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91114782 - Platão - Fedro, Notas de estudo de Literatura

Platão - Fedro

Tipologia: Notas de estudo

2012

Compartilhado em 21/09/2012

bruno-augusto-ramos-6
bruno-augusto-ramos-6 🇧🇷

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COLECÇÃO DE FILOSOFIA & ENSAIOS À UTOPIA, Tomás Morus º 7 S DA LOUCURA, Erasmo TICA, Hegel (7 vols.) À CIDADE DO SOL, Campanela O BANQUETE, Kierkegaard A CONQUISTA DA FELICIDADE, B. Russell VIDA NOVA, Damu MONARQUIA, Dante O PRÍNCIPE, Maquiavel ENTRE DOIS UNIVERSOS, E. Figueiredo UM FERNANDO PESSOA, Agostinho da Silva O RISO, Bergson ts ÍPIOS DA EL APROXNIMAÇOS os CAVALEIROS DO A (é) PINTORA PORTUGU SOFIA, Descartes istinho da Silva FOR, Sampaio Bruno fo da Cunha Ledo FEORIA DO SER E DA VERDADE, José Marinho INICIAÇÃO FILOSÓFICA, K. Jaspers ECCE-HOMO, Niecasche . CINCO MEDITAÇÕES SOBRE À EXISTÊNCIA, N. Berdiacff . . UM COLECCIONADOR DE ANGÚSTIAS, F. Figueiredo O SIMPÓSIO, Platão O HOMEM, ). Rostand ASSIM FALAVA ZARATUSTRA, Nietesche CONVÍVIO, Dante GUIMARÃES EDITORES, LDA. GUIMAR ISBN 972-665-126-3 a NINA “CA NI Ando Trito poros pa Da /200% COLECÇÃO FILOSOFIA & ENSAIOS OBRAS DE PLATÃO NA COLECÇÃO FILOSOFIA E ENSAIOS te APOLOGIA DE SÓCRATES FEDRO SIMPÓSIO OU DO AMOR (BANQUETE) A REPÚBLICA PLATÃO FEDRO OU DA BELEZA TRADUÇÃO E NOTAS DE PINHARANDA GOMES SEXTA EDIÇÃO LISBOA GUIMARÃES EDITORES 2000 Titulo em grego: PAIAPOE Dj mepl edor dj; Tradução de PINHARANDA GOME: (Nesra tradução foi seguido o texia estabelecido por Léon Robin. Paris, «Les Belles Lettres», 1966) SUMÁRIO Prólogo. O Discurso de Lísias.... Crítica do Discurso de Lisias..... Primeiro Discurso de Sócrates . Segundo Discurso de Sácrates... Interlúdio Diálogo sobre a Retórica... - 131 PLATÃO são muito mais salutares do que os passeios debaixo » das arcadas. Sócrates --- E Acúmeno tem muita razão, meu caro, podes estar certo! Mas, pelo que me dizes, Lísias encontra-se então na cidade? Fedro — Sim, em casa de Epicrates “”, aquela casa que, como sabes, fica perto do templo de Zeus Olímpico, a Morican: Sócrates -— Sim, e então em que passaste o tempo? Tenho a cerreza de que Lísias re regalou com a sua eloquência! ' Fedro — Contar-te-ei, se nada te impedir de me acompanhar E escutar, Sácmates — Mas que ideia! Não te parece que eu sou, como diz Píndaro, um homem disposto a sacrif- car tudos os impedimentos ao cuidado de ouvir narrar a conversa que Lísias e tu tivestes? Feriro — Nesse caso, acompanha-mel! Sócrates — Podes contar... Fedro — Sim, Sócrates, tanto mais que o que vou dizer é assunto da tua predilecção. Com efeito, o assunto de que nos ocupávamos tinha, não sci por que motivo, relação com o Amor, Convém esclarecer que Lísias escrevera uma dessas declarações que se fazem aos jovens belos, mas a declaração não parecia à carta de um amante, Mas, e nesse ponto reside o Epicrates, célebre demagago « amigo de Lísias. “ Mérico, um pluocrata ateniense de comimes duvidosos, dava o nome desta manso e SE o? ea a FEDRO u engenho, ele diz que se devem prestar favores não ao ] que ama, mas sim ao que não ama, Sócrates — Ob! Que homem sagaz! Poderia ter escrito, que é melhor ser complacente com o pobre do que com o rico, com o velho do que com o novo, e, tegra geral, com todos os que sofrem. as misérias de que todos sofremos. Aí está uma interessante tarefa, cuja civilidade serviria o interesse dos jovens... Conrudo, acredita, estou com tamanho desejo de te ouvir que, pudesses tu prolongar o passeio até Mégara e, de acordo com o treino de Heródico º, ir daí às muralhas, não deixaria de te acompanhar, mesmo que tivesse de voltar a seguir os teus passos! Fedro — Que te parece, excelente Sócrates, achas que eu, um simples profano, poderia repetir digna- mente, de cor, à altura do seu autor, o que Lísias, o, mais hábil dos escritores contemporâneos, escreveu em tanto tempo e com tanta paciência? Ah! Antes assim fosse, pois isso significaria para mim mais do que ganhar uma grande fortuna! Sócrates — Fedro, se eu não te conhecesse, Fedro, isso seria porque, então, nem sequer me conheceria a mim próprio! Mas não, nem uma coisa nem outra são verdadeiras! Estou certo de que ele não ouviu uma só vez o discurso de Lisias, que pediu para | s Heródico, atleta + professor de educação física, Vivia em Megara e fazia um treino regular que consistia numa corrida pedestre entre aquela localidade e as muralhas de Atenas, e vice- versa. Aparece também no Preságuras, 316, e na República, MT. 406 a. 228 12 + PLATÃO lhe ser repetido várias vezes, voltando sempre a insis- tir, e Lísias acedeu sempre. E, como isso não bastasse, tomou o manuscrito, e ei-lo relendo as passagens que achara mais interessantes; finalmente, cansado de tamanho esforço e de estar sentado a manhã inteira, ei-lo que sai para dar o seu passeio, tendo já decorado (juro-o pelo Cão) “º o discurso de uma ponta à outra, caso não aconteça ser demasiado longo. E, se ia pas- sear para fora das muralhas, era porque prerendia exercitar-se a recitá-lo! Entretanto, encontra um homem cuja pior doença é a de gostar de ouvir dis- cursos; ao ver este homem, Fedro regozijou-se por ter encontrado alguém que se associasse ao seu delírio coribântico e por isso o convidou a fazer-lhe com- panhia.. No entanto, solicitado a falar, pelo homem que tem a paixão dos discursos, fingiu não estar inte- ressado, recusando-se como se não fosse seu desejo falar e, todavia, o desejo era tão forte, que acabaria per obrigar alguém a ouvir, à força, caso ninguém estivesse disposto a ouvi-lo.“Por conseguinte, Fedro, pede-lhe que faça imediatamente e de uma só vez aquilo que acabaria, afinal, por fazer! ? Nas diálogos de Platão, Sócrates utiliza frequentemente esta invocação. CÊ Gárgias, 482 b. Possível plebeismo egípcio, que Plação introduziu na sua obra. * Caribantes, os prosélitos de um culto dionisíaco a Cibele, de excessivo desregramento que, por isso, não eram vistos com bons olhos. Umas das ceriménias a que mais se prestavam con- sistia ntma procissão em que, aicando fachos, corriam, fazendo grande alarido. FEDRO 13 Feciro — Na verdade, julgo que o melhor é reci- tar O discurso como sei, pois estou certo de que não me deixarás enquanto eu não tenha tomado a pala- vra, pouco te importando a maneira, boa ou má, como fale! Sócrates — Efectivamente, no que me diz res- peito, tens toda a razão! Fedro — Está bem, seja, farei como disse. Na verdade, caro Sócrates, a questão é que não consegui decorar o discurso palavra por palavra. Por isso, pro- curarei expor com exactidão tudo o que Lísias escre- veu sobre a diferença do homem que ama é do homem sem amor, focando cada um dos pontos, sumariamente, mas por ordem, a começar pelo pri- meiro. Sócrates — Está bem, mas antes mostra-me, meu amigo, o que escondes com a mão esquerda por debaixo do manto... Quase juro que é o discurso! Se de facto assim é, fica sabendo que gosto muito de ti, mas que, estando Lísias presente dessa maneira, não estou disposto a deixar-me utilizar como ouvinte de um discurso repetido, não achas? Vamos, mostra lá isso. Fedro — Pronto, Sócrates! Acabas de deitar por terra o meu sonho de efectuar contigo “" uma expe- "5 Fedro oferece à Sócrates um ponto fraco. Efectivamente, . imais adiante, Sócrates inventará o mito do deus Thoth, para demonstrar que a memória nã licareibyi. tem a importância que Fe 16 PLATÃO sas explicações tem a sua validade, mas para isso «torna-se necessário muito génio, muito trabalho e aplicação e não encontramos nisso a felicidade “Seria necessário interpretar seguidamente a imagem dos Hipocentauros 2, depois a de Quimera º e, então, seríamos submergidos por uma enorme multidão de Gorgónias ” ou de Pégasos “, por outras criaturas Ed Ea - multitudinárias e bizarras, por criaturas inimagináveis A e por monstros legendários!'Se, por incredulidade, se v * ç conceder a cada uma destas figuras a medida da vero- similhança fazendo uso, para tanto, de não sei que grosseira sabedoria, nem sequer teremos um momento de ócio! Ora, eu não dedico o meu ócio a explicações desse género, e fica sabendo por que motivo, meu caro: ainda não consegui, até agora, conforme recomenda a inscrição délfica, conhecer- -me à mim mesmo; por isso, vejo quanto seria ridí- 3º culo, eu, que não tenho o conhecimento de mim mesmo, me dedicasse a estudar coisas que me são , me dedicasse a estudar coisas que me são wi Figuras mitológicas híbridas, com corpo humano e cabeca de cavalo. “ Quimeras, entes mitológicos, de corpo tripartido pelas espécies de leão, serpente e cabra. O substantivo próprio grego transitou ao latim já como nome comum e tendo o significado de «objecto fictício» — significado muito próximo da que actu- almente lhe € dado: quimera ou sonho irrealizável. ? Gorgónias, figuras mitológicas de cujas cabeças nasciam ser- pentes, em vez de cabelos. Na extensa galeria da mitologia grega este mito é, como os demais, fundamentalmente antropogógico. “a Pégaso, o cavalo alado. =- FEDRO 7 estranhas . Em vista disso, dou a esses mitos a importância que merecem e, quanto ao seu tema, limito-me a seguir a tradição. Digo-o a todo o momento: não são as lendas que investigo, é a mim mesmo que examino. Talvez não passe de um animal , Mais estranhamente esquisito e mais impante de - orgulho do que Tif ão “à, talvez eu seja um animal mais pacífico e menos complexo cuja natureza parti- cipa de não sei que destino divino e que não se deixa possuir pelo orgulho?... Mas... eis que chegimos à árvore para junto da qual tu, camarada, me condu- zias... Fedro — Exactamente! É mesmo esta! “ Sócrates — Oh, por Hera “*, que lugar aprazível! Na verdade, este plátano não só faz muita sombra +. como também é muito alto; e este agnocasto, como é mponente € como oferece uma sombra magnífica! Na plenitude da floração, não admira que este local seja percorrido por um aroma delicioso! Além disso, há o encanto sem par desta fonte que rebenra sob o 1º Sócrates insiste na necessidade de o homem reflectir-se: ele, homem, sujeito e objecto de uma análise que não é, nem a introspecção freudiana, nem o exame de consciência moral. A reflexão socrática constitui a reflexão pura e simples, que toma o indivíduo como ser simultancamente al E to, e procura nele encontrar as ejras caus: % Tifão, deus dos vulcões. Platão faz derivar este nome do substantivo TU 4 Bvos, que significa, em português, o que tem o poder de cegar. — &i Mulher de Zeus, a maior das deusas. na pe O foi 18 PLATÃO plátano, a frescura da sua água: basta mergulhar nela o pé para o verificar! A julgar por estas figuras, pelas estártias dos deuses, sem dúvida que ela foi consa- grada às Ninfas, a Aquelô. Não te encanta o ar puro que se respira aqui, não é ele desejável e prodigiosa- mente agradável? Cristalina melodia do verão, que faz eco ao canto das cigarras! O mais agradável de tudo é, no entanto, esta relva, com à doçura natural da sua densidade, que permite que a gente se deite e possa sentir a cabeça como numa almofada. Verifico que um estrangeiro não poderia arranjar melhor guia do que tu, men caro Fedro! Fedro — E wu, mirífico amigo, tu és o homem mais extraordinário que já se viu. De facto, parece que pretendes passar por um estrangeiro, que alguém orienta, e não por um narural daqui. À razão é por- que te manténs sempre na cidade, nunca de lá saindo, nem para viajar para além dos seus muros, se bem me parece “! » : ae “ Conforme se enconçéa dito noutros diálogos de Platão, especialmente em O Simpásio, Sócrates era um filósofo pedestre pois gastava o tempo nas ruas de Atenas, à procura de quem pretendesse «conversar» e adialogar». Apesar de andarilho, como aliás o texto refere, não tinha por hábito sair da cidade, justifi- cando esse facto com à argumento de que só nela podia encon- trar os homens que lhe podiam ensinar alguma coisa. É evidente que, por detrás do facto histórico referido por Platão, há a sa- lientar a ironia que do comentário se desprende. No fundo, o cepticismo socrático sabia muito bem que, na cidade, pouco podlia aprender. ” FEDRO 19 Sócrates — Sê indulgente comigo, meu bom amigo, não vês que o meu desejo é aprender e que, sendo assim, o campo e as árvores nada me podem ensinar, ao contrário dos homens da cidade? Mas parece-me que descobriste o remédio capaz de me obrigar a sair! Não é agitando um ramo de folhas ou um fruto diante dos animais, quando têm fome, que se consegue levá-los para onde se pretende? Assim tu procedeste para comigo! Tentando-me com um dis- curso que conseguiste possuir em manuscrito, antes de mim, se me acenares com ele, conseguirás que eu calcurreie toda a Ática e, mais ainda, vá até onde resolveres arrastar-me! De qualquer maneira, já que nos encontramos neste lugar, acho bem, por mim, estender-me. Quanto a ti, escolhe a posição que tive- res por mais cómada para procederes à leitura e, quando a tiveres encontrado, começa a ler. Fedro -- Já estou bem, Ora escuta! e n PLATÃO os seus dissenrimentos com os familiares. De onde se segue que, libertos de todos estes condicionalismos, nada mais lhes resta do que a preocupação de fazer o que melhor puderem para agradar aos amantes. Outra coisa: admiramos que se torna necessário dar especial atenção aos amantes quando estes desejam mostrar quanto se encontram presos por uma ami- zade particularmente forte e, por palavras e actos, se sujeitam a todas as sevícias, só para se tornarem agra- dáveis aos olhos dos amados. É fácil saber até que ponto eles mostram ser verdadeiros, quando mais tarde se apaixonam por ousro/ão qual passam a con- ceder maiores complacências do que ao primeiro e, todavia, a rogo do primeiro, podem proceder em desabono do outro” Todavia, que conveniência haverá na concessão de favores a um homem que sofre de tamanha desdira, desdita que ninguém deseja, sabendo de antemão que não poderá libertar- -se dela?yÉ verdade que os amantes concordam que são mais doentes de espíriro do que lúcidos, e que estão cientes da falta de bom senso, da desordem do seu pensamento e da incapacidade de se dominarem. Por conseguinte, como poderão esses homens, quando conseguem harmonizar o pensamento, temar como um bem os desejos que os possuíam no estado de del as há ainda outras coisas mais: se deseja- res escolher o melhor apaixonado de entre os apaixo- nados, será muito pequeno o número deles para que possas escolher mas, sc quiseres escolher entre todos o que melhor te convier. então terás muito por onde / FEDRO 33 escolher'De onde conchuo que tens maiores possibili- « dades de escolher entre estes últimos justamente aquele homem que seja digno da tua amizade. Mais ainda: suponhamos que, em face das con- venções, receias que a tua conduta seja divulgada, tornando-te o alvo de críticas e intrigas” Neste caso, convém ter presente que qs amantes julgam que 23 todas as pessoas têm inveja deles, assim como eles têm inveja uns dos outros; fazem gala do bom sucesso das suas tentarivas e, na mira de sé tornarem adinirados, fingem que não se sujeitariam a tantos sacrifícios por uma paixão insignificante! Em contra- partida, os que não amam, como são capazes de se dominar, dão a sua preferência apenas ao que tem maior valia, apesar da fama que essa preferência possa vira granjear entre o povo. Por outro lado, considerá- vel ntímero de pessoas reconhece os amantes, bas- tando para isso reparar no modo como perseguem os amados e se esforçam por seduzi-los e, quando são vistos à conversar, pode saber-se com exactidão se já Se entregaram Um a0 outro Ou se estão prestes a satis- fazer os seus desejos “. [Da mesma maneira, aos que não se encontram possuídos pela paixão, ninguém os pode incriminar por causa das suas familiaridades, pois toda a gente sabe que é vulgar as pessoas conver- a os pa Fina observação fisionómica: pelos gestos « pelo rosto de dois enamoraos, sabemos se a união já Sé consumou ou não. Or ss que, na educacão dos adolescentes, se deve dar espe- cial atenção ao ensigamento da arte ir, isto é, de manter «isto é, de m em segredo o que sa dois diz respeito. 24 PLATÃO sarem umas com as outras, já por simples amizade, já por qualquer outro motivo. Por acaso acudiu alguma ponta de receio ao teu espírito por causa da amizade? Pensas então que a amizade acaba sempre em dissen- timento e que, no caso de divórcio sobrevem sempre uma desgraça comum a ambos e que, se és tu a aban- donar aquele a quem amas, toda a pena será supor- tada por ti? Nesse caso, fica sabendo que esse receio é muito mais justificado quando concerne a pessoas que se amam, porque em tudo vêem um motivo de lamentação e olham para os outros como se todos quisessem fazer-lhes mal. É este o motivo porque evi- tam que os seus amados convivam com outros, pois receiam a concorrência de alguém que seja mais rico ou mais culto do que eles, uma vez que uns podem roubar-lhes a afeição por dinheiro e outros roubar- -lha por subtilezas da inteligência: e os que possuem qualquer outra regalia, desconfiam de quem lhes 4 possa fazer concorrência no mesmo campo; por con- sequência, persuadindo-te a rejeitar os outros, eles conseguem roubar-te a todas as amizades, criando um vazio à tua volta! Mas, se tiveres presentes os teus interesses particulares, saberás discernir melhor do que esses de quem falei e serás tu mesmo à romper todos os laços com eles. Quem, em contrapartida, vive sem amor e deve ao mérito próprio as conquistas, que tenha levado a cabo segundo o seu desejo, esse nunça sentirá inveja daqueles que mantêm relações contigas antes odiar go; antes odiará aqueles que se negam a tê-las « persuadido de que o fazem por desprezo por ele tem parte também porque o desejo acaba sempre por l | FEDRO 25 mesmo, e convencido de que poderá tirar certos benefícios das tuas relações com os outros. Assim, este oferece maiores esperanças de conseguir mais amizades do que inimizades.” Além disso, entre os amantes, muitos não curam primeiro de conhecer o carácter do amado, deixando- -se possuir logo de início pelo amor de cong ipiscên- cia, sem atender às condições particulares; por conse- guinte, não podem estar certos de que continuarão à manter esse amor depois de atingidos os fins, ou de 23» satisfeito o desejo. Os que não se encontram perturbados pelo amor começam por estabelecer uma mútua amizade, antes mesmo de concrerizarem os seus desígnios e, deste modo, não é provável que a satisfação do desejo con- duza ao abrandamento dessa amizade e que, bem pelo contrário, ela subsista como uma garantia das promessas para o futuro*Por outro lado ainda, ao cederes, deves procurar tornar-te ainda mais virtuoso do que se cedesses a um ourro possuído de paixão, porque, esses que estão possuídos pela paixão, vão ao ponto de elogiar todas as palavras e todos os actos do amado, mesmo que isso vá contra a verdade das coi- b sas, em parte porque receiam tornar-se indiferentes, ip adulterar a lucidez e o juízo. São assim os efeitos manifestados pelo amor: uma pequena contrariedade que, para a maioria das pessoas, não passa de uma ninharia“torna-se, aos olhos do amoroso, numa grande Preocupação; um acaso feliz que nem sequer 28 PLATÃO Conserva na memória todas estas palavras, e reflecte no significado desta regra: os amantes são constantemente criticados pelos seus amigos, que vêem na paixão um mal, enquanto os que não se apaixonam jamais são reprovados pelos seus famili res, por se conduzirem defeiruosamente. nos assuntos particulares. Provavelmente vais interrogar-me sobre se podes conceder indistintamente os teus favores a todos os que não se encontram apaixonados. Pessoalmente, sou de opinião que um homem que ame não te acon- a proceder de: ssa forma porque, bem vistas as O não mereceria uma gratidão igual e, como tu pretendes que ninguém saiba de nada sobre as tuas relações, tal não seria obviamente possível, É nece: rio que dessas ligações não venha qualquer prejuízo, mas que, pelo contrário, resulte alguma utilidade para ambos. Por mim, acho que basta já o que disse; se te parece haver ainda alguma coisa que porventura tenha omitido, pergunta.» Que tal te parece este discurso, Sócrates? Não é de uma eloquência maravilhosa, muito especialmente pelo vocabulário? | Sócrates — Podemos até dizer mais, meu caro: esse discursa é de tal maneira magnífico, que me dei- xou deveras perturbado! E esta perturbação fico a devêla a u, Fedro: enquanto procedias à leitura, não deixei de te observar e verifiquei que o teu rosto se iluminava com essa leitura e eu, convencido de que FEDRO 29 nesse género de coisas tu és melhor do que eu, deixei- -me embalar nessa espécie de delírio. Sim, contigo, divina cabeça! — Fedro — Vamos, achas que há motivo pata tro- cares dessa maneira? Sócrates — Achas que estou a croçar? Que não falo a sério? Fesivo — Não, Sócrates, mas diz-me a verdade « verdadeira, em nome de Zeus, padroeiro da Amizade, peço-te: achas que haverá na Grécia outro homem 9 capaz de escrever s . com a mesma elevação e conteúdo deste? iscurso CRÍTICA DO DISCURSO DE LÍSIAS Sócrates — O quê, achas necessário que ambos elogiemos o discurso, aquilo que o autor disse e não disse? Que, além disso, o seu estilo é claro e preciso, e que cada palavra se encontra no justo lugar? Se efectivamente devemos proceder dessa forma, assim procederei, mas apenas por consideração para contigo, porque a mim nem sequer me ocorreu tal necessidade, em virtude da minha ignorância! De facto, limitei-me a prestar atenção às qualidades retóricas do discurso e, quanto ao resto, creio que nem o próprio Lisias se poderá dar por satisfeito. Isto significa, meu caro Fedro, que a minha opinião, salvo parecer em contrário, é a de que ele repete duas e três vezes as mesmas coisas, assim como se não tivesse mais nada para dizer, ou como se o tema não tivesse especial interesse, Pareceu-me que se comportou como um jovem vaidoso que se compraz em fazer gala do talento que possui, dizendo as mesmas coisas, ora de um medo, ori de OULro, sempre com à mesma perfei- ção, apesar da diversidade do modo. — 2% 34 PLATÃO modo diferente do dele! Aí esti uma coisa que não aconteceria, nem sequer ao escritor mais medíocre! Mas exemplifiquemos: ao defender que se devem conceder favores a quem não ama e nunca a quem ama, € ao impedir que se louve a prudência de um e se condene a imprudência do outro — questões que em todo o caso se pôem — que mais haverá depois para dizer? Por mim, acho que esses temas se devem deixar aos caprichos do orador, a quem se devem per- mitir, e que em qualquer caso semelhante a este não é o poder criador, mas sim o estilo, que deve elogiar-se. Já o mesmo não sucede com outras coisas menos importantes e cuja necessidade de criação é maior e mais difícil do que o estilo, nas quais se deverá elo- giar o poder de invenção.” Fedro — Aceito as tuas asserções, pois me pare- cem sensatas, mas olha para o que vou dizer agora: o homem apaixon É i o não- “apaixonado — esta é a tese que proponho para ponto de partida”Quanto ao resto, como sejam a diferença de estilo, ou a riqueza mator ou menor do teu discurso, se comparada com a de Lísias, isso é que desejo ver se és capaz de conseguir. O prometido é devido: eripirei a rua estátua em Olímpia, lado a lado com as oferendas dos Cipsélidas '! Sócrates — Não me digas, caro Fedro, que ficaste aborrecido com as minhas chalaças ao homem que “1 Descendentes de Cipseto, tirano de Corinto, que regular: mente enviava ofertas para à templo de Zeus, em Olímpia. FEDRO 35 amas? Achas, nesse caso, que me atreverei a competir com um talento como o dele, repetindo a mesma coisa com um acréscimo de verbosidade? — Fedro — Estás agora na posição em que eu me encontrava há pouco, por isso não tens outra solução que não seja à de discursar, e de conseguires fazê-lo o melhor que puderes. Tomemos os devidos cuidados para não procedermos como os autores de comédias, que inventam personagens que passam a retrucar umas às outras com as mesmas palavras; por isso avia- te, peço-te, não me obrigues a repetir certas palavras que tu bem conheces: «Ô Sócrares, se eu não conhe- cesse Sócrates, isso seria porque, então, nem sequer me conheceria a mim próprio», e mais ainda: «fingia não estar interessado em falar, como se não fosse esse o seu desejo» ”, Desde já fica assente que não saire- mos daqui sem que antes não tenhas dito tudo o que te vai na alma! Olha; estamos sós, neste lugar solitá- rio, e ainda por cima o mais forte e mais jovem sou en. Portanto, e para concluir, «a bom entendedor meia palavra bastal» Procura falar voluntariamente, se não queres acabar por falar à força! Sócrates — Mas, venturoso Fedro, vou tornar-me” ridículo uma vez que, ignorante como sou, não pode- rei competir, de improviso, com um autor de tanto nível! Fedro faz suas as palavras de Sócrates que, momentos antes, ironizara com ele, Pedro, da mesma forma, Am 36 PLATÃO Feelro — Queres saber uma coisa? Acaba com esses subrerfúgios, pois fica sabendo que conheço um processo infalível para te obrigar a discursar. Sócrates — É escusado dizeres qual é Fedro — Enganas-te. Digo, e digo já! É uma « jura: Juro...» Mas sobre que divindade jurar? Olha, juro pelo plátano! «Sim, juro, perante esta árvore que, se não pronunciares o teu discurso, jamais voltarei à mostrar-te ou à repetir-re qualquer outro discurso de que tenha conhecimento! 1 Sócrates — És uma peste! À astúcia com que enconrraste o segredo para obrigar um homem, que tem a paixão dos discursos, a dar cumprimento às tuas exigências! Fedro — Tens, portanto, alguma co centar? Sócrates — Não, está dito! Depois do juramento que pronunciaste seria lá capaz de me sujeitar a ser privado de tamanhas alegrias? “ = Fedro — Nesse caso fala. Sócrates — Espera, sabes o que vou fazer? Fedro — Diz... ” Sócrates — Vou cobrir a cabeça para falar, pois quero terminar o discurso o mais depressa possível, e também evitar que, ao sentir-me observado por ti, perca a coragem de o fazer... Fedro —— Procede como entenderes, uma vez que pronuncies o discurso... a acres- PRIMEIRO DISCURSO DE SÓCRATES rr —— Sócrates -— Invoco-vos, Musas de canto crista- lina, quer este epíteto vos venha da suavidade do vosso canto, quer da vocação musical do povo lígio ! Oferecei-me o apoio da vossa mão no discurso que este cavalheiro me obriga a pronunciar, para que o homem, cujo talento ele tanto admira, se torne ainda mais admirado! «Era uma vez um jovem, talvez um adolescente, dotado de grande beleza, que possuía um grande número de apaixonados e, entre estes, um havia que era um espertalhão. Ainda que tivesse pelo jovem um amor tão grande como os outros, fez crer 20 adoles- cente que na verdade não se encontrava apaixonado. Até que, um dia em que lhe solicitou certos favores, tentou mosrrar-lhe que um homem não apaixonado » Lígios, ou Lígures, povo originário da Vigúria, ao norte de hrália. Em grego. o substantivo Ágie significa também voz agra- chível, canto sonoro. Platão usa o efeito estilístico, combinando abyetou, é Acyóoiv. 23h