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intoxicação cibernética de augusto cury
Tipologia: Resumos
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A mente, um planeta desconhecido
CAPÍTULO 2 O eu: piloto da mente malformado na era da intoxicação digital
CAPÍTULO 3 Treinando a emoção para ser saudável: O exemplo do mestre dos mestres
CAPÍTULO 4 As redes sociais: A busca frenética pela exposição aprisiona e adoece
CAPÍTULO 5 A mente “mente”: A intoxicação digital tornou-se uma síndrome
CAPÍTULO 6 Intoxicação digital: O que fizeram conosco e com nossos filhos?
CAPÍTULO 7 As poderosas técnicas de gestão da emoção no combate aos escravos digitais
CAPÍTULO 8 – FINAL As consequências cruéis da intoxicação digital: Soluções e orientações
uando era pré-adolescente, olhava para o céu noturno e cava impactado ao ver milhares de estrelas brilhantes. O que é este universo, indagava? Era um mundo desconhecido, fascinante e misterioso. Não tinha ideia de que, numa noite de céu límpido, com lua minguante e destituído de nuvens, seria possível observar a olho nu cerca de 4.500 estrelas, mas não ao mesmo tempo. Também não sabia que estava observando em destaque a Via Láctea, uma das centenas de bilhões de galáxias no Universo, e que cada uma continha bilhões de estrelas e planetas.
E posteriormente me senti mais diminuto ainda ao saber que provavelmente haja no Universo observável mais de dez sextilhões de estrelas, umas menores e outras milhares de vezes o tamanho do nosso famoso Sol. Se você contasse as estrelas do Universo uma a uma o mais rápido que pudesse, precisaria de milhares de anos para fazê-lo. A minha mente tinha nuvens de perguntas sem respostas. Começava a questionar diariamente: quem eu sou? O que é a vida? Como tenho certeza de que eu existo? O que é a existência? Como ela surgiu? O Universo tem limites? Qual o começo de tudo? O que é o tempo? Como consigo pensar? Tudo tem um início e um m? As perguntas nunca pararam de jorrar do meu intelecto. Ao longo dos anos e décadas, elas zeram parte do dicionário da minha história, como estudante, como médico psiquiatra, como pensador e construtor de conhecimento sobre a mais complexa área da ciência, “o processo de construção de
intensa, não consigo senti-la, mas con o na sua capacidade de ser líder de si mesmo e se reinventar”.
Dar respostas rápidas e apontar erros é desastroso. A nossa mente tem mais segredos do que o Universo físico. Por exemplo, um buraco negro suga planetas e estrelas inteiros devido a sua supergravidade; do mesmo modo, uma janela traumática ou killer em nosso cérebro que nancia uma crise de ansiedade ou um ataque de pânico pode fechar o circuito da memória e “sugar” a capacidade de pensar criticamente, de se colocar no lugar dos outros e de dar respostas inteligentes nos focos de estresse. Por isso, nos primeiros trinta segundos de tensão, falamos palavras que jamais deveríamos dizer para quem amamos, como “você só me decepciona”, “você não vai virar nada na vida”, “saia daqui que está me atrapalhando”, fora as palavras grosseiras e cruéis. Outro exemplo sobre a complexidade do psiquismo humano. No mundo físico, nada excede a velocidade da luz, cerca de 300 mil km/s. Mas em nosso pensamento excedemos a velocidade da luz, podemos dar voltas nas galáxias numa fração de segundo, ainda que no imaginário. No mundo físico, para se construírem os maiores edifícios do mundo, como o Burj Khalifa (Dubai), Shanghai Tower (china), Makkah Clock Tower (Arábia Saudita), demora-se anos para desenvolver o projeto e a colocação de materiais, mas na sua mente você constrói edifícios diversas vezes maiores, pode até construir planetas e estrelas em frações de tempo, ainda que na esfera da virtualidade.
A mente humana tem uma plasticidade construtiva e uma liberdade criativa sem precedentes, não se comparando com o mundo físico- químico. Por isso, você não precisa assistir a um lme de terror para se aterrorizar, basta não gerenciar sua mente, que se perturbará muito com seus próprios pensamentos, que uem num processo contínuo e não autorizado pelo seu Eu ou sua vontade consciente. Você pode olhar o Universo através das lentes dos telescópios Hubble ou James Webb e car surpreso com a teia de mistérios que o envolve, mas, se treinar seu Eu para observar o universo da mente humana, do seu intelecto, cará talvez mais assombrado ainda. Como você entra em sua memória numa velocidade espantosa e no escuro e entende cada palavra ou cada verbo que estão nesses textos? Quando tivermos tempo para mergulhar nas entranhas da nossa mente, entenderemos que somos meninos no teatro da existência, que entendemos muito sobre os segredos do átomo e os mistérios do espaço, mas sabemos pouquíssimo sobre nós mesmos...
O INSONDÁVEL PLANETA MENTE
Uma crise depressiva e existencial profunda me abalou tanto, me desconstruiu a tal ponto, que embarquei numa viagem que jamais estava prevista no meu currículo como jovem sociável, autocon ante e ousado, uma jornada para dentro de mim mesmo. Bombardeando-me de perguntas, descobri o que raras pessoas descobrem ao longo de sua história, que sabia muito pouco sobre quem sou. Você sabe quem você é?
emocionais, celebridades podem ser marcadamente solitárias e in uenciadores digitais tão livres e desbocados podem se tornar grandes prisioneiros? Ao longo de mais de trinta anos, procurei entender esse mundo, não apenas como psiquiatra e psicoterapeuta, mas também, em destaque, como produtor de conhecimento, como um viajante que fez análises detalhadas pelo intangível universo dos pensamentos, das emoções, da memória, do processo de interpretação, do funcionamento do psiquismo humano. Em um país que não valoriza seus cientistas, isso parecia loucura. Certa vez cheguei a uma roda onde havia alguns amigos e outros desconhecidos. De repente, ouvi um intelectual desconhecido dizendo que certo autor produzira conhecimento tão complexos sobre a construção de pensamentos que talvez só o entenderão daqui a um século. E citou o nome do autor, referindo-se a mim, sem saber que eu estava presente, pois, como raramente dou entrevista, não me reconheceu. Foi interessante. Quando citei alguns elementos da construção de pensamentos que ocorrem em frações diminutas de segundo e comentei outros aspectos do mundo intangível que nos torna Homo sapiens, a única espécie que pensa e tem consciência de que pensa, ele cou impressionado. E indagou, mas você conhece o Augusto Cury? Com humildade eu me pronunciei. Sou o próprio. Ele teve um choque, e nasceu uma amizade. De fato tive o privilégio, a ousadia e até a ingenuidade (digo ingenuidade pois não sabia dos imensos obstáculos que teria) de desenvolver uma das raras teorias mundiais sobre o processo de construção do Eu, desenvolvimento da personalidade, a evolução e o registro da memória, mas em especial sobre o processo de construção de pensamentos, que provavelmente é a última fronteira da ciência, o objeto de estudo mais intricado da ciência e o fenômeno mais complexo não apenas do planeta mente, mas também, muito
provavelmente, de todo o Universo. Por que creio que a construção de pensamentos seja a última fronteira da ciência?
Sem o universo dos pensamentos, não existiríamos para nós mesmos, seríamos trilhões de células agrupadas em um corpo que vagaria solitariamente pelo teatro da existência. Sem a construção de pensamentos, não haveria a pesquisa cientí ca, a elaboração de hipótese, postulados, predições e todo o conhecimento que estrutura a ciência. Os fenômenos físicos e seus sistemas de relações existem sem os pensamentos, mas é por meio das matrizes dos pensamentos que eles saem do completo anonimato e ganham o palco da intelectualidade. As artes plásticas, a escultura, a arquitetura, a dança, o teatro, são confeccionados pela arte da análise, capacidade de se reinventar, duvidar e dar respostas inovadoras, sensíveis e subliminares, que em tese são matrizes de pensamentos. A loso a ao estudar e descrever a ética, a estética, a metafísica, os princípios sociopolíticos, só existe porque o ser humano constrói conhecimentos. Igualmente as riquíssimas, e às vezes turbulentas, relações entre casais, pais e lhos, professor e aluno, bem como entre amigos e do ser humano com ele, confeccionando a identidade e expressividade de características de personalidade como timidez, ousadia, empatia, egoísmo, resiliência, fragilidade, são pautadas pelos pensamentos.
Colocaram uma menina, na realidade um bebê, a emoção, para dirigir o veículo mental. Acidentes graves são inevitáveis, pois a emoção nunca amadurece, quem amadurece é o Eu. Se o Eu não der um choque de lucidez no processo de construção de pensamentos, a interpretação será contaminada. Na era da intoxicação digital, as distorções do processo de interpretação se agigantaram. A intoxicação digital trouxe “eras” doentias para dentro da mente do usuário: a era da comparação de um ser humano com o outro, a era da necessidade neurótica de poder, a era necessidade ansiosa de evidência social, a era da felicidade irreal. Quando uso a palavra “era”, quero demonstrar o saturamento do córtex cerebral com dados e informações que intoxicam a emocionalidade e a intelectualidade. Sem querer entrar muito em detalhes no momento, toda vez que nossa mente está saturada de informações, o risco de gerar a síndrome do pensamento acelerado é alto, e essa síndrome turbina a intoxicação digital, levando o Eu, como piloto da aeronave mental, a ter di culdades de fazer escolhas, trabalhar perdas, fazer análises, ter consciência crítica. Mentes aceleradas geram mentes comparativas, que geram perda de autonomia. Nos tornamos péssimos pilotos do processo de interpretação. Um elogio pode ser sentido como um deboche; um deboche, como elogio. Estamos na era das distorções. Os pais estão desesperados com as distorções dos lhos, que se tornaram verdadeiros mestres na arte de manipular seus pais, mas por culpa não deles, e sim dos próprios pais. M.L., uma mãe de 39 anos, chorava muito. O motivo? Estava completamente perdida na educação de seu lho de sete anos, Lucas (nome ctício). Lucas sempre entendia “errado” as intenções de sua mãe. Se ela dissesse um não, parecia que ela o odiava. Se M.L. adiasse a compra de um tênis ou de uma roupa, Lucas dizia “você não me ama, está me abandonando!”. Longe da mãe o menino tinha um razoável autocontrole; perto da mãe fazia birras,
gritava, chantageava, tinha atitudes infantis em relação a sua idade biológica. A mãe entrava em estado de choque, sentia-se a pior mãe do mundo e muitíssimo envergonhada diante das amigas. Se ela regulava o celular, a casa caía. Lucas cava mais de quatro horas por dia conectado. A mãe reagia sem gestão da emoção, ao contrário, pelo trinômio explosão/culpa/superproteção. Quando M.L. não aguentava mais o comportamento de Lucas, ela explodia, dizia que era infeliz, que seu lho era rebelde, que ele não iria virar nada na vida. Depois, detonava o gatilho cerebral, abria uma janela killer de culpa, e ela desabava. A mãe foi longe demais, falhou, exagerou, agora vem um arrependimento brutal acompanhado de superproteção. Resultado? O lho aprendeu a manipular a mãe. Outro resultado do trinômio explosão/culpa/superproteção? Mais um diagnóstico inadequado: Lucas foi diagnosticado com TOD (transtorno opositor-desa ador). A indústria dos diagnósticos é um problema.
Um psiquiatra ou psicólogo pode até dar esse diagnóstico, mas não deve utilizá-lo para enquadrar os pacientes. Deve saber que o TOD é um sintoma, e não uma doença, uma reação multifocal, do trinômio explosão/culpa/superproteção que faz com que os lhos aprendam a manipular os pais com maestria, confrontando-os agressivamente, desa ando-os continuamente, pois no fundo sabem que seus pais cairão na lama da culpa e cederão. Técnicas de gestão da emoção são fundamentais para formar mentes autônomas, líderes de si mesmas, criativamente livres e emocionalmente
anunciar uma nova jornada para uma emoção saudável e uma felicidade sustentável. Além disso, devem colocar limites no tempo digital e discutir com os lhos a felicidade arti cial e o sucesso super cial das redes sociais. Proibir por proibir gera atratividade, é um desastre emocional. Limites por limites, para manter a autoridade, igualmente. Limites têm de ser postos claramente, mas com inteligência, e não com violência.
BEM-VINDOS À ERA DA CONSPIRAÇÃO
O aparecimento de um vírus pode ser sentido como uma conspiração mundial; uma queda do dólar ou crise in acionária podem ser interpretadas como o começo do apocalipse. O ser humano sempre fantasiou o desconhecido, mas na era da internet ele multiplicou por mil a sua capacidade imaginativa, porém, não para o bem, ou para dar respostas lúcidas ou para se reinventar, e sim para temer e até para se autodestruir. Bem-vindos à era da conspiração vitaminada pela era da intoxicação digital. Bem-vindos à era em que o Eu distorce as interpretações a tal ponto que se torna um notável diretor ou roteirista de lmes de terror. A emoção, sem os pensamentos, nos torna seres inconscientes, que não têm história, evolução consciente, identidade social. A emocionalidade sem a intelectualidade nos tornaria eternamente solitários, sem saber quem somos, o que sentimos, quais nossos papéis sociais, propósitos de vida, sentido existencial. Um ser humano poderia ainda estar deprimido, mas, como ele não tem um Eu consciente de si e das suas emoções, a alegria e a tristeza seriam a mesma coisa. O processo de construção dos pensamentos é tão complexo que poucos teóricos da psicologia, pedagogia e psiquiatria se atreveram a estudá-lo. Usaram os pensamentos prontos para produzir teoria sobre
traumas, formação da personalidade, processo de aprendizado, mas não sobre a base de tudo, o pensamento. Como você identi ca os verbos, pronomes e substantivos de cada frase desta obra “quase na velocidade da luz”? Estude os pensamentos e você provavelmente entenderá que tudo o que construímos como verdades sociais é super cial. Brancos e negros só existem na na camada da cor da pele; em nossa psique somos exatamente os mesmos. Todos deveriam proclamar em alto e bom som, sejam negros, brancos, intelectuais, iletrados, americanos, chineses, e também em relação à sexualidade:
Somos todos seres humanos, e isso basta, somos todos uma família humana! As minorias que exaltam sua diferença para poder diminuir a dor da exclusão, que muitas vezes é as xiante, por desconhecerem os mecanismos so sticadíssimos que constroem pensamentos, aumentam o preconceito. Porque o registro na memória não depende da vontade consciente do ser humano, mas é involuntário e automático. Arquivamos justamente ao contrário do que pretendemos quando pressionamos, elevamos o tom de voz, escandalizamos, comparamos. O programa de gestão da emoção nos ensina que na essência somos iguais e nos amamos, nas diferenças nos respeitamos. A teoria que desenvolvi, que se chama teoria da inteligência multifocal, estuda não apenas o foco da construção de pensamento, mas também o foco da construção do Eu como líder da mente humana. O Eu representa a capacidade de escolha, a autodeterminação, a identidade de um ser humano. Você sabe que é diferente de bilhões de outros seres humanos, que tem características de personalidade, preferências, gostos,