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apostila completa para pesquisas e trabalhos
Tipologia: Manuais, Projetos, Pesquisas
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É com satisfação que a Unisa Digital oferece a você, aluno(a), esta apostila de Comunicação e Expressão,
parte integrante de um conjunto de materiais de pesquisa voltado ao aprendizado dinâmico e autônomo
que a educação a distância exige. O principal objetivo desta apostila é propiciar aos(às) alunos(as) uma apre-
sentação do conteúdo básico da disciplina.
A Unisa Digital oferece outras formas de solidificar seu aprendizado, por meio de recursos multidis-
ciplinares, como chats, fóruns, aulas web, material de apoio e e-mail.
Para enriquecer o seu aprendizado, você ainda pode contar com a Biblioteca Virtual: www.unisa.br,
a Biblioteca Central da Unisa, juntamente às bibliotecas setoriais, que fornecem acervo digital e impresso,
bem como acesso a redes de informação e documentação.
Nesse contexto, os recursos disponíveis e necessários para apoiá-lo(a) no seu estudo são o suple-
mento que a Unisa Digital oferece, tornando seu aprendizado eficiente e prazeroso, concorrendo para
uma formação completa, na qual o conteúdo aprendido influencia sua vida profissional e pessoal.
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Unisa Digital
APRESENTAÇÃO
INTRODUÇÃO
Uma língua é um lugar donde se vê o mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Vergílio Ferreira
Caro(a) aluno(a),
Nosso objetivo, neste trabalho, é sintetizar alguns conceitos de textos relevantes para auxiliar o processo de produção escrita dos ingressantes no curso superior, favorecendo-lhes, também, uma orientação de como elaborar determinadas superestruturas textuais, por meio de técnicas de escritura e leitura de textos modelares, bem como a competência para a produção de textos acadêmicos, possi- bilitando-lhes, ainda, uma orientação de como elaborar determinados textos técnicos.
O trabalho embasa-se em obras dos mais renomados estudiosos da Linguística, como Jakobson (2001) e Vanoye (1998); dos mais importantes estudiosos da Linguística de Texto, como Fávero (1999), Koch (1997), Guimarães (2004) e Fiorin (2003); e em trabalhos de metodologia do trabalho científico, de autores de reconhecida competência, como Severino (2001) e Lakatos e Marconi (1992).
Os conteúdos estão assim organizados: primeiramente, discutiremos a questão de língua e lin- guagem; depois, os elementos da comunicação e, embasados neles, as funções da linguagem. Parti- mos, depois, para as noções de texto, textualidade, coesão e coerência, para, em seguida, apresentar as superestruturas textuais tradicionalmente reconhecidas: descrição, narração e dissertação. Num outro capítulo, depois de uma revisão de texto e textualidade, apresentamos a noção de intertextualidade, compreendendo a paródia, paráfrase, estilização e apropriação, para, então, fazer a discussão de ficha- mento, resumo e resenha. Na sequência, apresentamos a redação comercial e finalizamos a apostila com orientações de como escrever e-mails.
A seleção desses conteúdos deve-se à sua relevância como ponto de partida para os demais tex- tos, embora urge salientarmos que, numa obra simples como a nossa, não temos a pretensão de traçar todas as diretrizes possíveis para o bom desenvolvimento de sua competência escrita. Pelo contrário, apresentamos aqui apenas um roteiro, um caminho inicial que deverá ser percorrido pelo(a) próprio(a) aluno(a), desvendado e ampliado à medida que seu conhecimento sobre a língua e a produção textual for ampliado.
Fruto de nossa experiência docente, as lições aqui apresentadas resultam do que foi possível co- letar do prazeroso convívio com nossos(as) alunos(as) e da observação do brilhante trabalho de muitos colegas com quem tivemos o prazer de cruzar durante nossa jornada, especialmente, das atividades docentes da minha orientadora de doutorado, Profa. Dra. Leonor Lopes Fávero, umas das maiores estu- diosas de Linguística Textual no Brasil; do meu querido professor Hildebrando A. André, com quem tive o prazer de aprender a ensinar redação, e das lições subliminares a mim fornecidas pelo meu amigo, Prof. Leo Rícino, brilhante professor de Língua Portuguesa.
Caro(a) aluno(a),
Neste capítulo trataremos da comunicação verbal e aspectos da linguagem. Vamos lá?
Muitos autores costumam definir comunica- ção como “transmissão voluntária de informação” (RIEGEL, 1981, p. 21), então, responda-me: como se procede, então, essa transmissão? Claro que por meio da linguagem. Émile Benveniste (1977) asse- vera que a linguagem é um sistema de signos so- cializados, remetendo-nos à sua função de comu- nicação.
Vale salientar que, para que exista comunica- ção, as pessoas envolvidas no processo precisam fazer uso de um código comum, quer dizer, devem
“falar a mesma língua”. Isso significa que só há co- municação quando um entende o outro.
Atenção Atenção As línguas são, de acordo com Vanoye (1998, p. 21), “casos particulares de um fenômeno geral”, ou seja, a linguagem é o todo, todas as formas de comunicação, e comporta vários códigos, como cores, signos, assobios, código Morse etc., já as línguas são um tipo específico de lingua- gem.
E agora, o que é comunicação?
A comunicação pressupõe sempre a existên- cia de dois polos : aquele que emite a informação e aquele que a recebe – emissor/receptor, locutor/ alocutário, ouvinte/leitor etc. O veículo utilizado para a comunicação pode fazer com que esses pa-
péis sejam intercambiáveis ou não. No entanto, é importante frisarmos que, para que haja comuni- cação, deve haver, pelo menos, dois seres envolvi- dos, fazendo uso dos elementos da comunicação.
Márcia Antonia Guedes Molina
Código e Mensagem
O emissor e o receptor, como já foi dito, de- vem dispor do mesmo código , ou seja, do mesmo sistema de signos, a fim de que a informação possa ser recebida e decodificada pelo receptor. Essa in- formação decodificada, caro(a) aluno(a), é a men- sagem.
Referente
Riegel (1981, p. 22) assevera que
os signos do código remetem à realidade tal qual é percebida pelo emissor e pelo re- ceptor. O aspecto específico dessa realida- de, que é evocada por um signo do código, é o referente desse signo. O universo refe- rencial, exterior ao código, compreende tudo aquilo que pode ser designado pelos signos e suas combinações: seres, coisas, estados, acontecimentos, idéias, etc.
Canal de Comunicação
É necessário um meio físico para que a men- sagem possa ser veiculada para o interlocutor, ao qual damos o nome de canal de comunicação. Constituem canais de comunicação o ar, um CD, um cabo, um telefone etc.
Esquema da Comunicação
Preste atenção, agora: A somatória desses elementos resulta no se- guinte esquema, que apresenta os elementos in- dispensáveis para a comunicação:
Dicionário Dicionário
Referente é aquilo a que se refere no texto.
Figura 1 – Esquema da comunicação.
Márcia Antonia Guedes Molina
Quando a mensagem está centrada no canal, falamos da função fática. Temos, nesse caso, tudo o que serve para, numa comunicação, estabelecer, manter ou encerrar o contato.
Ex.: Alô, alô, responde... Responde...
Já quando a mensagem prioriza o emissor, revelando sua personalidade, estamos à frente da função emotiva (ou expressiva).
Ex.:
Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. (Carlos Drummond de Andrade)
A função poética é aquela em que a prio- ridade está na própria mensagem, colocando em destaque o lado palpável dos signos (JAKOBSON, 2001).
Ex.:
Vozes veladas, veludosas vozes, Volúpias dos violões, vozes veladas, Vagam nos velhos vórtices velozes Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas. (Cruz e Souza)
Quando ocorre a orientação para o receptor (destinatário), temos a função conativa. Por isso, nessa função, é comum observamos o emprego de verbos no modo imperativo, vocativos e ponto de exclamação.
Ex.: Assine uma TV a cabo agora e comece a pagar somente depois do Carnaval.
Finalmente, quando é dada especial relevân- cia ao código, estamos à frente da função meta- linguística.
Ex.: Quando falamos de funções da lingua- gem, queremos dizer, da possibilidade que tem a língua de dar, de acordo com a intenção do falante, especial destaque a determinados elementos da comunicação.
Nesse caso, usamos a língua para explicar a própria língua.
Saiba maisSaiba mais
A função referencial é muito usada em classificados.
A metalinguística é a de que se valem os dicionários.
Comunicação e Expressão
Caro(a) aluno(a),
Neste capítulo estudamos a Comunicação Humana e as Funções da Linguagem. Em relação à pri- meira, vimos que ela pressupõe sempre a existência de dois polos : aquele que emite a informação e aquele que a recebe – emissor/receptor, locutor/alocutário, ouvinte/leitor etc. Quanto às funções da lin- guagem, vimos que elas são relacionadas aos elementos da comunicação e podem ser classificadas em: função referencial, função fática, função emotiva, função poética, função conativa e função metalinguís- tica. O importante é lembrar que, muitas vezes, encontramos mais de uma função num mesmo texto.
Agora, querido(a) aluno(a), responda às questões abaixo:
a) Quando a prioridade da mensagem está na própria mensagem, temos a função _____________________. b) Quando a mensagem dirige-se a um receptor, enfatizando-o, temos a função _____________________.
Espero que tenha entendido bem essa questão. Então, passemos para outro tópico importante.
Márcia Antonia Guedes Molina
Quando lemos esse texto, num primeiro mo- mento, temos a impressão de que se trata de um amontoado de frases pouco significativas. Contu- do, se a inserirmos em seu contexto, passamos a entendê-la como texto. Então, vamos lá: a sequên- cia é uma composição de Nando Reis, gravada por Marisa Monte, intitulada Diariamente. O texto rela- ta os fatos do cotidiano de uma pessoa que vive numa região urbana, possivelmente, na cidade de São Paulo. O mesmo ocorre com a seguinte sequência:
Por que você é Flamengo? E meu pai Botafogo? O que significa “Impávido Colosso”? Por que os ossos doem? Enquanto a gente dorme? Por que os dentes caem? Por onde os filhos saem? Por que os dedos murcham? Quando estou no banho? Por que as ruas enchem? Quando está chovendo? Quanto é mil trilhões? Vezes infinito? Quem é Jesus Cristo? Onde estão meus primos? Well, well, well Gabriel? Well, well, well? Por que o fogo queima? Por que a lua é branca? Por que a Terra roda? Por que deitar agora? Por que as cobras matam? Por que o vidro embaça? Por que você se pinta? Por que o tempo passa? Por que que a gente espirra? Por que as unhas crescem? Por que o sangue corre? Por que que a gente morre? Do qué é feita a nuvem? Do que é feita a neve? Como é que se escreve Reveillon? Well, well, well, Gabriel. (DUNGA; TOLLER, 2004).
Se não reconhecermos a sequência, inad- vertidamente, podemos julgá-la um amontoado de perguntas sem nexo e, portanto, um não texto. Contudo, novamente, temos aqui a letra de uma
composição que Paula Toller dedicou a seu filho Gabriel, com as perguntas que ele, costumeira- mente, lhe fazia. A música chama-se Oito anos e foi gravada por Adriana Calcanhoto. Agora, preste atenção a este segmento:
LA VARIÉTÉ ET LA FANTAISIE DE MA VIE DE TOUS LES JOURS Tous les jours de la semaine, je ne me lève jamais a la même heure et ce n’est jamais la même chose. Mes jours sont fous, fous, fous! Lorsque je me lève, je ne suis pas pressé... Je vois et je choisis, c’est ça? Qu’il faut faire... Je déjeune chaque jour à un restaurant différent. L’après-midi je vais au cinéma, ou pour les courses, ou jouer le bowling, au bien aux shoppings... Je fais de promenade, promenade, pro- menade... Naturellement, je ne peux pas travailler! Les soirs je m’amuse à quelque show, ou théâtre, ou rendez-vous chez un ami... Les personnes ne me retrouvent jamais! (GIRAFAMANIA, 2010).
Essa sequência só será texto àqueles que dominam a língua em que foi escrita, o francês; os demais reconhecerão a sequência, mas, como não interagem com ela, não conseguindo depreender- -lhe um sentido, será um não texto. Nesse sentido, seguindo os passos de Koch e Travaglia (1990), podemos compreender texto como:
Atenção Atenção Texto = uma unidade linguística concreta (perceptível pela visão ou audição), que é tomada pelos usuários da língua (falante, escritor/ouvinte, leitor), em uma situação de interação comunicativa, como uma uni- dade de sentido e preenchendo uma fun- ção comunicativa reconhecível e reconhe- cida, independentemente da sua extensão.
Comunicação e Expressão
Vejamos agora, brevemente, o que é coesão e coerência.
Leia com atenção:
Fávero (1999, p. 10) assim define coesão: “A coesão, manifestada no nível microtextual, refere- -se aos modos como os componentes do universo textual, isto é, as palavras que ouvimos ou vemos, estão ligados entre si dentro de uma sequência.” Podemos dizer, portanto, que coesão é o nome com que designamos as estratégias de li- gação utilizadas num texto para torná-lo todo, ou seja, o uso de elementos capazes de estabelecer elos, os quais podem “amarrar” elementos mencio- nados anteriormente no texto, ocorrendo, então, o que os estudiosos chamam de anáfora.
Ex.: Fiz todos os exercícios indicados pela professora, mas minha amiga Carla não os fez (isto é, não fez os exercícios).
Podem, também, “amarrar” elementos que serão ainda mencionados no texto, ocorrendo, en- tão, a chamada catáfora.
Ex.: Fui ao mercado e comprei todos os itens de que precisava, menos estes : arroz, batata e azei- te.
Bem utilizar esses elementos auxilia bastante na boa escritura de uma sequência, mas não é só isso. Vejamos, agora, outro elemento responsável pela textualidade, capaz de ajudar na produção textual. Vamos ver outros exemplos de textos coesos para você entender bem essa questão:
Saiba maisSaiba mais O texto deve ter textualidade. Textualidade: aquilo que converte uma sequência lin- guística em texto (KOCH; TRAVAGLIA, 1990), isto é, ser todo, coeso e coerente para seus usuários.
Mais de um milhão de jovens estão “presos” no ensino fundamental Dados do Censo Escolar da Educação Básica de 2011 apontam que mais de um milhão de jovens estão “presos” no ensino fundamental. Os jovens têm mais de 14 anos e encontram-se nessa posição por conta de reprovações ou outros fatores que impedem o ingresso no ensino médio. O número de mais de um milhão de alunos estacionados no ensino fundamental é a diferença entre a população com mais de 14 anos e o número de matriculados no ensino fundamental, que atende justamente o público entre 6 e 14. Fonte: Alberti (2012).
Texto 1
Comunicação e Expressão
Veja: em ambos os textos, os elementos coe- sivos (grifados) foram adequadamente emprega- dos. A pontuação, os elementos referenciais, todos estão corroborando para que o texto adquira uni- dade.
AtençãoAtenção Quando falamos em UNIDADE, em AMARRAS, portanto, referimo-nos à COE- SÃO!
E do que será que trata a noção de coerência?
A coerência [...], manisfetada em grande parte macrotextualmente, refere-se aos modos como os componentes do univer- so textual, isto é, os conceitos e as rela- ções subjacentes ao texto de superfície, se unem numa configuração, de maneira reciprocamente acessível e relevante. As- sim a coerência é o resultado de processos cognitivos operantes entre os usuários e não mero traço dos textos. (FÁVERO, 1999, p. 10).
Então, a sequência a seguir constituirá texto para quem a entender como um classificado , con- corda?
Vários são os elementos responsáveis pela coerência. Koch e Travaglia (1990) apontam os se- guintes: conhecimentos: linguístico, de mundo, partilhado, do mundo em que o texto se inscreve; inferências; fatores pragmáticos; situacionalidade; intencionalidade; aceitabilidade; informatividade; focalização; intertextualidade; relevância.
Resta-nos, ainda, especificar que os textos or- ganizam-se numa hierarquia de tipos de subtipos. Guimarães (2004) ensina que, se a intenção se volta
fundamentalmente para as estruturas internas do texto, fica estabelecida uma tipologia de acordo com a forma de estruturação, sua superestrutura, ou o mundo em que o texto se inscreve.
Os textos citados como exemplos de textos coesos também são exemplos de textos com coe- rência, porque têm sentido. Vamos ver um exemplo de um texto em que falta coerência:
Entendeu? Espero que sim!
Apartamento. 3 dorms. 2 sls. coz. Área serv. Moema. R$210.000. Tratar com o proprietário: (33) 3333-3333.
Saí ao meio dia e chovia. Como estava com fome, resolvi jantar. Depois disso, saí e fui tomar sol...
Atenção Atenção Coerência diz respeito ao sentido do texto.
Márcia Antonia Guedes Molina
Neste capítulo estudamos o que é texto (uma unidade de sentido) e quais são os fatores responsá- veis pela textualidade: coesão, que diz respeito às conexões dentro do texto; e coerências, as relações de sentido do texto.
Vamos ver se você entendeu o que acabamos de explicar.
Márcia Antonia Guedes Molina
Trem das Cores
A franja na encosta Cor de laranja Capim rosa chá O mel desses olhos luz Mel de cor ímpar O ouro ainda não bem verde da serra A prata do trem A lua e a estrela Anel de turquesa Os átomos todos dançam Madruga Reluz neblina Crianças cor de romã Entram no vagão O oliva da nuvem chumbo Ficando Pra trás da manhã E a seda azul do papel Que envolve a maçã As casas tão verde e rosa Que vão passando ao nos ver passar Os dois lados da janela E aquela num tom de azul Quase inexistente, azul que não há Azul que é pura memória de algum lugar Teu cabelo preto Explícito objeto Castanhos lábios Ou pra ser exato Lábios cor de açaí E aqui, trem das cores Sábios projetos: Tocar na central E o céu de um azul Celeste celestial (VELOSO, 1990).
A primeira sequência, como se pode obser- var, é um trecho do romance O mulato, de Aluísio Azevedo. Podemos perceber com que precisão o autor descreve a cidade de São Luís do Maranhão; trechos com sinestesias, como “pedras escaldavam, as vidraças e os lampiões faiscavam ao sol como enormes diamantes, as paredes tinham reverbera- ções de prata polida”, favorecem não só a leitura, como também a percepção sensorial do texto. O mesmo acontece com a letra da música Trem das cores, de Caetano Veloso. Em “O mel des- ses olhos luz/E a seda azul do papel/Que envolve a maçã”, temos a impressão de sentir o gosto tanto do mel, quanto da maçã; de ver o brilho dos olhos e de sentir a maciez do papel de seda.
Vejamos então, pormenorizadamente, o que compreende um texto descritivo.
Características do Texto Descritivo
Leia o seguinte fragmento (1) da obra Irace- ma, de José de Alencar:
Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de pal- meira. O favo da jati não era doce como seu sor- riso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado. Mais rápida que a ema selvagem, a mo- rena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas. (ALENCAR, 1990, p. 16).
Agora, atente para o seguinte fragmento (2):
Iracema saiu do banho; o aljôfar d’água ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva. Enquanto re- pousa, empluma das penas do gará as fle- chas de seu arco, e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste. (ALENCAR, 1990, p. 13).
O primeiro fragmento é descritivo e o segun- do, narrativo. Como identificar a descrição? O texto descritivo é predominantemente fi- gurativo , ou seja, construído com termos essen- cialmente concretos, evocando uma figura , um
Atenção Atenção Um texto descritivo estará bem produzi- do quando possibilitar essas sensações; quando o leitor, ao proceder à sua leitura, tiver a sensação de estar vendo, presen- ciando, sentindo o que se está descre- vendo.
Comunicação e Expressão
efeito de realidade. “Os textos figurativos produ- zem um efeito de realidade e, por isso, represen- tam o mundo, com seus seres, seus acontecimen- tos.” (PLATÃO; FIORIN, 1997, p. 89).
No fragmento 1, temos como exemplos de termos concretos: a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tri- bo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando etc.
Outra característica do texto descritivo é que ele não traz mudança de situação. É estático, repre- senta o mundo num determinado momento, é re- corte. Além disso, naquela instância em que se efe- tua a descrição, vários fatos simultâneos podem ser apresentados. Assim, Iracema, quando apreendida pelo narrador, apresentava simultaneamente as se- guintes características: era virgem, tinha lábios de mel; seus cabelos eram mais negros que a asa da graúna e mais longos que o talhe de palmeira; seu sorriso era doce como o favo da jati; seu hálito era perfumado, era ainda mais rápida que a ema etc.
Essas características coocorriam, estavam todas presentes na mesma instância, podendo, in- clusive, ser invertidas no texto; por exemplo: seu sorriso era doce como o favo da jati; seu hálito era perfumado, era ainda mais rápida que a ema; era virgem, tinha lábios de mel; seus cabelos eram mais negros que a asa da graúna e mais longos que o talhe de palmeira... Isso porque não existe relação de anterioridade, nem de posterioridade no frag- mento.
Para que se estabeleça a comparação, reto- memos o segundo fragmento:
Iracema saiu do banho; o aljôfar d’água ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva. Enquanto re- pousa, empluma das penas do gará as fle- chas de seu arco, e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste. (ALENCAR, 1990, p. 13).
Este é um fragmento narrativo, pois existe nele uma relação de anterioridade e posteriorida- de: primeiro a índia saiu do banho, depois se pôs a repousar. A inversão dos fatos prejudicaria a se- quenciação do texto. Podemos perceber também, em ambos os textos, uma diferença no emprego dos tempos ver- bais: no primeiro, predomina o pretérito imperfeito e, no segundo, o pretérito perfeito. Como a simul- taneidade é a característica do texto descritivo, os tempos verbais mais empregados são o presente do indicativo e o pretérito imperfeito do indicativo. Quanto à organização, podemos afirmar que se deve elaborar o texto descritivo espacialmente, isto é, os elementos devem ser descritos de baixo para cima, da esquerda para a direita, de dentro para fora etc., para que o leitor possa, paulatina- mente, ir construindo a imagem daquilo que se está tratando.
Parafraseando Humberto Eco (1985), no Pós- -escrito a O nome da rosa, destacamos: Dicionário Dicionário Narração: “s.f. [é] exposição oral ou escrita de um fato.” (HOUAISS, 2003, p. 364)
Atenção Atenção Narrar é representar um acontecimento ou uma série de acontecimentos reais ou fictícios num texto.