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Tipologia: Trabalhos
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Embora entre nós a presença tangível de uma comunidade judaica exclua a possibilidade de semelhante diálogo, tomamos a liberdade de afirmar, sem receio de cair em exagero, que existe um desconhecimento generalizado do que são os judeus, suas crenças e seus postulados de fé e conduta. Iremos mais longe: estamos convencidos de que esse desconhecimento caracteriza não só a grande massa de não-judeus, como também aos próprios judeus em proporção nada desprezível. Por isso, pareceu-nos cabível e necessário oferecer um conjunto de informações sobre o tema poucas vezes abordado: O que é o Judaísmo? Não há dúvida de que uma tradição de quatro milênios, tão rica de implicações em toda a civilização ocidental, dificilmente poderia ser resumida nas poucas páginas de um livrinho sem que se arriscasse melindrar a magnitude de tamanha herança. Desejamos deixar bem patente, por essa razão, que a nossa intenção foi a de apresentar uma introdução sumária, como que uma vista panorâmica. Segundo realçou o próprio autor, não se trata de traçar uma exposição filosófica e teórica do Judaísmo, mas apenas um relato de suas práticas e crenças, sob forma de diálogo vivo, que lembrasse uma conversação casual e espontânea. Considerando-se que o Judaísmo está em constante processo de criação, nem sempre se logra uma única interpretação cabal em relação aos elementos de sua complexa bagagem histórica e doutrinária. Torna-se praticamente impossível, portanto, fazer sua apresentação sem que se exponha a objeções e controvérsias.
Assim sendo, convém deixar bem claro que não temos o menor propósito de encetar polêmicas, como também não nos apegamos a nenhuma corrente determinada de interpretação. Sentir-nos-íamos altamente recompensados - e com
isso o nosso esforço encontraria sua plena justificação - se este modesto trabalho conseguisse despertar curiosidade para futuras leituras, mais específicas e profundas, e lograsse lançar um pouco de luz, pelo menos em parte, sobre certas impressões errôneas no que se refere aos judeus, suas crenças e seus costumes.
É muito difícil encontrar uma simples definição do que é um judeu. Judeu é todo aquele que aceita a fé judaica. Esta é a definição religiosa. Judeu é aquele que, não tendo afiliação religiosa formal, considera os ensinamentos do Judaísmo - sua ética, seus costumes, sua literatura - como propriedade sua. Esta é a definição cultural. Judeu é aquele que se considera judeu ou que assim é considerado pela sua comunidade. Esta é a definição prática. Como parte de inegável importância para qualquer definição válida, deve-se dizer também o que o judeu não é. Os judeus não são raça. A história revela que através de casamentos e conversões o seu número sofreu acréscimos sem conta. Há judeus morenos, louros, altos, baixos, de olhos azuis, verdes, castanhos e pretos. E apesar da maioria dos judeus serem de raça branca, há os judeus negros, os falashas, na Etiópia, os judeus chineses de Kai-Fung-Fu e um grupo de judeus índios no México, cuja origem, até hoje, ainda é um mistério para os antropólogos e arqueólogos. Para se compreender o Judaísmo, a busca do absoluto no ritual e no dogma deve ser abandonada, para dar lugar a um exame de ampla filosofia à qual se
mundo com finalidades e outro sem propósitos. Acreditam que o homem seja feito à imagem de Deus, que o papel do homem no universo é único e que, apesar da falha de serem mortais, são dotados de infinitas potencialidades para tudo o que é bom e grandioso.
Para o povo judeu, o conceito de história não se limita a uma sucessão de eventos e seu relato. A história judaica, em seus primórdios, é uma história sagrada, que começa com a escolha do povo por Deus (Iavé) e se orienta para o cumprimento da promessa divina de que, por meio desse povo, Deus beneficiará todas as nações. No decurso dessa história, os sábios judeus incorporaram aos livros sagrados um amplo corpus de textos que atualmente constituem o fundamento de sua religião.
3.1 Período bIblico
A Bíblia hebraica - que, à exceção de alguns livros, coincide essencialmente com o Antigo Testamento cristão -- narra os fatos fundamentais da história do povo judeu, a partir do momento transcendental de sua eleição e da aliança com Deus. Os judeus dividem sua Bíblia em três partes: a Lei (Torá), os Profetas (Neviim) e os Hagiógrafos (Ketuvim).
3.2 Aliança e eleição
O patriarca dos hebreus, Abraão, morava na cidade de Ur, na Caldéia, junto à foz do Eufrates, no século XX antes da era cristã. De lá, partiu para o norte, com seu pai, e recebeu a ordem de Deus: "Deixa teu país, tua parentela e a casa de teu pai, para o país que te mostrarei. Eu farei de ti um grande povo, eu te abençoarei, engrandecerei teu nome; sê tu uma bênção!" (Gn 12:1-2). Após a chegada de Abraão à terra de Canaã (mais recentemente conhecida como Palestina, para os judeus Terra de Israel, e onde hoje se localizam o Estado de Israel e a Jordânia), Iavé estabeleceu com ele uma aliança: "À tua posteridade darei esta terra, do rio do Egito até o grande rio, o rio Eufrates" (Gn 15:18). E acrescentou: "Eu multiplicarei grandemente a tua descendência, de tal modo que não se poderá contá-la" (Gn 16:10). Como sinal dessa aliança lhe ordenou: "Que todos os vossos machos sejam circuncidados" (Gn 17:10). Abraão, seu filho Isaac e seu neto Jacó constituem a linha patriarcal de referência do povo judeu, fiel à aliança divina. Jacó recebeu do Senhor um novo nome, Israel, e de seus 12 filhos originaram-se as 12 tribos do povo judeu, os descendentes de Israel, ou, como se chamavam, os "filhos de Israel" (Bene Israel).
3.3 Êxodo e estabelecimento em Canaã
A segunda etapa decisiva da história do povo judeu começou com sua libertação da escravidão no Egito (século XIII a.C.), onde se haviam estabelecido na época da grande seca. Moisés foi o líder que, por ordem de Iavé, conduziu a marcha de quarenta anos através do deserto para voltar a conquistar a terra de Canaã.
à fé tradicional. A visão da história como instrumento de Deus, que faz cair a desgraça sobre o povo judeu como castigo pelo descumprimento da aliança, foi em parte obra dos profetas.
3.4 Exílio e restauração
No início do século VI a.C., o rei babilônio Nabucodonosor destruiu o templo, saqueou Jerusalém e deportou sua população para a Babilônia. Este novo exílio espiritual uniu o "restante de Israel" sob a prédica do profeta Ezequiel, dando início a uma restauração religiosa que preparou uma outra, de caráter político. A conquista da Babilônia por Ciro, rei dos medos e dos persas, permitiu aos hebreus retornar à Terra Prometida, no ano 538 a.C., e reconstruir o templo de Jerusalém, em 515 a.C. Grande parte do povo, no entanto, continuou espalhado do Egito à Índia, como numa prefiguração da posterior diáspora (dispersão). Essa restauração religiosa e política é considerada por alguns autores como a verdadeira origem da unidade espiritual do povo judeu. Seu grande artífice foi Esdras, sacerdote dos judeus da Babilônia, que foi enviado pelo rei persa Artaxerxes II a Jerusalém para controlar a observância da lei mosaica, reconhecida, em seu caráter civil, para os judeus. Esdras fez renovar a aliança com Iavé mediante a leitura da lei para o povo durante sete dias (e, de maneira constante, duas vezes por semana). Também renovou o culto no novo templo, embora continuasse o ensino nas sinagogas locais, e alentou a esperança, pregada pelos profetas, na vinda de um messias que instauraria o reino de Deus.
3.5 Períodos helenístico e romano
A influência grega teve início com a conquista da Palestina por Alexandre o Grande. Posteriormente, o povo judeu alternou longos períodos de dominação estrangeira com breves períodos de independência. Um dos episódios mais importantes dessa fase foi a revolta dos Macabeus contra os selêucidas helênicos, sob Antíoco IV, liderada por Judá. Vitoriosos, os judeus purificaram o templo em 164 a.C. (evento comemorado até hoje na festa de Hanuká) e instauraram a dinastia dos Asmoneus. No ano 63 a.C. o romano Pompeu conquistou Jerusalém. Entre os grandes encraves judaicos dessa época destacam-se os da Síria, Babilônia e Alexandria, no Egito. Em Alexandria, o Pentateuco foi traduzido para o grego. Segundo a tradição, setenta sábios, totalmente isolados uns dos outros, fizeram simultaneamente setenta traduções absolutamente idênticas, chamada Septuaginta ou Bíblia "dos setenta". Durante a dominação romana, Jesus de Nazaré reuniu um grupo de discípulos e iniciou a pregação de suas idéias. Depois que ele morreu na cruz, seus seguidores acabaram se desligando do judaísmo para constituir a igreja cristã. Roma sufocou diversas revoltas judaicas e, no ano 70 da era cristã, o templo de Jerusalém foi arrasado. No ano 73, caiu o último baluarte da resistência, a fortaleza de Massada, na margem do mar Morto, quando seus defensores, cercados, preferiram cometer suicídio coletivo a cair prisioneiros. Com a perda dos últimos vestígios de soberania, teve início a diáspora, a dispersão do povo judeu, que encontrou na religião um fator de preservação e unidade. Conta-se que Iochanan be Zakai conseguiu escapar do cerco de Jerusalém, levado por seus discípulos num ataúde. Apresentando-se ao governador romano, prometeu-lhe obediência e, em troca, pediu que lhe fosse permitido criar um centro de estudos judaicos em Iavne. Reunindo sábios e escribas, Iavne foi o núcleo
Sobre uma base religiosa comum, a cultura judaica viu desenvolverem-se na Europa, durante a Idade Média, dois grandes ramos: sefarditas e asquenazitas. Os sefarditas, ou sefaraditas (sefaradim) seguiram a tendência babilônica e receberam a influência dos muçulmanos, com quem conviveram na Espanha. Do século XI ao XIII, quando se restabeleceu o cristianismo, os judeus da península ibérica gozaram de boas posições e prestígio, contribuindo como conselheiros, poetas, cientistas e filósofos para o florescimento econômico e cultural da chamada idade de ouro. Após as conversões forçadas (os judeus convertidos eram chamados cristãos-novos, ou marranos, que significa "porcos"), durante a Inquisição, os judeus acabaram expulsos da Espanha, em 1492, e de Portugal, em 1497. Os asquenazitas (ashkenazim), radicados na França e na Alemanha, adotaram o Talmud Ierushalmi e mantiveram estreito contato com a cultura cristã. Dos asquenazitas surgiram duas correntes místicas: a cabala (provavelmente de origem hispânica), desenvolvida nos séculos XII e XIII e relacionada com o esoterismo ocidental; e o hassidismo, no século XVI, que buscava uma forma de crença mais espontânea, mais liberta dos rigores do estudo e dos rituais, servindo assim aos judeus mais desfavorecidos das pequenas cidades e aldeias da Europa central e oriental. O hassidismo prolongou-se até a época contemporânea, preconizando a fé piedosa, o fervor (hitlaavut), a priorização da "intenção" (kavaná) sobre o rito e a importância do "aqui e agora" na experiência religiosa. De um modo geral, a Idade Média foi para os judeus um período de perseguições e massacres. Acusados de envenenarem poços, causando a peste negra, de fabricarem o pão ázimo da Páscoa com o sangue de jovens cristãos, estereotipados como malditos, demônios e judeus errantes, foram obrigados ao batismo, ou então perseguidos e mortos pelos cruzados, queimados no interior de
sinagogas -- como em York, na Inglaterra, em 1190 -- e expulsos de seus lares e de seus países. Imbuídos de uma fé radicada em sua identificação com o destino comum e com a prática judaica baseada na aliança, muitos judeus resistiram à pressão crescente de assimilação, muitas vezes preferindo morrer a abjurar sua fé. Morriam Al kidush haShem, pela santidade do nome de Deus, proferindo a antiga oração de uma frase só que é até hoje a síntese da fé judaica: Shemá Israel, Adonai Eloheinu Adonai echad (Ouve, ó Israel, o Senhor é nosso Deus, o Senhor é Um). A esperança de redenção levou a muitos caminhos, como o hassidismo, o misticismo da cabala e, no século XVII, ao messianismo, a crença na vinda imediata do Messias, então personificado num judeu de Esmirna, Shabetai Tsevi. Multidões histéricas acreditaram que a redenção era iminente, e desfizeram-se de seus bens para seguir o "messias" em sua jornada à Terra Santa. Mesmo a desmistificação do falso Messias, que se converteu ao Islã, não abalou seus seguidores, que acreditavam ser este o caminho de sofrimento pelo qual ele traria a redenção. O fim da Idade Média, o advento de idéias libertárias, do racionalismo, dos direitos do homem, trouxe esperanças de emancipação que acabaram traídas pelo surgimento de um anti-semitismo doutrinário e ideológico.
3.8 Período moderno
As idéias do Iluminismo, no século XVIII, exerceram grande influência sobre o pensamento das comunidades judaicas da Europa central e oriental, que constituíam então o centro do judaísmo. As esperanças messiânicas haviam cedido lugar ao desejo de uma realização pessoal e nacional de natureza claramente terrena, idéias que se plasmaram no movimento conhecido como Haskalá (Ilustração).
Parte considerável da comunidade judaica da antiga União Soviética pediu visto de emigração e, no início da década de 1990, mais de 400.000 judeus emigraram, principalmente para Israel. Quase a totalidade da comunidade judaica da Etiópia, negros africanos que praticam o judaísmo há cerca de 2.500 anos, emigrou para Israel nas décadas de 1980 e 1990. Apesar da secularização e do liberalismo que hoje predominam em suas instituições, o povo judeu continua apegado a sua religião, ou seja, a suas tradições e ao legado de sua história. 4 OS PRINCIPIOS BASICOS DO JUDAISMO
A maneira mais autêntica de adorar Deus é a imitação das virtudes divinas: como Deus é misericordioso, assim também devemos ser compassivos; como Deus é justo, assim devemos tratar com justiça ao próximo; como Deus é tardo em se irritar, assim também devemos ser tolerantes em nossos julgamentos. O Talmud fala em três princípios básicos da vida: a Torá, ou instrução; o culto ou o serviço de Deus, e a caridade ou a prática de Boas Ações. O amor ao saber domina a fé judaica. Desde o primeiro século da era cristã, têm os judeus um sistema de educação obrigatória. A responsabilidade pela educação dos pobres e dos órfãos cabia à comunidade tanto quanto aos pais. Tampouco se alheavam os antigos rabis à psicologia educativa. No primeiro dia de escola as crianças ganhavam bolos de mel com o feitio das letras do alfabeto, para que associassem o estudo ao prazer. O segundo princípio básico desta religião é o serviço de Deus. Desde sua mais tenra meninice aprendem os judeus que Ele deve ser adorado por amor, e nunca por temor.
O terceiro fundamento do Judaísmo é a caridade, a genuína caridade que brota do coração(3). Não existe outra palavra hebraica para traduzir caridade senão a que significa “dádiva eqüânime”. A filantropia, observou um notável erudito, nasceu de dois elementos da religião judaica: o conhecimento de que tudo quanto pos- suímos é propriedade do Senhor; e a convicção de que o homem pertence a Deus. Para o judeu piedoso, a filantropia não conhece fronteiras raciais ou religiosas. De acordo com os rabis: “Exige-se de nós que alimentemos os pobres dos gentios tanto como nossos irmãos judeus...” Ninguém está isento da prática da caridade - diz o Talmud -, “até quem vive de uma pensão deve dar ao pobre”! No primeiro século da nossa era, o Rabi Iohanan(4) perguntou a cinco de seus mais preclaros discípulos o que consideravam o alvo supremo da vida. Cada qual ofereceu a sua fórmula predileta. Depois de ouvir a todos, disse Iohanan: “A resposta do rabi Elazar ainda é a melhor - um bom coração”. Outro grupo de estudiosos procurou um único verso da Bíblia qie distilasse a essência da fé judaica. E encontraram-no nas palavras do profeta Miquéias: “Que é que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça e ames a beneficência e andes humildemente com o teu Deus”.
4.1 A TORA A palavra Torá tem dois sentidos na tradição judaica. No sentido lato, é a Torá o nosso modo de viver, ou, conforme disse Milton Steinberg, “Toda a vastidão e variedade da tradição judaica”. É sinônimo de ciência, sabedoria, amor a Deus. Sem ela, a vida não tem sentido nem valor. Em senso mais estrito, a Torá é o mais reverenciado e sagrado objeto do ritual judaico, o belo rôlo manuscrito dos Cinco Livros de Moisés (a Bíblia, do Gênesis até o Deuteronômio) que se conserva na Arca da Sinagoga.
íntima da vida judaica nos dias que antecederam e seguiram de perto a destruição do Estado judeu. É um reservatório de sabedoria tão valioso hoje quanto o foi há mil e oitocentos anos. Os mesmos sábios rabis que nos deram o Talmud compilaram também o Midrash, coleção de comentários rabínicos sobre os ensinamentos morais da Bíblia, freqüentemente citados em sermões e na literatura judaica. Em torno de cada verso das Escrituras, os eruditos teceram considerações morais, muitas vezes em forma de parábola. Os rabis estudaram a Bíblia com a convicção de que toda a verdade estava encerrada em suas páginas, bastando lê-la para desvendar-lhe o opulento acervo de sabedoria.
4.3 A DOUTRINA
O judaísmo é uma religião monoteísta que postula uma relação contínua entre Deus e o povo judeu e, por meio deste, com toda a humanidade. Toda sua doutrina e seu culto centralizam-se, portanto, no realce das vinculações entre Deus e o homem, na vida superna e na vida terrena.
Dogmas Maimônides, teólogo judeu-espanhol do século XII, resumiu a fé judaica em 13 artigos, que foram incorporados aos livros de oração e que são os seguintes: