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História da matemática
Tipologia: Notas de aula
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Sesótris...repartiu o solo do Egito entre seus habitantes... Se o rio levava qualquer parte do lote de um homem... o rei mandava pessoas para examinar, e determinar por medida a extensão exata da perda ... Por esse costume, eu creio, que a geometria veio a ser conhecida no Egito, de onde passou para a Grécia. Heródoto
pela Revolução Industrial. Ao invés de caçar, pescar e recolher, o homem passou a cultivar seu próprio alimento. Isto demandou uma nova organização do trabalho, o desenvolvimento de técnicas de estocagem e a criação de métodos para a divisão da terra e de sua produção. As primeiras cidades surgiram nesta época, assim como os governos e a coleta de impostos. O surgimento de civilizações caracterizadas pelo uso de metais teve lugar primeiro em vales de rios, como os do Egito, Mesopotâmia, Índia e China. Antes do quarto milênio a.C. uma forma primitiva de escrita estava em uso tanto no vale mesopotâmico como no Nilo.
Hieroglifos egípcios existiam em grande quantidade por todo o Egito. Mas eles foram essencialmente indecifráveis até 1799 quando em Alexandria a pedra de Rosetta, trilingüe, foi descoberta pela expedição de Napoleão. Essa grande peça, achada em Rosetta, antigo porto de Alexandria, continha uma mensagem em três escritas: demótica(escrita de uso mais geral), hieroglífica(escrita usada pelos sacerdotes – “inscrições sagradas”) e grego, proporcionando a chave para a decifração. A inscrição sobre ela falava dos benefícios conferidos por Ptolemeu V Epifanes (205-180 a.C) e fora escrita pelos sacerdotes de Memphis. A tradução se deve principalmente a Thomas Young (1773-1829) e Jean Francois Champollion (1790-1832) que completou o trabalho iniciado por Young e decifrou corretamente a pedra completa. Um aspecto não usual dos hieroglifos e que eles podem ser lidos da esquerda para direita, ou da direita para esquerda, ou verticalmente (de cima para baixo), É a orientação dos sulcos da superfície que dá a pista; a direção da face de pessoas e animais o início da linha.
A matemática egípcia, pelo menos a que é conhecida dos papiros, é essencialmente aritmética aplicada. Era praticamente informação comunicada via exemplos sobre como resolver problemas específicos. Uma razão para isto é que nos tempos antigos não havia uma matemática simbólica e é muito mais fácil explicar a um jovem estudante um algoritmo para resolver um problema do que explicar o conceito abstrato primeiro e exemplos baseados neste conceito.
Os Egípcios começaram cedo a se interessar pela astronomia e observaram que a inundação anual do Nilo tinha lugar pouco depois que Sirius, a estrela do cão, se levantava a leste logo antes do sol. Observando que esses surgimentos heliacais de Sirius, o anunciador da inundação, eram separados por 365 dias, os egípcios estabeleceram um bom calendário solar feito de doze meses de trinta dias cada um e mais cinco dias de festa. Mas há um limite para a quantidade de informação matemática que se pode retirar de calendários e pedras tumulares, e nossas idéias sobre a contribuição egípcia seriam muito imprecisas se dependêssemos somente de material de origem cerimonial e astronômica. Felizmente temos outras fontes de informação. Um certo número de papiros egípcios de algum modo resistiu ao desgaste do tempo por mais de três e meio milênios. O mais extenso dos de natureza matemática é um rolo de papiro com cerca de 0,30m de altura e 5m de comprimento, que está agora no British Museum. Foi comprado em 1858 numa cidade à beira do Nilo, por um antiquário escocês, Henry Rhind; por isso é conhecido como Papiro Rhind, ou, menos freqüentemente, chamado Papiro Ahmes em honra do escriba que o copiou por volta de 1650 A.C. O escriba conta que o material provém de um protótipo do Reino do Meio de cerca de 2000 a 1800 A.C., e é possível que parte desse conhecimento tenha provindo de Imhotep, o quase lendário arquiteto e médico do Faraó Zoser, que superintendeu a construção de sua pirâmide há cerca de 5 000 anos. Papiro leva seu nome da planta da qual ele é feito
O sistema de contagem egípcio era decimal. Embora não posicional, ele poderia trabalhar com números de grande escala. Contudo, não existe um modo aparente de construir números arbitrariamente grandes. (Compare com o sistema moderno, que é posicional e cuja natureza permite e economiza para expressar números enormes.)
O sistema, pelo menos tão antigo quanto as pirâmides, datando de cerca de 5000 anos atrás, era decimal com símbolos especiais para 1 (um traço vertical),
10 (uma ferradura), 102 (um rolo de pergaminho), 103 (uma
106 (um homem espantado). O sistema era por grupamento simples. Por exemplo, o número 12345, se escrevia como
Uma das conseqüências do sistema de numeração egípcio é o caráter aditivo da aritmética. Assim, a multiplicação e a divisão eram em geral efetuadas por sucessão de duplicações com base no fato de que todo número pode ser representado por uma soma de potências de 2. Como por exemplo de multiplicação achemos o
19 69
produto de 69 por 19. Desde que 19 = 16 + 2 + 1, basta somarmos os múltiplos correspondentes de 69. Assim, 69x19 = 69(1 + 2 + 16)= 69 + 138 + 1104 = 1311. E para, digamos, dividir 753 por 26, dobramos sucessivamente o divisor 26 até o ponto em que o próximo dobro exceda o dividendo 753.
4 276 Ora, como 753 = 416 + 208 + 104 + 25, vemos que o quociente é 16+8+4 = 28 e que o resto é 25. O processo egípcio de multiplicação e divisão não só elimina a necessidade de aprender uma tábua de multiplicação, como se amolda ao ábaco que perdurou enquanto esse instrumento esteve em uso e mesmo depois.
Os homens da Idade da Pedra não usavam frações mas com o advento de culturas mais avançadas durante a Idade de Bronze parece ter surgido a necessidade do conceito de fração e de notação para frações. Os egípcios esforçaram-se para evitar algumas das dificuldades computacionais encontradas com frações representando-as, com exceção de 23 , como soma das frações chamadas unitárias, ou seja,
aquelas de numerador igual a 1. Essa redução tornava-se possível graças ao emprego de tábuas que davam a representação desejada para frações do tipo 2 n, as únicas necessárias devido à natureza diádica
da multiplicação egípcia. Os problemas do papiro Rhind são precedidos de uma dessas tábuas para todos os n números ímpares de 5 a 101. Assim, 27 é expresso por 1 4 128 e 297 como 156 1679 1776 .O
recíproco de qualquer inteiro era indicado simplesmente colocando sobre a notação para o inteiro um sinal
oval alongado. A fração 18 aparecia então como e 120 como. Tais frações eram manipuladas
livremente no tempo de Ahmes, mas a fração geral parece ter sido um enigma para os egípcios.
Muitos dos problemas de Ahmes mostram conhecimento de manipulações equivalentes à regra de três e de mínimo múltiplo comum. O problema 63, por exemplo, pede que sejam repartidos 700 pães entre quatro pessoas, sendo que as quantidades que devem receber estão na proporção prolongada 23 : 12 : 13 : 14. A solução é encontrada fazendo o quociente de 700 pela soma das frações na
proporção, 74 : ) 350 50 400 14
. Esse é o
número base. Calculando 2/3, 1/2, 1/3 e 1/4 dele são obtidas as parcelas de pão requeridas.
Os problemas egípcios descritos até agora são de tipo digamos, aritmético, mas há outros que merecem a designação de algébricos. Não se referem a objetos concretos, específicos, como pães e cerveja, nem exigem operações entre números conhecidos. Em vez disso, pedem o que equivale a soluções
chamada de "aha". A resolução de Ahmes ficou conhecido mais tarde na Europa como método da falsa
V = h( a^2 abb^2 ) 3 , onde h é a altura e a e b são os lados das bases quadradas. Essa fórmula não
aparece em nenhum lugar, mas em substância era evidentemente conhecida pelos egípcios. Aqui uma versão moderna para o desenho:
Durante muito tempo se supôs que os gregos aprenderam os rudimentos de geometria com os egípcios, e Aristóteles argüiu que a geometria teria surgido no vale do Nilo porque lá os sacerdotes tinham o lazer necessário para desenvolver o conhecimento teórico. A religião tinha um papel central na sociedade egípcia. Havia uma preocupação com a morte. Muitos dos grandes monumentos egípcios eram túmulos e requeriam na sua construção cálculos logísticos detalhados e pelo menos geometria básica. Que os gregos de fato emprestaram do Egito alguma matemática elementar é provável, pois o uso de frações unitárias persistiu na Grécia e em Roma até boa parte do período medieval, mas evidentemente a extensão desse empréstimo foi exagerada. O conhecimento revelado nos papiros é quase todo prático e o elemento principal nas questões eram cálculos. Quando parecem entrar elementos teóricos, o objetivo pode ter sido o de facilitar a técnica e não a compreensão. Mesmo a geometria egípcia, outrora louvada aparece na verdade mais como um ramo da aritmética aplicada. Onde entram relações de congruência elementares, o motivo aparentemente é o de fornecer artifícios de mensuração e não o de conseguir melhor compreensão. As regras de cálculo raramente são motivadas e dizem respeito apenas a casos concretos específicos. Os papiros de Ahmes e de Moscou, nossas principais fontes de informação, podem ter sido apenas manuais destinados a estudantes, mas indicam a direção e as tendências do ensino de matemática no Egito; outras evidências fornecidas por inscrições sobre monumentos, fragmentos de outros papiros matemáticos, e documentos de ramos aparentados da ciência servem para confirmar a impressão geral. A matemática egípcia em todos os seus estágios era construída em torno da operação de adição, uma desvantagem que conferia aos cálculos dos egípcios um peculiar primitivismo, combinado com uma ocasional e assombrosa complexidade. A geometria pode ter sido uma dádiva do Nilo, como Heródoto acreditava, mas os egípcios pouco a aproveitaram.