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Rascunho de Relatório, Trabalhos de Psicologia

Rascunho de relatório final de pós-doutorado

Tipologia: Trabalhos

2020

Compartilhado em 26/12/2020

irapoan-nogueira-filho
irapoan-nogueira-filho 🇧🇷

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SENTIDOS DO TRABALHOS E CLÍNICA DA ATIVIDADE: NOTAS A PARTIR DA
EXPERIÊNCIA DE ENSINO DE DESENVOLVIMENTO DE SOFTWARE EM FAVELAS
CARIOCAS
Relatório final de pós doutoramento em Psicologia Social do Trabalho, no
Departamento de Psicologia Social do Trabalho, no Instituto de Psicologia da
USP.
Irapoan Nogueira Filho
Abril/2020
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SENTIDOS DO TRABALHOS E CLÍNICA DA ATIVIDADE: NOTAS A PARTIR DA

EXPERIÊNCIA DE ENSINO DE DESENVOLVIMENTO DE SOFTWARE EM FAVELAS

CARIOCAS

Relatório final de pós doutoramento em Psicologia Social do Trabalho, no Departamento de Psicologia Social do Trabalho, no Instituto de Psicologia da USP. Irapoan Nogueira Filho Abril/

SENTIDOS DO TRABALHOS E CLÍNICA DA ATIVIDADE: NOTAS A PARTIR DA

EXPERIÊNCIA DE ENSINO DE DESENVOLVIMENTO DE SOFTWARE EM FAVELAS

CARIOCAS

SENTIDOS DO TRABALHOS E CLÍNICA DA ATIVIDADE: NOTAS A PARTIR DA

EXPERIÊNCIA DE ENSINO DE DESENVOLVIMENTO DE SOFTWARE EM FAVELAS

CARIOCAS

As emoções positivas ou negativas experimentadas no trabalhar dependem do sentido que os trabalhadores conferem à pressão emocional que devem assumir ao desempenhar sua tarefa. Esta afirmação de Clot (2010) é o ponto de partida deste artigo, que constitui em uma investigação na temática de pesquisas conhecida como “Sentido do Trabalho”. A ferramenta teórica utilizada para esta tarefa foi a Clínica da Atividade. Intenta-se, neste movimento, articular a temática do Sentido do Trabalho à perspectiva da atividade, que vem sendo utilizada pelo autor em trabalhos anteriores (NOGUEIRA FILHO, 2012 , 2010, 2008). O campo aqui estudado é um projeto social que ensina Desenvolvimento de Software para moradores de favelas, no Rio de Janeiro. No intervalo de tempo pesquisado nesta investigação (fevereiro a dezembro de 2018), o projeto era inserido em duas localidades periféricas desta cidade: Morro dos Prazeres e Complexo do Alemão. O Morro dos Prazeres tem 2136 habitantes, e se localiza entre o centro da cidade e a zona sul. O Complexo do Alemão se localiza na zona norte, faz divisa com 6 diferentes bairros e tem mais de 70 mil moradores. Cabe mencionar que por “Complexo” se entende, no Rio de Janeiro, um fenômeno que ocorre quando mais de uma favela cresce a ponto de se unirem geograficamente. O complexo do Alemão consiste em um conjunto de 15 favelas. As informações colhidas sobre ambas as comunidades foram colhidas junto às respectivas associações de moradores, que recebem/recebiam o Vai Na Web em suas respectivas localidades. O projeto Vai Na Web é o campo onde foi exercida a análise. Percebendo favelas enquanto territórios potentes e cheios de vida, o Vai na Web tinha como objetivo democratizar o acesso à tecnologia, promover a diversidade de gênero, raça/etnia, cultura, além de formar profissionais de excelência. Para cumprir esse objetivo, propôs ensinar educação digital avançada, linguagens de programação sofisticadas e demandadas pelo mercado. Cabe apontar

necessidade instrumental, um meio para a sobrevivência humana - ou mesmo instrumento organizacional. Este campo surge em estudos acerca do tema qualidade de vida no trabalho. Os autores apontam também que originalmente a expressão sentido é utilizada como sinônimo de significado. Em estudo mais recente sobre as bases epistemológicas dos estudos nacionais em Sentido do Trabalho, (SCHWEITZER et al., 2016) salientam que, apesar do usual tratamento de sentido e significado como sinônimos, faz-se necessário precisar dois campos de fenômenos distintos, uma vez que significados são construídos e apropriados coletivamente em determinado contexto, enquanto os sentidos se referem a uma produção pessoal a partir da apreensão individual de tais significados e estes são conceitos interdependentes. Analisando os pressupostos epistemológicos de 25 artigos, os autores identificaram um aumento progressivo das pesquisas nesse campo, sobretudo dentre aquelas que utilizam a conceituação de “sentidos do trabalho”. Apontaram, ainda, que a maioria dos estudos em “sentidos do trabalho” é de abordagem qualitativa. Apontam os autores: Nos estudos de abordagem qualitativa, a estratégia de coleta de informações mais utilizada foi a entrevista semiestruturada. Em algumas delas, identificou-se a opção por entrevistas junto a observações e grupos focais. (p. 107) Dentre as ferramentas teóricas utilizadas para a compreensão deste fenômeno, está a Psicologia Sócio-Histórica. Que, por sua vez, é utilizada na Clínica da Atividade, conjunto teórico utilizado para análise neste artigo.

2. Sentido de trabalho e Clínica da Atividade A escolha teórica para esta análise partiu de duas percepções colhidas no campo de pesquisa, que compareceram diversas vezes ao longo do período de observação e diálogos. A primeira percepção foi a de que os instrumentos e práticas para lidar com as novas dificuldades de trabalho foram construídos pelo coletivo de ensino-aprendizagem presente no projeto. A segunda – diretamente relacionada com a primeira – é a de que o coletivo de ensino- aprendizagem teve um protagonismo dentro das mudanças ocorridas - protagonismo esse promovido ativamente pelos instrutores. Comparecem o sujeito, o outro e o instrumento de trabalho em seus imprevistos e em seus recursos, por meio de um trabalhar que mobiliza de diferentes maneiras zonas de desenvolvimento potencial. Parece interessante, portanto, a utilização de Clínica da Atividade como ferramenta balizadora de análise.

Em Asbahr e Souza (2014), bem como Asbahr (2011) utilizam o conceito de sentido articulado com o conceito de significado , na Psicologia Sócio-Histórica^1. O sentido predomina sobre o significado , é um todo complexo que apresenta diversas zonas de estabilidade desiguais. O significado é apenas umas das zonas do sentido, sendo a mais estável e precisa (VIGOTSKI, 2001). O significado, porém, permanece estável ao longo de todas as alterações do sentido. O significado, no campo semântico, corresponde às relações que a palavra pode encerrar, é uma generalização transmissível. O significado constitui o processo pelo qual o humano transforma a natureza e a si mesmo em sua atividade. Logo, toda atividade humana é significada (VIGOTSKI, 2001). Utilizações teóricas da Psicologia Sócio-histórica por meio da Clínica da Atividade já foram realizadas anteriormente. Em um estudo de caso utilizando essas ferramentas teóricas junto ao método bibliográfico de Le Guillant, Lima e Trindade (2018), abordou-se uma investigação acerca do ofício de catador de papel reciclável. Por meio desta a investigação, as autoras fazem uma constatação importante, a partir de Clot: o sentido do trabalho seria concebido no agir, implicando na manutenção e expansão do poder de agir. Mantendo o equilíbrio entre a relação entre os objetivos que lhes são impostos, os resultados a obter obrigatoriamente e o que é verdadeiramente importante para eles (CLOT, 2010, p.10). Mas, conforme aponta o próprio Clot (CITAR), dentro de uma psicologia social do trabalho faz-se necessário pensar a emergência do sentido do trabalho a partir dos meios sociais onde o sujeito está engajado. A manutenção, expansão e destruição do poder de agir se dá em um campo constituído por valores heterogêneos contraditórios. Mas estas contradições não seriam, inerentes apenas ao trabalhar, mas também inerentes aos diferentes meios que são habitados pelo sujeito (e habitantes nele). “Se o trabalho real não se dá conforme o trabalho prescrito, é porque a mulher ou o homem não são apenas reprodutores, mas atores engajados em vários mundos e em vários tempos vividos simultaneamente, mundo e tempos que eles procuram tornar compatíveis entre si, dos quais eles esperam superar as contradições(...)” (CLOT, 2007, p. 267) O trabalho se performa, então, em meio a um confronto de distintas intenções e valores. Nestes confrontos estes que emergem no viver e trabalhar entre os outros é que emerge o sentido da atividade. (^1) Todavia, as autoras seguem uma análise por meio do conceito de alienação, que não foi elencado como categoria de análise neste trabalho.

interrompidas. Devido ao aumento crescente da periculosidade devido aos conflitos, foi reduzida a participação presencial do pesquisador, atuando sobretudo por meio remoto. As atividades foram interrompidas diversas vezes em decorrência de conflitos armados. O número de inscritos decresceu, e o programa perdeu estudantes por conta do aumento da violência e problemas oriundos do aumento da violência. Entre os relatos com mais de 3 ocorrências foram desistências acompanhadas de relato de medo dos pais de “terem seus filhos na rua”, além de desistências acompanhadas de relato de emergência de transtornos mentais. A despeito de um contexto nada favorável, cabe elencar estratégias criadas pelos instrutores durante esse período de intervenção. Tais estratégias - que mobilizavam todo o coletivo de estudantes e instrutores - foram criadas para viabilizar a aprendizagem. A primeira delas é a de utilização dos canais de comunicação virtual em grupo para realizar um monitoramento coletivo dos tiroteios. Os participantes dos grupos de cada localidade forneciam ao grupo informações sobre o estado de “trafegabilidade” das ruas no entorno de sua moradia

  • isto é, informavam sobre existência (ou não) de conflito no momento, ou de ações diversas que pudessem trazer malefício para algum passante^2. O conjunto das informações serviria para determinar se haveria ou não a possibilidade de aula, e se deveriam mudar a rota para chegar ao centro de instrução física. As pessoas que por vezes não podiam ir as aulas presenciais atendiam às aulas de forma virtual, e solicitavam materiais sobre as aulas com os outros estudantes e com os instrutores. Os próprios estudantes colaboravam permanentemente entre si. É necessário apontar o investimento dos instrutores no sucesso do projeto, trabalhando quando necessário mais de 8 horas por dia, às vezes sábado e domingo. Essa sobrecarga era dita ser admirada por eles, e um discurso sobre “paixão pelo código, paixão pelo desenvolver software ” eram bastante presentes até o momento da entrevista. Apesar de todos os problemas enfrentados, obtiveram sucessos no decorrer deste mesmo período: houve inserção dos egressos no mercado (inclusive na empresa que patrocina o projeto), e foram criados estúdios de desenvolvimento de software nas duas comunidades atendidas. Estes mesmos estúdios, ao final de 2018, prestavam consultorias para a comunidade e para organizações brasileiras e internacionais. Em novembro de 2018, instrutores participantes (e moradores) do Complexo do Alemão criam, junto a alguns alunos mais avançados do programa (também moradores do Complexo do Alemão) a Agência CpTech, fornecedora de serviços em tecnologia. A empresa existe até o momento da confecção deste relatório. As demandas por intervenção cessaram ao final desse ano. (^2) Cabe destacar aqui que o “microondas” (a ação realizada por vezes de executar pessoas colocando-as dentro de uma série de pneus e ateando fogo aos pneus) exala uma fumaça que é tóxica.

Durante o início do ano de 2019 houve conflitos entre a empresa que subsidia o projeto e o núcleo do Complexo do Alemão. O projeto foi retirado do Complexo do Alemão de forma brusca, sendo os instrutores do Complexo do Alemão desligados do projeto. Os instrutores desligados fazem parte do corpo fundador da CpTech. O programa continua se propondo a atender à comunidade do Complexo do Alemão, mas nas instalações no Morro dos Prazeres. Tal mudança inviabilizou a possibilidade de alguns alunos continuarem no curso. Cabe mencionar ainda que o até então J., assistente social então diretor do Instituto Precisa Ser, pediu demissão de seu cargo por discordar das práticas e interferências exercidas pela empresa patrocinadora do projeto. Ele foi substituído no seu cargo por uma das sócias da empresa. Em setembro de 2019, duas semanas depois das entrevistas, a então coordenadora do curso, D., é retirada do cargo pela nova gestão do Instituto Precisa Ser. Esta última informação só veio a ser comunicada ao pesquisador 5 meses depois. Cabe apontar, ainda, que D. trabalhava remotamente no Nordeste, como desenvolvedora de software e coordenadora do programa. Ela havia se mudado para o Rio de Janeiro somente para ficar em contato mais próximos com os estudantes do Vai Na Web. Devido a essa problemática de desligamento abrupto da estação de trabalho do Complexo do Alemão – que implicou na dificuldade de entrevistar um corpo de instrutores que não faziam mais parte do projeto. Além disso, eu tive de conseguir uma nova entrada dentro desta parte da população a ser entrevistada. Minha entrada no campo tinha sido apresentada pela antiga direção do Instituto Precisa Ser, junto à direção da empresa patrocinadora do projeto. Estas questões, somadas àquelas oriundas dos índices de conflito urbano citadas acima- incidiram em um atraso na execução das entrevistas. A pesquisa foi avaliada e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo. A coleta de dados ocorreu por meio de entrevistas, sendo utilizado o roteiro de entrevista semiestruturada. Os instrumentos de entrevistas foram: um gravador de registros de áudio, termos de consentimento livre e esclarecido e salas com isolamento (salas de reunião, em associação de moradores de cada uma das localidades). O protocolo de entrevista consistia em: a) isolamento da sala; b) apresentação da pesquisa e seus objetivos; c) leitura em voz alta e explicação do termo de consentimento; d) assinatura do termo de compromisso; e) realização da entrevista. As entrevistas foram realizadas em setembro de 2019, nas comunidades do Morro dos Prazeres e do Complexo do Alemão. Cabe mencionar que a entrevista no Complexo do Alemão foi adiada por um dia, em virtude de intenso conflito no local. Os instrutores do Complexo do Alemão solicitaram prestar

3.1. Ensinar como ato de revolução/transgressão A primeira formação de sentido que comparece nas entrevistas é a de ensinar como ato de revolução, de transgressão. Pelo fato de as duas expressões estarem relacionadas a um questionamento da “ordem” social das coisas, elas foram reunidas em uma mesma categoria. As falas relativas à essa categoria aparecem junto a uma descrição da intervenção federal como injusta com os moradores. O tratamento dado pelo Estado e sociedade à favela e seus moradores é descrito como nocivo à vida e amputador do poder de agir dos moradores de favela - e interferindo diretamente nas atividades do programa. Há uma apresentação de discordância em relação aos valores demonstrado pelo Estado e pela sociedade em suas respectivas práticas cotidianas. Esta insatisfação, somado a um discurso que então presente no Vai Na Web sobre a favela enquanto potência, mobiliza um sentido de revolução transgressora. A insatisfação é mobilizadora do agir - com o sentido de transgredir ou revolucionar. Conforme vemos nesses exemplos: “Participar do Vai Na Web é um grande desafio, sobretudo humano, porque quando a gente parte do pressuposto que vai ensinar programação, a gente parte do pressuposto que programar é o mais difícil, e quando a gente começa a gente descobre que programar é o mais fácil... difícil é fazer isso no cenário que a gente faz. Você fazer isso debaixo, no meio de uma guerra civil, a gente está sim no meio de conflito armado todos os dias, embora não tenhamos confronto todos os dias, toda semana temos conflito em todos os pólos. (...)isso afeta as faculdades mentais das pessoas em todos os sentidos. Então a coisa mais difícil do Vai na Web tem sido essa parte mais de humanidade. Todo dia, um leão por dia.” (coordenadora D.) “O sentido do meu trabalho aqui é ... eu não consigo chegar numa palavra... eu não queria usar a palavra ‘transgressor’, mas é. Rebeldia mesmo. É a gente dizer não contra tudo que está exposto lá fora. A gente tem no governo do rio de janeiro um governador que manda helicóptero pra matar gente na favela, e fala abertamente que vai mandar mais bala. A gente tem um presidente que diz a mesma coisa (...). Por outro lado, a gente que está aqui na favela sabe que aqui na favela não tem só bandido, nem o bandido deveria receber tanta bala assim não. É uma rebeldia muito grande contra esse sistema que não acredita num jovem, num favelado, num preto. A gente enxerga potência nesse jovem.” (coordenadora D.) “O sentido que dou é resistência sabe, é resistência de não desistir, de continuar de batalhar e não fazer só, não pelo só, não só pelo programa, mas também pela comunidade sabe, é gerar uma coisa positiva dentro da comunidade” (instrutor 2, morador do Morro dos Prazeres) “a cada dia eu pensava que se eu batalhasse e lutasse eu conseguiria não só para mim como para outras pessoas da minha comunidade como para outras pessoas de outro lugar uma evolução maior para elas e para mim também, então conquistar isso foi meio que que vi que se eu fazer isso, as pessoas poderiam se espelhar um pouco em mim e querer não ser igual, mas querer ta la também conquistando as coisas” (instrutor 4, morador do Complexo do Alemão) “inspirava as pessoas de não desistir, de achar que aquilo era possível, que eles poderiam aprender, que eles poderiam estar em sala de aula, eles poderiam estar transmitindo conhecimento deles, assim como eu tinha muitas dificuldades,

principalmente de comunicação, mas eles viram que era possível aquilo” (instrutor 5, morador do Complexo do Alemão) Nota-se que a emergência deste sentido do trabalho enquanto ato revolucionário/transgressor mobiliza novas funções cognitivas na atividade de trabalho. Antes a atividade era ensinar desenvolvimento de software para carreira e realização profissional dos jovens. Cria-se um objetivo adicional, cotidiano e primário na atividade: verificar quais são os obstáculos hodiernos para a existência do aprendizado, e mobilizar instrutores e estudantes para coletivamente criar saídas, linhas de fuga, para que seja possível o aprendizado. Esse novo objetivo mobiliza outras funções cognitivas. E, nesse sentido, a ferramenta de aplicativo de grupos de conversa por smartphone adquiriram novas funções:

  • Monitorar a segurança das vias de deslocamento até o local de aprendizado, bem como traçar rotas alternativas;
  • Verificar a existência de estudantes que excepcionalmente não consigam ter acesso à aula, e criar meios para eles terem acesso ao conteúdo;
  • Compartilhar e debater permanente dúvidas e descobertas. Este trabalhar enquanto revolução/transgressão tornava possível ter uma relação outra com a favela e com as dificuldades novas. O discurso de promoção de melhores condições de vida para a favela por meio da tecnologia tornou-se, em 2018, característico no Vai Na Web. O desprazer do imprevisto vira o prazer do lidar com o desafio, possibilitando ao invés de um sofrimento individual, um desafio coletivo. Tal fenômeno já havia sido observado em pesquisas anteriores: o coletivo de trabalho, em condições de possibilidade do exercício do diálogo sobre o próprio trabalho, promove a manutenção de seu poder de agir frente aos imprevistos e contradições inerentes à vida, laboral ou não (NOGUEIRA FILHO, 201 2 ). Faz-se necessário, portanto, observar o segundo sentido apresentado nas entrevistas e observações. 3.2. Trabalhar enquanto cuidar do coletivo Em conversas desde o início da intervenção, no segundo semestre de 2017, a coordenadora D. apontava que se identificava como periférica, por sua origem sertaneja. O então diretor do Instituto, o assistente social J., cresceu em um bairro de periferia de São Luís do Maranhão. O tom amistoso e horizontal que a coordenadora e o então presidente do Instituto Precisa Ser dirigiam aos alunos era algo natural para ambos. Nesses diálogos, por vezes surgiam experiências de vida de ambos, o que suscitava perguntas dos alunos:

4. Considerações finais: “Na favela as coisas mudam muito rápido” Esta foi uma fala do instrutor 4, morador do complexo do Alemão. As duas produções de sentido de trabalho possibilitaram e emergência de outras funções cognitivas. O que possibilitou a resolução de problemas que atingiam o projeto. Acarretando, desta maneira, uma manutenção e uma expansão do poder de agir, redundando em novas conquistas. Houve avanço de vida, produzindo saúde e trabalho. Após a intensificação da problemática entre a empresa e a equipe do Complexo do Alemão, alguns outros problemas aconteceram, conforme apontado anteriormente. Na nova execução do projeto, retiraram a disciplina ativa de Introdução à História da Favela, e substituíram por aulas de empreendedorismo. Aquele sentido de trabalho coletivo e revolucionário já não comparece mais. Disse um dos instrutores: “Não é mais o Vai Na Web, agora é uma outra coisa”. Este fenômeno analisado permite reconhecer que o sentido do trabalho não é uma produção etérea, e sim mobilizador e transformador dos agires, podendo servir como propulsor do poder de agir do coletivo de trabalhadores – e, ao mesmo tempo sua ausência pode ser deletéria física, mentalmente e em produtividade. Bem como permite perceber que o sentido do trabalho é travado em lutas políticas e debates entre distintas instâncias. 5. Bibliografia ASBAHR, F. da S. F. Por que aprender isso, professora? Sentido pessoal e atividade de estudo na psicologia histórico-cultural. 2011. 219 f. Tese (Doutorado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano) - Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo,

  1. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde- 24032011 - 094830/>. Acesso em: 10 fev. 2012 CLOT, Yves. De Vygotski à Léontiev via Bakhtine. In CLOT, Y. (org.) Avec Vygotski. Paris: Galimard, 1999a. ______. Trabalho e Poder de Agir. Belo Horizonte : Fabrefactum, 2010. FRANÇOIS, F. Mot et dialogue chez Vygotski et Bakhtine. In: In CLOT, Y. (org.) Avec Vygotski. Paris: Galimard, 1999. IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e estatística. PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua , 2017. [online] Disponível na internet via WWW URL: https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/pesquisas/calendario_2017.php. Arquivo consultado em 10 de outubro de 2017.

LIMA, M.; TRINDADE, I. O sentido do trabalho no contexto da atividade do catador da material reciclável. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho , v. 21, n. 1, p. 33-43, 12 set.

NOGUEIRA FILHO, I. Inventividade, trabalho e transtornos mentais graves: sobre interferências recíprocas entre cognição e atividade. Tese (Doutorado em Psicologia Social) — Instituto de Psicologia. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2012. SCHWEITZER, Lucas et al. Bases epistemológicas sobre sentido(s) e significado(s) do trabalho em estudos nacionais. Rev. Psicol., Organ. Trab. , Brasília , v. 16, n. 1, p. 103- 116,mar. 2016. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984- 66572016000100009&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 10 nov. 2019. TOLFO, S. R.; PEREIRA, V.. Sentidos e significados do trabalho: explorando conceitos, variáveis e estudos empíricos brasileiros. Psicologia Argumento, Porto Alegre , v. 19, n. spe, p. 38 - 46, 2007. Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102- 71822007000400007&lng=en&nrm=iso>. access on 05 Dec. 2018. http://dx.doi.org/10.1590/S0102- 71822007000400007.

Entrevistador: E como você faz para passar essa imagem porque eu percebo que é da coisa que é recorrente, os jovens falam isso. Entrevistado: Eu, no começo não fazia isso conscientemente, eu simplesmente fazia o que precisava fazer, então eu chegava e dava minha aula de programação pura e simplesmente só que o tempo vai passando e não tem como não se envolver, quando você começa a se envolver começa a abrir as histórias e eu comecei a falar sobre minha vida pessoal também né, que o pessoal é curioso, então começaram ah, quando é que você começou a programar? É muito recorrente isso, como é que era programar? Como é que era programar onde você morava? Você aprendeu com quem? Porque você queria? Então eles começam com perguntas que no fundo são alfinetadazinhas, diz ah! Eu quero isso também, eu me vejo em você. Entrevistador: Em 2017 para 2018 você percebeu alguma mudança? Entrevistado: Muita! De 2017 para 2018 foi uma mudança muito grande, e principalmente no momento da violência que teve, Então se antes a gente conseguia dar aula a semana inteira de 2017 para 2018 a gente não conseguiu fazer isso, a gente passou a ter muito mais interrupções de aula mesmo, de ter que cancelar aula direto, e o aproveitamento também caiu porque as pessoas já entravam na sala muito nervosas, e a gente também teve muita desistência principalmente por causa da saúde mental, então a gente teve vários casos de pessoas que desenvolveram transtornos de síndrome do pânico por exemplo porque na casa estava tendo tiroteio e quem é que fica bem com isso, então muita gente desistiu ano passado, principalmente aqui nos prazeres, por isso, então foi uma coisa que mexeu muito com a gente e em outro polo a gente simplesmente não conseguiu trabalhar mais lá, porque quando a gente começou tinha um pouco de barricadas por exemplo. Hoje quando você entra lá na rua do polo, voce consegue contar, pelo ao menos 6 barricadas, é uma coisa absurda, então a violência cresceu num nível lá que ninguém consegue mais entrar com tranquilidade, voce entra e não sabe se vai sair sem tiroteio. Então essa foi a mudança que aconteceu de 2017 para 2018. Entrevistador: E como foi ensinar na vai na web durante 2018? Entrevistado: É eu acho que em 2018 foi o pior dos anos, apesar de não ter sido o primeiro, o primeiro teve seus desafios porque a gente estava fazendo coisas novas, a gente estava aprendendo, todos os desafios de quem estava começando, em 2018 foi muito complicado nesse sentido, porque a gente se via o tempo inteiro cancelando aula, o tempo inteiro com aluno desistindo, o tempo inteiro toda vez que a gente ia, parecia uma coisa uau, nunca era uma aula simplesmente, é sempre uma vitória, é isso.

Entrevistador: Quantos alunos com questão de saúde mental você viu, você se lembra disso? Entrevistado: Eu tenho que chegar e fazer uma lista para ter noção de um número, mas só aqui nos prazeres, eu consigo citar uns 4 pelo ao menos, só pensando rápido aqui, me vem ao rosto na cabeça numa turma de 15. Entrevistador: E pra você houve alguma mudança no seu dia a dia no vai na web em 2018, no seu dia a dia? Entrevistado: No meu dia a dia? Sim, teve essa coisa do corte da aula o tempo inteiro, começa a dar aula e do nada para, ou acho que vou ter aula amanhã e não tem, tenho que mudar meu calendário, eu tenho que mudar as expectativas, é a gente teve que fazer projeto por exemplo, a gente começou a fazer o aplicativo e a gente entregou com quase 3 meses de atraso porque, tem mesmo o Alemão que a gente teve de 30 dias, a gente teve no máximo 5, então meu dia a dia foi bem impactado nesse sentido, foi bem estressante para todo mundo. Entrevistador: E como você pensa seu futuro junto ao desenvolvimento de software? Entrevistado: Eu acho que vou continuar me desenvolvendo quanto pessoa desenvolvedora e eu devo começar a estudar mais sobre ciência de dados que é um campo que eu tenho interesse e pra um futuro é isso que eu quero fazer, eu quero começar a entender esse hipe todo de inteligência artificial e quebrar a coisa do hipe entendeu, eu não acho que o meu problema seja que eu tenha que ensinar as maquinas a pensar, eu quero so entender toda essa teoria que traz para usar com o que realmente importa. Entrevistador: Qual seu sentido do seu trabalho aqui? Entrevistado: o sentido do meu trabalho aqui é.. Eu não consigo chegar numa palavra, mas é, eu não queria usar a palavra transgressor, mas é. É a rebeldia mesmo, é a gente dizer não contra tudo que está posto lá fora e a gente tem, posso falar isso? A gente tem no governo do Rio de Janeiro um Governador que manda um helicóptero para matar gente na favela, falando que abertamente que vai mandar mais bala o tempo inteiro, a gente tem Presidente que afirma a mesma coisa que tem que mandar bala pra favela, por outro lado, a gente ta aqui na favela, a gente sabe que na favela não tem só bandido que a gente acha que nem Bandido deveria receber tanta bala assim não, muito menos as pessoas comuns que estão tentando viver a sua vida, então é uma rebeldia muito grande contra todo esse sistema que não acredita no jovem, no pobre, no favelado, no preto e que enxerga potência nesse jovem que vê muita gente boa se desafiando todos os dias apesar de todas as adversidades estão se desenvolvendo quanto profissionais e

igual ele, essa sensação que eu tenho sabe, a mesma sensação que eu tenho com a D, caraca, eu quero ser igual a D sabe, vou seguir o caminho da D. Entrevistador: De 2017 para 2018 você percebeu alguma mudança? Entrevistado: Houveram, houveram muitas mudanças a gente não tinha, a gente era mais um programa de impacto social não visava muito essa parte de, vou falar um pouco burocrático assim do programa não visava tanto essa parte do dinheiro de vender o programa com outras empresas e houve essa mudança acaba sendo... Entrevistador: De 2017 para 2018 e não para 2019. Entrevistado: Ah é verdade, a gente está em 2019, viajei no tempo, deixa eu ver, não teve mudanças, ah, teve algumas mudanças na verdade que tinha pessoas que saiu, pessoas que voltaram enfim, houveram algumas mudanças não foram mudanças muito significativas a D ficou mais presente, o programa reformulou então entrou conteúdo novo, teve mudanças. Entrevistador: E como foi ensinar no vai na web durante 2018? Entrevistado: ah, foi um pouco desafiador porque foi um ano de um pouco de conflito a mais no território, a gente não tinha tanto conflito assim, a gente ficou um período vamos dizer assim de paz rolava conflito sim, rolava conflito do poder paralelo com o Estado, mas não como dessa proporção como foi em 2018, umas coisas bizarras que aconteceram como a gente ficar preso no tiroteio, vou contar até uma história, a gente tava no vai na web rolando aula e daí aconteceu um episódio que a polícia ela foi rendida pelo poder paralelo ai o poder paralelo tomou a munição, o armamento dos policiais fizeram a negociação de cavaleiros entre eles e a gente aqui preso no vai na web porque foi bem na porta aqui, então a gente não podia sair , então como eu era a liderança ali e eu primeiramente tenho que assegurar a vida dos estudantes que estavam na sala, eu sai, eu sai para dialogar , opa, to cheio de estudantes aqui, to cheio de alunos aqui e ai foi bem estressante, e ai o rapaz falou, não fica tranquilo, segura eles ai, não deixa ninguém sair e tal e eu ficava la e cá acalmando a galera aqui e corria para la para saber se eles podiam sair ate que uma hora o menino falou, pode sair, mas sobre por aqui e tal mas assim, foi um pouco estressante que a gente nunca viveu, nunca presenciou sabe, assim, não foi em 2018, mas esse ano também uma coisa bizarra, foi um tiroteio aqui na porta, a gente nunca teve isso, bizarro, ai as crianças a gente já abrigou com as crianças la dentro botamos vídeo no youtube para as crianças verem o desenhos e o tiroteio comendo, a gente saia para ver se acalmou como é que tava daqui a pouco passava alguém baleado descendo, policial descendo

baleado e a gente aqui bizarro, mas apesar disso ai a gente vai lutando para dar o nosso melhor e para que essa coisa negativa da favela mude e o Estado não venha só com bala apesar desse governador, meu deus do céu, enfim. Entrevistador: Pra você, houve alguma mudança no seu dia a dia no vai na web em 2018? Entrevistado: Ah, houve, houve porque eu passei a acordar um pouco mais cedo para saber como ta o território para poder assegurar se a gente podia se ia ter aula ou não, a gente teve o programa com muitas falta de aula. Entrevistador: Você mora no território né? Entrevistado: Moro no território – Entrevistador – Só para constar na entrevista. Entrevistado: Moro no território e acordava um pouco mais cedo e olhava no grupo do território para saber como tava comunicando com a coordenação com os estudantes que moravam em diversas áreas do território também, tá tranquilo? Tá tranquilo, ah vai ter aula a gente deixou de ter muita aula por conta disso, de hoje não vai dar para ter aula, não vai abrir por conta do tiroteio está tendo tiroteio, assim, Prazeres sempre foi uma comunidade muito tranquila em relação as outras comunidades do Rio, tem tiroteio, tem isso tudo, mas não como a frequência que foi em 2017 para 2018 principalmente 2018 foi uma frequência muito grande sabe de tiroteio e de merda do Estado, não sei se posso falar isso, desculpa, e de merda do Estado, a gente tem um jovem inocente preso que é o Wiliam Prisciliano eu posso falar isso, eu dou minha cara a tapa porque eu vi, eu não sou tão velho assim, mas eu vi ele crescer, eu vi o desenvolvimento dele um rapaz tranquilo que nunca se envolveu com tráfico, nunca se envolveu com nada, jogava futebol dele e acabava futebol dele, ele nunca parou em esquina ou em beco para ficar conversando, era sempre futebol casa, e ai é bizarro porque polícia que a gente tinha um diálogo muito bom ainda com a polícia com a UPP de ir em reunião e tudo mais é bizarro porque a polícia sabe quem foi, quem rendeu, foi no episódio do deles terem sido rendido e tal, ele foi acusado de cárcere privado e uma porrada de coisas e acusou o Willian um jovem que ele é ator, ele tava atuando num filme e pegaram umas fotos dele armado ao lado do Zé Loreto e outros atores que participaram do filme e falaram que foi ele sem prova nenhuma e ai você vai no julgamento, você lê o julgamento ne a acusação. Ah o corte de cabelo, é bem bizarro isso, desculpa ter fugido. Entrevistador: Você já pensou seu futuro junto ao desenvolvimento de software?