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Introdução à Teoria Intuitiva de Conjuntos: Conjuntos, Inclusão e Operações Básicas, Notas de estudo de Matemática

Neste texto, aprende-se os conceitos básicos da teoria intuitiva de conjuntos, começando por exemplos de conjuntos e passando por inclusão, subconjuntos, reunião e intersecção. Além disso, são introduzidos os conceitos de diferença e produto cartesiano de conjuntos.

Tipologia: Notas de estudo

Antes de 2010

Compartilhado em 25/10/2010

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Conjuntos
Grupo de Matemática da Universidade Técnica de Lisboa:
António St. Aubyn, Maria Carlos Figueiredo,
Luís de Loura, Luísa Ribeiro, Francisco Viegas
Lisboa, Março de 2004
O documento presente foi obtido directamente do código TeXfornecido pelos autores com alterações de formatação. A versão corrente é de 27
de Setembro de 2005. A revisão deste texto do ponto de vista gráfico ainda não está completa. Novas versões poderão ficar disponíveis no futuro a
partir de http://preprint.math.ist.utl.pt/files/ppgmutlconjuntos.pdf. O DMIST agradece ao Grupo de Matemática da UTL a possibilidade de facultar
o texto aos alunos das disciplinas introdutórias de Matemática do IST.
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Conjuntos

Grupo de Matemática da Universidade Técnica de Lisboa:

António St. Aubyn, Maria Carlos Figueiredo,

Luís de Loura, Luísa Ribeiro, Francisco Viegas

Lisboa, Março de 2004

O documento presente foi obtido directamente do código TeX fornecido pelos autores com alterações de formatação. A versão corrente é de 27 de Setembro de 2005. A revisão deste texto do ponto de vista gráfico ainda não está completa. Novas versões poderão ficar disponíveis no futuro a partir de http://preprint.math.ist.utl.pt/files/ppgmutlconjuntos.pdf. O DMIST agradece ao Grupo de Matemática da UTL a possibilidade de facultar o texto aos alunos das disciplinas introdutórias de Matemática do IST.

Conteúdo

  • 1 Introdução
  • 2 Noção intuitiva de conjunto
  • 3 Objectos, conjuntos, pertença
  • 4 Inclusão
  • 5 Reunião
  • 6 Intersecção
  • 7 Diferença
  • 8 Conjuntos finitos e infinitos
  • 9 Produto cartesiano
    • 1 Diagrama de Venn. Lista de Figuras
    • 2 Diagrama de Venn.
    • 3 A contido em B; C não contido em D.
    • 4 Reunião de A com B.
    • 5 Intersecção de A com B.
    • 6 Intersecção de A com B, com A contido em B.
    • 7 Complementar de B em A.
    • 8 Complementar do conjunto B.

Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa, Editorial Verbo conjunto: Reunião de vários elementos que funcionam como uma unidade; aglomeração; colecção; grupo; série colecção: conjunto de objectos da mesma natureza; compi- lação; colectânea

Os dicionários não nos ajudam; dizer que um conjunto é uma aglome- ração não é mais do que substituir uma palavra por outra, sem definir o que quer que seja. Será culpa dos dicionários? Para respondermos a esta questão temos de saber o que é uma definição. Ora definir um conceito não é mais do que explicá-lo através de outros conceitos já conhecidos.

Exemplo 1. Um número par é um número natural divisível por dois.

Definimos um novo conceito (o de número par ) utilizando dois concei- tos já conhecidos (o de número natural e o de número natural divisível por dois ).

Exemplo 2. Um número ímpar é um número natural que não é par.

O novo conceito definido ( número ímpar ) baseia-se no conceito de número par (definido anteriormente).

Em resumo: Um conceito é definido através de outros conceitos já conhe- cidos. Uma vez inicializado, este processo de definir novos conceitos não põe quaisquer problemas. A grande questão é o início. Como começar?

A ideia é simples: começamos com alguns conceitos (de preferência poucos), que não definimos, mas que admitimos todos sabermos o que são. Estes conceitos são chamados conceitos primitivos ou noções primitivas. A partir dos conceitos primitivos podemos ir introduzindo novos conceitos a que chamamos conceitos derivados.

Algo de análogo se passa com as proposições verdadeiras que queremos construir e que envolvem os diversos conceitos (quer primitivos, quer derivados). Para construir uma proposição verdadeira utilizamos regras lógicas (as chamadas regras de inferência) aplicadas a outras proposições que já sabemos serem verdadeiras. Uma demonstração não é mais do que a aplicação de regras de inferência a proposições que sabemos serem verdadeiras; o resultado obtido é uma nova proposição verdadeira, a que é usual chamar teorema. Mais uma vez a grande questão está na inicialização do processo. Como começar? É simples: escolhemos um certo número

de proposições que decidimos (arbitrariamente) serem verdadeiras. Estas proposições são os chamados axiomas. A partir delas demonstramos outras proposições — os teoremas. Em resumo: uma teoria matemática é constituída por um certo número de conceitos primitivos e por um certo número de axiomas. A partir deles são introduzidos novos conceitos — os conceitos derivados — e novas proposições verdadeiras — os teoremas.

2 Noção intuitiva de conjunto

O conceito de conjunto está na base de toda a Matemática. Antes de nos debruçarmos sobre o conceito de conjunto, começaremos por dar alguns exemplos de conjuntos.

Exemplos de conjuntos

  • O conjunto das cidades de Portugal.
  • O conjunto dos alunos da Universidade Técnica de Lisboa.
  • O conjunto dos números naturais.
  • O conjunto das equipas de futebol da divisão de honra.
  • O conjunto dos cidadãos portugueses que estão presos.
  • O conjunto dos deputados da Assembleia da República Portuguesa.
  • O conjunto dos números reais.
  • O conjunto dos países da União Europeia.
  • O conjunto dos números racionais.
  • O conjunto dos sócios dos Bombeiros Voluntários de Campo d’Ourique.
  • O conjunto dos números pares.
  • O conjunto dos números ímpares.
  • O conjunto dos números naturais que são múltiplos de 4.
  • O conjunto dos números primos.
  • O conjunto dos números reais que são solução da equação x^4 + x = 0.

Para dizermos que um objecto y não pertence a um conjunto B escre- vemos y < B.

Neste caso dizemos também que y não é um elemento do conjunto B. Em vez de y < B escreveremos algumas vezes, com significado idêntico, B = y.

Exemplos de proposições verdadeiras

  • Leiria pertence ao conjunto das cidades de Portugal.
  • O Presidente Jorge Sampaio não pertence ao conjunto dos alunos da Universidade Técnica de Lisboa.
  • O número 5 pertence ao conjunto dos números naturais.
  • O número −35 não pertence ao conjunto dos números naturais.
  • O número π não pertence ao conjunto dos números naturais.
  • O Sporting pertence ao conjunto das equipas de futebol da divisão de honra.
  • O Primeiro Ministro Durão Barroso não pertence ao conjunto dos cidadãos portugueses que estão presos.
  • Francisco Louçã pertence ao conjunto dos deputados da Assembleia da República Portuguesa.
  • O número

2 pertence ao conjunto dos números irracionais.

  • A China não pertence ao conjunto dos países da União Europeia.
  • O número

2 não pertence ao conjunto dos números racionais.

  • O número

4 pertence ao conjunto dos números racionais.

Exemplos de proposições falsas

  • Leiria pertence ao conjunto das cidades da Ásia.
  • O Benfica pertence ao conjunto das equipas de futebol da Dinamarca.
  • O número 5,47 não pertence ao conjunto dos números reais.

Dois conjuntos A e B são iguais sse tiverem os mesmos elementos. Portanto, sendo A e B dois conjuntos, tem-se

A = B

sse, para todo o objecto x, forem verificadas as seguintes condições:

x ∈ A ⇒ x ∈ B e x ∈ B ⇒ x ∈ A.

Para evitar paradoxos lógicos que não nos interessa aqui considerar, e também por comodidade de linguagem, suporemos que todos os conjuntos de que falaremos são subconjuntos de um conjunto U a que é usual chamar universo. Com esta hipótese (que será mantida ao longo de todo este texto), dois conjuntos A e B são iguais sse

∀x ∈ U x ∈ A ⇒ x ∈ B ∧ x ∈ B ⇒ x ∈ A

ou, de forma equivalente, sse

∀x ∈ U x ∈ A ⇔ x ∈ B.

Vemos assim que a igualdade entre conjuntos é a tradução, em termos da teoria dos conjuntos, da operação lógica da equivalência. Provar que dois conjuntos A e B são iguais é provar que as proposições “x ∈ A” e “x ∈ B” são equivalentes. Conhecer um conjunto é saber quais são os seus elementos. Então, para representarmos um conjunto, podemos convencionar escrever todos os seus elementos, delimitados por chavetas. Por exemplo, sendo A o conjunto dos números pares maiores ou iguais a 2 e menores ou iguais a 10, tem-se A = { 2 , 4 , 6 , 8 , 10 }.

Sendo B o conjunto das capitais dos países da União Europeia (em 2002) tem-se

B = {Amsterdão, Atenas, Berlim, Bruxelas, Copenhaga, cidade do Luxemburgo, Dublin, Estocolmo, Helsínquia, Lisboa, Londres, Madrid, Paris, Roma, Viena}.

Dizemos que os conjuntos A e B estão definidos extensivamente. Claro que, por razões de ordem prática, só é possível definir um conjunto ex- tensivamente se ele tiver poucos elementos. Caso contrário, se quisermos

esse domínio é o conjunto dos números reais. Ora acontece que há números reais que verificam a condição e que não são números naturais. Seja X um conjunto qualquer; consideremos o seguinte conjunto, defi- nido compreensivamente

{x ∈ X; x , x}.

Trata-se de um conjunto sem elementos, porque não existe qualquer ele- mento x de X tal que x , x. Dizemos tratar-se do conjunto vazio, que será designado por ∅; tem-se então

∅ = {x ∈ X; x , x}.

Não é de estranhar a existência de um tal conjunto sem elementos. Uma imagem que ajuda a esclarecer o conceito é, por exemplo, o conjunto de fósforos que estão dentro de uma determinada caixa de fósforos. Esse conjunto pode ter 20 elementos (se a caixa tiver 20 fósforos), 17 elementos (se a caixa tiver 17 fósforos),... E se a caixa não tiver fósforos? Então o conjunto de fósforos da caixa é o conjunto vazio. Note-se que o conjunto vazio pode ser definido por qualquer condição impossível num qualquer conjunto X. Por exemplo tem-se

∅ = {x ∈ N; x^2 = 2 }

porque não existe qualquer número natural cujo quadrado seja igual a 2. Mas {x ∈ R; x^2 = 2 }

já não é o conjunto vazio, porque existem números reais de quadrado igual a 2. Tem-se, como é sabido,

{x ∈ R; x^2 = 2 } = {−

4 Inclusão

Neste início do nosso estudo da teoria intuitiva dos conjuntos temos três conceitos primitivos: o de objecto, o de conjunto e o de pertença. Também já introduzimos o conjunto vazio que designamos por ∅. Vamos agora começar a estudar operações que se podem executar com conjuntos. Consideremos o conjunto A de todos os alunos do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) e consideremos o conjunto B de todos os alunos da Universidade Técnica de Lisboa (UTL). Como o ISEG é uma escola da UTL, todo o aluno do ISEG é também aluno da UTL. Dito por

outras palavras, todo o elemento do conjunto A é também elemento do conjunto B. Nestas condições dizemos que o conjunto A está contido no conjunto B e escrevemos A ⊂ B. Este exemplo leva-nos a introduzir a seguinte definição:

Definição 1. Sejam A e B dois conjuntos quaisquer; dizemos que A está contido (ou incluído) em B, e escrevemos A ⊂ B, sse todo o elemento de A for elemento de B.

Repare-se que a relação de inclusão entre conjuntos traduz, na lingua- gem da teoria dos conjuntos, a operação lógica de implicação de proposições. De facto, dizer que A está contido em B, não é mais do que dizer que a proposição “x pertence a A” implica a proposição “x pertence a B”; tem-se então A ⊂ B sse ∀x ∈ U x ∈ A ⇒ x ∈ B. Frequentes vezes, em vez de dizermos que A está contido em B, dizemos que B contém (ou inclui) A e escrevemos

B ⊃ A.

Dizemos também que A é um subconjunto de B ou que B é um sobreconjunto de A. A negação de “A está contido em B” é “A não está contido em B”, que se escreve A 1 B ou ainda B 2 A.

Para sabermos o que significa dizer que A não está contido em B devemos negar a proposição “A está contido em B”. Como sabemos, dizer que A está contido em B é dizer que todo o objecto x que é elemento de A é também elemento de B. Negar esta proposição é dizer que existe pelo menos um objecto x que é elemento de A e não é elemento de B:

A 1 B sse ∃x ∈ U x ∈ A ∧ x < B.

Retomemos o exemplo inicial, onde A é o conjunto dos alunos do ISEG e B é o conjunto dos alunos da UTL. Designando por C o conjunto de alunos da Faculdade de Motricidade Humana (FMH), tem-se também

C ⊂ B

porque a FMH é um escola da UTL e portanto todo o aluno da FMH é também aluno da UTL. Analogamente, sendo D o conjunto dos alunos

Se esta proposição for verdadeira, então ∅ ⊂ X; se a proposição for falsa, então ∅ 1 X. Mas esta proposição é construída a partir das proposições “x ∈ ∅” e “x ∈ X”, conectadas com a operação de implicação. Para sabermos se a proposição é verdadeira ou falsa basta conhecermos os valores lógicos do antecedente e do consequente que constituem a implicação. Ora o antecedente x ∈ ∅ é falso porque não existe qualquer objecto x que seja elemento do conjunto vazio ∅. Então, independentemente do valor lógico do consequente, a implicação é verdadeira. Demonstrámos assim que:

Teorema 2. O conjunto vazio está incluído em qualquer conjunto A.

Sejam A e B dois conjuntos quaisquer. Já sabemos o que significa dizer que A está contido em B: todo o elemento de A é elemento de B. Também sabemos o que significa dizer que B está contido em A: todo o elemento de B é elemento de A. Poderá ter-se simultaneamente A ⊂ B e B ⊂ A? Em caso afirmativo, o que quererá isso dizer? A resposta é dada no seguinte teorema:

Teorema 3. Quaisquer que sejam os conjuntos A e B tem-se

(A ⊂ B ∧ B ⊂ A) ⇔ (A = B).

Demonstração. Consideremos a proposição “A ⊂ B ∧ B ⊂ A”. Isto significa que todo o elemento de A é elemento de B (porque A é um subconjunto de B) e que todo o elemento de B é elemento de A (porque B é subconjunto de A). Em conclusão os elementos de A são precisamente os elementos de B; os dois conjuntos são iguais. 

A propriedade expressa neste teorema é muito utilizada quando que- remos mostrar que dois conjuntos A e B são iguais. Isso é equivalente a mostrar que A ⊂ B e B ⊂ A. Em termos lógicos estamos simplesmente a dizer que a conjunção das proposições “x ∈ A ⇒ x ∈ B” (correspondente a A ⊂ B) e “x ∈ B ⇒ x ∈ A” (correspondente a B ⊂ A) é a proposição “x ∈ A ⇔ x ∈ B”; ora sabemos^1 que, sendo p e q duas proposições quais- quer, então (p ⇒ q) ∧ (q ⇒ p) é equivalente a p ⇔ q. Por vezes é cómodo representar de forma pictórica os conjuntos. Assim é usual representar um conjunto qualquer A pelo interior de uma curva fechada, tal como na figura 1. Dizemos tratar-se de um diagrama de Venn. Claro que um diagrama de Venn não é mais do que uma imagem que nos pode sensibilizar para a compreensão das propriedades dos conjuntos, nunca podendo servir para demonstrar essas mesmas propriedades.

(^1) ver capítulo Lógica.

Figura 1: Diagrama de Venn.

Por vezes, sendo A um conjunto finito, podemos representar os seus ele- mentos sob a forma de pontos dentro de uma curva fechada. Por exemplo o conjunto A = { 1 , 7 , 9 } pode representar-se como na figura 2.

Figura 2: Diagrama de Venn.

Com recurso aos diagramas de Venn a inclusão tem uma imagem suges- tiva, que apresentamos nas figuras seguintes. Na figura 3 representamos duas situações distintas: numa o conjunto A está contido no conjunto B, enquanto na outra o conjunto C não está contido no conjunto D.

Figura 3: A contido em B; C não contido em D.

5 Reunião

Consideremos os dois conjuntos seguintes:

A = {a, b, c, 1 , 2 , 3 , 4 } e B = {a, d, 2 , 5 , 7 , 9 }.

Podemos pensar num novo conjunto C, constituído por aqueles objectos que estão em A ou estão em B. No exemplo em questão esse novo conjunto será C = {a, b, c, d, 1 , 2 , 3 , 4 , 5 , 7 , 9 }.

Teorema 5. Sejam A e B dois conjuntos quaisquer; então tem-se

A ∪ B = B ∪ A.

Demonstração. Recorrendo à definição de reunião de dois conjuntos vemos que:

A ∪ B ={x ∈ U; x ∈ A ou x ∈ B} B ∪ A ={x ∈ U; x ∈ B ou x ∈ A}

A∪B é o conjunto dos objectos de U que, ou pertencem em A, ou pertencem a B. B ∪ A é o conjunto dos objectos de U que, ou pertencem em B, ou pertencem a A. Como a disjunção de proposições goza da propriedade comutativa (as proposições p ∨ q e q ∨ p têm o mesmo valor lógico), vemos que A ∪ B = B ∪ A. 

Consideremos agora três subconjuntos A, B e C. Podemos construir o conjunto (A ∪ B) ∪ C

que é constituído pelos objectos de U que pertencem a A ∪ B ou a C. Também podemos construir o conjunto

A ∪ (B ∪ C)

constituído pelos objectos de U que pertencem a A ou a B ∪ C. Que relação existirá entre estes dois conjuntos? A resposta é dada no teorema seguinte

Teorema 6. Sejam A B e C três conjuntos quaisquer; então tem-se

(A ∪ B) ∪ C = A ∪ (B ∪ C).

Demonstração. O conjunto (A ∪ B) ∪ C é constituído pelos objectos x de U tais que x ∈ (A ∪ B) ou x ∈ C,

o que se pode ainda escrever, por definição de A ∪ B,

(x ∈ A ∨ x ∈ B) ∨ x ∈ C.

Analogamente o conjunto A ∪ (B ∪ C) é constituído pelos objectos x de U tais que x ∈ A ou x ∈ (B ∪ C)

ou ainda, por definição de B ∪ C,

x ∈ A ∨ (x ∈ B ∨ x ∈ C).

Tendo em conta que a proposição (p ∨ q) ∨ r tem o mesmo valor lógico da proposição p∨(q∨r), vemos que, tal como queríamos mostrar, (A∪B)∪C = A ∪ (B ∪ C). 

Devido ao teorema anterior dizemos que a reunião de conjuntos goza da propriedade associativa. É esta propriedade que nos permite dar um sentido a uma expressão do tipo

A ∪ B ∪ C.

Esta expressão pode ser lida de duas maneiras distintas: como (A ∪ B) ∪ C ou como A ∪ (B ∪ C); não há problema porque os conjuntos (A ∪ B) ∪ C e A ∪ (B ∪ C) são o mesmo. Portanto A ∪ B ∪ C é o conjunto de todos os objectos de U que pertencem pelo menos a um dos conjuntos A, B, C. Identifiquemos agora o conjunto A∪∅. Trata-se do conjunto dos objectos de U que, ou pertencem a A, ou pertencem a ∅. Como não há qualquer objecto que pertença ao conjunto vazio, dizer que x pertence a A ∪ ∅ é equivalente a dizer que x pertence a A. Por outro lado, tendo em conta a comutatividade da reunião de conjuntos, já sabemos que A ∪ ∅ = ∅ ∪ A. Acabámos de demonstrar o seguinte teorema:

Teorema 7. Qualquer que seja o conjunto A tem-se

A ∪ ∅ = ∅ ∪ A = A

Devido ao teorema anterior é usual dizer que o conjunto vazio é o elemento neutro da operação de reunião de dois conjuntos. Deixamos a cargo do leitor a demonstração do resultado seguinte:

Teorema 8. Sejam A e B dois conjuntos quaisquer; então tem-se A ∪ B = B sse A ⊂ B

6 Intersecção

Seja A o conjunto de sócios dos Bombeiros Voluntários de Campo de Ou- rique e seja B o conjunto de sócios do Benfica. É natural que haja pessoas que são simultaneamente sócios dos Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique e do Benfica. Somos, por isso, levados a introduzir um novo con- junto, cujos elementos são aqueles objectos que pertencem ao conjunto A e ao conjunto B. Esse novo conjunto, a que se chama a intersecção de A e de B, é designado por A ∩ B. No nosso exemplo é constituído por todos aque- las pessoas que são simultaneamente sócios dos Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique e do Benfica.

Teorema 10. Sejam A e B dois conjuntos quaisquer. Então tem-se

A ∩ B = B ∩ A.

Demonstração. Recorrendo à definição de intersecção de dois conjuntos, vem

A ∩ B = {x ∈ U; x ∈ A e x ∈ B}, B ∩ A = {x ∈ U; x ∈ B e x ∈ A}.

A ∩ B é o conjunto dos objectos de U que pertencem a A e pertencem a B. B ∩ A é o conjunto dos objectos de U que pertencem a B e pertencem a A. Como a conjunção de proposições goza da propriedade comutativa (as proposições p∧q e q∧p têm o mesmo valor lógico), vemos que A∩B = B∩A, tal como queríamos provar. 

Consideremos agora três conjuntos A, B e C. Podemos construir o conjunto (A ∩ B) ∩ C

que é constituído pelos objectos de U que pertencem a A∩B e a C. Também podemos construir o conjunto

A ∩ (B ∩ C)

constituído pelos objectos de U que pertencem a A e a B ∩ C. Tem-se o seguinte resultado

Teorema 11. Sejam A, B e C três conjuntos quaisquer. Então tem-se

(A ∩ B) ∩ C = A ∩ (B ∩ C).

Demonstração. O conjunto (A ∩ B) ∩ C é constituído pelos objectos x de U tais que x ∈ (A ∩ B) e x ∈ C

o que se pode ainda escrever, por definição de A ∩ B,

(x ∈ A ∧ x ∈ B) ∧ x ∈ C.

Tendo em conta que a proposição (p ∧ q) ∧ r tem o mesmo valor lógico da proposição p ∧ (q ∧ r), vemos que (A ∩ B) ∩ C é constituído pelos objectos x de U tais que x ∈ A ∧ (x ∈ B ∧ x ∈ C)

ou ainda, por definição de B ∩ C,

x ∈ A e x ∈ (B ∩ C).

Mas estes objectos são precisamente aqueles que constituem o conjunto A ∩ (B ∩ C), pelo que (A ∩ B) ∩ C = A ∩ (B ∩ C). 

O teorema anterior mostra-nos que a reunião de conjuntos goza da propriedade associativa. É esta propriedade que nos permite dar um sentido a uma expressão do tipo

A ∩ B ∩ C.

Esta expressão pode ser lida de duas maneiras distintas: como (A ∩ B) ∩ C ou como A ∩ (B ∩ C); não há problema porque os conjuntos (A ∩ B) ∩ C e A∩(B∩C) são o mesmo. Portanto A∩B∩C é o conjunto de todos os objectos de U que pertencem simultaneamente a cada um dos três conjuntos A, B, C. Identifiquemos agora o conjunto A∩∅. Trata-se do conjunto dos objectos de U que pertencem simultaneamente a A e a ∅. Como não há qualquer objecto que pertença ao conjunto vazio, a condição “x pertence a A ∩ ∅” é impossível, pelo que A ∩ ∅ é o conjunto vazio. Como a intersecção de conjuntos é comutativa, podemos enunciar o seguinte teorema

Teorema 12. Seja A um conjunto qualquer. Então tem-se:

A ∩ ∅ = ∅ ∩ A = ∅.

Também é fácil provar que a intersecção de A e de B é igual a A sse o conjunto A estiver contido no conjunto B:

Teorema 13. Sejam A e B dois conjuntos quaisquer. Então tem-se:

A ⊂ B ⇔ A ∩ B = A.

Demonstração. Para provarmos esta proposição temos de provar a impli- cação nos dois sentidos. Comecemos por provar que

A ⊂ B ⇒ A ∩ B = A.

Se x pertencer a A, então x também pertence a B (porque A está contido em B) e, pertencendo a A e a B, pertence a A ∩ B (por definição de intersecção). Se x não pertencer a A, então (por definição de intersecção) não pode pertencer a A ∩ B.