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Comunicação e Expressão, Notas de estudo de Engenharia de Produção

Material de Engenharia de Produção

Tipologia: Notas de estudo

Antes de 2010

Compartilhado em 15/04/2010

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MARCIA ANTONIA GUEDES MOLINA
UNIVERSIDADE
DE
SANTO AMARO
Engenharia de Produção
Comunicação e Expressão
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MARCIA ANTONIA GUEDES MOLINA

UNIVERSIDADE

DE

SANTO AMARO

Engenharia de Produção

Comunicação e Expressão

M ARCIA A NTONIA GUEDES MOLINA

Comunicação e Expressão

Educação a Distância

  • APRESENTAÇÃO
    1. COMUNICAÇÃO E LINGUAGEM
  • 1.1 LINGUAGEM E LÍNGUAS
  • 1.2 PROCESSOS DE COMUNICAÇÃO
  • 1.3 ELEMENTOS DA COMUNICAÇÃO
  • 1.3.1 Código e mensagem
  • 1.3.2 O referente
  • 1.3.3 O canal de comunicação
  • .1.3.4 O esquema da comunicação
  • 1.4 AS FUNÇÕES DA LINGUAGEM
    1. TEXTO E TEXTUALIDADE
  • 2.1 COESÃO
  • 2.2 COERÊNCIA
    1. AS SUPERESTRUTURAS TEXTUAIS
  • 3.1 O TEXTO DESCRITIVO
  • 3.1.1 Características do texto descritivo
  • 3.2 O TEXTO NARRATIVO
  • 3.2.1 Características do texto narrativo
  • 3.3 O TEXTO DISSERTATIVO
  • 3.3.1 Características da dissertação
  • 3.3.2 Dissertação expositiva
  • 3.3.3 Dissertação Argumentativa
  • 3.3.4 Organização do texto dissertativo
    1. A CONSTITUIÇÃO DO TEXTO
  • 4.1 RELEMBRANDO A NOÇÃO DE TEXTO
  • 4.1.1 Texto e textualidade
  • 4.1.2 A Intertextualidade
  • 4.1.2.1 A Paródia
  • 4.1.2.2 A Paráfrase
  • 4.1.2.3 A Estilização
  • 4.1.2.4 A Apropriação
    1. O TEXTO ACADÊMICO
  • 5.1 O FICHAMENTO
  • 5.2 RESUMO
  • 5.3 A RESENHA
  • 5.3.1 Resenha crítica
  • 5.3.1.1 Requisitos básicos para se resenhar
  • 5.3.2 Resenha descritiva
    1. O TEXTO COMERCIAL
  • 6.1 AS CARTAS COMERCIAIS
  • 6.1.1 A composição da carta comercial
    1. OS E-MAILS
  • 7.1 INTERNET
  • 7.2 O E-MAIL PROPRIAMENTE DITO
  • 7.2.1 E-mails comerciais
  • 7.2.2 E-mails pessoais
    • CONSIDERAÇÕES FINAIS
    • REFERÊNCIAS

APRESENTAÇÃO

Uma língua é um lugar donde se vê o mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir.

(Vergílio Ferreira)

Nosso objetivo neste trabalho é sintetizar alguns conceitos de texto relevantes, para auxiliar o processo de produção escrita dos ingressantes no curso superior, favorecendo-lhes também uma orientação de como elaborar determinadas superestruturas textuais, por meio de técnicas de escritura e leitura de textos modelares e a competência para a produção de textos acadêmicos, possibilitando-lhes também uma orientação de como elaborar determinados técnicos. O trabalho embasa-se em obras dos mais renomados estudiosos da Lingüística, como Jakobson (s/d) e Vanoye (1998); dos mais importantes estudiosos da Lingüística de texto, como Fávero (1999), Kock (1997), Guimarães (2004) e Fiorin (2003); e em trabalhos de metodologia do trabalho científico, de autores de reconhecida competência, como Severino (2001) e Lakatos (1992). Os conteúdos estão assim organizados: primeiramente, discutiremos a questão de Língua e Linguagem; depois os elementos da comunicação e, embasados neles, as Funções da Linguagem. Partimos depois para as noções de texto, textualidade, coesão e coerência, para, em seguida, apresentar as superestruturas textuais tradicionalmente reconhecidas: descrição, narração e dissertação. Num outro capítulo, depois de uma revisão de texto e textualidade, apresentamos a noção de intertextualidade, compreendendo a de paródia, paráfrase, estilização e apropriação, para, então, partirmos para a discussão de fichamento, resumo e resenha. Partimos na seqüência para a apresentação da redação comercial e finalizamos a apostila com orientações de como escrever e-mails. A seleção desses conteúdos deve-se à sua relevância como ponto de partida para os demais textos, embora urge salientarmos que, numa obra simples como a nossa, não temos a

1.0 COMUNICAÇÃO E LINGUAGEM

Muitos autores costumam definir comunicação como “transmissão voluntária de informação” (Riegel, s/d, p.21). Como se procede, então, essa transmissão? Claro que por meio da linguagem. Émile Benveniste assevera que a linguagem é um sistema de signos socializados, remetendo-nos à sua função de comunicação. Vale salientar que, para que exista comunicação, as pessoas envolvidas no processo precisam fazer uso de um código comum, quer dizer, devem “falar a mesma língua”. Isto significa que só há comunicação quando um entende o outro.

1.1. LINGUAGEM E LÍNGUAS

As línguas são, de acordo com Vanoye (1998, p.21) “casos particulares de um fenômeno geral”, ou seja, a linguagem é o todo, todas as formas de comunicação, e comporta vários códigos, como cores, signos, assobios, código morse, etc., já as línguas são um tipo específico de linguagem.

1.2. PROCESSOS DE COMUNICAÇÃO

A comunicação pressupõe sempre a existência de dois pólos : aquele que emite a informação e aquele que a recebe: emissor/receptor – locutor/alocutário-ouvinte/leitor, etc. O veículo utilizado para a comunicação pode fazer com que esses papéis sejam intercambiáveis ou não. É importante frisarmos que, para que haja comunicação, deve haver sempre e, pelo menos, dois seres envolvidos, fazendo uso dos elementos da comunicação.

1.3. ELEMENTOS DA COMUNICAÇÃO

1.3.1. Código e mensagem

O emissor e o receptor, como já foi dito, devem dispor do mesmo código , ou seja, do mesmo sistema de signos, a fim de que a informação possa ser recebida e decodificada pelo receptor. Essa informação decodificada é a mensagem.

1.3.2. O referente

Riegel ( opus cit. P. 22) assevera: Os signos do código remetem à realidade tal qual é percebida pelo emissor e pelo receptor. O aspecto específico dessa realidade, que é evocada por um signo do código, é o referente desse signo. O universo referencial, exterior ao código, compreende tudo aquilo que pode ser designado pelos signos e suas combinações: seres, coisas, estados, acontecimentos, idéias, etc.

1.3.3. O canal de comunicação

É necessário um meio físico para que a mensagem possa ser veiculada para o interlocutor, a esse meio damos o nome de canal de comunicação. Constituem canais de comunicação o ar, um CD, um cabo, um telefone, etc.

1.3.4. O esquema da comunicação

A somatória desses elementos resulta no seguinte esquema que apresenta os elementos indispensáveis para a comunicação: Fig. 1 - Esquema da Comunicação

CÓDIGO

CONTEXTO

EMISSOR RECEPTOR

Canal de comunicação MENSAGEM

Ex. Prefeitura libera a pista expressa da Marginal Pinheiros. (Folha de São Paulo, 16 de janeiro de 2007)

Quando a mensagem está centrada no canal, falamos da função fática. Temos nesse caso tudo o que serve para, numa comunicação, estabelecer, manter ou encerrar o contato. Ex. Alô, alô, responde.... Responde......

Já, quando a mensagem prioriza o emissor, revelando sua personalidade, estamos à frente da função emotiva (ou expressiva). Ex. Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. (Carlos Drummond de Andrade) A função poética é aquela em que a prioridade está na própria mensagem, colocando em destaque o lado palpável dos signos (Jakobson, opus cit .) Ex. Vozes veladas, veludosas vozes, Volúpias dos violões, vozes veladas, Vagam nos velhos vórtices velozes Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas. (Cruz e Souza) Quando ocorre a orientação para o receptor (destinatário) temos a função conativa. Por isso, nessa função é comum observamos o emprego de verbos no modo imperativo e de vocativos e ponto de exclamação. Ex. Assine uma TV a cabo agora e comece a pagar somente depois do Carnaval.

Finalmente, quando é dada especial relevância ao código, estamos à frente da função metalingüística. Ex. Quando falamos de funções da linguagem, queremos dizer, da possibilidade que tem a língua de, de acordo com a intenção do falante, dar especial destaque a determinados elementos da comunicação. Neste caso, usamos a língua para explicar a própria língua.

2. TEXTO E TEXTUALIDADE

Texto, etimologicamente, quer dizer tecido , ou seja, trata-se de uma trama onde se devem enredar as palavras. Hoje, o Míni Houaiss (2001: 508) traz a seguinte definição para o termo: s.m. 1. Conjunto de palavras, frases escritas; 2. Trecho ou fragmento de obra de um autor; 3. qualquer material escrito destinado a ser falado ou lido em voz alta (...)

Já a Lingüística do Discurso procura estudar os textos como manifestações lingüísticas produzidas por indivíduos concretos em situações concretas, sob determinadas condições de produção (Kock, 1997, p.11), entendendo-os numa situação interacionista. Para que melhor possamos compreendê-los nessa perspectiva, analisemos as seqüências a seguir:

Para calar a boca: Rícino Pra lavar a roupa: Omo Para viagem longa: Jato Para difíceis contas: Calculadora Para o pneu na lona: Jacaré Para a pantalona: Nesga Para pular a onda: Litoral Para lápis ter ponta: Apontador Para o Pará e o Amazonas: Látex Para parar na pamplona: Assis Para trazer à tona: Homem - Rã Para a melhor azeitona: Ibéria Para o presente da noiva: Marzipã Para Adidas o Conga: Nacional Para o outono a folha: Exclusão Para embaixo da sombra: Guarda-Sol Para todas as coisas: Dicionário Para que fiquem prontas: Paciência Para dormir a fronha: Madrigal Para brincar na gangorra: Dois Para fazer uma toca: Bobs Para beber uma coca: Drops Para ferver uma sopa: Graus Para a luz lá na roça: 220 volts Para vigias em ronda: Café Para limpar a lousa: Apagador Para o beijo da moça: Paladar Para uma voz muito rouca: Hortelã Para a cor roxa: Ataúde Para a galocha: Verlon Para ser moda: Melancia Para abrir a rosa: Temporada

Por que a Terra roda? Por que deitar agora? Por que as cobras matam? Por que o vidro embaça? Por que você se pinta? Por que o tempo passa? Por que que a gente espirra? Por que as unhas crescem? Por que o sangue corre? Por que que a gente morre? Do qué é feita a nuvem? Do que é feita a neve? Como é que se escreve Reveillon? Well, well, well , Gabriel. (Fonte: http://vagalume.uol.com.br/adriana-calcanhoto/oito-anos.html)

Se não reconhecermos a seqüência, inadvertidamente, podemos julgá-la um amontado de perguntas sem nexo e, portanto, um não-texto. Contudo, novamente, temos aqui a letra de uma composição que Paula Toler dedicou a seu filho Gabriel, com as perguntas que ele, costumeiramente, lhe fazia. A música chama-se “Oito anos” e foi gravada por Adriana Calcanhoto. Agora, prestemos atenção a este segmento:

LA VARIÉTÉ ET LA FANTAISIE DE MA VIE DE TOUS LES JOURS

Tous les jours de la semaine, je ne me lève jamais a la même heure et ce n’est jamais la mème chose. Mes jours sont fous, fous, fous! Lorsque je me lève, je ne suis pas pressé... Je vois et je choisis, c’est ça? Qu’il faut faire... Je déjeune chaque jour à un restaurant différent. L’aprés-midi je vais au cinéma, ou pour les courses, ou jouer le bowling, au bien aux shoppings... Je fais de promenade, promenade, promenade... Naturellement, je ne peux pas travailler! Les soirs je m’amuse à quelque show, ou théatre, ou rendez-vous chez un ami... Les personnes ne me retrouvent jamais!

A seqüência acima só será texto para aqueles que dominam a língua em que foi escrita: francês, os demais reconhecerão a seqüência, mas como não interagem com ela, não conseguindo depreender-lhe um sentido, será um não-texto. Nesse sentido, como falamos, seguindo os passos de Kock e Travaglia (1990, p. 10), podemos compreender texto como:

(^1) http://www.sergiosakall.com.br/girafas/lingua_frances.html

Uma unidade lingüística concreta (perceptível pela visão ou audição), que é tomada pelos usuários da língua (falante, escritor/ouvinte, leitor), em uma situação de interação comunicativa, como uma unidade de sentido e como preenchendo uma função comunicativa reconhecível e reconhecida, independentemente da sua extensão. E deve ter textualidade: aquilo que converte uma seqüência lingüística em texto. (id.,p.45), isto é, ser todo, coeso e coerente para seus usuários. Vejamos, agora, brevemente, o que é coesão e coerência.

2.1. COESÃO

Fávero (1999, p.10) assim define coesão: A coesão, manifestada no nível microtextual, refere-se aos modos como os componentes do universo textual, isto é, as palavras que ouvimos ou vemos, estão ligados entre si dentro de uma seqüência. Podemos dizer, portanto, que coesão é o nome com que designamos as estratégias de ligação utilizadas num texto para torná-lo todo, ou seja, o uso de elementos capazes de estabelecer elos. Esses elos podem “amarrar” elementos mencionados anteriormente no texto, ocorrendo então o que os estudiosos chamam de anáfora: Ex. Fiz todos os exercícios indicados pela professora, mas minha amiga Carla não os fez (isto é, não fez os exercícios).

Podem também “amarrar” elementos que serão ainda mencionados no texto, ocorrendo então a chamada catáfora: Ex. Fui ao mercado e comprei todos os itens de que precisava, menos estes : arroz, batata e azeite.

Bem utilizar esses elementos auxilia bastante na boa escritura de uma seqüência, mas não é só isso. Vejamos agora outro elemento responsável pela textualidade, capaz de ajudar na produção textual.

2.2. COERÊNCIA

Coerência diz respeito ao sentido do texto.

3. AS SUPERESTRUTURAS TEXTUAIS

A noção de superestrutura, emprestada de Van Dijk, 2 diz respeito às estruturas globais que caracterizam alguns tipos de textos, independentemente de seu conteúdo. Dessa forma, relativamente ao aspecto estrutural, podemos inscrever os textos em: descritivos, narrativos e dissertativos. Essas superestruturas têm, como afirma Guimarães ( opus cit, p. 65), caráter convencional e são conhecidas e reconhecidas pelos falantes da língua, ou seja: Uma superestrutura é um tipo de esquema abstrato que estabelece a ordem global do texto, e que se compõe de uma série de categorias , cujas possibilidades de combinação se baseiam em regras convencionais.

A autora informa também que, embora haja sempre uma estrutura dominante, o texto pode apresentar outras. Por exemplo, um texto predominantemente narrativo pode apresentar trechos descritivos. O predominantemente dissertativo pode trazer, em alguns momentos, trechos que caracterizam a narração e/ou a descrição. O importante para um estudante do Curso de Letras é saber identificar no todo trechos dessa ou daquela estrutura, cujas características agora apresentamos.

3.1. O TEXTO DESCRITIVO

Descrever é caracterizar com detalhes objetos, locais, pessoas e situações, apresentando as características deles percebidas por meio dos cinco sentidos. Como é através dos sentidos que estabelecemos contato com o mundo à nossa volta, podemos dizer que essa estrutura textual é a mais primeva, constituindo elementos vitais de nossa sensibilidade.

Visão, tato, audição, paladar, olfato são os sentidos com que percebemos as coisas do mundo que se traduzem em formas, cores, texturas, cheiros, sonoridades a serem descobertas. (AMARAL E ANTÔNIO, 1991, p. 19)

(^2) Strategies of Discourse Comprehension , Nova Iorque: Academic, 1983.

Observemos agora as seguintes seqüências:

Era um dia abafadiço e aborrecido. A pobre cidade de São Luís do Maranhão parecia entorpecida pelo calor. Quase que se não podia sair à rua: as pedras escaldavam, as vidraças e os lampiões faiscavam ao sol como enormes diamantes, as paredes tinham reverberações de prata polida; as folhas das árvores nem se mexiam; as carroças d’água passavam ruidosamente a todo o instante, abalando os prédios, e os aguadeiros, em mangas de camisa e pernas arregaçadas, invadiam sem cerimônia as casas para encher as banheiras e os potes. Em certos pontos não se encontrava viva alma na rua; tudo estava concentrado, adormecido; só os pretos faziam as compras para o jantar ou andavam no ganho.^3

Trem das Cores Caetano Veloso A franja na encosta Cor de laranja Capim rosa chá O mel desses olhos luz Mel de cor ímpar O ouro ainda não bem verde da serra A prata do trem A lua e a estrela Anel de turquesa Os átomos todos dançam Madruga Reluz neblina Crianças cor de romã Entram no vagão O oliva da nuvem chumbo Ficando Pra trás da manhã E a seda azul do papel Que envolve a maçã As casas tão verde e rosa Que vão passando ao nos ver passar Os dois lados da janela E aquela num tom de azul Quase inexistente, azul que não há Azul que é pura memória de algum lugar Teu cabelo preto Explícito objeto Castanhos lábios Ou pra ser exato Lábios cor de açaí E aqui, trem das cores Sábios projetos: Tocar na central E o céu de um azul Celeste celestial (Fonte: http://64.233.187.104/:tremdascoresletra.caetanovelosoletrasdemusicas.lyrics.mus.br/)

(^3) AZEVEDO, A. O mulato. São Paulo: Ática, 1997.

O texto descritivo é predominantemente figurativo , ou seja, construído com termos essencialmente concretos, evocando uma figura , um efeito de realidade

Os textos figurativos produzem um efeito de realidade e, por isso, representam o mundo, com seus seres, seus acontecimentos. (PLATÃO E FIORIN, 1997, p. 89)

No fragmento 1 temos como exemplos de termos concretos: a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, etc. Outra característica do texto descritivo é que ele não traz mudança de situação. É estático. Representa o mundo num determinado momento. É recorte. Além disso, naquela instância em que se efetua a descrição, vários fatos simultâneos podem ser apresentados. Assim, Iracema, quando apreendida pelo narrador apresentava, simultaneamente, as seguintes características: era virgem, tinha lábios de mel; seus cabelos eram mais negros que a asa da graúna e mais longos que o talhe de palmeira; seu sorriso era doce como o favo da jati; seu hálito era perfumado, era ainda mais rápida que a ema, etc. etc. Essas características co-ocorriam. Estavam todas presentes na mesma instância, podendo inclusive ser invertidas no texto:

Ex. Seu sorriso era doce como o favo da jati; seu hálito era perfumado, era ainda mais rápida que a ema; era virgem, tinha lábios de mel; seus cabelos eram mais negros que a asa da graúna e mais longos que o talhe de palmeira (...)

isso porque não existe relação de anterioridade, nem de posterioridade no fragmento. Para que se estabeleça a comparação, retomemos o segundo fragmento: Iracema saiu do banho; o aljôfar d'água ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva. Enquanto repousa, empluma das penas do gará as flechas de seu arco, e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste.

Esse é um fragmento narrativo. Existe nele uma relação de anterioridade e posterioridade: primeiro a índia saiu do banho, depois pôs-se a repousar. A inversão dos fatos prejudicaria a seqüenciação do texto. Podemos perceber também, em ambos os textos, uma diferença no emprego dos tempos verbais: no primeiro predomina o pretérito imperfeito e, no segundo, o pretérito perfeito. Como a simultaneidade é a característica do texto descritivo, os tempos verbais mais empregados são o presente do indicativo e o pretérito imperfeito do indicativo.

Quanto à organização, podemos afirmar que se deve elaborar o texto descritivo espacialmente, isto é, os elementos devem ser descritos de baixo para cima, da esquerda para direita, de dentro para fora, etc, para que o leitor possa, paulatinamente, ir construindo a imagem daquilo de que se está tratando. Agora, reúna todas as informações dadas anteriormente a respeito do texto descritivo e leia a seguinte poesia de Manoel Bandeira, observando nela os traços da descrição:

Segunda canção do beco

Teu corpo moreno É da cor da praia. Deve ter o cheiro Da areia da praia. Deve ter o cheiro Que tem ao mormaço A areia da praia. Teu corpo moreno Deve ter o gosto De fruta de praia. Deve ter o travo, Deve ter a cica Dos cajus da praia. Não sei, não sei, mas Uma coisa me diz Que o teu corpo magro Nunca foi feliz.

3.2 O TEXTO NARRATIVO

De acordo com o Míni Houaiss (2001:364): “Narração: s.f. [é] exposição oral ou escrita de um fato”. Narrar é, portanto, representar um acontecimento ou uma série de acontecimentos reais ou fictícios num texto. Humberto Eco (1985, p. 21), no Pós-Escrito a O Nome da Rosa, ensina: (...) para contar é necessário primeiramente construir um mundo, o mais mobiliado possível, até os últimos pormenores. Constrói-se um rio, duas margens, e na margem esquerda coloca-se um pescador, e se esse pescador possui um temperamento agressivo e uma folha penal pouco limpa, pronto: pode-se começar a escrever, traduzindo em palavras o que não pode deixar de acontecer.(...)