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O julgamento de Sócrates (469-399 a.C.) foi um dos fatos históricos mais importantes da Grécia Antiga e até hoje inspira escritores, artistas e filósofos. Em 399 a.C., Atenas estava se recompondo após a derrota para Esparta na Guerra do Peloponeso, tentando consolidar o ainda frágil regime democrático. O posicionamento crítico de Sócrates pareceu uma afronta aos costumes da cidade e ele foi incriminado, julgado e condenado à morte por envenenamento sob as acusações de não cultuar os deuses da
Tipologia: Notas de estudo
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Apologia de Sócrates
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História ou Estória?
As Edições de Ouro e o Coquetel grafam a palavra história e não estória por julgar a primeira forma mais correta, conforme dicionários mais categorizados, que julgam a segunda forma imitação do inglês story, sem correspondente com raízes em nossa língua.
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CP-981 MACBETH E CORIOLANO - Shakespeare CP-973 SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO/MERCADOR DE VENEZA - Shakespeare CP-983 HAMLETO- Shakespeare CR. 978 ROMEU E JULIETA/TITO ANDRÔNICO - Shakespeare CP-984 OTELO - Shakespeare CP-979 ANTÔNIO E CLEÓPATRA. JÚLIO CÉSAR - Shakespeare LE-548 ILÍADA (em verso) - Homero LE-470 A ILÍADA (em forme de narrativa) - Homero LE-549 ODISSÉIA (em versos) Homero LE-473 A ODISSÉIA (em forma de narrativa) - Homero CR-1271 DIÁLOGOS (Mênon, Banquete, Fedro) - Platão LE-1272 DIÁLOGOS (Fédon, Sofista, Político) - Platão AG-1273 DIÁLOGOS (A República) - Platão ES-1 19 APOLOGIA DE SÓCRATES - Platão CP-234 A ÉTICA -Aristóteles LE-190 A POLÍTICA - Aristóteles LE-1422 ARTE RETÓRICA E POÉTICA - Aristóteles CP-749 CÂNDIDO OU O OTIMISMO - Voltaìre ES-452 ZADIG OU O DESTINO - Voltaire CR-1465 CRÍTICA DA RAZÃO PURA - Kant CR-624 CRÍTICA DA RAZÃO PRATICA - Kant CR-1296 OS MAIS BRILHANTES CONTOS - Dostoievski LE-837 IRMÃOS KARAMÁZOVI - Dostoievski AG-1264 CRIME E CASTIGO - Dostoievski CP-590 ECCE HOMO - Nietzsche LE-1452 ASSIM FALAVA ZARATUSTRA - Nietzsche LE-408 OS MAIS BRILHANTES CONTOS - Gorki CR-1174 A MÃE - Gorki CP-1274 A CIDADE DO SOL - Campanella CP-254 DORES DO MUNDO - Shopenhauer LE-929 RESSURREIÇÃO -Tolstoi ES-1610 A MORTE DE IVAN ILITCH - Tolstoi AG-250 O INFERNO - Dante
maioria. Um julgamento do povo soberano e infalível, que os juízes representavam, era imediatamente posto em execução. Não havia recurso a qualquer instância superior. Sócrates foi logo levado à prisão pelos executores da sentença e posto a ferros para evitar a fuga. Seu amigo Críton apresentou garantias de que o condenado não procuraria fugir, provavelmente com o fito de obter alguma atenuação de tratamento, na prisão, para que o acusado pudesse ainda conversar com seus amigos. Adiou-se inesperadamente a execução da sentença. Dias antes se preparava para partir para Delfos o navio sagrado, que outrora levara Teseu a Creta, para uma peregrinação ao santuário de Apolo. Todo ano, nessa época, partia um navio para Delfos, com uma embaixada, para festejar o deus, que durante o inverno se ausentava para a Lícia. Nesse ano recaiu a festa no mês que anuncia a primavera, "mês sagrado" para os habitantes de Delfos, que correspondia ao "mês das flores" dos atenienses, o segundo depois do solstício do inverno. Nesse mês o mar não era ainda navegável. Daí o adiamento da partida e da volta do navio sagrado. Era tradição, porém, que durante esse período nenhuma sentença de morte podia ser executada. Dessa vez o lapso de tempo foi particularmente longo. Na tarde, porém, do dia em que o navio sagrado voltou ao porto, Sócrates bebeu a cicuta. São esses os fatos em sua plena nudez. (N. von Willamovitz-Moellendorf - Platon. 1920 vol. 1, pág. 155.) Dos acusadores de Sócrates, dois morreram tempos depois, lapidados pela multidão, como caluniadores: Meleto e Anito. Quanto a Lícon, desapareceu da história, como os outros também. Graças à glória de sua vítima é que seus nomes ainda são relembrados pela posteridade.
Por ocasião da morte de Sócrates, Platão estava doente. Não pôde participar das conversas do mestre com os discípulos, aproveitando o atraso da execução da sentença, durante o qual Sócrates fazia versos sobre as fábulas de Esopo ou recusava a Críton a fuga por este oferecida, possivelmente com a própria complacência das autoridades públicas, que começavam provavelmente a reconhecer a fatal injustiça que os jurados haviam cometido, graças às intrigas dos acusadores. Platão não pôde tampouco, acompanhar a Críton, Fédon, Apolidoro, Cebes e Símias - os cinco amigos e discípulos fiéis que participaram do memorável encontro do último dia de Sócrates, cujo resultado Fédon, depois da morte do mestre, foi contar a Echécatres e este referiu a Platão, que por sua vez o imortalizou no diálogo a que deu nome de Fédon. Toda obra de Platão está penetrada pelos ensinamentos de Sócrates, a tal ponto que nenhum comentador conseguiu distinguir nela o que pertence ao discípulo e o que proveio do mestre. O que se sabe, apenas, é que foi em seguida ao episódio relatado pelo próprio Sócrates, em seu Discurso aos Juízes, durante o regime dos 30 Tiranos e sobretudo após a sua morte, que Platão "se converteu", como diz Burnett, "levantando-se um novo homem da cama em que jazia doente. Não seria o caso único de .um homem chamado a ser um apóstolo depois da morte do seu Mestre", aludindo evidentemente, o intérprete moderno, ao caso de S. Paulo após a morte de Cristo (cf. A. Diës - Autour de Platon, 1927, pág. 134, nota I). Não é à toa que o nosso Fagundes Varela, no seu Evangelho nas Selvas, introduz simbolicamente a figura de Sócrates, como tomando o lugar de Judas, depois da fuga antecipada do traidor, para completar os
Iluminou a sala, e a sombra ilustre, Como outrora o Senhor, transfigurada, Deixou a terra, os homens, e perdeu-se Nas regiões do éter!...
(L. N. Fagundes Varela - Poesias Completas, EDIÇÕES DE OURO págs. 54314.)
As duas grandes acusações contra Sócrates, que levaram a maioria dos 501 a condená-lo à morte, foram
ninfas ou mesmo dos simples mortais", isto é, representam as próprias forças da natureza que receberam dos "deuses", isto é, do mistério sobrenatural, aquela autonomia que permite à inteligência humana penetrá-los e à técnica subjugá- los. A filosofia socrática não era um ateísmo, pois considerava que as raízes do universo sensível estavam acima e fora desse universo, e Platão sistematizou essa doutrinação em sua teoria das Idéias e da Divindade suprema. Mas era, isso sim, um antiestatismo, isto é, uma condenação da autocracia humana que se servia dos deuses para impor aos homens uma escravidão política e moral, pior do que a escravidão puramente social. Esse estatismo, para Sócrates, tanto podia ser democrático como oligárquico. Contra os 30 Tiranos fora ele a única voz no Pritaneu que ousou erguer-se contra um decreto injusto da ditadura. E foi morrer vítima de um governo "democrático" e até mesmo da facção "moderada" da democracia, como o prova Willamovitz-Moellendorf, chamando a atenção para o fato de que só "alguns anos depois (da morte de Sócrates) é que os democratas radicais subiram ao poder" (op. cit. pág. 157). O fanatismo, "democrático" ou "ditatorial", é que é o inimigo da dignidade humana e da liberdade de consciência que Sócrates representa. Não era, pois, uma questão de regime, embora o antidemocratismo de Platão atribuísse a morte de Sócrates à "teatrocracia", que a democracia alimentara. "Foi assim que o governo de Atenas passou de aristocrático a teatrocrático." (Platão.) A teatrocracia ateniense teve por efeito liberar todos os cidadãos ("e a desordem passando do teatro a tudo mais") de todo o respeito para com os magistrados, os superiores e os melhores, passando-se daí "ao desprezo pelo pátrio poder e pelos velhos", ao "desrespeito pelas leis", à apostasia "de todas as promessas, dos juramentos, dos
Não era esta a sua vocação. "Se o tivesse feito há muito que estaria morto." Não era uma lição de escapismo, mas de sabedoria. Cada um no seu lugar. E o lugar de Sócrates era argumentar com os cidadãos, levá-los a pensar, pensar com eles e não entrar na ação política, para governá-los ou mesmo para elaborar as leis que os deviam tornar felizes, como Platão queria que os "filósofos" fizessem e em vão o tentou junto aos tiranos... Por aí se vê que nem todo platonismo é socratismo. A morte de Sócrates era pela liberdade e não pela autoridade. Era esta, e no caso a autoridade de um regime democrático, que praticava contra ele, e contra a consciência humana, uma trágica injustiça. Contra isso é que ele se revolta, não por atos mas por palavras, não pela violência, mas pela serenidade, não pela ação, nem pela paixão, mas pela razão. Mais do que pela razão, pela sabedoria, mestra da razão. E mais do que pela sabedoria humana, "humana demais", como diria Nietzsche, pela sabedoria sobre-humana, divina, oracular. Ou como dizemos nós cristãos, "gratuita", inspirada pela graça Divina. Nesse sentido é que Sócrates foi uma prefiguração de Cristo. Sua morte, como a de Cristo, foi um protesto contra todas as tiranias, de César ou da Multidão, dos teocratas, dos aristocratas, ou dos democratas. Só há uma cracia autêntica - a cracia Divina, a cracia do Bem, da Verdade, da Justiça, do Amor, aquela que Sócrates viveu e seguiu pela boca da Pítia de Delfos. E que Cristo viveu e seguiu pela boca do Pai. A mais alta voz do Paganismo se antecipava, como um profeta desconhecido, à mais alta voz do Cristianismo. Cristo, Verbo de Deus, vinha ser, humanamente falando, a realização não apenas da voz dos Profetas, mas dessas vozes humanas, como a de Sócrates ou a de Virgílio, que do fundo do helenismo ou da latinidade, tinham
como que um pressentimento obscuro daquilo que do fundo da Raça eleita, os Elias e Isaías, Ezequiéis e Jeremias anunciavam. A importância da morte de Sócrates e da sua Apologia, que Platão exprimiu para todos os séculos, como poeta e como filósofo, tanto na própria Apologia, como no Críton ou no Fédon, transcendem, pois, de muito, o próprio mundo helênico, ou o da cultura por ele transmitido à posteridade. Sócrates - enfrentando a morte, com aquela serenidade incomparável e fazendo um testamento de sabedoria que só se aproxima daquele que o Apóstolo S. João nos conservou, ditado pelo próprio Cristo, ao enfrentar também a morte, depois da Ceia - deixou para toda a humanidade, ocidental e oriental, setentrional ou meridional, a todas as raças e a todos os tempos, uma lição insuperável de grandeza humana e de sublime sabedoria sobre-humana... Nunca a dignidade do homem, a liberdade de consciência, a defesa da verdade, da justiça, da virtude, a serenidade perante a morte, a humildade de espírito e a grandeza de alma, a compreensão e a fortaleza de ânimo, a coragem sem jactância - nunca um pensamento tão alto, uma lição tão profunda, foi dada por um homem aos homens em termos tão perfeitamente belos. Só mesmo a divindade de Cristo poderia transcender a humanidade de Sócrates. E sua morte ainda teve, como a de Tomás Morus, uma nota final extremamente humana: aquela ironia com que recomendou ao discípulo querido que não se esquecesse, como determinava a superstição, de sacrificar um galo a Esculápio, a esse deus da medicina e da terapêutica, que sabia preparar venenos tão sutis, como essa Cicuta, com que ele ingressava tranqüilamente não na morte mas na eternidade! Não com lágrimas nos olhos, mas com um sorriso nos
(429-347 a.C.)
A "APOLOGIA DE SÓCRATES" se coloca entre as mais belas páginas de eloqüência que nos foram legadas pela antiguidade. A autodefesa do filósofo, feita perante seus impudentes e impenitentes acusadores, evocada por Platão com devoção de discípulo fiel, é, não obstante a brevidade do texto, uma síntese da filosofia socrática, de grandíssimo valor literário e como documento humano. A admirável serenidade do sábio, só preocupado com o destino dos seus acusadores e com a sagrada verdade, manifesta-se em toda a sua grandeza nas páginas imortais deste pequenino e grande livro.
O QUE vós, cidadãos atenienses, haveis sentido, com o manejo dos meus acusadores, não sei; certo é que eu, devido a eles, quase me esquecia de mim mesmo, tão persuasivamente falavam. Contudo, não disseram, eu o afirmo, nada de verdadeiro. Mas, entre as muitas mentiras que divulgaram, uma, acima de todas, eu admiro: aquela pela qual disseram que deveis ter cuidado para não serdes enganados por mim, como homem hábil no falar. Mas, então, não se envergonham disso, de que logo seriam desmentidos por mim, com fatos, quando eu me apresentasse diante de vós, de nenhum modo hábil orador? Essa me parece a sua maior imprudência, se, todavia, não denominam "hábil no falar" aquele que diz a verdade. Porque, se dizem exatamente isso, poderei confessar que sou orador, não, porém, à sua maneira. Assim, pois, como acabei de dizer, pouco ou absolutamente nada disseram de verdade; mas, ao contrário, eu vo-la direi em toda a sua plenitude. Contudo, por Zeus, não ouvireis, por certo, cidadãos atenienses, discursos enfeitados de locuções e de palavras, ou adornados como os deles, mas coisas ditas simplesmente com as palavras que me vierem à boca; pois estou certo de que é justo o que digo, e nenhum de vós espera outra coisa. Em verdade, nem conviria que eu, nesta idade, me apresentasse diante de vós, ó cidadãos, como um jovenzinho que estuda os seus discursos. E todavia, cidadãos atenienses, isso vos peço, vos suplico: se sentirdes que me defendo com os mesmos discursos com os quais costumo falar nas feiras, perto dos bancos ( 1 ), onde muitos de vós me tendes ouvido, em outros lugares, não vos espanteis por isso, nem provoqueis clamor ( 2 ). Porquanto, há o seguinte: é a primeira vez que me apresento diante de