MARIA LUIZA RABELO DIAS TRINDADE

PERCEPÇÃO DO ESPAÇO EM MERLEAU PONTY

Trabalho monográfico apresentado ao Curso de Pós-graduação lato senso em Filosofia contemporânea, da Faculdade São Bento da Bahia, como requisito parcial para a obtenção do título de especialista em Filosofia Contemporânea. Orientadora : Professora Dra^ Dinorah D´Araújo Berbet de Castro Salvador 2007

RESUMO

O presente trabalho abordou o problema da percepção do espaço na obra “Fenomenologia da Percepção”, do filósofo Merleau Ponty, tendo por referencia o capítulo que trata do espaço. Lançou mão de alguns pressupostos: estrutura, corpo e intencionalidade, que reconhece como fundamentais para o avanço da compreensão da percepção do espaço. Procurou-se compreender o espaço percebido, como um tipo de unidade que ao mesmo tempo em que se afirma por si, também solicita e confirma uma dimensão pré-reflexiva, configurando-se especificamente na junção entre o sujeito que percebe, o corpo, e o mundo. Visando mostrar que o filósofo reformula a relação entre o ser e o espaço tendo por base a temporalidade presente na percepção, tratou-se de ressaltar a constituição dos níveis de percepção e a síntese temporal que para Merleau-Ponty além de marcar a origem do sujeito pré-reflexivo implicam uma relação de abertura ao mundo, incluindo, portanto, o espaço dos sonhos, do esquizofrênico, e dos mitos. Palavras-chave: 1. Percepção. 2. Espaço. 3 .Tempo

Abstracts The present work approached the problem of the perception of the space in the Fenomenologia da Percepção of the fhilosopher Merleau Ponty, having for base the chapter that deals with the space. It launched hand of some estimated: structure, body and scienter, that recognizes as basic for the advance of the perceived space, as a type of unit that at the same time where configuring itself specifically in the junction between the person that it perceives, the body, and the world. Aiming at to show that the philosopher reformulates the relation between the being and the space having for base the present temporality in the perception, it emphasized the constitution on the perception levels and secular synthesis that atops Merleau Ponty besides giving origin beyond to the subject reflective daily pay implies a relation with the world, including, consequently, the space of the dreams, of the schizophrenia and myths. Word – key: 1. Perception. 2. Space. 3. Time.

1. INTRODUÇÃO

Este trabalho pretende tratar da relação entre percepção e espaço no início da filosofia de Merleau-Ponty, especialmente na obra Fenomenologia da Percepção. Visa, principalmente, mostrar que essa relação se assenta em uma reformulação que implica a não oposição entre o ser e o espaço, graças à temporalidade presente na percepção. Buscou mostrar que o pensamento de Merleau-Ponty revela a inserção e relação do sujeito em um mundo através de algumas das noções da Fenomenologia da Percepção. Trata de descrever e explicitar a existência de um sentido intrínseco ao mundo, que mesmo não se efetivando em uma dimensão subjetiva, nem por isso se reduz a uma objetividade posta pela consciência. Merleau-Ponty busca uma compreensão do homem e do mundo que não os afirma nem como diversos nem opostos. Mantém o enfoque fenomenológico e aponta que na relação entre homem e mundo, um se torna constitutivo do outro, esse homem ligado ao mundo, se torna ‘ser em situação’ que o abre originariamente ao que lhe é outro e reciprocamente, o mundo torna-se, ele próprio, abertura e transcendência. Especificamente em relação à percepção do espaço, o filósofo defende que a compreensão de um espaço situado ou de dimensões vividas pelo sujeito implica em certa simultaneidade entre a percepção e o espaço, contrapondo-se ao racionalismo e ao empirismo que afirmavam a distinção total entre eles. O autor em suas análises, seja da percepção, do corpo, ou do espaço reencontra, em todos eles, a temporalidade devido a uma contradição que afirma simultaneamente a transcendência e a imanência. O corpo permite o registro da noção da construção espacial, por isso ele é o fundador, mesmo assim, as pessoas não constroem sozinhas o esquema corporal, o corpo necessita passar por várias experiências, entre estas a ocupação de posição no espaço que depende da orientação do corpo em relação a objetos e outros homens. O corpo é reconhecido na orientação espacial: “a orientação no espaço não é um caráter contingente do objeto, é o meio pelo qual eu o reconheço e tenho

consciência dele como de um objeto”.^1 A ocupação de espaços dá-se através do estado ou da mobilidade de um corpo e se consolida pela manutenção dessa mobilidade ou desse estado. Daí a preocupação principal com a orientação e mobilidade que tem seu início na adequada estruturação espaço-temporal. O movimento corporal, além de abranger atos motores, atinge também a dimensão social. Para Bourdieu^2 , o espaço de relações é tão real quanto o espaço geográfico, ele amplia a expansão do indivíduo, permitindo-lhe variar a rede de relações corporais e sociais. O deslocamento nos diferentes espaços proporciona ao indivíduo estímulos da memória e da organização espaço-temporal ao propiciar maior interação com a sociedade, evitando o seu isolamento. Assim o movimento corporal, recebe grande influência do meio social. Tendo em vista a importância do espaço para a orientação e mobilidade do ser humano, além de ser tema de estudo de diversos campos do saber, este trabalho teve por objeto a percepção do espaço segundo o pensamento de Merleau-Ponty. No desenvolvimento desse trabalho uma outra questão deve ser indicada: as descrições de Merleau-Ponty, partem das formulações de empiristas e racionalistas, uma vez que o filósofo busca criar conceitos novos, porque considera as categorias daqueles, insatisfatórias ou insuficientes. Para o tratamento dessas questões, seguimos, nesse trabalho, o seguinte percurso: Concentrar-se na obra Fenomenologia da Percepção e seguindo a hipótese central deste trabalho, iniciar mostrando como o projeto de Merleau-Ponty pode articular-se a partir de certa leitura do pensamento dos empiristas e intelectualistas sobre o espaço, tendo por um dos pontos principais, o modo pelo qual ele apresenta o corpo na compreensão do espaço, mostrando que o compreende nem como objeto ou puro ‘espírito’. Merleau-Ponty reconhece que na percepção do espaço e do mundo em geral o corpo mostra uma dimensão de negatividade e de projeção que o possibilita articular o presente, o passado e o futuro. Buscou-se evidenciar que, na investigação do filósofo, o corpo é compreendido como o que percebe não apenas a si mesmo, mas também, a partir do espaço - tempo, o mundo. (^1) MERLEAU-PONTY Maurice. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1999 p. (^2) BOURDIEU, Pierre. Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense, 1990.

1.1. TEMA E PROBLEMA

O campo temático da percepção e do espaço é muito amplo. Ambos, enquanto campo de pesquisa envolve uma multiplicidade de questões que exige um trabalho interdisciplinar, um diálogo entre as ciências humanas e naturais, de modo a propiciar uma articulação entre os conhecimentos por elas produzidos sem cair em um reducionismo. Sendo assim, este trabalho é circunscrito ao desenvolvimento de alguns conceitos presentes obra Fenomenologia da Percepção, tendo em vista a questão a ser colocada. Considerando a percepção e o espaço surgiu a questão de pesquisa: Trata-se de compreender alguns aspectos da relação percepção e espaço de acordo com a obra Fenomenologia da Percepção. A questão que pretendemos desenvolver neste trabalho é específica. Visa mostrar, a partir da análise do problema da percepção do espaço em Merleau-Ponty, na obra supracitada, que o espaço - tempo e percepção não se opõem, que o espaço - tempo estão entrelaçados ao corpo que percebe. Nesse sentido, este tema que trata do espaço parece ser fundamental para a compreensão do fenômeno perceptivo. Com isto espera-se que, a partir da descrição da experiência efetiva e da reflexão realizada por Merleau-Ponty, seja possível compreender que o espaço que habitamos não é o espaço homogêneo da física e sim o espaço da experiência que compomos pelo nosso corpo em uma espacialização continuada, incluindo assim a temporalidade. O tema mostra-se relevante principalmente por ser o espaço objeto de estudo de diversos campos desde a Filosofia até a Administração Pública, estando também presente nas ciências humanas e naturais tais como: Geografia, História, Economia, Sociologia, Antropologia, Psicologia, Física, Arquitetura, Desenho, Engenharia e Urbanismo.

2. REVISÃO DE LITERATURA

A filosofia e o desenvolvimento do pensamento de Merleau-Ponty apresentada, em seguida, mostra algumas das dificuldades que os intelectualistas e empiristas encontram para pensar a relação eu - mundo e a maneira que Merleau-Ponty procura superar estas dificuldades e estabelecer novos critérios nas suas primeiras obras Estrutura do Comportamento, e na Fenomenologia da Percepção. Foram abordados os seguintes pressupostos: intencionalidade, estrutura, corpo, percepção e o mundo percebido, uma vez que este trabalho, em seu desenvolvimento, busca articular estes pressupostos com seu alvo principal, a percepção do espaço tendo por base o pensamento de Merleau-Ponty na obra Fenomenologia da Percepção. 2.1. O PENSAMENTO DO FILÓSOFO. Merleau-Ponty desenvolve em sua obra um exercício de interrogação e de reflexão. A abertura ao problemático caracteriza sua filosofia. Para ele a tarefa do filósofo é nos despertar ao que a existência do mundo e a nossa têm de problemáticas em si. As ciências modernas e os filósofos levantaram um problema: Como o homem conhece? Como pode ser ao mesmo tempo sujeito e objeto do conhecimento? Merleau Ponty debateu todas estas questões e deu-lhes uma dimensão e valores inéditos. Quanto às relações entre filosofia e ciência, Merleau-Ponty, transitou por ambas, trabalhou na Sorbonne, ocupou a cadeira de “ Psicologia e Pedagogia da Criança ” e ampliou a investigação da fenomenologia de Husserl através do exame da experiência efetiva dos sujeitos concretos em sua inserção no mundo, criticou os pressupostos metafísicos presentes nas ciências e procurou estabelecer uma compreensão histórica e dialética do ser humano. Sua atenção ao estudo científico do comportamento e da consciência conduziu a uma renovação da ontologia, principalmente em sua última obra, “ o visível e o invisível”. O recurso à ciência, inicialmente com a obra Estrutura do Comportamento, possibilitou ao filósofo contrapor-se à fenomenologia husserliana, limitada à esfera constitutiva, tal recurso permitiu pensar a interdependência entre fato e essência,

segundo Coelho^7 , um pensamento se mostra e outro já se oculta sendo impossível uma transparência que aponte para um caminho sem dúvida ou hesitações. Assim o sentido que assume a reflexão filosófica em sua obra, afirma Coelho^8 , é de Merleau- Ponty se colocar no presente para aí se defrontar com os paradoxos da existência. Para ele, a filosofia deve ser atual sem perder os traços de uma verdade que dure. Parece importante também destacar nas oposições que Merleau Ponty faz aos demais filósofos em suas obras é o fato de que os filósofos se comunicam não apenas pelas questões que colocam, mas também pela maneira em que estas são apresentadas, seja para assumi-las, para negá-las ou para aprender com elas. 2.2. ESTRUTURA DO COMPORTAMENTO E FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃO: ALGUNS PRESSUPOSTOS Merleau-Ponty para pensar as relações eu – mundo, em suas duas primeiras obras, refere-se a: intencionalidade, estrutura, corpo e percepção, bem como tece críticas às concepções de causalidade e de representação que aceitam implícita ou explicitamente a existência de um puro interior e de um puro exterior, ou seja, aos métodos que abstraem o ser humano de suas relações efetivas com o mundo. A Psicologia teve um importante papel nas duas primeiras obras de Merleau-Ponty, Foi este o terreno que ele escolheu, para engajar o debate com as filosofias clássicas. Ao se colocar no campo da Psicologia, segundo Coelho^9 , Merleau-Ponty aborda a consciência imediata a partir da perspectiva da psicologia objetiva, que considera a consciência a partir do exterior, bem como se coloca na perspectiva da psicologia introspectiva, que considera a consciência a partir do interior. Visando superar a dicotomia entre o interior e o exterior Merleau-Ponty procura fazê- lo colocando-se tanto na perspectiva realista, segundo a qual as consciências estão inseridas no tecido do mundo objetivo e dos acontecimentos em si, quanto na perspectiva idealista, de acordo com a qual nada é senão como objeto para a consciência e afirma o imbricamento homem – mundo: “a percepção do mundo é apenas uma dilatação do meu campo de presença, ela não transcende suas estruturas essenciais, aqui o corpo permanece sempre agente e nunca se torna (^7) COELHO, Nelson & CARMO, Paulo Sérgio. Merleau-Ponty: Filosofia como corpo e existência. São Paulo: Escuta 1991 (^8) idem (^9) Ibidem.

objeto”.^10 Colocando-se no interior das teorias existentes, considera a definição clássica de natureza, bem como a maneira como a teoria clássica pensa a relação entre a consciência e o corpo: “o pensamento clássico entende por natureza uma multiplicidade de acontecimentos exteriores uns aos outros, ligados por relações de causalidade”.^11 O pensamento clássico separa a consciência dos atos, portanto, quanto à relação entre a consciência e o corpo, o organismo é colocado do lado dos acontecimentos da natureza, e, nesse sentido, o organismo e a consciência são tomados como duas ordens de realidades como “efeitos” e como “causas”. Na obra “Estrutura do Comportamento ”, a noção de estrutura revela que o comportamento tem sentido e também mostra que a realidade é permeada de diferenças, ou ainda, que há diferentes ordens de realidades, e, portanto, não se pode reduzir a existência a apenas, a consciência e a natureza, ou mesmo estabelecer uma identidade de estruturas, reduzindo-as às formas físicas, crítica que o filósofo fez à Psicologia da Gestalt. A noção de estrutura torna-se então fundamental, nesta primeira obra, para a superação também dos dualismos corpo-espírito, sujeito-objeto e homem-mundo. Para Merleau-Ponty a estrutura exprime um processo global das forças e acontecimentos que constituem a ordem física, vital e simbólica. A estrutura, permite a passagem do físico ao biológico e deste ao psíquico, é um modelo para compreender o real, mas não pode substituí-lo. Ainda neste seu primeiro livro ele propõe que se entenda o organismo e o comportamento humano a partir destes três níveis: o físico, o biológico e o mental, enfatizando que há interdependência entre eles sem que se estabeleça uma relação causal. Nesta primeira obra, segundo Coelho,^12 o filósofo busca tornar evidente que o comportamento deve ser compreendido como possuindo intenção e sentidos e não exclusivamente como sendo fruto de um processo mecanicista de causa e efeito, tal como proposto pela teoria behaviorista. As análises do comportamento, nesta primeira obra, desfazem a noção de que o comportamento fosse um mosaico arbitrário de elementos externos e, de acordo (^10) MERLEAU-PONTY Maurice. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1999 , p. (^11) MERLEAU-PONTY Maurice. A Estrutura do comportamento. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. (^12) COELHO, Nelson & CARMO, Paulo Sérgio. Merleau-Ponty: Filosofia como corpo e existência. São Paulo: Escuta 1991

consciência, enquanto que para Merleau-Ponty, afirma Dartigues,^15 a essência do homem é existência antes de saber, sendo o sentido continuamente constituído pré reflexivamente do mundo vivido. Assim o verdadeiro transcendental não se encontra em estado “puro” e sim na reflexão do mundo vivido que é a fonte do sentido. Para ele o verdadeiro transcendental é a vida ambígua. Admite que a consciência julgue o sentido, a verdade do conhecimento, porém o saber não começa com a consciência. A reflexão reporta-se aqui ao mundo vivido através da percepção que inclui a ‘espessura temporal’ e ‘engajamento corporal.’ Merleau Ponty, segundo Dartigues,^16 considera como ponto de partida para o conhecimento a ‘fé perceptiva’ e a ingenuidade positiva as quais considera ´embrião´ da sabedoria ao engendrar a aceitação, o pertencimento e a certeza do mundo. Cabendo à reflexão, purificar, firmar, desconstruir crenças e justificar o sentido da ação, uma vez que não somos nenhum de nossos pensamentos, portanto trata-se de uma fenomenologia existencial na qual o homem está inextrincavelmente ligado ao mundo. Na elaboração da Fenomenologia da Percepção o filósofo faz um estudo pormenorizado do corpo e busca ultrapassar tanto a concepção materialista da ciência positiva que considera o corpo como objeto quanto à visão espiritualista que desvaloriza o corpo opondo-o a alma. Em seu conceito de corpo próprio, Merleau- Ponty conclui que a dicotomia em físico e psíquico tem prejudicado a noção de corporeidade e existência, pois é nesta que ambos os aspectos encontram-se integrados. Para ele o corpo abre certas dimensões e institui diferenciações no espaço (e também no tempo) pelo movimento. Na discussão sobre a espacialidade e a motricidade do corpo ele nos traz a noção de hábito, pois “como apreensão de uma significação motora exprime o poder que temos de dilatar nosso ser no mundo ou me mudar de existência anexando a nós novos instrumentos ”.^17 A percepção em geral, para o filósofo, antes de oferecer uma plenitude ao sujeito e ao mundo é um poder de articulação e diferenciação e como conseqüência o sentido das coisas, na percepção, não é algo isolável e auto-suficiente e sim decorre de certa articulação com o sensível. (^15) DARTIGUES, André. O que é fenomenologia?. São Paulo: Centauro, 1973 (^16) Idem (^17) MERLEAU-PONTY Maurice. Fenomenologia da Percepção .São Paulo:Martins Fontes,1999,p. 199

Na Fenomenologia da Percepção são as sensações que fazem a articulação com as questões da percepção do mundo e Merleau-Ponty ressalta que os objetos só existem enquanto há mirada intencional do corpo que os percebe; o que será tratado a seguir no desenvolvimento deste trabalho que focaliza a percepção do espaço- tempo que sustentam o imbricamento homem-mundo.

a diferença entre espaços orientados, e o outro abdica da relação do espaço com o sujeito; os dois lados não levam em conta, o fato de que a experiência do espaço implica ao mesmo tempo a presença de um absoluto no relativo sendo uma experiência híbrida. O filósofo confronta o espaço físico da física clássica com nossa experiência de espaço, ressaltando que Kant também considerava a nossa experiência a instancia última de conhecimento sobre espaço, trata de pensar nossa experiência do espaço incluindo a maneira como ocorre sua síntese. Merleau-Ponty, através da experiência de Stratton, mostra que o espaço não escorrega nas aparências, ancora-se nelas e se faz solidário a elas, mas não é dado com elas de maneira realista e pode sobreviver à subversão das experiências a partir do corpo. Visa compreender como o espaço pode ser dotado de uma relatividade ao encontrar-se aberto a uma iniciativa humana, e ao mesmo tempo oferecer-se como uma espécie de dado, um fato, ou seja, um ‘absoluto no relativo’, investigando: “a experiência originária do espaço para aquém da distinção entre a forma e o conteúdo ”.^20 Nessa relação entre homem e mundo na atividade perceptiva é fundamental a noção de nível. A constituição do nível ocorre em certo conjunto estável que é polarizado por ‘ pontos de ancoragem’ e precede a qualquer ato deliberado do sujeito, encontrando-se vinculada a estrutura pré-pessoal e geral do corpo. A partir do experimento de Stratton, o filósofo descreve a experiência de ‘alto’ e ‘baixo’. O experimento consiste em duas etapas: Em ambas o sujeito usa óculos que inverte as imagens: Na primeira etapa, inicialmente a paisagem inteira parece invertida, no segundo dia, a percepção da paisagem volta a ser normal embora o corpo pareça invertido. Na segunda etapa, ao final da primeira semana “o corpo se apruma progressivamente”.^21 No fim da referida experiência, ao se retirar os óculos, os objetos aparecem “bizarros”, mas não invertidos e as reações motoras invertidas. Merleau - Ponty busca saber como uma nova imagem do mundo e do corpo próprio pode deslocar outra. Para o psicólogo empirista, o sujeito procuraria harmonizar dados visuais e táteis durante a experiência e exemplifica: o sujeito ao lavar as mãos a partir do controle da visão: “[...] criaria associações estáveis entre direções antigas (^20) MERLEAU-PONTY Maurice. Fenomenologia da Percepção .São Paulo:Martins Fontes,1999, p. (^21) idem, p.

e novas que suprimiriam as antigas em favor das novas porque fornecidas pela visão”.^22 Merleau-Ponty afirma que a explicação da psicologia empirista é ininteligível porque busca explicar a inversão da paisagem e do ‘alto’ e ‘baixo’ a partir da imagem da posição aparente da cabeça e dos pés. Uma vez que durante a experiência ocorrem as seguintes mudanças: no início o campo tátil corporal aparece direito e o campo visual invertido, durante a experiência o campo tátil corporal aparece invertido e o visual se apruma e no fim ambos estão quase direitos, indicando que, em nenhum momento da experiência a orientação do campo pode ser dada pelos conteúdos que ali aparecem “cabeça” e “pés”, pois para poder ser dada ao campo seria preciso que esses conteúdos tivessem uma direção. Essa experiência mostra que, embora para as coisas bastem dois pontos para definir uma direção, para os nossos campos sensoriais há sistemas de aparências cuja orientação varia no decorrer da experiência, mesmo sem nenhuma mudança nos estímulos. Para Merleau- Ponty, o mundo e o espaço orientado não são obtidos com os conteúdos da experiência sensível ou com o corpo em si, nesta experiência, os mesmos conteúdos podem estar orientados alternadamente em uma direção ou na outra e as relações objetivas registradas na retina pela posição da imagem física não determinam a nossa experiência de ‘alto’ e ‘baixo’. Para ele o empirismo e o intelectualismo não dão conta dessa questão, pois empirismo coloca a percepção do espaço como a recepção de uma imagem de um espaço real, cuja orientação corresponde à orientação do mundo. Não responde a seguinte questão: como poderia a imagem invertida do mundo se aprumar? Já para os intelectualistas as relações ‘direito’ e ‘invertido’ não tem sentido uma vez que a direção existe para um sujeito e um “espírito” pode traçar infinitas direções e portanto não tem nenhuma direção. O espaço orientado, para Merleau-Ponty, está aquém de ambos empiristas e intelectualistas, porque não é possível compreender a experiência de espaço, segundo os empiristas, a partir dos conteúdos, nem através dos intelectualistas a partir de “uma atividade de pura ligação ”. 23 O filósofo admite que haja “[...] Uma terceira espacialidade que não é a das coisas no espaço, nem a do espaço (^22) MERLEAU-PONTY Maurice. Fenomenologia da Percepção .São Paulo:Martins Fontes,1999,p. 331 (^23) idem, p.