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Guias e Dicas
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O Diário do Agente Comunitário de Saúde, Esquemas de Saúde Pública

Um relato de experiência sobre o uso do diário de campo do agente comunitário de saúde (acs) em uma equipe de saúde da família. O diário se mostrou um importante instrumento de comunicação entre o enfermeiro e o acs, permitindo o acompanhamento das visitas domiciliares realizadas pelo acs sem a presença do enfermeiro. O documento destaca a importância do acs como elemento estratégico no processo de mudança do modelo assistencial, com sua capacidade de se vincular de forma contínua e efetiva à população de seu território. O diário também permitiu o contato direto do acs com o enfermeiro, informando situações positivas, particulares ou coletivas, e negativas, que talvez não fossem reveladas em reuniões de equipe. O documento aborda ainda a carga emocional do trabalho do acs, as questões de violência doméstica e os conflitos entre usuários e acs, ressaltando a necessidade de apoiar o acs no enfrentamento dos problemas de sua comunidade.

Tipologia: Esquemas

2024

Compartilhado em 05/05/2024

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM ATENÇÃO BÁSICA EM SAÚDE DA FAMÍLIA
MARIA HELENA ORLANDI CAMPOS
DIÁRIO DE CAMPO DO AGENTE COMUNITÁRIO DE SAÚDE:
RELATO DE EXPERIÊNCIA
CORINTO/MINAS GERAIS
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM ATENÇÃO BÁSICA EM SAÚDE DA FAMÍLIA

MARIA HELENA ORLANDI CAMPOS

DIÁRIO DE CAMPO DO AGENTE COMUNITÁRIO DE SAÚDE:

RELATO DE EXPERIÊNCIA

CORINTO/MINAS GERAIS

MARIA HELENA ORLANDI CAMPOS

DIÁRIO DE CAMPO DO AGENTE COMUNITÁRIO DE SAÚDE:

RELATO DE EXPERIÊNCIA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de

Especialização em Atenção Básica em Saúde da Família,

Universidade Federal de Minas Gerais, para obtenção do

Certificado de Especialista.

Orientadora: Professora Kênia Lara Silva

CORINTO/MINAS GERAIS

DEDICATÓRIA

Aos Agentes Comunitários de Saúde do município de Serro/MG, em especial às

“minhas meninas” Aparecida, Cláudia, Edilene, Lucinéia, Marli e Vanessa, profissionais com

os quais tenho a honra de conviver e aprender cada dia mais sobre como assistir com

qualidade uma população.

AGRADECIMENTOS

Agradeço à Prefeitura Municipal de Serro/MG, pela oportunidade.

À UFMG, NESCON e equipe do CEABSF, pelo crescimento proporcionado.

À Silmeiry, tutora sempre presente em todos os momentos.

À Professora Kênia, pelo apoio e por não desistir dessa pesquisa.

À Equipe de Saúde da Família Caminhos do Ivituruy e todos os seus membros, antigos e atuais.

À minha mãe “Nitinha”, pelo amor incondicional..

À minha irmã Márcia, pelos incentivos incansáveis.

À “Tia Cláudia”, pela preocupação e carinho.

RESUMO

Trata-se de um relato de experiência sobre o uso do Diário de Campo do Agente Comunitário de Saúde (ACS), em uma equipe de saúde da família do município de Serro/MG. O uso do Diário foi instituído em meados de 2005 como forma de registro das atividades realizadas pelos ACS durante suas visitas domiciliares. Foram registradas todas as visitas realizadas, bem como as atividades e orientações prestadas, também observações particulares do profissional. Ao longo do tempo foi observada uma nova função para o Diário: ser uma via de comunicação entre o enfermeiro e o ACS. Foram revisados 25 Diários de seis ACSs, dos anos de 2009 e 2010 e retirados os relatos que melhor demonstrassem essa nova característica do instrumento. Observou-se que o uso permite o conhecimento das práticas e opiniões dos ACSs, bem como evidenciou particularidades da comunidade e dos usuários que possivelmente passariam distante do enfoque da equipe. Sugere-se uma análise mais aprofundada dos relatos para maior compreensão dos significados das crenças, símbolos e práticas populares evidenciados, visando um entendimento maior da comunidade assistida. Palavras chave: Saúde da Família, Visita Domiciliar, Folclore.

ABSTRACT

This is an experience report on using Field Diary of Community Health Agents (CHA) in a family health team in the city of Serro/MG. The use of the Diary was established in mid- as a way of recording activities conducted by CHA during their visits. Were recorded all visits and activities and provided guidance, also particular observations of the professional. Over time we found a new role for the Diary: to be a way of communication between the nurse and the CHA. Were reviewed 25 Diaries of six CHAs, from the years 2009 and 2010, and removed the reports that best demonstrate this new feature of the instrument. It was observed that the use allows the knowledge of practices and opinions of the CHA, and showed particularities of the community and users that would possibly focus away from the team. It is suggested that further analysis of the reports for greater understanding of the meanings of beliefs, symbols and practices popular evidenced, seeking a greater understanding of the community assisted. Key-words: Family Health, Home Visit, Folklore.

1. INTRODUÇÃO

A Estratégia de Saúde da Família (ESF) Caminhos do Ivituruy iniciou suas atividades em Julho de 2007, no município de Serro/MG, após a divisão do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) Vila do Príncipe em duas novas equipes. Anteriormente, o PACS Vila do Príncipe contava com 14 Agentes Comunitários de Saúde (ACS), 01 auxiliar de enfermagem e 01 enfermeira e uma população de cerca de 8.500 pessoas, tendo como área de abrangência toda a zona urbana do município. Essa formação começou seu trabalho em fevereiro de 2005. Na época a equipe não possuía sede própria, transporte nem atendimento médico contínuo definido. O trabalho era essencialmente a prevenção, já que a parte curativa deixava muito a desejar devido ao excesso de área e população. Com uma equipe tão grande e uma população tão ampla, ficava difícil recordar todas as situações importantes que os ACSs apresentavam durante as reuniões quinzenais e, principalmente, fora delas. Também existia um forte boato de que alguns ACSs não realizavam suas visitas nem desempenhavam corretamente seu trabalho, ficando também difícil essa fiscalização por parte da enfermeira da equipe, já que o ACS trabalha diretamente nas ruas, prejudicando uso de cadernos ou relógios de ponto. Nesse contexto, surgiu a idéia de utilizar um relatório de visitas domiciliares, ou um Diário de Campo do ACS. Nele seriam registradas todas as visitas domiciliares realizadas e todo o trabalho que o ACS realizasse nessa atividade. A assinatura da população constaria na folha de produção já utilizada pelo Sistema de Informação em Atenção Básica (SIAB) que estaria anexo ao diário, e seria conferida juntamente à descrição da visita. Esse diário seria lido pela enfermeira da equipe mensalmente, esta faria sugestões, orientações e correções diretamente no diário, bem como tomaria providências às situações mais graves apresentadas, posteriormente discutidas mais restritamente na equipe. Esse diário também acabaria sendo, de certa forma, uma comprovação das visitas e, principalmente, da atividade realizada pelo ACS, podendo ser consultado pelos gestores caso houvesse alguma dúvida ou denúncia em algum caso determinado. Assim começou nosso Diário de Campo. Eram 14 cadernos corrigidos mensalmente pela enfermeira, que chegava a levá-los para casa quando o tempo era insuficiente. Alguns ACSs tinham maior interesse caprichando mais nos relatórios e no cuidado ao diário, outros nem tanto. Em julho de 2007, a equipe PACS Vila do Príncipe foi divida, gerando duas novas equipes, entre elas a ESF Caminhos do Ivituruy, na qual a autora deste trabalho está

inserida. Entre os 14 ACSs, 06 foram para esta nova equipe. Apenas duas ACSs foram substituídas desde 2005; uma delas chegou a sair para tentar ser professora (seu sonho até hoje), mas pegou apenas substituição em zona rural, voltando a ser ACS após esse período, mas de uma nova microárea; e outra substituiu a irmã que era ACS, que saiu por desejo próprio. Ou seja, a equipe é antiga, bem como o uso do Diário de Campo. A outra equipe originária da divisão não continuou o uso do diário. Ao longo de anos de leitura e correção, observou-se que o diário passou a ter um significado muito maior que o de origem. Antes como uma forma de fiscalização e registro de determinadas situações, passou a ser um canal de comunicação entre os ACSs e enfermeira, bem como um instrumento de desabafo por parte dos daquelas. Nele, além das atividades rotineiras, são registradas dúvidas, opiniões, conquistas da própria comunidade, desabafos, progressos com a população através do trabalho do ACS e da equipe, críticas da população, entre outros. Por ser um instrumento extremamente interessante e rico em vivências, foi que optou-se por pesquisá-lo e divulgá-lo como uma experiência merecedora de atenção. Desde o início das atividades da Equipe em sua atual formação pôde-se observar a imensa necessidade de comunicação e mesmo de desabafo por parte das Agentes Comunitárias de Saúde (ACSs) com relação aos problemas encontrados e vivenciados pelas famílias. O ACS, por trabalhar na mesma área em que reside, vive o cotidiano da comunidade com uma intensidade significativamente maior que a dos outros membros da Equipe. São eles, na maioria das vezes, os primeiros a saberem dos problemas de saúde dos usuários, antes mesmo do restante da Equipe e inclusive de familiares, passando a ser portadores de segredos de toda uma comunidade (1). Essa característica única do ACS torna as fronteiras entre ele e a comunidade mais permeáveis, facilitando na medida em que cria posições e papéis muito particulares, trazendo expectativas e julgamentos específicos (2). A função do ACS pode aparentar simplicidade e baixa complexidade, mas na realidade apresenta-se justamente o contrário. O ato de adentrar no domicílio das famílias, conquistar sua confiança e a partir daí passar a dividir com ela todos os seus problemas de saúde, sociais, emocionais e até financeiros demonstra a grandiosidade dessa função (3). Lembrando que os problemas são divididos, quer o ACS tenha governabilidade para enfrentá-los ou minimizá-los junto à ESF e à família, ou não. A visita domiciliar, instrumento ideal de educação em saúde e primordial atividade do ACS, acontece dentro da realidade do usuário, tornando as orientações e troca de informações individualizada à necessidade de cada contexto familiar, fortalecendo o elo entre equipe e comunidade (3,4).

2. DESENVOLVIMENTO

A Estratégia de Saúde da Família, ao promover de modo lento e gradual a mudança do modelo assistencial predominante no país, trouxe consigo novas formas de trabalhar a saúde. Onde antes predominava o conhecimento biomédico e as ações curativas, hoje existe a promoção à saúde e prevenção às doenças, pautada na vigilância em saúde, na intersetorialidade; provendo a saúde próximo à família, incorporando em seu local de intervenção não só pessoas e postos de atendimento à saúde, mas também domicílios e espaços comunitários diversos, contribuindo para melhoria da qualidade de vida dos cidadãos (2, 5). Trouxe também novos personagens, entre eles o Agente Comunitário de Saúde (ACS). É o profissional que tem maior conhecimento da área de atuação, ressaltando aí a dinâmica da comunidade, os valores da população e suas formas de organização, já que mora onde trabalha, facilitando o entendimento daquela comunidade pelos outros profissionais de saúde da equipe (6). É ele também que traduz o discurso dos profissionais de saúde para a população, promovendo a ligação e o diálogo entre os mesmos, proporcionando a troca de saberes e práticas, que anteriormente ao surgimento deste profissional não ocorriam com efetividade (5). Nesse sentido, o ACS se transforma em um personagem facilitador da promoção à saúde, já que traz o retorno da população sobre as ações de saúde promovidas por ele e pela equipe, funcionando como um termômetro desta equipe na comunidade, realizando um “monitoramento” das ações desenvolvidas (5). Essa característica faz com que o mesmo possua uma posição privilegiada em relação aos outros profissionais, podendo ser facilitador da comunicação ou até empecilho para a mesma (2). O uso do Diário de Campo trouxe, mesmo de maneira informal, a possibilidade do acompanhamento das visitas domiciliares realizadas pelo ACS sem a presença do enfermeiro. Como o trabalho do ACS é desenvolvido, sobretudo fora da Unidade de Saúde, ficava difícil para o profissional enfermeiro supervisionar o que acontecia durante essas visitas e principalmente de entender as situações encontradas em cada domicílio. Muitas dessas situações nem chegariam ao conhecimento da equipe se não fosse o ACS (6). O relato sendo realizado por escrito acabou encorajando o ACS a descrever de forma mais real e rica o que vivenciava. A leitura deste depoimento se dava longe do ACS, pelo profissional enfermeiro, o que evitou situações de possíveis constrangimentos na descrição dos casos. O retorno era feito também por escrito, pelo enfermeiro, no final do

próprio relato ou do conjunto de relatos, sendo feitos também incentivos com relação aos pontos positivos e observações sobre os pontos negativos tanto dos depoimentos quanto das atividades informadas. Houve estímulo também no que se refere à expressão das opiniões pessoais, anseios e preocupações, tornando o Diário uma forma de desabafo. Os relatos eram entregues ao final de cada mês, juntamente à produção mensal, desde o ano de 2005. Conforme o tempo foi passando, os relatos se tornaram cada vez mais ricos, mais interessantes, mais emocionantes, a ponto de se tornarem objeto deste estudo. Foram selecionados os Diários de Campo dos anos de 2009 e 2010 das seis ACSs membros da ESF Caminhos do Ivituruy, num total de 25 cadernos, e realizada nova leitura dos relatos. Para efeitos didáticos, foram selecionados aqueles que demonstrassem maior riqueza de detalhes e distribuídos em quatro categorias: 1) V isão da comunidade em que vive : que inclui os relatos referentes a observações particulares tanto sobre a população quanto sobre a comunidade como um todo; 2) Saberes populares : cujos relatos mostram hábitos da população que se refiram a cultura popular ou local; 3) Aprendendo novos conceitos e práticas : que indicam a ampliação dos conhecimentos das ACSs por cursos, palestras ou introdução de novas práticas à equipe e que foram revertidos em novas orientações à população; 4) Expressão dos anseios, preocupações e conquistas : na qual estão os depoimentos referente aos sentimentos próprios compartilhado pela ACS no Diário. Os nomes das ACSs foram preservados, sendo dada uma numeração distinta de 1 a 6 para cada uma. A linguagem coloquial feita da forma escrita, bem como erros gramaticais e até abreviações indevidas foram mantidos para preservação do conteúdo dos relatos.

reunião ou grupo foi muito bom! Teve uma boa participação e um bom número de pessoa. Tivemos a participação ativa da R., futura enfermeira. (...) Bem, o que me deixou feliz e orgulhosa é que todos os idosos de 60 anos acima, trouxeram sua caderneta de saúde do idoso e saíram com anotações da P.A. e resultado do exame da glicemia. Pra mim foi ótimo. Obs: Fiquei sabendo que a M.R.V. diabética e hipertensa, foi ao plantão por causa de uma dor que ela sentia na ferida tem na perna, levou sua caderneta de saúde do idoso, foi elogiada por um enfermeiro ou auxiliar, não sei bem, ainda disse que todo idoso teria que ter essa caderneta. O elogio referido a ela é também pra todos nós. (ACS 1)

A maioria das observações aborda os hábitos individuais dos usuários, sendo alguns comuns em todas as microáreas, como por exemplo, o consumo de bebida alcoólica e seu prejuízo na convivência familiar e no acompanhamento correto das doenças crônicas, como hipertensão e diabetes; também a dificuldade do manejo deste tipo de problema em pequenas cidades:

18/05/ O G., o G. e a M.L. são hips mas fiquei sabendo que não estão tomando os medicamentos e sim estão tomando cachaça. Inclusive a M.L. me entregou várias cartelas de Captopril que eles não estão tomando. M. H., chegando na sala da casa deles bem debaixo da mesa tem um super litro de cachaça. As vezes eles estão conversando com a gente e virando o copo de cachaça na boca. O que vou fazer com esse povo? (ACS 1) 02/10/ Chamei a atenção do A., porque esse é hip mas deixa o remédio e enche a cara na cachaça. Achei engraçado porque ele falou comigo assim:...Você está igual a minha tia, só fica me xingando!!! Eu respondi: faço isso por que quero o seu bem. Não estou te pedindo para parar com a cachaça, mas sim diminuir e tomar seus medicamentos, para não acontecer igual a seu colega J. M. que por causa dessa danada está na cama dependendo da mulher até para ir ao banheiro. M.H., nessa hora os olhos do A. encheram de lágrimas, ele abaixou a cabeça igual criança. Quer saber, M.H., esse nosso serviço às vezes é chato, aborrecido, é estressante. Mas muitas pessoas nos respeitam, nos ouvem e até choram quando falamos a verdade para o bem deles, não é mesmo?!! (ACS 1) Julho 2009 (...) E. é HIP, sua pressão fica sempre alta, porque não toma os remédios e toma cachaça o dia todo. (ACS 2) 16/03/ I.D.S., fui à sua casa para olhar medicamentos, toma corretamente. Obs: a Dª. I. reclama que está sentindo muita dor nas costa e região da barriga, a orientei agendar consulta. O marido de Dª. I. não toma nenhum medicamento de pressão oriento os riscos da pressão alta, não adianta, leva tudo na brincadeira, fala que a cachaça faz a pressão controlar. (ACS 3) 09/03/ Família cheia de problemas, Sr. 39 anos HIP, ñ faz controle, etilista, a sua esposa deu p/ beber tbém e ficar sem cuidar de nada dentro de casa o menor de 15 anos fora da escola, procurei a promoção social, conselho tutelar e passei o caso e passei p/ enfermeira da unidade p/ uma possível visita o quanto antes. Resaltando procurei E. p/ tentar regularizar o bolsa

família, o mesmo disse p/ ela regularizar a questão do adolecente na escola e dia 30/03 pegar o benefício na casa lotérica. (ACS 5)

Questões sobre violência contra a mulher também são citadas, relacionadas ou não ao uso de bebida alcoólica. A identificação destes casos também é facilitada pela proximidade dos profissionais com a área de cobertura da equipe (8):

Agosto 2009 Visitei S. M.C. Foi uma visita rotina para pegar a receita de sua filha para renovar. Ela também estava bebendo muito. Ela me disse que a 3 meses que ela não menstrua, mas disse que não está grávida, mas se tiver ela vai abortar porque não quer mais criança de jeito nenhum. Ela tem 3 filhos. É separada do marido que batia muito nela. Ele já tem outra mulher, mas ainda vai lá e eles ficam juntos. (ACS 2) 13/10/ Fui à casa de P.J.S., para orientar a sua mãe, a M.J.R. que encontrava alcolizada, perguntei sobre a consulta de P. em BH, a mesma não soube explicar, falava coisa com coisa e reclamava que o marido tinha lhe batido, cartão de vacina estão em dia. (ACS 3) 03/06/ Sra. 38 anos reclama das agressões do marido, mas tomou coragem e o denunciou, a juíza determinou q/ ele sairia de casa, e determinou dia p/ visita das crianças e é do portão p/ fora, ela está mt melhor mas ele não a dá socego, percegue-a em todos os lugares, orientei-a quando acontecer ligar p/ policia. (ACS 5)

Situações confidenciais são descritas no Diário, como forma de repassar ao enfermeiro desse tipo de assistência para que esse sigilo não seja quebrado por engano, quando da presença do usuário na Unidade Básica de Saúde:

15/10/ Visitei a V., essa é gestante. A V. já teve momento de rejeitar o bebê falando até em tirá-lo. Também já demonstrou carinho por ele. Hoje eu a encontrei falando que estava com vontade de tirá-lo, isso por causa de uma briga com o marido. Até como marido ela às vezes elogia e às vezes quer que ele morra. Eu até sinto pena dela porque o homem não gosta de trabalhar, todo mundo sabe disso, pra ela, ela não encontra serviço. Vivem somente com o dinheiro da bolsa família que recebem. Não vamos esquecer que daqui a pouco são 5 filhos. (ACS 1) Set/out Visitei a família de J.L., residente na Rua Beco do Lazareto. Foi uma visita rotina para entregá-lo o cartão do PACS. Ele tem uma filha grávida. Eu não consigo acompanhá-la porque ela trabalha. Ela não está fazendo pré-natal. E seu pai ainda não sabe. (ACS 2) 22/04/ Sra. Orientei do planejamento, ela participa escondido da mãe, então tenho que avisa-la muito despistado. (ACS 4)

23/03/ K.T.B.M., fui à sua casa para visita de rotina, o mesmo estava gripado, a mãe o levou à farmácia. (ACS 3) 14/04/ M.A.G., HIP, visitei para orientar da campanha e perguntar como foi a consulta com Dr. S., ela me disse que gostou mas, ele tirou seus remédios de pressão e passou só um que não encontra na farmacinha e que só uma caixa custa R$50,00 para ser uso contínuo, não sei se vai dar pra bancar, pois tem 2 salários mais tem sua filha com as gêmeas e mais 2 filhos nas costas dela. (ACS 4)

O cuidado deficiente ou mesmo a total falta dele direcionado aos idosos e crianças são abordados às vezes de forma bem incisiva, demonstrando sentimento do ACS frente a tais questões:

29/11/ S.F.M. gestante ± 2 mês de gravidez está revoltada, pois disse que estava enternada e ninguém lhe falou que Ela estava grávida, foi encaminhada para o psiquiatra. A mesma acha que todo mundo é culpado por Ela está grávida era só o que faltava, está tomando remédio controlado, fez consulta no mês. Obs: A S. já abortou, deu até polícia a mesma teve que pagar uma indenização todo mês para uma família carente. O juiz lhe disse na época se caso vier acontecer de novo ela ficará detida. (ACS 3) 19/11/ (...) Ainda me deparei com uma situação muito triste, encontrei a sra. A.V., muito decadente com aparência de desnutrição, segundo a vizinha a filha não tá se importando com ela. (ACS 5)

A higiene do ambiente, bem como a higiene corporal, são alvos constantes de orientações e de solicitações de intervenção do ACS pela equipe:

19/02/ Família sem nenhuma reclamação, cartão da criança ok, observei que a higiene da casa é precária, ninguém tem a atitude de limpa, como já orientei outras vezes mas ñ dá atenção. (ACS 5) 18/03/ (...) fui na casa de dona M. C. A. que é HIP e DIA para lembrar do grupo e ver se ela tem remédio, aproveitei para passar na casa de sua filha ao lado que tem uma criança menor de 2 anos para ver como ela está, só que as condições da casa é muito ruim (...) e ela fica pro terreiro afora colocando tudo sujo na boca e eles nem ligam pra isso, é muito triste isto. (ACS 6)

O transtorno mental, comumente conhecido pelo ACS como “doença de cabeça”, tem em seus fatores determinantes, segundo o próprio agente, aspectos relacionados a desemprego, dificuldades financeiras e de relacionamento interpessoal, trazendo preocupações como isolamento social, agressividade, sofrimento; ações como supervisão do tratamento medicamentoso, agendamento e acompanhamento em consultas são agregados à sua função(7). No Diário este problema é citado pelo ACS, que identifica casos

dentro da comunidade, levando-os ao conhecimento da equipe e esta aos serviços de referência disponíveis:

05/11/ Fui à casa de M.M.F. para lhe orientar, a mesma me disse que seu filho o C., não está bem, não dorme gosta de ficar com a casa toda fechada, fala coisa com coisa, perguntei se gostaria que agendasse consulta para ele. A mesma me disse que o C. não vai, e que está com medo dele (...). (ACS 3) 27/04/ J. 66 anos HIP orientei a campanha, mas ele não é muito certo e fica sozinho em casa, sua esposa trabalha na roça, não entro, só converso um pouco com ele no portão, mas ele (não) conversa coisa com coisa aí eu vou embora. (ACS 4) 20/01/ M.A.A.S., orientei a pesagem e ela a estar proucurando a escola de seu filho para troca-lo de professora, pois ela quebrou 2 varas no menino e mesmo assim ele não vai à escola. Falei com ela que talvez ele também esteje precisando de uma psicóloga, perguntei como ele é no dia a dia e ela me disse que ele é muito chorão, pedi para ela olhar isso, mas não corre atrás não, vou tentar conseguir o encaminhamento para ela. Também orientei a pesagem. (ACS 4)

A solidariedade é um ponto positivo encontrado nas comunidades, sendo realizada às vezes pelo próprio ACS. Conquistas pessoais da população também são ressaltadas:

07/01/ Visitei a gestante M. C., essa está preocupada porque ao fazer o exame de ultra-som a Dra. M. diz que seu nenenzinho está muito pequeno. Eu diz que era pra ela se alimentar direitinho, inclusive muita verdura. Como ela falou que verdura estava muito difícil, porque quem tem só quer vender. Eu prometi que se ela quizesse que eu daria para ela um pouquinho de verdura da minha casa. Não sei se eu fiz o certo, mas fiquei com dor de vê-la comendo: arroz, macarrão e banana verde frita. Como eu sempre tenho couve, almeirão, taioba, abóbora e chuchu na minha horta, acho que não me custa dar um pouquinho para ela de vez em quando. (ACS 1) 19/04/ O L. de 81 anos se recupera de um derrame. É bom ver a força de vontade do L. Hoje o encontrei na rua fazendo caminhada. (ACS 1) 23/04/ Visitei a família de R.L.P., residente na Rua Nova. Ele é HIP e faz uso de Captopril. Ele é alcoólatra e está fazendo controle com Dr. (...), há 5 meses ele não está bebendo e está bem. (ACS 2) 25/11/ S.C.D. gestante ± 7 mês de gravidez, fez ultrason, é uma menina. A S. está feliz da vida, perguntei se o bebê está mexendo, orientei sobre a alimentação, saudável para que sua filhinha nasça com saúde, fez consulta no mês está bem. Obs: A S. estava muito triste devido o seu namorado duvidar que a filha que Ela está esperando seja dele, conversei muito com a mesma. Agora tudo que Ela quer é ver a sua filhinha em seus braços. (ACS 3)