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Platão - Filebo, Notas de estudo de Filosofia

fisosofia grega

Tipologia: Notas de estudo

2017

Compartilhado em 09/05/2017

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rildo-nobrega-7 🇧🇷

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Versão eletrônica do diálogo platônico “Filebo”
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Créditos da digitalização: Membros do grupo de discussão Acrópolis (Filosofia)
Homepage do grupo: http://br.egroups.com/group/acropolis/
A distribuição desse arquivo (e de outros baseados nele) é livre, desde que se dê os créditos da digitalização aos membros do
grupo Acrópolis e se cite o endereço da homepage do grupo no corpo do texto do arquivo em questão, tal como está acima.
FILEBO
I - Sócrates - Então vê, Protarco, em que consiste a tese de Filebo, cuja defesa vais fazer, e
também a nossa, que terás de contestar, no caso de não a aprovares. Queres que recapitulemos as
duas?
Protarco - Perfeitamente.
Sócrates - Ora bem: o que Filebo afirma, é que, para todos os seres animados, o bem
consiste no prazer e no deleite, e tudo o mais do mesmo gênero. De nossa parte, defendemos o
princípio de que talvez não seja nada disso, mas que o saber, a inteligência, a memória e tudo o
que lhes for aparentado, como a opinião certa e o raciocínio verdadeiro, são melhores e de mais
valor que o prazer, para quantos forem capazes de participar deles, e que essa participação é o
que há de mais vantajoso pode haver para os seres em universal, presentes e futuros. Não foram
esses pontos, Filebo, mais ou menos, que cada um de nós defendeu?
Filebo - Isso mesmo, Sócrates; sem tirar nem pôr.
Sócrates - E agora, Protarco, aceitas amparar a tese que te confiamos?
Protarco - Sou obrigado a aceitar, uma vez que o belo Filebo já cansou.
Sócrates - Por todos os meios, haveremos de atingir a verdade nesse terreno.
Protarco - Sem dúvida.
II - Sócrates - Muito bem; acrescentemos ao que ficou dito mais o seguinte.
Protarco - Que será?
Sócrates - A partir deste momento, cada um de nós se esforçará por demonstrar qual é o
estado e a disposição da alma capaz de proporcionar vida feliz aos homens. Não é isso mesmo?
Protarco - Exato.
Sócrates - Então, compete a vós ambos demonstrar que é o prazer; e a mim, a sabedoria.
Protarco - Perfeitamente.
Sócrates - E se descobrirmos outro estado, superior a esses? No caso de revelar-se mais
aparentado com o prazer, não será certeza ficarmos ambos vencidos pela vida reforçada com
essa vantagem, mas que a vida do prazer levará a melhor, com relação a da sabedoria.?
Protarco - Isso mesmo.
Sócrates - E se tiver maior afinidade com a sabedoria, esta é que vencerá o prazer, que
acabará derrotado. Admites também esse ponto, ou não?
Protarco - Eu, pelo menos, admito.
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Versão eletrônica do diálogo platônico “Filebo” Tradução: Carlos Alberto Nunes Créditos da digitalização: Membros do grupo de discussão Acrópolis (Filosofia) Homepage do grupo: http://br.egroups.com/group/acropolis/

A distribuição desse arquivo (e de outros baseados nele) é livre, desde que se dê os créditos da digitalização aos membros do grupo Acrópolis e se cite o endereço da homepage do grupo no corpo do texto do arquivo em questão, tal como está acima.

FILEBO

I - Sócrates - Então vê, Protarco, em que consiste a tese de Filebo, cuja defesa vais fazer, e também a nossa, que terás de contestar, no caso de não a aprovares. Queres que recapitulemos as duas?

Protarco - Perfeitamente.

Sócrates - Ora bem: o que Filebo afirma, é que, para todos os seres animados, o bem consiste no prazer e no deleite, e tudo o mais do mesmo gênero. De nossa parte, defendemos o princípio de que talvez não seja nada disso, mas que o saber, a inteligência, a memória e tudo o que lhes for aparentado, como a opinião certa e o raciocínio verdadeiro, são melhores e de mais valor que o prazer, para quantos forem capazes de participar deles, e que essa participação é o que há de mais vantajoso pode haver para os seres em universal, presentes e futuros. Não foram esses pontos, Filebo, mais ou menos, que cada um de nós defendeu?

Filebo - Isso mesmo, Sócrates; sem tirar nem pôr.

Sócrates - E agora, Protarco, aceitas amparar a tese que te confiamos?

Protarco - Sou obrigado a aceitar, uma vez que o belo Filebo já cansou.

Sócrates - Por todos os meios, haveremos de atingir a verdade nesse terreno.

Protarco - Sem dúvida.

II - Sócrates - Muito bem; acrescentemos ao que ficou dito mais o seguinte.

Protarco - Que será?

Sócrates - A partir deste momento, cada um de nós se esforçará por demonstrar qual é o estado e a disposição da alma capaz de proporcionar vida feliz aos homens. Não é isso mesmo?

Protarco - Exato.

Sócrates - Então, compete a vós ambos demonstrar que é o prazer; e a mim, a sabedoria.

Protarco - Perfeitamente.

Sócrates - E se descobrirmos outro estado, superior a esses? No caso de revelar-se mais aparentado com o prazer, não será certeza ficarmos ambos vencidos pela vida reforçada com essa vantagem, mas que a vida do prazer levará a melhor, com relação a da sabedoria.?

Protarco - Isso mesmo.

Sócrates - E se tiver maior afinidade com a sabedoria, esta é que vencerá o prazer, que acabará derrotado. Admites também esse ponto, ou não?

Protarco - Eu, pelo menos, admito.

Sócrates - E tu, Filebo, o que me dizes?

Filebo - De meu lado, sou de opinião que, de todo o jeito, o prazer sairá vencedor; mas a ti, Protarco, é que compete decidir.

Protarco - Desde que nos transferiste a discussão, Filebo, perdeste o direito de concordar com Sócrates ou divergir dele.

Filebo - Tens razão; e assim, daqui em diante considero-me desobrigado de responder, para o que invoco o testemunho da própria deusa.

Protarco - Nós, também, juntamos ao teu o nosso testemunho, com respeito a essa declaração. E agora, Sócrates, quer Filebo concorde, quer faça o que entender, procuremos desenvolver nossos argumentos até o fim.

III - Sócrates - Sim, façamos isso mesmo, a começar pela própria divindade que, segundo Filebo, se chama Afrodite, mas cujo verdadeiro nome é Prazer.

Protarco - Certíssimo.

Sócrates - Não é humano, Protarco, o medo que sempre revelo, com respeito aos nomes do Deuses; excede a toda espécie de temor; foi por isso que eu designei Afrodite da maneira mais do seu agrado. Quanto ao prazer, sei muito bem que é vário e múltiplo; e, uma vez que vamos começar por ele, conforme declaramos, compete-nos estudar, desde logo, sua natureza. Quando o ouvimos designar, parece único e muito simples; mas, em verdade, assume as mais variadas formas, que, de certo jeito, são totalmente dissemelhantes entre si. Atende ao seguinte: dizemos que o indivíduo intemperante sente prazer, como afirmamos a mesma coisa do temperante, pelo fato de ser temperante, e também do insensato repleto de opiniões e de esperanças loucas, e do próprio sábio, por ser este o que é, realmente: sábio. Ora, quem afirmasse que são iguais essas duas espécies de prazer, com todo o direito não poderíamos apodá-lo de irracional?

Protarco - Esse prazeres, Sócrates, provêm de coisas opostas; mas em si mesmos não são opostos. Como, no meio de tudo, um prazer não haverá de assemelhar a outro, vale a dizer: a si mesmo?

Sócrates - A esse modo, meu caro, também as cores se parecem, pelo menos como cores; em nada distinguem umas das outras. Mas, todos nós sabemos, não apenas que o preto difere do branco, como é precisamente o seu oposto. O mesmo passa com as figuras que, como gênero, constituem um todo; mas as espécies não somente se opõem umas às outras, como são variáveis ao infinito. Fora fácil apontar muitos exemplos nas mesmas condições. Não confies, pois, num argumento que reduz à unidade tantos opostos. Tenho minhas suspeitas de que haveremos de encontrar prazeres que se opõem entre si.

Protarco - É possível; mas, com isso, em que sairia prejudicada nossa argumentação?

Sócrates - Por designá-los, é o que diremos, a todos por um nome, apenas, quando, em verdade, são dissemelhantes. Com efeito, afirmas que todas as coisas agradáveis são boas. Ora, ninguém contesta que as coisas agradáveis não sejam agradáveis; mas, sendo poucas as boas, de todas dizes que são boas, muito embora, quando premido pelos argumentos, conceda que são dissemelhantes. Que há de comum nas coisas boas e nas más, para dizeres que todo prazer é bom?

Protarco - Que me dizes Sócrates? Acreditas mesmos, que, depois de haver admitido que o prazer é bom, haja quem possa aceitar tua assertiva, de que alguns prazeres são bons e outros são ruins?

Sócrates – Porém hás concordar que muitos são dissemelhantes entre si, e alguns até mesmo opostos.

Protarco – Imaginas, sem dúvida, o exemplo de alguém afirmar que eu, como Protarco, sou uno por natureza e, ao mesmo tempo, múltiplo e contraditório em mim mesmo, por poder considerar-me essa pessoa como grande ou pequeno, pesado ou leve e de mil modos diferentes.

Sócrates – O que disseste, Protarco, é o que todo o mundo fala a respeito dessas esquisitices do uno e do múltiplo, declarando-se todos de acordo, por assim dizer, em que não devemos tocar nesse tema pueril e fácil demais, que só atrapalharia nosso debate. O mesmo aconteceria na seguinte situação, se alguém, por exemplo, separasse em pensamento os membros e as partes determinada coisa e chegasse á a conclusão de que todos esses segmentos são essa coisa única, para, logo depois, rir de si mesmo e refutar-se, por ter sido obrigado a enunciar uma posição monstruosa, com afirmar que o uno é múltiplo e infinito, e o múltiplo não é mais do que um.

Protarco – Mas, quais são as outras maravilhas, Sócrates, a que te referiste, desse mesmo princípio, que nem são de aceitação geral nem familiares do público?

Sócrates – Menino, é quando alguém considera como unidades as coisas que nem nascem nem perecem, tal como nos exemplos que acabamos de mencionar. Esses casos tipos de unidade, conforme agora mesmo declaramos, por consenso geral não devem ser examinados. Mas quando se assevera que o homem é um, ou o boi é um, ou o belo é um, ou o bem é um: é acerca dessas unidades e de outras semelhantes que o grande interesse por todas despertadas suscita facilmente divisões e controvérsias.

Protarco – Como assim?

Sócrates – Inicialmente, quando aceitamos que essas unidades existem de fato; de seguida como devemos compreender que cada uma delas, com ser sempre a mesma e não admitir nem geração nem descrição, não continue sendo o que é mesmo: unidade. Por último, se devemos admitir que, nas coisas submetidas à geração, de número infinito, essa unidade se dispersa e fica múltipla, ou se se conserva inteira e fora de si mesma, o que se nos afigura o maior dos absurdos, pois, sendo a mesma e una, encontrar-se-ia concomitantemente no uno e no múltiplo. São esses aspectos do uno e do múltiplo, Protarco, não os outros, quem nos criam toda sorte de dificuldades, quando são considerados sob perspectiva defeituosa, ao passo que tudo corre às mil maravilhas na hipótese contrária.

Protarco – Então, Sócrates, trabalhemos desde já na solução desse problema.

Sócrates – É também o que eu penso.

Protarco – Podes ficar certo de que todos os presentes compartilham tua maneira de pensar. Quanto ao nosso Filebo, é melhor não mexer com quem dorme sossegado.

VI – Sócrates – Ora bem! E como iniciaremos esse debate tão grande e complicado, acerca da tese em discussão? Assim ficará bem?

Protarco – De que jeito?

Sócrates – Dizemos que o Mesmo, como uno e como múltiplo, é identificado pelo pensamento e que circula, agora e sempre, por tudo o que falamos. Semelhante fato não é de hoje nem nunca deixará de existir; trata-se, segundo creio, de uma propriedade inerente ao nosso pensamento, e que jamais envelhece. O jovem que com ele se depara pela primeira vez, exulta como se tivesse achado algum tesouro de sabedoria; no entusiasmo de seu contentamento, não há tema em que ele não mexa, ora enrolando o múltiplo num só, ora desenrolando-o e subdividindo- o, com o que apresta, desde o início, a si próprio, as maiores confusões e a quantos dele se aproximem, ou seja moço ou velho ou da mesma idade que ele, sem poupar pai nem mãe nem seus ouvintes; sim, nem mesmos os animais – pois não me refiro apenas aos homens – nem aos bárbaros uma vez que conseguisse intérprete apropriado.

Protarco – Como, Sócrates! Não vês quantos somos e, ainda por cima jovens? Não receias que nos juntemos a Filebo para atacar-te, no caso de nos ofenderes? Compreendo o que queres dizer; se houver maneira de afastar devagarinho tanta desordem de nossa discussão e de encontrar um caminho melhor que vá dar em nosso argumento, procuraremos acompanhar-te na medida de nossas forças. Nosso tema, Sócrates, não é de importância secundária.

Sócrates – Meninos, o caminho recomendado por Filebo não existe. Não há nem pode haver caminho mais belo do que o que eu sempre amei, mas que perco mui freqüentemente, ficando sempre na maior perplexidade.

Protarco – Qual é? Basta que o menciones.

Sócrates – Indicá-lo é fácil; difícil acima de tudo é percorrê-lo. Foi graças a esse método que se descobriu tudo o que se diz a respeito às artes. Considera o seguinte.

Protarco – Podes falar.

Sócrates – Até onde o compreendo, trata-se de um dádiva dos deuses para os homens, jogada aqui para baixo por intermediário de algum Prometeu, juntamente com um fogo de muito brilho. Os antigos, que eram melhores do que nós e viviam mais perto dos deuses, nos conservaram essa tradição: que tudo o que se diz existir provém do uno e do múltiplo e traz consigo, por natureza, o finito e o infinito. Uma vez que tudo está coordenado dessa maneira, precisamos procurar em todas coisas sua idéia peculiar, pois sem dúvida nenhuma a encontraremos. Depois dessa primeira idéia, teremos de procurar mais duas, se houver duas, ou mais três, ou qualquer outro número, procedendo assim com todas, até chegarmos a saber não apenas que a unidade primitiva é una e múltipla e infinita, como também quantas espécies ela contém. Não devemos aplicar a pluralidade a idéia do infinito sem primeiro precisar quantos números ela abrange, desde o infinito até à unidade; só então soltaremos a unidade de cada coisa, para que se perca livremente no infinito. Conforme disse, foram os deuses que nos mimosearam com essa arte de investigar e aprender e de nos instruirmos uns com os outros. Mas os sábios de nosso tempo assentam ao acaso o uno e o múltiplo com mais pressa ou lentidão do que fora necessário, saltando indevidamente da unidade para o infinito, com o que lhes escapam os números intermediários. Esse, o caráter fundamental que permite distinguir se em nossas discussões procedemos como verdadeiros dialéticos ou como simples disputadores.

VII – Protarco – Parte do que disseste, Sócrates, me parece inteligível; mas acerca de alguns pontos ainda necessito de esclarecimentos.

Sócrates – O que eu digo, Protarco, ficará bastante claro se o aplicares às letras do alfabeto, conforme as aprendeste quando menino.

Protarco – Como assim?

Sócrates – Una é a voz que nos sai da boca e, ao mesmo tempo, de infinita multiplicidade para cada um de nós – Sem dúvida.

Protarco – Certíssimo.

Sócrates – A mesma coisa faz o músico.

Protarco – Como assim?

Sócrates – Em relação com a arte da música, a voz é una em si mesma.

Protarco – Exato.

Sócrates - Reconheçamos, então, que há dois sons: o grave e o agudo, e mais o terceiro: o médio.

Filebo – Como assim?

IX - Sócrates – Não era do prazer e da sabedoria que tratava nossa discussão inicial, para saber qual dos dois devemos preferir?

Filebo – Isso mesmo.

Sócrates – Como também qualificamos cada um deles como unidade.

Filebo – Perfeitamente.

Sócrates – Pois é precisamente esse o problema que a discussão anterior nos patenteia: como cada um deles pode ser, ao mesmo tempo, um e múltiplo e não imediatamente infinito, por abrangerem ambos um determinado número, antes de alcançarem o infinito?

Protarco – Não é nada fácil, Filebo, a questão com que Sócrates nos obrigou – e com que habilidade! – a rodar no mesmo ponto. Considera agora qual de nós deve responder a essa pergunta. Talvez seja algum tanto ridículo, depois de eu haver assumido em teu lugar a responsabilidade da discussão, atribuir-te semelhante incumbência, pela impossibilidade em que me encontro para resolver a questão. Porém mais ridículo, ainda, me parece não ser nenhum de nós capaz de resolvê-la. Considera como devemos proceder. A meu ver, o que Sócrates nos pergunta neste momento, acerca dos prazeres, é se não há espécies diferentes, seu número e natureza. O mesmo vale com respeito à sabedoria.

Sócrates – É isso, precisamente, filho de Cálias; se não soubermos resolver essas questões a respeito de tudo o que é um ou igual ou sempre o mesmo, e também de seus contrários, conforme o demonstrou a discussão precedente, em nenhum tempo algum de nós revelará préstimo seja no que for.

Protarco – Quer parecer-me, Sócrates, que estás com a razão. Se para o sábio é belo conhecer tudo, o segundo roteiro de navegação será não desconhecer a si mesmo. E porque me desconhecer a si mesmo. E porque me expresso dessa maneira na presente conjuntura? É o que passarei a explicar. Partiu de ti, Sócrates, a idéia da presente discussão, quando te prontificaste a determinar qual seja para o homem o melhor bem, Havendo afirmado Filebo que era o prazer, as diversões, a alegria e tudo o mais do mesmo gênero, contestaste-lhe a assertiva e disseste que não era nada daquilo, mas o que tantas vezes, de intento, revocamos à memória – no que estávamos certos – para tê-los a ambos bem gravados em nossa retentiva. Ao que me parece, de teu lado afirmas que o bem merecedor de ser proclamado superior ao prazer é a mente, o conhecimento, a inteligência, a arte e tudo o que lhe for aparentado, sendo esses, justamente, os bens que precisamos adquirir, não os outros. Como tais convicções foram defendidas com calor, ameaçamos-te em tom de brincadeira, não permitir que voltasses para casa sem levarmos a discussão a um fim satisfatório. Declaraste-te de acordo e te puseste à nossa disposição. Por isso, diremos como as crianças: Presente dado não se torna a tomar. Pára, por conseguinte com esse sestro de te opores a tudo o que afirmamos.

Sócrates – Que queres dizer com isso?

Protarco – Que nos apertar demais com perguntas a que não podemos responder satisfatoriamente nas presentes circunstâncias. Não podemos admitir, em absoluto, que a discussão se encerre com tanta perplexidade, e se nos declaramos incapazes de fazê-la progredir, a ti compete movimentá-la, pois prometeste que assim farias. Decide, então, se te convém dividir o prazer e o conhecimento em suas respectivas espécies, ou afastar, de pronto, semelhante idéia, dada a hipótese de te considerares com disposição e capacidade para esclarecer de outra maneira o tema em discussão.

Sócrates – Depois do que acabas de expor, não abrigo o menor receio de vir a sofrer violência; a expressão Se te considerares com disposição e capacidade, neutraliza qualquer temor

a esse respeito. Além do mais, quer parecer-me que alguma divindade me faz lembrar certas coisas.

Protarco – Como assim? Que coisas serão?

X – Sócrates – Ocorre-me neste momento uma velha frase que eu teria ouvido em sonhos ou acordado, acerca do prazer e da sabedoria, sobre não ser o bem nenhum dos dois, mas uma terceira coisa, diferente daqueles e melhor do que ambos. Se for possível, esclarecer esse ponto, fica liquidada, de uma vez, a vitória do prazer, pois o bem não poderá identificar-se com ele. Não é mesmo?

Protarco – Exato.

Sócrates – Como ficaremos dispensadas de dividir o prazer em suas espécies. É assim que eu penso, o que se tornará cada vez mais evidente, à medida que avançarmos na explicação do tema.

Protarco – Ótimo esclarecimento; prossegue nessas mesmas bases.

Sócrates – Porém antes ponhamo-nos de acordo acerca de uns pontinhos secundários.

Protarco – Quais serão?

Sócrates – É de necessidade forçosa que a natureza do bem seja perfeita? Ou será imperfeita?

Protarco – Terá de ser o que há de mais perfeito, Sócrates.

Sócrates – E agora, o bem é suficiente?

Protarco – Como não? Nesse particular, exatamente, é que ele ultrapassa tudo o mais.

Sócrates – Como também devemos afirmar, segundo penso, com absoluta convicção, que todo ser dotado de discernimento o procura e se esforça por adquiri-lo em definitivo, sem preocupar-se de nada destituído de qualquer conexão com o bem.

Protarco – Contra isso não há objeção possível.

Sócrates – Examinemos, então, e julguemos a vida do prazer e as sabedoria, tomando cada uma em separado.

Protarco – Que queres dizer com isso?

Sócrates – Não admitamos nenhuma sabedoria na vida do prazer nem prazer na da sabedoria. Se um dos dois for o bem, não necessitará de mais nada, e se qualquer deles se revelar como carecente de algo, só por isso não poderá ser considerado o verdadeiro bem,.

Protarco – Como fora possível?

Sócrates – Permites que façamos essa experiência contigo?

Protarco – Perfeitamente;

Sócrates – Então, responde.

Protarco – Podes falar.

Sócrates – Aceitarias, Protarco, passar a vida inteira no gozo dos maiores prazeres?

Protarco – Por que não?

Sócrates – E daí não se concluirá, também, com evidência meridiana, que nenhum dos dois participa do bem? Pois, do contrário, também seriam suficientes, perfeitos e desejáveis por parte das plantas e dos animais capazes de viver semelhante vida o tempo todo. E se algum de nós preferisse outra condição, sua escolha seria contrária à natureza do que é verdadeiramente desejável, e efeito involuntário da ignorância ou de alguma fatalidade perniciosa.

Protarco – Parece, mesmo, que tudo se passa dessa maneira.

Sócrates – Nesse caso, considero cabalmente demonstrado que a deusa de Filebo não pode ser confundida com o bem.

Filebo – Nem tua inteligência, Sócrates, se identificará com o bem, pois está sujeita às mesmas condições.

Sócrates – Com a minha, Filebo, é possível que isto aconteça; porém não com a inteligência ao mesmo tempo divina e verdadeira. Com essa, quero crer, as coisas se passam de outro modo. Não disputo o primeiro prêmio para a inteligência, no que entende com aquela vida mista; quanto ao segundo, precisamos ver e examinar o que será preciso fazer. Talvez eu e tu pudéssemos defender a tese de que a verdadeira causa dessa vida mista seja, respectivamente, a inteligência ou o prazer, e assim nenhum dos dois viria a ser o bem em si mesmo, restando a possibilidade de aceitarmos um deles como causa do bem. Sobre esse ponto, sou inclinado a sustentar contra Filebo que, seja qual for o elemento presente nessa vida mista que a deixa boa e desejável, não será o prazer, mas a inteligência o que com ele apresenta com mais parecença e afinidade. Com base nestes raciocínios, podemos afirmar que, em verdade, o prazer não tem direito nem ao segundo prêmio, como está longe de merecer o terceiro, se confiardes agora em minha inteligência.

Protarco – Em verdade, Sócrates, quer parecer-me que jogaste ao chão o prazer; foi derrubado pelo teu último argumento: sucumbiu na disputa pelo primeiro prêmio. Quanto à inteligência, precisamos reconhecer sua superioridade nisto de não haver disputado a vitória; se o fizesse, teria sofrido igual revés. Mas, se o prazer for privado também do segundo prêmio, cairá bastante no conceito de seus aficcionados, que nem mesmo encontrariam nele sua beleza primitiva.

Sócrates – E agora? Não será melhor deixá-lo em paz, sem fazê-lo sofrer com nossa crítica rigorosa, para confundi-lo de todo?

Protarco – O que dissestes é o mesmo que nada, Sócrates.

Sócrates – Porque figurei um impossível, nisso de causar dor ao prazer?

Protarco – Não apenas por isso, mas por não levares em consideração que nenhum de nós te deixará sair antes de nos expores todas as implicações desse argumento.

Sócrates – Pelos deuses, Protarco! Que longo discurso temos pela frente, justamente agora, e nada fácil de enunciar. Tudo indica que nesta marcha para a conquista do segundo prêmio em benefício da inteligência, precisaremos lançar mão de armas diferentes das empregadas nos discursos anteriores. Mas talvez algumas ainda possam ser aproveitadas. Convirá prosseguir?

Protarco – Como não?

XII – Sócrates – Usemos de maior cautela no preparo de nossos alicerces.

Protarco – A que te referes?

Sócrates – Dividamos em duas classes tudo o que existe no mundo; ou melhor, se o preferires, em três.

Protarco – E o critério, não quererás dizê-lo?

Sócrates – Aceitemos algumas de nossas conclusões anteriores;

Protarco – Quais?

Sócrates – Dissemos que Deus revelou nas coisas existentes um elemento finito e outro infinito.

Protarco – Perfeitamente.

Sócrates – Formemos com esses elementos duas classes, vindo a ser a terceira o resultado da mistura de ambas. Mas receio muito que me torne por demais ridículo com essa divisão por espécies e com a maneira de enumerá-las.

Protarco – Que queres dizer com isso, meu caro?

Sócrates – Tudo indica que vou precisar de um quarto gênero.

Protarco – Dize qual seja.

Sócrates – Considera a causa da mistura recíproca dos dois primeiros e acrescenta-a ao conjunto dos três, para formamos o quarto gênero.

Protarco – E não viríamos, depois, a necessidade de um quinto, como fator de sua separação?

Sócrates – Talvez; porém não agora, segundo creio. Todavia, se for preciso, hás de permitir que eu saia à procura de mais esse.

Protarco – Por que não?

Sócrates – Para começar, desses quatro separemos três, e depois de anotar que dois deles são altamente dissociados, e de reduzi-los à unidade, observemos como cada um deles pode ser ao mesmo tempo uno e múltiplo.

Protarco – Se me explicasses esse ponto com maior clareza, decerto me fora possível acompanhar-te.

Sócrates – O que eu digo é que os dois gêneros por mim propostos são os mencionados há pouco, a saber: o finito e o infinito. Primeiro vou tentar demonstrar-te que, em certo sentido, o infinito é múltiplo. O limitado pode esperar um pouco mais.

Protarco – Espera, por que não?

Sócrates – Presta atenção. Além de difícil, é bastante controverso o que te convido a considerar; e contudo, considera-o. Começa experimentando se és capaz de determinar limite no mais quente e no mais frio, e se o mais e o menos que residem nesses gêneros não os impedem de ter fim enquanto residirem neles; pois, uma vez chegados ao fim, o mais e o menos também deixarão de existir.

Protarco – Muitíssimo certo.

Sócrates – Porém sempre haverá, é o que afirmamos, mais e menos no que for mais quente e mais frio.

Protarco - Sem dúvida.

Sócrates – Assim, nosso argumento demonstrar que esses dois gêneros não tem fim; e não tendo fim, de todo jeito serão infinitos.

Protarco – Argumento muito forte, Sócrates.

Protarco – Exato.

Sócrates – Acrescenta-lhes, também o mais seco e o mais úmido, o mais e o menos, o mais rápido e o mais lento, o maior e o menor e tudo o mais que há instantes incluímos numa só classe definida pelos conceitos do mais e do menos.

Protarco – Referes-te à classe do infinito?

Sócrates – Exato. Agora mistura-a com a família do finito.

Protarco – Que família?

Sócrates – A do finito, que há pouquinho deveríamos ter reduzido à unidade, tal como fizemos com a do infinito, mas deixamos de fazê-lo. Talvez o consigamos agora, se da reunião das duas surgir a que procuramos.

Protarco – A que classe te referes e como será isso?

Sócrates – A do igual e do duplo e toda classe que põe termo à diferença natural dos contrários e enseja harmonia e proporção entre seus elementos, com lhes impor número.

Protarco – Compreendo. Ao que pareces, queres dizer que de cada mistura desses elementos nascem certas gerações.

Sócrates – É justamente o que eu penso.

Protarco – Então, continua.

Sócrates – Não será o caso das doenças, em que a mistura acertada desses elementos produz a saúde.

Protarco – Perfeitamente.

Sócrates – E no agudo e no grave, no veloz e no lento, todos eles infinitos, não se dará a mesma coisa: com deixar limitados esses elementos não darão forma perfeita a toda a música.

Protarco – Sem dúvida.

Sócrates – E com se associarem ao calor, ao frio, não lhes tira o excesso e o infinito, substituindo-os por medida e proporção?

Protarco – Como não?

Sócrates – Essa é a origem das estações e de tudo o que há de belo: a mistura do limitado com o ilimitado.

Protarco – Sem dúvida.

Sócrates – Deixo de mencionar um milhão mais de coisas, tal como a beleza e força com saúde, e também na alma, uma infinidade de qualidades excelentes. Vendo a divindade, meu caro Filebo, a arrogância e toda sorte de maldades que se originam do fato de carecerem de limites os prazeres e a gula, estabeleceu a lei e a ordem, dotadas de limite. Pretendes que ela estraga a alma; pois eu digo justamente o contrário: é o que a conserva. E tu, Protarco, como te parece?

Protarco – De inteiro acordo contigo, Sócrates.

Sócrates – Se bem observaste, aí estão as três classes a que me referi.

Protarco – Parece que compreendi. Uma delas, creio, classificas como infinita; a Segunda; como o limite das coisas existentes; porém não aprendi muito bem o que entendes pela terceira.

Sócrates – O que te deixa perplexo, meu admirável amigo, é a multidão das coisas que ela abarca. No entanto, o infinito também apresenta muitos gêneros; mas, por trazerem todos eles o selo do mais e do menos, parecem formar apenas um.

Protarco – É verdade.

Sócrates – Quanto ao finito, não somente não contém muitas espécies, como não sentimos dificuldade alguma em admitir que constitua uma unidade natural.

Protarco – Sem dúvida.

Sócrates – É assim mesmo. Com respeito ao terceiro, bastará aceitares que eu incluo nessa rubrica, como unidade, todos os produtos dos dois primeiros, tudo o que nasce para o ser, por efeito da medida e do limite.

Protarco – Compreendo.

XIV – Sócrates – Mas também dissemos que, além desses três gêneros, havia a considerar um quarto. Ajuda-me a pensar. Vê se te parece necessário que tudo o que devém, só se forme em virtude de determinada causa.

Protarco – Sem dúvida; pois, sem isso não poderia formar-se.

Sócrates – E também não será certo dizer-se que o conceito de que se foram não difere de sua causa, a não ser no nome, sendo lícito afirmar que o agente e a causa são uma e a mesma coisa?

Protarco – Certo.

Sócrates – Descobriremos, ainda, tal como se deu há pouco, que o que é criado e o que se forma só diferem no nome. Não é isso mesmo?

Protarco – Exato.

Sócrates – Como também será certo dizer-se que o que cria vai naturalmente na frente, seguindo-o sempre no rastro o que é criado.

Protarco – Perfeitamente.

Sócrates – São diferentes, por conseguinte, e nunca a mesma coisa, a causa que lhe é subordinada para efeito da geração.

Protarco – Sem dúvida.

Sócrates – E agora: todas as coisas geradas e tudo de onde elas provém não nos forneceram os três primeiros gêneros?

Protarco - Isso mesmo.

Sócrates – E o que produz essas cosias, a causa, declaramos ser o quarto, pois demonstramos à saciedade que difere dos outros.

Protarco – Difere, sem dúvida.

Sócrates – E agora, depois de havermos distinguido os quatro gêneros, só seria de vantagem enumerá-los por ordem, para mais fácil memorização deles todo.

Protarco – Isso mesmo.

Filebo – Não assumiste o encargo de responder no meu lugar?

Protarco – Sem dúvida; mas agora me sinto realmente atrapalhado, e te peço, Sócrates, que nos sirvas de intérprete para que não cometamos alguma falta contra nosso adversário, sob a forma de expressão mal soante.

Sócrates – Farei o que pedes, Protarco: tanto mais que não me impões nada difícil. Mas, será verdade, como disse Filebo, que eu te deixei atrapalhado, quando, por brincadeira, falei com tanta solenidade, ao perguntar-lhe a que classe pertenciam a inteligência e o conhecimento?

Protarco – Foi realmente o que se deu, Sócrates.

Sócrates – No entanto, é muito fácil. Todos os sábios estão acordes – por isso mesmo com isso se engrandecem – em que, para nós, a inteligência é a rainha do céu e da terra. E talvez tenham razão. Porém, caso queiras, investiguemos mais de espaço a que gênero ela pertence.

Protarco – Faze como entenderes, sem medo de alongar-te em demasia, pois não nos causarás enfado.

XVI – Sócrates – Muito bem. Então, principiemos com a seguinte pergunta.

Protarco – Qual será?

Sócrates – Para sabermos, Protarco, se no conjunto das coisas e nisto a que damos o nome de universo domina alguma força irracional e fortuita, ou seja o puro acaso ou o seu contrário, a mente, como diziam nossos antepassados, e uma sabedoria admirável que tudo coordena e dirige?

Protarco – São duas assertivas, meu admirável Sócrates, que se destroem mutuamente. A que acabaste de enunciar se me afigura verdadeira blasfêmia. Mas, dizer que a mente determina tudo, é uma asserção digna do aspecto do universo, do sol, da lua, dos astros e de todo o circuito celeste, sem que, do meu lado, eu possa pensar ou manifestar-me a esse respeito por maneira diferente.

Sócrates – Queres, então, que nos declaremos de acordo com os nossos maiores, sobre se passarem as coisas, realmente, dessa maneira, não nos limitando a repetir sem o menor risco de a opinião de terceiros, mas compartilhando com aqueles tanto a censura como o risco, sempre que algum sujeito petulante afirmar que não é assim e que não há ordem no universo?

Protarco – Como não hei de querer?

Sócrates – Chaga-te, então, para ver o que se segue ao nosso argumento.

Protarco – Podes falar.

Sócrates – O que entra na composição da natureza de corpos de todos os seres vivos: fogo, e água e ar e também terra, como dizem os que já se viram assaltados por grandes tempestades, reaparece na composição do universo.

Protarco – Imagem muita apropriada, porque nós também sofremos bastante no roteiro da presente discussão.

Sócrates – Ouve agora o que passarei a expor a respeito de cada um dos elementos do que somos compostos.

Protarco – Que será?

Sócrates – Cada elemento existente em nós é pequeno e de ruim qualidade, além de não ser puro de maneira nenhuma nem dotado de qualquer poder digno de sua natureza. Se examinares

um que seja, podes concluir que os demais são do mesmo jeito. Por exemplo: assim como há fogo em nós, também há no universo.

Protarco – Sem dúvida.

Sócrates – E não é verdade que o fogo existente em nós é pequeno e fraco e de ruim qualidade, e o do universo é admirável pela qualidade e beleza e pela força que lhe é própria?

Protarco – Só dizes a verdade.

Sócrates – E agora? Porventura o fogo do universo se forma e se alimenta do fogo que há em nós? Ou será precisamente o contrário disso: o que há em mim e em ti e em todos os seres vivos é que recebe daquele tudo o que tem?

Protarco – Essa pergunta nem merece resposta.

Sócrates – Sem dúvida; como penso que dirás a mesma coisa a respeito da terra cá de baixo, de que são compostos os animais e da que há no universo, e também dos outros elementos a que me referi há pouquinho. Não darias idêntica resposta?

Protarco – Como seria considerado são do espírito quem respondesse de outro modo?

Sócrates – Ninguém, evidente. Presta agora atenção ao que segue. Tudo o que enumeramos, sempre que vemos reunido num todo único, não lhe damos a denominação de corpo?

Protarco – Como não?

Sócrates – Aceita a mesma conclusão para o que chamamos universo; é um corpo da mesma espécie do nosso, porque formado dos mesmo elementos.

Protarco – Certíssimo.

Sócrates – E agora: é desse corpo universal que o nosso se alimenta, ou é do nosso que o universo tira o de que necessita e recebe e conserva tudo o que há pouco mencionamos?

Protarco – É outra pergunta, Sócrates, que nem valia a pena formular.

Sócrates – E a seguinte, valerá? Ou como te parece?

Protarco – Podes enunciá-la.

Sócrates – Afirmaremos que nosso corpo é dotado de alma?

Protarco – É o que dizemos, sem dúvida.

Sócrates – E de onde, Protarco, a receberia, se o corpo do universo não fosse animado e não possuísse os mesmo elementos que o nosso, e, a todas as luzes, ainda mais belos?

Protarco – É evidente, Sócrates, que terá de ser dali mesmo.

Sócrates – Pois não podemos acreditar, Protarco, que desses quatro gêneros: o finito, o infinito, o misto e o gênero da causa, que, como quarto, se encontra em todas as coisas, essa causa que fornece uma alma a nosso corpo, dirige os exercícios físicos e cura os corpos quando estes adoecem, e forma mil outras combinações e as repara, seja, por isso, denominada sabedoria total multiforme, e que no conjunto do céu, onde tudo isso se encontra em maior escala e sob forma mais bela e pura, não se tenha realizado a natureza mais bela e de maior preço.

Protarco – É o que não se pode nem pensar.

Sócrates – Por gênero misto devemos entender o terceiro dos quatro gêneros por nós enumerados.

Protarco – E o que mencionaste depois do infinito e do finito, no qual incluíste, se não estou enganado, a saúde e também a harmonia.

Sócrates – Dizes bem. E agora, presta toda a atenção.

Protarco – Podes falar.

Sócrates – Digo que quando a harmonia se dissolve em nós outros, seres animados, produz-se ao mesmo tempo dissolução da natureza e geração da dor.

Protarco – É muito verossímil o que afirmas.

Sócrates - E que quando se restabelece a harmonia e volta ao seu estado natural, devemos dizer que nasce o prazer, se me for lícito exprimir brevemente e em poucas palavras um assunto de tal magnitude.

Protarco – Acho que te expressaste muito bem, Sócrates; mas tendemos dizer a mesma coisa por maneira ainda mais clara.

Sócrates – Os fatos comezinhos e vulgares não são fáceis de entender?

Protarco – Quais?

Sócrates – A fome não é dissolução e dor?

Protarco – Certo.

Sócrates – Ao passo que o comer é repleção e prazer?

Protarco – Sim.

Sócrates – A sede, por sua vez, é destruição e dor, e o inverso: é prazer a atuação do úmido no ato de encher o que secou. Do mesmo modo, a desagregação e a dissolução contra a natureza, causadas em nós pelo calor, é sofrimento, como é prazer a volta ao estado natural e ao frescor.

Protarco – Perfeitamente.

Sócrates – Da mesma forma, a congelação contra a natureza que o frio opera nos humores do animal é sofrimento; mas, quando eles retornam ao seu estado natural e voltam a dissolver-se, esse processo conforme a natureza é prazer. Em uma palavra, vê se te parece razoável dizer que na classe dos seres vivos, formados, como declarei, da união do infinito com o finito, sempre que essa união vem a destruir-se, tal destruição é dor, e o contrário disso: em todos eles é prazer o caminho para sua própria natureza e conservação.

Protarco – Vá que seja. Quer parecer-me, que, em tese, tudo isso é verdadeiro.

Sócrates – Assentemos, pois, a primeira espécie de prazer e dor, oriunda dos dois

Processos mencionados.

Protarco- Está assentado.

XVIII- Sócrates- Pensa também na expectativa desses estados de pressentimento da alma: um, agradável e cheio de confiança com relação ao prazer; e outro, terrível e angustiante no que respeita à tristeza.

Protarco – Será uma outra espécie de prazer e de dor, oriunda da expectativa da alma, sem participação do corpo.

Sócrates – Bem apanhado. Nesse estado de expectativa, creio, pelo menos em minha maneira de pensar, em que os dois sentimentos surgem puros, ao que parece, e sem mistura, o prazer e a dor, veremos claramente, com relação ao prazer, se o gênero inteiro é desejável ou se tal vantagem só deve ser atribuída a um dos gêneros acima enumerados, ou se o prazer e a dor, tal como o quente e o frio, e tudo o mais da mesma natureza, ora são desejáveis, ora indesejáveis, por não serem propriamente bens, conquanto algum deles, por vezes e em circunstâncias especiais, participem da natureza dos bens.

Protarco – Tens razão de dizer que por esse caminho virá ao nosso encontro a caça que estamos a perseguir.

Sócrates – Então, estudemos primeiro esse ponto. A ser verdade o que dissemos a pouco, que há dor sempre devida se corrompe, e prazer quando se restabelece, consideremos como se deve ser o estado de todo ser vivo, quando não houver nem destruição nem restauração, nas condições imaginadas. Não será fatal que durante esse tempo nenhum ser vivo sentirá dor ou prazer, nem muito nem pouco?

Protarco – De toda a necessidade; não há duvida.

Sócrates – Então não haverá para nós um terceiro estado, diferente do prazer ou da dor?

Protarco – Como não?

Sócrates – Então, grava bem essa particularidade, pois não é de somenos importância, quando se trata de julgar o prazer, temos isso em mente ou não termos. E para arrematar o assunto, se estiveres de acordo, mais uma palavrinha a esse respeito.

Protarco – Podes falar.

Sócrates – Como não ignoras, se alguém escolhe a vida sábia, não há o que impeça de viver dessa maneira.

Protarco – Referes-te à vida extreme de prazer e de dor.

Sócrates – Já ficou esclarecido, na comparação dos gêneros de vida, que quem escolhe viver segundo a razão e a sabedoria não sentirá prazer, nem muito nem pouco.

Protarco – Eu fico, realmente.

Sócrates – Seria essa condição de tal pessoa, o que talvez nada teria de estranho, se todos os meios de vida fosse esse o mais divino.

Protarco – A ser assim, os deuses nem sentem prazer nem o seu contrário.

Sócrates – Não, provavelmente. Esse estados não seriam próprios dos deuses. Mas ainda voltaremos considerar esse ponto, se advier daí alguma vantagem para nossa exposição elevarmos essa parte à conta da inteligência, na competição pelo segundo prêmio, no caso de não lhe ser possível alcançar o primeiro.

Protarco – Falaste com muito acerto.

XIX – Sócrates – A outra classe de prazeres que atribuímos exclusivamente à alma, só provem da memória.

Protarco – Como assim?