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platao gorgias, Notas de estudo de Atualidades

filosofia grega

Tipologia: Notas de estudo

2017

Compartilhado em 09/05/2017

rildo-nobrega-7
rildo-nobrega-7 🇧🇷

4.7

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Versão eletrônica do diálogo platônico “Górgias”
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Créditos da digitalização: Membros do grupo de discussão Acrópolis (Filosofia)
Homepage do grupo: http://br.egroups.com/group/acropolis/
A distribuição desse arquivo (e de outros baseados nele) é livre, desde que se dê os créditos da digitalização aos membros do grupo
Acrópolis e se cite o endereço da homepage do grupo no corpo do texto do arquivo em questão, tal como es tá acima.
GÓRGIAS
I Na guerra e no combate, Sócrates, segundo o provérbio, é que é preciso proceder
dessa maneira.
Sócrates Será que chegamos atrasados e, como se diz, depois da festa?
Cálicles Sim, e uma festa citadina! Agora mesmo, Górgias nos expôs um mundo de
coisas belas.
Sócrates A culpa, Cálicles, é do nosso amigo Querefonte, que nos reteve na ágora.
Querefonte Não faz mal, Sócrates; vou reparar o dano. Como amigo meu, que é,
Górgias falará para nós, ou agora, ou noutra ocasião, conforme preferires.
Cálicles Que estás dizendo, Querefonte! Sócrates deseja ouvir Górgias?
Querefonte Para isso é que estamos aqui.
Cálicles Então, quando quiserdes, ide a minha casa, pois Górgias hospedou-se
comigo e vos falará.
Sócrates É muita gentileza de tua parte, Cálicles. Mas, dispor-se-á ele, de fato, a
conversar conosco? Desejo perguntar-lhe em que consiste a força de sua arte e o que é que
ele professa e ensina. Quanto ao resto da exposição, poderá ficar, como disseste, para outra
oportunidade.
Cálicles Não há como falares tu mesmo, Sócra tes. Isso, aliás, faz parte de sua
exposição. Neste momento, convidou as pessoas ali presentes a lhe dirigirem as perguntas
que quisessem, comprometendo-se a responder a todas.
Sócrates Ótimo, Querefonte. Então, fala -lhe.
Querefonte Que devo perguntar-lhe?
Sócrates O que ele é.
Querefonte Que queres dizer com isso?
Sócrates Se ele, por exemplo, fabricasse sapatos, responderia que trabalhava com
couro. Ou não compreendes o que eu falo?
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Versão eletrônica do diálogo platônico “Górgias” Tradução: Carlos Alberto Nunes Créditos da digitalização: Membros do grupo de discussão Acrópolis (Filosofia) Homepage do grupo: http://br.egroups.com/group/acropolis/

A distribuição desse arquivo (e de outros baseados nele) é livre, desde que se dê os créditos da digitalização aos membros do grupo Acrópolis e se cite o endereço da homepage do grupo no corpo do texto do arquivo em questão, tal como es tá acima.

GÓRGIAS

I — Na guerra e no combate, Sócrates, segundo o provérbio, é que é preciso proceder dessa maneira.

Sócrates — Será que chegamos atrasados e, como se diz, depois da festa?

Cálicles — Sim, e uma festa citadina! Agora mesmo, Górgias nos expôs um mundo de coisas belas.

Sócrates — A culpa, Cálicles, é do nosso amigo Querefonte, que nos reteve na ágora.

Querefonte — Não faz mal, Sócrates; vou reparar o dano. Como amigo meu, que é, Górgias falará para nós, ou agora, ou noutra ocasião, conforme preferires.

Cálicles — Que estás dizendo, Querefonte! Sócrates deseja ouvir Górgias?

Querefonte — Para isso é que estamos aqui.

Cálicles — Então, quando quiserdes, ide a minha casa, pois Górgias hospedou-se comigo e vos falará.

Sócrates — É muita gentileza de tua parte, Cálicles. Mas, dispor-se-á ele, de fato, a conversar conosco? Desejo perguntar-lhe em que consiste a força de sua arte e o que é que ele professa e ensina. Quanto ao resto da exposição, poderá ficar, como disseste, para outra oportunidade.

Cálicles — Não há como falares tu mesmo, Sócra tes. Isso, aliás, faz parte de sua exposição. Neste momento, convidou as pessoas ali presentes a lhe dirigirem as perguntas que quisessem, comprometendo-se a responder a todas.

Sócrates — Ótimo, Querefonte. Então, fala -lhe.

Querefonte — Que devo perguntar-lhe?

Sócrates — O que ele é.

Querefonte — Que queres dizer com isso?

Sócrates — Se ele, por exemplo, fabricasse sapatos, responderia que trabalhava com couro. Ou não compreendes o que eu falo?

II — Querefonte — Compreendo e vou perguntar-lhe. Dize -me, Górgias: é verdade o que afirmou o nosso amigo Cálicles, que te comprometes a responder a seja o que for que te perguntarem?

Górgias — É verdade, Querefonte; foi isso mesmo que declarei há pouco, e posso assegurar-te que há muitos anos ninguém me apresentou uma questão nova.

Querefonte — Tanto mais fácil, Górgias, para responderes.

Górgias — Depende apenas de ti, Querefonte, fazer a experiência.

Polo — Sim, por Zeus. Mas, se estiveres de acordo, Querefonte, faze a experiência comigo. Acho que Górgias deve estar cansado de tanto falar.

Cálicles — Como assim, Polo? Pensas que podes responder melhor do que Górgias?

Polo — E o que vai nisso? Basta que seja suficiente para ti.

Cálicles — Nada me vai nisso. Então, se assim preferes, responde.

Polo — Pergunta.

Cálicles — Vou perguntar. Se Górgias fosse profissional da arte que seu irmão Heródico exerce, por que nome certo o designaríamos? O mesmo que damos àquele, não é verdade?

Polo — Perfeitamente

Cálicles — Se disséssemos, portanto que ele era médico, ter-nos -íamos expressado com correção.

Polo — Sim.

Cálicles — E caso ele fosse perito na arte de Aristofonte, filho de Aglaofonte, de que modo lhe chamaría mos com acerto?

Polo — Pintor, evidentemente.

Cálicles — E agora, de que arte ele entende e por que nome certo devemos denominá- lo?

Polo — Querefonte, no mundo há muitas artes experimentais que a experiência descobriu. A experiência faz que nossa vida seja dirigida de acordo com a arte, e a inexperiência a entre ga ao acaso. Uns são proficientes numas; outros, noutras; cada um a seu modo; os me lhores o são nas melhores. Górgias é um destes e participa da mais nobre das artes.

Sócrates — Górgias, parece que Polo tem muita prática de falar; porém não cumpre o que prometeu a Que refonte.

Górgias — Como assim, Sócrates?

IV — Sócrates — Então, comecemos. Já que te apresentas como entendido na arte da retórica e também como capaz de formar oradores: em que consiste particularmente a arte da retórica? Assim, por exemplo, a arte do tecelão se ocupa com o preparo das roupas, não é verdade?

Górgias — Sim.

Sócrates — E a música, com a composição do canto?

Górgias — Sim.

Sócrates — Por Hera, Górgias! Tuas respostas me agradam; mais concisas não poderiam ser.

Górgias — Eu também, Sócrates, acho que estou respondendo como é preciso.

Sócrates — Dizes bem. Então, responde -me da mesma forma a respeito da retórica: qual é o objeto particular do seu conhecimento?

Górgias — Os discursos.

Sócrates — De que discursos, Górgias? Porventura os que indicam aos doentes o regime a ser seguido para sararem?

Górgias — Não.

Sócrates — Logo, a retórica não diz respeito a todos os discursos.

Górgias — É claro que não.

Sócrates — No entanto, ela ensina a falar.

Górgias — Sim.

Sócrates — E, por conseguinte, também a compreender os assuntos sobre que ensina a falar.

Górgias — Como não?

Sócrates — E a medicina, a que nos referimos há pouco, não deixa também os doentes capazes de pensar e de falar?

Górgias — Necessariamente.

Sócrates — Sendo assim, a medicina, ao que parece, também se ocupa com discursos?

Górgias — Sim.

Sócrates — Os que se referem às doenças?

Górgias — Exatamente.

Sócrates — E a ginástica, não se ocupará também com discursos relativos à boa ou má disposição do corpo?

Górgias — Sem dúvida.

Sócrates — O mesmo se dá com as demais artes, Górgias, ocupando-se cada uma com discursos relativos ao objeto de que seja propriamente arte.

Górgias — É evidente.

Sócrates — Então, por que não dás o nome de retó rica às outras artes, se todas ela s se ocupam com discursos, e chamas à retórica arte dos discursos?

Górgias — É porque nas outras artes, Sócrates, todo o conhecimento, por assim dizer, diz respeito a trabalhos manuais ou a práticas do mesmo tipo, ao passo que a retórica nada tem que ver com a atividade das mãos, sendo alcançados por meio de discursos todos os seus atos e realizações. E por isso que eu considero a retórica arte do discurso, e com razão, segundo penso.

V — Sócrates — Será que compreendi tua definição? Daqui a pouco ficarei sabendo isso melhor. Responde -me ao seguinte: temos artes; não é verdade?

Górgias — Sim.

Sócrates — Entre essas artes, quero crer, algumas há em que predomina a atividade, podendo ser exercidas em silêncio, como se dá com a pintura, a escultura e mais algumas. São essas, segundo penso, que tu dizes não terem nenhuma relação com a retórica. Ou não?

Górgias — Apanhaste muito bem o meu pensamento, Sócrates.

Sócrates — Porém artes há que tudo realizam por meio da palavra, sem recorrerem de nenhum modo, por assim dizer, à ação, ou muito pouco, como a aritmética, o cálculo, a geometria, o gamão e muitas mais, em que os discursos se equilibram com as ações; mas, na maioria, eles predominam, de forma que toda a eficiência de suas realizações depende essencialmente da palavra. Entre essas, quero crer, é que incluis a retórica.

Górgias — É muito certo.

Sócrates — Todavia, creio que não dás o nome de retórica a nenhuma das artes mencionadas, embora te nhas dito expressamente que a retórica é a arte cuja força consiste no discurso. Se algum trocista quisesse especular com tuas palavras, poderia perguntar-te: Então, Górgias, é à aritmética que dás o nome de retórica? Porém quero crer que não denominas retórica nem a aritmética nem a geometria.

Górgias — Estás certo, Sócrates, e interpretas bem o meu pensamento.

VI — Sócrates — Cabe -te, agora, completar a resposta á pergunta que te apresentei. Uma vez que a retó rica é dessas artes que se valem principalmente da pala vra, e havendo outras nas mesmas condições, procura explicar agora como atinge sua finalidade por meio da palavra a arte da retórica? É como se alguém me interpelasse acerca de qualquer das artes que mencionei: Sócrates, que é a aritmética? Eu responderia como o fizeste há pouco, que é uma arte que se exerce por meio da palavra. E se ele voltasse a perguntar: com relação a quê?

Górgias — Que é, de fato, o maior bem, Sócrates, e a causa não apenas de deixar livres os homens em suas próprias pessoas, como também de torná-los aptos para dominar os outros em suas respectivas cidades.

Sócrates — Que queres dizer com isso?

Górgias — O fato de por meio da palavra poderem convencer os ju ízes no tribunal, os senadores no conselho e os cidadãos nas assembléias ou em toda e qualquer reunião política. Com semelhante poder, farás do médico teu escravo, e do pedótriba teu escravo, tornando-se manifesto que o tal economista não acumula riqueza para si próprio, mas para ti, que sabes falar e convencer as multidões.

VIII — Sócrates — Quer parecer-me, Górgias, que explicaste suficientemente o em que consiste para ti a arte da retórica. Se bem te compreendi, afirmaste ser a retórica a mestra da persuasão, e que todo o seu esforço e exclusiva finalidade visa apenas a esse objetivo. Ou tens mas alguma coisa a acrescentar sobre o poder da retórica, além de levar a persuasão à alma dos ouvintes?

Górgias — De forma alguma, Sócrates; acho tua definição muito boa. A persuasão é, de fato, a finalidade precípua da retórica.

Sócrates — Górgias, escuta aqui. Estou convencido, podes ter certeza disso, de que se há uma pessoa que inicie um diálogo com a intenção sincera de compreender o assunto em discussão, sou eu; o mesmo afirmarei a teu respeito.

Górgias — Sócrates, a que vem isso?

Sócrates — Vou já dizer-te. O que seja propria mente essa persuasão a que te referiste, conseguida pela retórica, e a respeito de que assunto se manifeste, fica sabendo que ainda não percebo com segurança o de que se trata, muito embora suspeite o que pensas tanto de uma como de outra coisa. Mas, nem por isso deixarei de continuar a perguntar-te o que seja, no teu modo de ver, a persuasão conseguida pela retórica e sobre que objetos ela se manifesta. Por que motivo, então, uma vez que tenho essa suspeita, continuo a interrogar-te, em vez de eu mesmo expor o teu pensamento? Não é por tua causa que o faço, mas no interesse do nosso próprio argumento, para que ele avance e se nos patenteie com luz meridiana o assunto em discussão. Considera se não tenho razão de continuar a interrogar-te. Por exemplo, se te houvesse perguntado que espécie de pintor é Zêuxis e me tivesses respondido que é pintor de figuras, não me acharia com o direito de perguntar-te: que espécie de figuras, e onde se encontram?

Górgias — Perfeitamente.

Sócrates — Não será porque há também outros profissionais que pintam um sem- número de figuras diferentes?

Górgias — Sim.

Sócrates — Mas, no caso de que ninguém mais as pintasse a não ser Zêuxis, tua resposta teria sido boa.

Górgias — Por que não?

Sócrates — Então fala -me também a respeito da retórica, se és de opinião que a retórica seja a única arte capaz de persuadir, ou se outras artes conseguem a mesma coisa? O que digo é o seguinte: Quem ensina seja lá o que for, persuade os outros a respeito do que ensina. Ou não?

Górgias — Sim, persuade, Sócrates; sobre isso não há a menor dúvida.

Sócrates — Se voltarmos agora para as artes a que há pouco nos referimos: não nos ens ina a aritmética o que se relaciona com os números, e não faz o mesmo aritmético?

Górgias — Perfeitamente.

Sócrates — Logo, ela também nos persuade.

Górgias — Sim.

Sócrates — Nesse caso, a aritmética também é mestra da persuasão?

Górgias — Parece que sim.

Sócrates — Por conseguinte, se alguém nos perguntasse de que persuasão se trata e a respeito de que, decerto lhe responderíamos que se trata da persuasão ensina a conhecer a grandeza do par e do ímpar. Da mesma forma, com relação às artes de que falamos há pouco, poderíamos demonstrar que são mestras da persuasão, sua modalidade e a que se aplicam. Ou não?

Górgias — Exato.

Sócrates — Sendo assim, a retórica não é a única mestra da persuasão.

Górgias — É muito certo.

IX — Sócrates — Uma vez que ela não é a única realizar esse trabalho, havendo outras que alcançam mesmo resultado, com todo o direito, depois disso, poderíamos, como o fizemos com relação ao pintor, interpelar quem apresentou aquela proposição: Que espécie de persuasão é a retórica e sobre que se manifesta? Ou não consideras lícito formular semelhante pergunta?

Górgias — Considero.

Sócrates — Então, responde a ela, Górgias, que pensas desse modo.

Górgias — A meu ver, Sócrates, essa persuasão é a que se exerce nos tribunais e demais assembléia s, como disse há pouco, e que se relaciona com o justo e o injusto.

Sócrates — Eu já desconfiava, Górgias, qual fosse a persuasão a que te referias e sobre que se manifesta. Mas, para que não venhas a admirar-te se dentro de instantes eu voltar a apresentar pergunta idêntica sobre o que parece tão claro, retomo o mesmo assunto. Pois, como disse, ao formular essas perguntas, não tenho em mira a tua pessoa, mas apenas dirigir com método a discussão, e também para que não adquiramos o sestro de antecipar os pensamentos um do outro, como se os tivéssemos adivinhado. O que é preciso é que tu mesmo desenvolvas tua idéia como melhor te parecer.

Górgias — Não, de fato.

X — Sócrates — Vejamos, então, que diremos com acerto sobre a retórica, pois eu mesmo não chego a compreender o que falo. Quando a cidade se reúne para escolher médicos ou construtores navais, ou qualquer outra espécie de artesãos, o orador, evidentemente, não será chamado para opinar. E fora de dúvida que em cada uma dessas eleições só deverão ser escolhidos os entendidos na matéria. Nem, ainda , quando se tratar da construção de muralhas, ou de portos, ou de arsenais, porém os arquitetos. Do mesmo modo, sempre que a reunião versar sobre a escolha de um general, a tática de um exército diante do inimigo, ou um asssalto a determinado ponto, só poderão opinar os estrategos, nunca os oradores. Qual é o teu modo de pensar, Górgias, a esse respeito? Uma vez que tu próprio te consideras orador e capaz de formar oradores, é óbvio que é a ti que terei de dirigir -me para informar-me a respeito de tua arte. Podes ficar certo de que com isso estou zelando também dos teus interesses. É possível haver aqui dentro quem pretenda tornar-se teu aluno, como, de fato, percebo em muitos esse desejo, mas têm acanhamento de falar-te. Assim, interrogado por mim, faz de conta que são eles que te formulam estas perguntas: Que viremos a ser, Górgias, se passarmos a estudar contigo? A respeito de que assunto ficaremos capazes de aconselhar a cidade? Apenas a respeito do justo e do injusto, ou também dos assuntos a que Sócrates se referiu há pouco? Agora procura responder a eles.

Górgias — Então, Sócrates, vou tentar revelar-te toda a força da oratória, pois tu mesmo indicaste o caminho com muita precisão. Creio que deves saber que os arsenais e as muralhas dos atenienses, e as construções do porto, em parte são devidas aos conselhos de Temístocles, em parte aos de Péricles, não a sugestões de construtores.

Sócrates — Dizem, realmente, isso de Temístocles, Górgias. Quanto a Péricles, eu mesmo o ouvi, quando nos aconselh ou a respeito do levantamento do muro me diano.

Górgias — E sempre que é tomada, Sócrates, uma dessas decisões a que te referiste há pouco, terás percebido que são os oradores que aconselham nesses assuntos, saindo sempre vencedora sua maneira de pensar.

Sócrates — E, por isso mesmo que tal fato me causa admiração, Górgias, é que há muito te venho interrogando sobre a natureza da retórica. Afigura-se-me algo sobre -humano, quando a considero por esse prisma.

XI — Górgias — Quanto mais se soubesses tudo, Sócrates;: a retórica, por assim dizer, abrange o conjunto das artes, que ela mantém sob sua autoridade. Vou apresentar-te uma prova eloqüente disso mesmo. Por várias ve zes fui com meu irmão ou com outros médicos à casa de doentes que se recusavam a inge rir remédios ou a deixar-se amputar ou cauterizar; e, não conseguindo o médico persuadi-lo, eu o fazia com a ajuda exclusivamente da arte da retórica. Digo mais: se na cidade que quiseres, um médico e um orador se apresentarem a uma assembléia do povo ou a qualquer outra reunião para argumentar sobre qual dos dois deverá ser escolhido como médico, não contaria o médico com nenhuma probabilidade para ser eleito, vindo a sê-lo, se assim o desejasse, o que soubesse falar bem. E se a competição se desse com representantes de qualquer outra profissão, conseguiria fazer eleger-se o orador de preferência a qualquer outro, pois não há assunto sobre que ele não possa discorrer com maior força de persuasão diante do público do que qualquer profissional. Tal é a natureza e a força da arte da retórica! Contudo, Sócrates, a retórica precisa ser usada como as demais artes de competição; essas artes não devem ser empregadas indiferentemente contra toda a gente; o pugilista, o pancratiasta ou o lutador armado, porque em sua arte contam com a prática e se

tornaram nesse terreno superiores a amigos e inimigos, não deverão, só por isso, bater nos amigos, feri-los, nem matá -los. Nem, por Zeus! no caso de haver alguém freqüentado o estádio e se tornado robusto e hábil boxador, e que depois venha a bater no pai ou na mãe, ou em qualquer parente ou amigo, não é por isso, dizia, que devemos perseguir os professores de ginástica e de esgrima, e expulsá-los da cidade. Pois estes transmitiram a outros seus conhecimentos para serem usados com justiça contra inimigos e ofensores, e apenas em defesa própria, não para atacar. Os alunos é que perverteram esses ensinamentos e empregaram mal a própria força e habilidade. Os professores não são ruins nem é má em si mesma a arte, ou responsável por tais abusos, mas, segundo penso, os que não a exercem devidamente. Idênticos argumentos va lem para a arte da retórica. É fora de dúvida que o orador é capaz de falar contra todos a respeito de qualquer assunto, conseguindo, por isso mesmo, convencer as multidões melhor do que qualquer pessoa, e, para dizer tudo, no assunto que bem lhe parecer. Porém não será por isso que ele irá privar o médico de sua fama — o que lhe seria possível — nem qualquer outro profissional. Pelo contrário, deverá usar a retórica com justiça, como qualquer outro gênero de combate. Se um indivíduo que se tornou orador vier a fazer mau uso da força e da habilidade, não é seu professor, quero crer, que deverá ser perseguido e expulso da cidade. O professor transmitiu seus conhecimentos para serem bem aplicados; foi o aluno que fez mau uso deles. Esse, por conseguinte, que os aplicou mal, é que merece ser perseguido, expulso ou morto, não o professor.

XII — Sócrates — Presumo, Górgias, que tu também já assististe a bastantes discussões, e que deves ter observado não ser fácil para os interlocutores que discorrem sobre determinado assunto defini-lo com harmonia de vistas, nem terminar a reunião com proveito para ambas as partes. Pelo contrário, havendo desacordo e incriminando um deles o opositor de ser pouco veraz ou nada claro, mostram-se agastados e atribuem o reparo a sentimento de inveja, alegando todos que o antagonista se deixa arrastar pelo amor à discussão, sem procurar elucidar o problema em debate. Alguns, até, acabam separando-se por maneira indigna, com impropérios de parte a parte, dizendo e ouvindo, a um tempo, tão pesados doestos, que os próprios assistentes se sentem envergonhados de terem dado ouvidos a tipos de tal jaez. E por que me manifesto desse modo? Porque tenho a impressão de que o que afirmaste agora não está de acordo nem concerta com o que disseste a respeito da retórica. Receio contestar-te, para que não penses que falo menos pelo prazer de esclarecer o assunto em dis cussão do que por motivos pessoais. Se fores como eu, de muito bom grado te interrogarei; caso contrário, fiquemos aqui mesmo. E em que número me incluo? Entre as pessoas que têm prazer em ser refutadas, no caso de afirmarem alguma inverdade, e prazer também em refutar os outros, se não estiver certo, do mesmo modo, o que disserem, e que tanto se alegram com serem refutadas como em refutarem. Do meu lado, considero preferível ser refutado, por ser mais vantajoso ver-se alguém livre do maior dos males do que livrar dele outra pessoa. No meu modo de pensar, não há nada de tão nocivas conseqüências para o homem como admitir opinião errônea sobre o assunto com que nos ocupamos. Se me declarares que tu também és assim, poderemos conversar; mas se fores de parecer que convém ficarmos por aqui, demos por terminado o assunto e suspendamos o colóquio.

Górgias — Eu também, Sócrates, me incluo no número das pessoas a que te referiste. Mas talvez seja preciso, ao mesmo passo, levar em consideração os presentes. Muito antes de chegardes, havia eu feito para eles uma longa exposição. Remanesce, portanto, o perigo de nos alongarmos demais, se continuarmos a conversar. E sobre isso que devemos refletir, para não retermos quem porventura necessite ocupar-se com outra coisa.

Sócrates — Nesse caso, o ignorante tem maior poder de persuasão junto de ignorantes do que o sábio, se o orador for mais convincente do que o médico. Será essa a inferência certa, ou queres outra?

Górgias — Pelo menos, neste caso, é assim mesmo.

Sócrates — E com relação às demais artes, o orador e a retórica não se encontram nas mesmas condições? Ele não terá necessidade de saber como as coisas são em si mesmas e bastará recorrer a algum artifício para parecer aos ignorantes que em tudo é mais entendido do que os sábios.

XIV — Górgias — E não é grande vantagem, Sócrates, não precisar uma pessoa aprender nenhuma arte, a não ser aquela, e não vir a ficar por baixo dos conhecedores das outras artes?

Sócrates — Se o orador, pelo fato de conhecer a sua arte, é superior ou inferior aos demais profissionais, é o que examinaremos dentro de pouco, caso haja nisso algum proveito para a discussão. Por enquanto, consideremos apenas se em relação ao justo e o injusto, ao feio e o belo, ao bem e o mal, o orador se encontra nas mesmas relações em que se acha com referência à saúde e aos objetos das demais artes? Em outros termos: se sem conhecer as coisas em si mesmas e sem saber o que é o ‘bem e o mal, o belo e o feio, o justo e o injusto, dispõe de um método especial de persuasão que aos olhos dos ignorantes o faça parecer mais sábio do que os entendidos? Ou será necessário conhecer essas coisas, por havê-las aprendido antes de procurar-te para estudar retórica? Se não for o caso, na qualidade de professor de retórica, nada terás de ensinar a quem te procurar, a respeito desse assunto, pois não faz isso parte de tua profissão, cumprindo-te apenas deixá-lo em condições de parecer às multidões que conhece tudo isso, embora o desconheça, e passe por homem de bem, ainda que o não seja? Ou te será absolutamente impossível ensinar-lhe retórica, se antes ele não ficou conhecendo a verdade sobre todos esses assuntos? Como se passam, realmente, as coisas neste domínio, Górgias? Por Zeus! Desejaria que me revelasses, conforme me prometeste há pouco, em que consiste a força da retórica.

Górgias — Sim, Sócrates, suponho que se o aluno ignora essas matérias, ele as aprenderá também comigo.

Sócrates — Basta! Falaste muito bem. Se tiveres de fazer de alguém um orador, forçosamente essa pessoa terá de conhecer o que é justo e o que é injusto, quer o tenha aprendido antes, quer aprenda depois contigo.

Górgias — Perfeitamente.

Sócrates — E então? Quem aprender a arte de construir é arquiteto, não é verdade?

Górgias — Sim.

Sócrates — E quem aprender música é músico?

Górgias — Exato.

Sócrates — E quem aprender medicina é médico? E com tudo o mais não passa exatamente o mesmo: quem aprender alguma coisa fica sendo o que esse conhecimento faz dele?

Górgias — Sem dúvida nenhuma.

Sócrates — O homem justo pratica ações justas.

Górgias — Sim.

Sócrates — Será, portanto, forçoso que o orador seja justo e, como tal, queira praticar ações justas.

Górgias — Parece que sim.

Sócrates — E nunca o justo há de querer cometer alguma injustiça.

Górgias — Forçosamente.

Sócrates — De acordo com o nosso raciocínio, o orador necessariamente terá de ser justo.

Górgias — Sim.

Sócrates — Nunca, por conseguinte, há de querer o retórico cometer uma injustiça.

Górgias — Nunca.

XV — Sócrates — Deves estar lembrado do que há momentos disseste do pedótriba, que não devemos afastá-lo nem expulsá-lo da cidade, no caso de não fazer o pugilista uso lícito dos punhos. Da mesma forma dá-se com o orador: vindo a usar indevidamente a retórica, não devemos culpar seu professor nem expulsá-lo da cidade, porém o próprio criminoso que fez mau uso da retórica. Isso foi dito ou não?

Górgias — Foi.

Sócrates — E não admitimos, também, que o referido orador nunca poderá cometer injustiça? Ou não?

Górgias — É certo.

Sócrates — Ficou também esclarecido, Górgias, na primeira parte do nosso diálogo, que a retórica não se ocupa com discursos relativos ao par e ao ímpar, porém com os que se relacionam com o justo e o injusto, não é verdade?

Górgias — Sim.

Sócrates — Ao ouvir-te afirmar semelhante coisa, entendi que jamais poderia a retórica ser algo in justo, pois todos os seus discursos tratam exclusivamente da justiça. Mas quando, pouco depois, te ouvi dizer que o orador pode usar injustamente a retórica, fiquei surpreso, e foi por ter notado contradição em tuas palavras que fiz aquela declaração, de só levarmos adiante nossa conversa no caso do considerares como- eu que é mais vantajoso ser refutado; na hipótese contrária, seria preferível dá-la por encerrada. Posteriormente, no decurso de nossa investigação, tu mesmo poderás verificar que voltamos a reconhecer não ser possível ao orador fazer uso indevido da retórica ou consentir em ser injusto. Pelo cão! para nos safarmos desta enleada, Górgias, será pre ciso uma conversa muito longa.

Sócrates — Algo a respeito do que afirmaste que tinhas feito uma arte, segundo li recentemente num escrito teu.

Polo — Que queres dizer com isso?

Sócrates — É uma espécie de rotina.

Polo — Achas, então, que a retórica seja uma rotina?

Sócrates — É o que penso, se não tiveres nada a objetar.

Polo — Rotina, de que espécie?

Sócrates — Para produzir prazer e satisfação.

Polo — E não te parece uma bela coisa a retórica, se é capaz de proporcionar prazer aos homens?

Sócrates — Que é isso, Polo! Já me ouviste dizer o que na minha opinião é a retórica, para me perguntares agora se não a considero uma bela coisa?

Polo — Não fiquei sabendo que a consideras uma espécie de rotina?

Sócrates — Já que tanto gostas de comprazer aos outros, não quererás porventura proporcionar-me um pequenino prazer?

Polo — Com todo o gosto.

Sócrates — Então, pergunta -me que espécie de arte, a meu ver, é a culinária.

Polo — É o que passo a fazer: que arte é a culinária?

Sócrates — Nenhuma, Polo.

Polo — Que é, então? Explica-te.

Sócrates — Direi que é uma espécie de rotina.

Polo — Rotina, de que jeito? Fala.

Sócrates — Pois direi, Polo, que proporciona prazer e satisfação.

Polo — Então, culinária é a mesma coisa que retórica?

Sócrates — De forma alguma; ambas são partes da mesma atividade.

Polo — A que atividade te referes?

Sócrates — Contanto que não seja falta de educação dizer a verdade! Vacilo em declará-lo só por causa de Górgias, para que ele não pense que estou zombando de sua profissão. Se a retórica praticada por Górgias é realmente desse tipo, não saberei dizê-lo, pois em nossa recente conversação não ficou bem clara a sua maneira de pensar. O que denomino retórica é apenas uma parte de certa coisa que está longe de ser bela.

Górgias — Que coisa, Sócrates? Fala sem receio de melindrar- me.

XVIII — Sócrates — O que me parece, Górgias, é que se trata de uma prática que nada tem de arte, e que só exige um espírito sagaz e corajoso e com a disposição natural de saber lidar com os homens. Em conjunto, dou-lhe o nome de adulação. A meu ver, essa prática compreende várias modalidade s, uma das quais é a culinária, que passa, realmente, por ser arte, mas que eu não considero tal, pois nada mais é do que empirismo e rotina. Como partes da mesma, incluo também a retórica, o gosto da indumentária e a sofística: quatro partes com quatro campos diferentes de atividade. No caso de Polo querer, agora, interrogar- me, pode fazê-lo, pois ainda não ficou sabendo que parte da adulação em julgo ser a retórica; sem ter percebido que eu não lhe havia ainda respondido, passou a perguntar se não a considerava bela. Porém não lhe direi se acho bela ou feia a retórica antes de lhe haver respondido o que ela seja. Não ficaria bem, Polo. Caso queiras, pergunta -me agora que parte da adulação eu digo que é a retórica.

Polo — Então, pergunto. Responde-me que parte ela é.

Sócrates — Será que vais apanhar bem minha resposta? Segundo o meu modo de pensar, a retórica é o simulacro de uma parte da política.

Polo — Como assim? E afirmas que é bela ou que é feia?

Sócrates — Feia, é o que digo. Ao ruim dou o nome de feio, para responder-te como se já soubesses o que quero dizer.

Górgias — Por Zeus, Sócrates! Eu também não compreendo o que queres dizer.

Sócrates — É natural, Górgias, pois ainda não me exprimi claramente; porém Polo é novo e fogoso.

Górgias — Bem, deixa^ isso e declara-me por que disseste que a retórica é um simulacro de uma parte da política.

Sócrates — Vou tentar explicar o que a meu ver é a retórica. Se não for o que penso, o nosso Polo me refutará. Denominas alguma coisa corpo e alma?

Górgias — Como não?

Sócrates — E não admites, também, que haja em ambos uma condição de bem-estar?

Górgias — Sem dúvida.

Sócrates — É uma condição de aparente bem-estar, mas que o não seja? O que digo é o seguinte: Há muita gente que aparenta saúde, visto não ser fácil a todo o mundo perceber que se encontra em condições precárias, com exceção do médico ou do professor de ginástica.

Górgias — É certo o que dizes.

Sócrates — No corpo e na alma digo que a mesma coisa se passa, o que faz que o corpo e a alma pareçam estar em boas condições, embora na realidade não o estejam.

Górgias — É isso mesmo.

XXI — Polo — Como assim? Achas que a retórica seja bajulação?

Sócrates — Uma parte da bajulação, foi o que eu disse. Com essa idade, Polo, já estás esquecido? Como ficarás depois de velho?

Polo — És, então, de parecer que nas cidades os bons oradores são tidos na conta de bajuladores e não gozam de nenhuma consideração?

Sócrates — Apresentas-me uma pergunta ou inicias um discurso?

Polo — É uma pergunta.

Sócrates — Sou de opinião que eles não são considerados.

Polo — Como não são considerados? Não gozam de grande influência nas cidades?

Sócrates — Não, se compreenderes por influência algo bom para quem a exerce.

Polo — Essa é, justamente, a minha maneira de pensar.

Sócrates — Então, acho que de todos os cidadãos são os oradores os que têm menor poder.

Polo — Como assim? Não podem matar, como os tiranos, a seu bel-prazer, não confiscam os bens alheios e não expulsam das cidades quem eles querem?

Sócrates — Pelo cão! Continuo em dúvida, Polo, a cada palavra do que dizes, se tu mesmo falas e apresentas tua maneira de pensar, ou se me estás interrogando.

Polo — Sim, interrogo-te.

Sócrates — Muito bem, amigo. Nesse caso, apresentaste duas perguntas ao mesmo tempo.

Polo — Como duas?

Sócrates — Há pouco não disseste mais ou menos que os oradores, tal como os tiranos, podem matar quem bem quiserem, confiscar os bens alheios ou banir qualquer pessoa?

Polo — Disse.

XXII — Sócrates — Por isso, declaro-te que se trata de duas questões distintas, e vou responder separadamente a ambas. Afirmo-te, portanto, Polo, que os oradores e os tiranos são os que menos podem nas cidades, conforme disse há pouco, pois não fazem o que querem, por assim dizer, mas apenas o que se lhes afigura melhor.

Polo — E não é isso, justamente, poder muito?

Sócrates — Não; pelo menos foi o que Polo disse.

Polo — Eu disse não? O que eu disse foi sim.

Sócrates — Por... isso, não; o que afirmaste foi que o poder é um bem para quem o possui.

Polo — É o que digo, de fato.

Sócrates — E achas que seja um bem para qualquer pessoa fazer o que lhe parece ser o melhor, quando está privado da razão? Julgas que isso é poder muito?

Polo — Penso que não.

Sócrates — Logo, para me contestares, terás de provar que os oradores têm bom senso e que a retórica é uma arte, não simples bajulação. Porém, se não conseguires refutar-me, nem os oradores, que fazem nas cidades o que bem lhes apraz, nem os próprios tiranos possuirão, com isso, nenhum bem, no caso de ser o poder um bem, como tu mesmo o disseste, e ser um mal, conforme também concordaste, fazer alguém o que lhe aprouver, quando privado de bom senso. Ou não?

Polo — De acordo.

Sócrates — Como, então, poderão ser os oradores to do-poderosos nas cidades, ou os tiranos, se Polo não provou a Sócrates que eles podem fazer o que querem?

Polo — Esse homem...

Sócrates — Nego que possam fazer o que querem. Contesta-me isso.

Polo — Não acabaste de dizer que eles fazem o que lhes parecer ser o melhor!

Sócrates — E continuo a sustentar o que disse.

Polo — Então, fazem o que querem.

Sócrates — Nego.

Polo — Apesar de fazerem o que lhes apraz?

Sócrates — Sim.

Polo — Defendes absurdos, Sócrates; verdadeiros disparates.

Sócrates — Não me acuses, caríssimo Polo, por falar-te em teu próprio estilo. Se fores capaz de interrogar-me, prova que estou enganado; caso contrário, passarás a responder.

Polo — Prefiro responder, para vir, afinal, a saber o que queres dizer.

XXIII — Sócrates — Que te parece que os homens queiram, quando fazem alguma coisa: o que fazem propriamente, ou o que têm em vista quando fazem o que fazem? Por exemplo, os que tomam remédio por indicação do médico, és de parecer que querem o que fazem, a saber, tomar remédio e sofrer, ou querem sarar, em vista do que o tomam?

Polo — Sarar, evidentemente, em vista do que o tomam.