Docsity
Docsity

Prepare-se para as provas
Prepare-se para as provas

Estude fácil! Tem muito documento disponível na Docsity


Ganhe pontos para baixar
Ganhe pontos para baixar

Ganhe pontos ajudando outros esrudantes ou compre um plano Premium


Guias e Dicas
Guias e Dicas


Integral de Lebesgue, Notas de estudo de Matemática

Conteúdo sobre integral, desenvolvido pelo professor do IM-UFRJ.

Tipologia: Notas de estudo

2013

Compartilhado em 16/01/2013

evelyn-catarina-1
evelyn-catarina-1 🇧🇷

3 documentos

1 / 47

Toggle sidebar

Esta página não é visível na pré-visualização

Não perca as partes importantes!

bg1
Introduc¸ ˜
ao `
a Teoria da Medida e
Integral de Lebesgue
Primeira Edi¸ao V0.8
5 de Janeiro de 2010
Marco A. P. Cabral,
PhD Indiana University, EUA
Depto. de Matem´atica Aplicada
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Rio de Janeiro RJ Brasil
pf3
pf4
pf5
pf8
pf9
pfa
pfd
pfe
pff
pf12
pf13
pf14
pf15
pf16
pf17
pf18
pf19
pf1a
pf1b
pf1c
pf1d
pf1e
pf1f
pf20
pf21
pf22
pf23
pf24
pf25
pf26
pf27
pf28
pf29
pf2a
pf2b
pf2c
pf2d
pf2e
pf2f

Pré-visualização parcial do texto

Baixe Integral de Lebesgue e outras Notas de estudo em PDF para Matemática, somente na Docsity!

Introduc¸ ˜ao `a Teoria da Medida e

Integral de Lebesgue

Primeira Edi¸c˜ao V0. 5 de Janeiro de 2010

Marco A. P. Cabral,

PhD Indiana University, EUA Depto. de Matem´atica Aplicada Universidade Federal do Rio de Janeiro Rio de Janeiro – RJ – Brasil

ii

iv

Sum´ario

  • 1 Espa¸co com Medida
    • 1.1 σ-Algebras´
    • 1.2 Espa¸cos com Medida
    • 1.3 Medida Exterior e M´etodo de Carath´eodory
    • 1.4 Medida de Lebesgue em R
    • 1.5 Exerc´ıcios
      • 1.5.1 σ-Algebras´
      • 1.5.2 Espa¸cos com Medida
      • 1.5.3 Medida Exterior e M´etodo de Carath´eodory
      • 1.5.4 Medida de Lebesgue em R
  • 2 Integra¸c˜ao
    • 2.1 Fun¸c˜oes Mensur´aveis
    • 2.2 Defini¸c˜ao da Integral
    • 2.3 Teoremas de Convergˆencia
    • 2.4 Integral de Riemann × Lebesgue
    • 2.5 Teorema de Radon-Nikod´ym e Fubini
    • 2.6 Outras Constru¸c˜oes da Integral
    • 2.7 Exerc´ıcios
      • 2.7.1 Fun¸c˜oes Mensur´aveis
      • 2.7.2 Defini¸c˜ao da Integral
      • 2.7.3 Teoremas de Convergˆencia
      • 2.7.4 Integral de Riemann × Lebesgue
      • 2.7.5 Teorema de Radon-Nikod´ym e Fubini
  • 3 Probabilidade e Medida
  • Bibliografia

Cap´ıtulo 1

Espac¸o com Medida

Uma medida num conjunto X ´e uma fun¸c˜ao que atribui um n´umero real n˜ao-negativo para subconjuntos de X. Pode ser interpretada como ´area, tamanho, massa, volume, capacidade t´ermica ou qualquer propriedade aditiva, i.e., uma propriedade tal que a medida da uni˜ao de dois conjuntos disjuntos ´e igual a soma de suas medidas. Um exemplo importante ´e a medida de Lebesgue no espa¸co euclidiano, que atribui comprimento, ´area e volume, respectivamente, a subconjuntos de Rn^ com n = 1, 2 , 3. Podemos enxergar a origem do conceito de medida no conceito de contagem. De fato, a ideia de contagem pode ser generalizada de dois modos: (a) como cardinalidade, ou (b) como medida. Existem conjuntos que s˜ao pequenos do ponto de vista da medida mas grandes do ponto de vista da cardinalidade. Um exemplo ´e Q, que possui medida (de Lebesgue) 0 mas possui infinitos pontos (cardinalidade infinita). Gostar´ıamos de atribuir uma medida para cada subconjunto de X mas o axioma da es- colha implica, de forma n˜ao-trivial, que existem subconjuntos de R (conjuntos de Vitali^1 , ver Exerc´ıcio 40, p.17) aos quais n˜ao podemos atribuir medida quando ela generaliza o compri- mento de intervalos de R. De fato ´e imposs´ıvel atribuir comprimento a todos subconjuntos de R preservando a aditividade e invariˆancia por transla¸c˜ao. Por isso temos que considerar uma cole¸c˜ao especial (usualmente menor) de subconjuntos de X onde a medida est´a definida, a chamada σ-´algebra de subconjuntos de X. Elementos da σ-´algebra s˜ao chamados de conjuntos mensur´aveis. Uma fun¸c˜ao ´e dita mensur´avel se a imagem inversa de todo mensur´avel ´e um mensur´avel. Decidimos apresentar a Teoria Geral da Medida, ao inv´es de medida de Lebesgue somente, pois a teoria geral ´e fundamental para a teoria de probabilidade e ´e mais f´acil que a constru¸c˜ao da medida de Lebesgue. De fato, para construir a medida de Lebesgue ´e necess´ario antes introduzir medida exterior e o m´etodo de Carath´eodory. Em resumo, nas duas primeiras se¸c˜oes definimos σ-´algebra e espa¸co de medida e nas duas ´ultimas se¸c˜oes apresentamos medida exterior (uma forma de construir medidas n˜ao-triviais) e a medida de Lebesgue.

(^1) Giuseppe Vitali: 1875 Ravenna, Italy – 1932 Bologna, Italy.

2 CAP´ITULO 1. ESPAC¸O COM MEDIDA

1.1 σ-´Algebras

O conceito usual de comprimento, ´area e volume se aplica somente a conjuntos com uma certa regularidade. Por isso para definir o conceito de medida temos que come¸car definindo uma classe de subconjuntos que podem ser medidos, a chamada σ-´algebra.

DEFINIC¸ ˜AO 1.1 Uma σ-´algebra de subconjuntos de X ´e uma fam´ılia Σ de subconjuntos de X tais que: (a) ∅ ∈ Σ; (b) para todo E ∈ Σ, seu complemento E{^ = X \ E ∈ Σ; (c) para toda sequˆencia 〈En〉n∈N em Σ, sua uni˜ao

n∈N

En ∈ Σ.

Elementos de Σ s˜ao chamados de conjuntos mensur´aveis.

Observa¸c˜ao 1.1 Uma ´algebra de conjuntos ´e um subconjunto fechado pelas opera¸c˜oes de complementa¸c˜ao e por uni˜ao finita. O σ da σ-´algebra ´e porque ela ´e fechada tamb´em pela uni˜ao enumer´avel. Note que, ao contr´ario da uni˜ao, n˜ao consideramos a complementa¸c˜ao enumer´avel (porque?).

Exemplo 1.1 Existem duas σ-´algebra de subconjuntos de X que s˜ao canˆonicas: (a) Σ = { ∅, X }, a menor σ-´algebra de X; (b) P(X), a maior σ-´algebra de X.

Exemplo 1.2 Considere X = { 1 , 2 , 3 , 4 }. S˜ao σ-´algebra de X (porque?): (a) Σ = { ∅, { 1 }, { 2 , 3 , 4 }, X }; (b) Σ = { ∅, { 1 , 2 }, { 3 , 4 }, X }.

Exemplo 1.3 O conjunto Σ = {A ∈ P(N); A ´e infinito} ∪ { ∅ } satisfaz algumas das propriedades (quais?) mas n˜ao ´e uma σ-´algebra.

Exemplo 1.4 O conjunto Σ = { ∅, Q, Q{, R } ´e uma σ-´algebra de R (porque?).

Exemplo 1.5 O conjunto Σ = {A ∈ P(R); A ou A{^ ´e enumer´avel} ´e uma σ-´algebra de R (porque?).

Exemplo 1.6 O conjunto Σ = {A ∈ P(R); A ´e um intervalo} n˜ao ´e uma σ-´algebra de R (porque?).

A prova do pr´oximo lema ´e um exerc´ıcio f´acil deixado para o leitor.

LEMA 1.2 (Propriedades Elementares de uma σ-´algebra) Se Σ ´e uma σ-´algebra de subconjuntos de X, ent˜ao para todo E, F ∈ Σ: (a) E ∪ F ∈ Σ; (b) E ∩ F ∈ Σ; (c) E \ F ∈ Σ; (d) se 〈En〉n∈N ´e uma sequˆencia em Σ, ent˜ao

n∈N

En ∈ Σ.

4 CAP´ITULO 1. ESPAC¸O COM MEDIDA

DEFINIC¸ ˜AO 1.6 A σ-´algebra gerada pela fam´ılia de abertos de R (ou Rn) ´e conhecida como σ-´algebra de Borel. Seus elementos s˜ao os conjuntos de Borel^2 ou borelianos.

Observa¸c˜ao 1.2 Veremos no Exerc´ıcio 4, p.13 que a σ-´algebra de Borel de R ´e gerada tamb´em pelos intervalos abertos ou fechados, limitados ou ilimitados.

Esta defini¸c˜ao ´e generalizada para um espa¸co topol´ogico (conjunto munido de uma topologia, um subconjunto das partes satisfazendo algumas propriedades, similar a defini¸c˜ao de σ-´algebra) qualquer. Caso n˜ao saiba o que ´e um espa¸co topol´ogico, n˜ao se preocupe, pois esta defini¸c˜ao n˜ao ser´a utilizada neste texto.

DEFINIC¸ ˜AO 1.7 Seja X um espa¸co topol´ogico. A σ-´algebra gerada pela fam´ılia de conjun- tos abertos de X ´e conhecida como σ-´algebra de Borel. Seus elementos s˜ao os conjuntos de Borel^3 ou borelianos de X.

1.2 Espa¸cos com Medida

A teoria da medida foi desenvolvida no final do s´eculo XIX e no in´ıcio do s´eculo XX por Emile Borel, Henri Lebesgue^4 , Johann Radon^5 and Maurice Fr´echet^6 , entre outros. As principais aplica¸c˜oes s˜ao:

  • na fundamenta¸c˜ao da integral de Lebesgue, que generaliza (com vantagens) a integral de Riemann.
  • na axiomatiza¸c˜ao da teoria de probabilidade feita por Andrey Kolmogorov;
  • na defini¸c˜ao de integral em espa¸cos mais gerais do que os euclidianos.

DEFINIC¸ ˜AO 1.8 Dizemos que a sequˆencia 〈En〉n∈N ´e disjunta se nenhum ponto pertence a mais do que um En, isto ´e, se Em

En = ∅ para todos m, n ∈ N distintos. De forma an´aloga, se 〈Ei〉i∈I ´e uma fam´ılia de conjuntos indexada por um conjunto arbitr´ario I, ent˜ao ele ´e disjunto se Ei

Ej = ∅ para todos i, j ∈ I distintos.

Para definir medida precisamos dizer o que significa uma fun¸c˜ao assumir valores em [0, ∞]. Este conjunto ´e a uni˜ao do elemento ‘∞’ com o intervalo [0, ∞) ⊂ R: um novo significado para o ∞ em Matem´atica. Em medida ele significa comprimento, ´area ou volume infinito. Precisamos definir as opera¸c˜oes aritm´eticas b´asicas envolvendo ∞: (a) adi¸c˜ao: ∞ + ∞ = ∞ + a = a + ∞ = ∞ para todo a ∈ R; (b) subtra¸c˜ao: ∞ − a = ∞ para todo a ∈ R; mas ∞ − ∞ n˜ao est´a definido; (c) multiplica¸c˜ao: ∞ · ∞ = a · ∞ = ∞ · a = ∞ para todo a > 0 e convencionamos (em medida, confronte com c´alculo) 0 · ∞ = ∞ · 0 = 0.

(^2) ´Emile Borel: 1871 Saint Affrique, France – 1956 Paris, France. (^4) Henri Lebesgue: 1875 Beauvais, France–1941 Paris, France. (^5) Johann Radon: 1887 Tetschen, Bohemia (now Decin, Czech Republic) – 1956 Vienna, Austria. (^6) Maurice Fr´echet: 1878 Maligny, France – 1973 Paris, France.

1.2. ESPAC¸OS COM MEDIDA 5

Finalmente podemos estender a rela¸c˜ao de ordem usual para incluir ∞: a < ∞ para todo a ∈ R. Com isto podemos definir o sup e o inf de subconjuntos de R ∪ { ∞ }. A conven¸c˜ao usual ´e que inf ∅ = ∞.

Outro ponto ´e: como interpretar

∑^ ∞

n=

xn com xn ∈ [0, ∞]?

(a) se todos os xn s˜ao finitos, trata-se de uma s´erie de termos n˜ao-negativos: ou converge para um n´umero real, ou ´e ilimitada, quando diremos que converge para ∞ (porque?).

(b) se um dos xn’s ´e igual a ∞, escrevemos que

∑^ ∞

n=

xn = ∞.

DEFINIC¸ ˜AO 1.9 Um espa¸co de medida ´e uma tripla (X, Σ, μ) onde: (a) X ´e um conjunto; (b) Σ ´e uma σ-´algebra de subconjuntos de X; (c) μ : Σ → [0, ∞] ´e uma fun¸c˜ao tal que: (c1) μ(∅) = 0;

(c2) se 〈En〉n∈N ´e uma sequˆencia disjunta em Σ, ent˜ao μ

n∈N

En

∑^ ∞

n=

μ(En).

Os elementos de Σ s˜ao chamados de conjuntos mensur´aveis (ou μ-mensur´aveis), e μ ´e chamado de uma medida em X. A propriedade (c2) ´e chamada de σ-aditividade ou aditividade cont´avel.

Observa¸c˜ao 1.3 Uma medida definida numa σ-´algebra de Borel (ver Defini¸c˜ao 1.6, p.4) ´e conhecida como medida de Borel.

Em linguagem informal, uma fun¸c˜ao ´e chamada de medida se atribui um n´umero real n˜ao-negativo ou infinito para cada conjunto, ´e aditiva (medida da soma ´e igual a soma das medidas de conjuntos disjuntos) e vale zero no conjunto vazio. Como j´a dissemos, ´e necess´ario se restringir a uma σ-´algebra pois ´e imposs´ıvel, de forma geral, se atribuir uma medida a TODOS os subconjuntos, a n˜ao ser para algumas medidas triviais que apresentamos na sequˆencia (por exemplo a medida delta de Dirac do Exemplo 1.11, p.6 e a medida de contagem do Exemplo 1.12, p.6), definidas na σ-´algebra trivial P(X).

DEFINIC¸ ˜AO 1.10 Seja h : X → [0, ∞] uma fun¸c˜ao qualquer. Dado E ⊂ X, defina:

μh(E) ,

x∈E

h(x) , sup

x∈I

h(x); I ⊂ E ´e finito

Ent˜ao μh ´e uma medida em P(X) (porque?). Dizemos que ´e uma medida pontual.

Observa¸c˜ao 1.4 Definimos

x∈∅

h(x) , 0.

1.2. ESPAC¸OS COM MEDIDA 7

Finalmente, lim n→∞ μ(En) = sup n∈N

μ(En) porque (por (b)) 〈μ(En)〉n∈N ´e n˜ao-decrescente.

(f) Suponha que μ(Ek) < ∞. Defina Fn , Ek \ Ek+n para n ∈ N, F =

n∈N

Fn; ent˜ao

〈Fn〉n∈N ´e uma sequˆencia n˜ao-decrescente em Σ e μ(F ) = lim n→∞ μ(Fn), por (e) acima. Temos

que μ(Fn) + μ(Ek+n) = μ(Ek); como μ(Ek) < ∞, n´os podemos escrever que μ(Fn) = μ(Ek) − μ(Ek+n), e portanto

μ(F ) = lim n→∞ (μ(Ek) − μ(Ek+n)) = μ(Ek) − lim n→∞ μ(En).

Agora, F ⊂ Ek, ent˜ao μ(F ) + μ(Ek \ F ) = μ(Ek), e (novamente pois μ(Ek) ´e finito) μ(F ) = μ(Ek) − μ(Ek \ F ). Portanto nos temos que μ(Ek \ F ) = lim n→∞ μ(En). Mas Ek \ F

´e somente

n∈N

En.

Finalmente, lim n→∞ μ(En) = inf n∈N μ(En) pois 〈μ(En)〉n∈N ´e n˜ao-crescente.

Observa¸c˜ao 1.5 Observe que em (f) acima ´e essencial ter que inf n∈N

μ(En) < ∞. De fato, tome X = N e seja μ a medida de contagem em X do Exemplo 1.12, p.6. Defina En , {i ∈ N; i ≥ n} para cada n. Ent˜ao En+1 ⊂ En para cada n, mas

μ

n∈N

En

= μ(∅) = 0 < ∞ = lim n→∞ μ(En).

DEFINIC¸ ˜AO 1.12 Seja (X, Σ, μ) um espa¸co de medida. Um conjunto A ⊂ X possui medida nula se existe um conjunto E ∈ Σ tal que A ⊂ E e μ(E) = 0.

Observa¸c˜ao 1.6 Um conjunto de medida nula n˜ao precisa ser mensur´avel, embora esteja contida em um conjunto mensur´avel de medida nula.

DEFINIC¸ ˜AO 1.13 Espa¸cos de medida em que todos os conjuntos de medida nula s˜ao men- sur´aveis ´e chamado de completo.

Deixamos a demonstra¸c˜ao do pr´oximo lema como exerc´ıcio.

LEMA 1.14 (Ideal de Conjuntos de Medida Nula) Seja N a fam´ılia de conjuntos de medida nula de um espa¸co de medida (X, Σ, μ). Ent˜ao: (a) ∅ ∈ N ; (b) se A ⊂ B ∈ N , ent˜ao A ∈ N ; (c) se 〈An〉n∈N ´e uma sequˆencia em N , ent˜ao

n∈N

An ∈ N.

LEMA 1.15 Dado um espa¸co de medida (X, Σ, μ), existe um espa¸co de medida completo

(X, Σ˜, ˜μ) tal que Σ ⊂ Σ˜ e μ = μ˜ em Σ.

8 CAP´ITULO 1. ESPAC¸O COM MEDIDA

Demonstra¸c˜ao. Seja N a fam´ılia de conjuntos de medida nula de (X, Σ, μ). Considere Σ^ ˜ , {X ∪ Z ∈ P(X); X ∈ Σ, Z ∈ N }. Para cada Y ∈ Σ˜, Y = X ∪ Z, defina μ ˜(Y ) , μ(X). Complete o argumento.

Exemplo 1. (a) para a medida de contagem, o ´unico conjunto de medida nula ´e o ∅. (b) para a medida δa de Dirac, um conjunto A possui medida nula se, e somente se, a 6 ∈ A.

DEFINIC¸ ˜AO 1.16 Se uma afirma¸c˜ao P (x) pode ser aplicada aos elementos x ∈ X de um espa¸co com medida μ, n´os dizemos que

P (x) para (μ-)quase todo ponto x ∈ X

significando que o conjunto {x ∈ X; P (x) ´e falso} possui medida nula com rela¸c˜ao a medida μ.

Observa¸c˜ao 1.7 As express˜oes ‘quase todo ponto’ (qtp), ‘quase sempre’, ‘almost everywhere’ (a.e.), ‘almost surely’ (a.s.), ‘presque partout’ (p.p.) significam a mesma coisa.

Exemplo 1.15 Se f, g, fn : X → R s˜ao fun¸c˜oes: (a) ‘f > 0 qtp.’ significa que {x ∈ X; f (x) ≤ 0 } possui medida nula; (b) ‘f = g qtp.’, significa que {x ∈ X; f (x) 6 = g(x)} possui medida nula; (c) ‘f < g qtp.’, significa que {x ∈ X; f (x) ≥ g(x)} possui medida nula; (d) ‘f ≥ g qtp.’, significa que {x ∈ X; f (x) < g(x)} possui medida nula; (f) ‘fn → g qtp.’, significa que {x ∈ X; fn(x) 6 → g(x)} possui medida nula.

Se o conjunto onde est´a definido a medida ´e um espa¸co topol´ogico (conjunto munido de uma topologia, similar a defini¸c˜ao de σ-´algebra), podemos colocar condi¸c˜oes de compa- tibilidade entre a medida e a topologia. O exemplo importante ´e uma medida definida na σ-´algebra gerada pelos abertos, (σ-´algebra de Borel, ver Defini¸c˜ao 1.7, p.4), conhecida como medida de Borel.

1.3 Medida Exterior e M´etodo de Carath´eodory

A teoria geral de Medida Exterior (tamb´em chamado de pr´e-medida) foi introduzida por Cara- th´eodory^8. E um m´´ etodo fundamental para se definir medidas n˜ao-triviais, incluindo a medida de Lebesgue. Vamos ilustrar como esta constru¸c˜ao abstrata surge quando se tenta estender a medida de intervalos para um subconjunto qualquer de R. Podemos proceder da seguinte forma:

(^8) Constantin Carath´eodory: 1873 Berlin, Germany – 1950 Munich, Germany.

10 CAP´ITULO 1. ESPAC¸O COM MEDIDA

Observe que o conjunto A decomp˜oe qualquer E em duas partes disjuntas (E ∩ A) e (E \ A) (ver Figura 1.1). Como θ∗^ ´e somente subaditiva (se fosse aditiva ter´ıamos igualdade) n´os temos que

θ∗(E) ≤ θ∗(E ∩ A) + θ∗(E \ A).

Se a igualdade ocorrer para todo E, ent˜ao o conjunto A ser´a mensur´avel com rela¸c˜ao a medida μ.

A
E 1
E 1 ∩ A
E 1 \ A
A
E 2
E 2 ∩ A
E 2 \ A
A
E 3
E 3 ∩ A
E 3 \ A
A
E 4
E 4 ∩ A
E 4 \ A

Figura 1.1: A ´e mensur´avel sse θ∗(Ei) = θ∗(Ei ∩ A) + θ∗(Ei \ A) para todo Ei.

1.4 Medida de Lebesgue em R

A medida de Lebesgue, al´em de ser a mais importante para aplica¸c˜oes, foi, historicamente, o guia para a Teoria Geral da Medida, onde os resultados inicialmente foram desenvolvidos. O roteiro que vamos seguir ´e definir o comprimento de intervalos e utiliz´a-los para definir uma medida exterior. Aplicando o Teorema de Extens˜ao de Carath´eodory obtemos uma medida e uma σ-´algebra, chamadas de medida e σ-´algebra de Lebesgue. Esta ser´a a primeira medida n˜ao-trivial que definiremos. Nos exerc´ıcios existem diversas outras medidas constru´ıdas de forma semelhante como por exemplo (Exerc´ıcio 41, p.17) a medida de Lebesgue-Stieltjes, muita usada em Probabilidade.

DEFINIC¸ ˜AO 1.19 Seja I = [a, b) ⊂ R um intervalo semiaberto. Definimos seu compri- mento λ(I) por λ(∅) , 0 , λ([a, b)) , b − a se a < b.

1.4. MEDIDA DE LEBESGUE EM R 11

DEFINIC¸ ˜AO 1.20 Definimos θ∗^ : P(R) → [0, ∞], a medida exterior de Lebesgue por

θ∗(A) , inf

j=

λ(Ij ); 〈Ij 〉j∈N ´e uma seq. de intervalos semiabertos t.q. A ⊂

j∈N

Ij

Observa¸c˜ao 1.9 Observe que θ∗^ est´a bem definida pois todo A pode ser coberto por alguma sequˆencia de intervalos semiabertos – por exemplo A ⊂

n∈N

[−n, n); portanto n´os

sempre temos um conjunto n˜ao-vazio para tomar o infimum, e θ∗(A) est´a sempre definida em [0, ∞].

O fato que θ∗^ ´e uma medida exterior ´e justificado pelo item (a) da pr´oxima Proposi¸c˜ao. Deixamos como exerc´ıcio provar (a) e parte de (b).

PROPOSIC¸ ˜AO 1.21 (Medida exterior de Lebesgue) Seja θ∗^ dada pela Defini¸c˜ao 1.20. (a) θ∗^ ´e uma medida exterior em R. (b) θ∗^ ´e uma extens˜ao de λ, isto ´e, θ∗(I) = λ(I) para todo intervalo semiaberto I ⊂ R.

Como a medida exterior de Lebesgue ´e uma medida exterior, podemos us´a-la para construir a medida μ usando o m´etodo de Carath´eodory.

DEFINIC¸ ˜AO 1.22 A medida μ obtida pela aplica¸c˜ao do Teorema 1.18 `a medida exterior θ∗ ´e chamada de medida de Lebesgue em R. Os conjuntos E ⊂ R tais que

θ∗(A ∩ E) + θ∗(A \ E) = θ∗(A), para todo A ⊂ R,

s˜ao chamados de conjuntos mensur´aveis a Lebesgue.

No caso da medida de Lebesgue, em livros de an´alise aparece a defini¸c˜ao abaixo, equiva- lente a defini¸c˜ao geral de conjunto de medida nula j´a apresentado (porque?).

DEFINIC¸ ˜AO 1.23 Dizemos que A ⊂ R tem medida (de Lebesgue) nula se para todo ε > 0 , existe uma sequˆencia (In)n∈N de intervalos abertos e limitados tal que

A ⊂

n=

In e

∑^ +∞

n=

|In| ≤ ε, (1.1)

sendo que |I| representa o comprimento do intervalo I, ou seja, |I| = b − a se I = (a, b).

Terminamos apresentando (sem demonstra¸c˜ao) um Teorema que relaciona conjuntos de Borel com conjuntos mensur´aveis a Lebesgue. Sua importˆancia ´e garantir que utilizando o m´etodo de Carath´eodory obtemos uma σ-´algebra grande o suficiente para incluir os conjuntos de Borel.

? TEOREMA 1.24 (Conjuntos de Borel s˜ao mensur´aveis a Lebesgue) Todo conjunto de Borel de R ´e mensur´avel a Lebesgue.

1.5. EXERC´ICIOS 13

θ∗^ : P(X) → [0, ∞] por

θ∗(A) , inf

j=

λ(Ij ); 〈Ij 〉j∈N ´e uma seq. in I t.q. A ⊂

j∈N

Ij

interpretando inf ∅ como ∞, de modo que θ∗(A) = ∞ se A n˜ao ´e coberto por qualquer sequˆencia em I (na caso da medida de Lebesgue isto n˜ao acontece). Podemo provar que θ∗^ ´e uma medida exterior em X. No Exerc´ıcio 31, p.16 exploramos uma constru¸c˜ao similar por´em mais simples. Outros exemplos importantes que utilizam esta constru¸c˜ao abstrata ´e: (a) A medida de Lebesgue-Stieltjes, apresentada no Exerc´ıcio 41, p.17, muita usada em Probabilidade. (b) A medida exterior de Hausdorff referida acima.

1.5 Exerc´ıcios

1.5.1 σ-´Algebras

=⇒ 1. Porque n˜ao precisamos considerar a opera¸c˜ao de complementa¸c˜ao enumer´avel na De- fini¸c˜ao 1.1, p.2?

=⇒ 2. Considere Σ = {A ⊂ R; A ´e enumer´avel ou A{^ ´e enumer´avel} e A = {{ x }; x ∈ R} (subconjuntos de R unit´arios). Prove que: (a) Σ ´e uma σ-´algebra; (b) a σ-´algebra gerada por A ´e igual a Σ.

=⇒ 3. Considere X = { 1 , 2 , 3 , 5 , 6 }. Determine a σ-´algebra gerada por: (a) A 1 = { { 2 } }; (b) A 2 = { { 1 , 2 } }; (c) A 3 = { { 1 , 2 , 3 } }; (d) A 4 = { { 1 , 2 }, { 1 , 3 } }; (e) A 5 = { { 1 }, { 2 , 3 } }.

=⇒ 4. Considere as seguintes fam´ılias de intervalos de R: A 1 = {(−∞, a) ; a ∈ R}, A 2 = {[a, ∞) ; a ∈ R}, A 3 = {[a, b); a, b ∈ R}, A 4 = {[a, b]; a, b ∈ R}. (a) Prove que todo intervalo I ∈ Ai, para algum i, ´e um conjunto de Borel. (b) Prove que a σ-´algebra gerada por Ai, para cada i, ´e a σ-´algebra de Borel. → 5. Seja Σ uma σ-´algebra de subconjuntos de X e A ⊂ X. Prove que

{(E ∩ A) ∪ (F \ A); E, F ∈ Σ}

´e uma σ-´algebra de subconjuntos de X gerada por Σ ∪ { A }. Dica: Prove a uni˜ao primeiro. Prove a interse¸c˜ao e use leis de Morgan para o complemen- tar.

  1. Prove o Lema 1.2, p.2.
  2. Prove o Lema 1.3, p.3.
  3. Complete o argumento do Corol´ario 1.4, p.3.
14 CAP´ITULO 1. ESPAC¸O COM MEDIDA
  1. Prove que todo G ⊂ R aberto pode ser escrito de forma ´unica como a uni˜ao enumer´avel de intervalos abertos. Dica: Para cada x, y ∈ G, defina a rela¸c˜ao x ∼ y se o intervalo [x, y] ⊂ G (se x ≤ y) ou [y, x] ⊂ G (caso contr´ario). Prove que ∼ ´e uma rela¸c˜ao de equivalˆencia. Defina I como o conjunto das classes de equivalˆencia. Prove que existe uma fun¸c˜ao injetiva de I em Q. Cada classe ´e um intervalo aberto. ý 10. (extra) Prove que dado a ∈ R e um conjunto de Borel E ⊂ R, E + a ´e um conjunto de Borel. Dica: Prove que {E; E + a ´e Borel} ´e uma σ-´algebra contendo os abertos. ý 11. (extra) Seja E ⊂ R^2 um conjunto de Borel e P : R^2 → R definida por P (x, y) , x (proje¸c˜ao ortogonal no eixo-x). Prove que P (E) ´e um conjunto de Borel em R.
1.5.2 Espa¸cos com Medida
  1. Prove que se (An)n∈N ´e uma sequˆencia de conjuntos de medida nula (veja Defini¸c˜ao 1.12,

p.7), ent˜ao

n=

An tem medida nula.

=⇒ 13. Prove que para a medida: (a) de contagem, o ´unico conjunto de medida nula ´e o ∅; (b) δa de Dirac, um conjunto A possui medida nula se, e somente se, a 6 ∈ A.

=⇒ 14. Explique o significado das express˜oes abaixo para a medida de contagem e para a medida δa de Dirac: (a) f = 0 quase todo ponto; (b) f > 0 quase todo ponto.

  1. Considere μh a medida pontual do Exemplo 1.10, p.5 com h = | sen |. Ent˜ao μh(A) = 0 se, e somente se, A......... (complete a lacuna).

=⇒ 16. Considere μh a medida pontual do Exemplo 1.10, p.5 com h = I{ x> 0 }. Determine se ´e Verdadeiro ou Falso: (a) I{ x<− 3 } = 0 μh-qtp; (b) I{ x< 1 } = I{ 0 ≤x< 1 } μh-qtp. → 17. Considere μh a medida pontual do Exemplo 1.10, p.5. Chamamos de suporte de uma fun¸c˜ao f o conjunto dos pontos onde f se anula. Utilize o conceito de suporte para determinar condi¸c˜oes equivalentes a: (a) μh(A) = 0; (b) g = 0 qtp. com rela¸c˜ao a μh.

  1. Prove que a medida pontual μh da Defini¸c˜ao 1.10, p.5 ´e uma medida.
  2. Prove os itens (a), (b), (c) e (d) do Lema 1.11, p.6.
  3. Prove o Lema 1.14, p.7.
  4. Considere a prova do Lema 1.15, p.7. Prove que (a) Σ˜ ´e uma σ-´algebra; (b) (X, Σ˜, μ˜) ´e completo. → 22. Seja (X, Σ, μ) um espa¸co de medida. Prove que: