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Introdução a descrição micromorfológica
Tipologia: Notas de estudo
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Historicamente, Kubiena (1938) é considerado o precursor da observação de lâminas delgadas de solo. A micromorfologia corresponde a uma escala de observação da cobertura pedológica, indispensável ao entendimento da organização e do funcionamento do solo. O uso adequado da micromorfologia necessita de um conhecimento detalhado da distribuição dos diversos horizontes e volumes do solo, tanto no perfil como na paisagem. Assim a observação micromorfológica é um zoom na organização da cobertura pedológica. A micromorfologia é uma técnica de estudo que utiliza amostras não deformadas de solo e permite, com a ajuda de técnicas microscópicas e ultramicroscópicas, identificar os constituintes elementares (plasma^3 , esqueleto^4 , vazios^5 , etc.) e as diversas associações destes, além de permitir identificar suas relações mútuas no espaço e, muitas vezes, no tempo. A análise microscópica dos solos corresponde a uma técnica de observação de material pedológico previamente impregnado (PAULA et al.,1991; FILIZOLA & GOMES, 2004), laminado até atingir de 25 a 30μm de espessura e colado em lâminas de vidro, freqüentemente similares às petrográficas. Dependendo do que se quer observar,
tamanhos maiores podem ser utilizados e, neste caso, são chamadas de lâminas mamutes. As amostras de solo assim preparadas são observadas com o auxílio de lupas e microscópios óticos polarizantes (Figura 1). As lâminas delgadas podem também ser submetidas à microscopia eletrônica de varredura e à microanálise, desde que não estejam recobertas por lamínula.
(^1) Bacharel em Geografia, Doutora em Ciências da Terra, Embrapa Meio Ambiente, Rod. SP 340, km 127,5 - Caixa Postal 69, Tanquinho Velho, 13.820-000 Jaguariúna, 2 SP. [email protected] Geólogo, Doutor em Solos e Nutrição de Plantas, Embrapa Meio Ambiente, Rod. SP 340, km 127,5 - Caixa Postal 69, Tanquinho Velho, 13.820-000 Jaguariúna, SP. [email protected]
Jaguariúna, SP
Introdução
Introdução à Descrição Micromorfológica de Lâminas Delgadas de Solos PARTE 1
(^3) Plasma: constituido pela fração argila (^4) Esqueleto: constituido pelas frações areia e silte (^5) Vazio: corresponde à porosidade do solo
Fig. 1. Esquema de um microscópio ótico.
Ocular
Analisador
Objetiva
Platina
Polarizador
Espelho
Fonte de luz
A amostragem de solos para obtenção de lâminas delgadas busca responder a duas preocupações intimamente ligadas:
A cobertura pedológica
O solo pode ser interpretado como resultante da alteração das rochas e da pedogênese, englobando uma série de processos como pseudomorfose^6 , neoformações^7 , transferências e acumulações de matéria, pedoturbações, etc. que promovem a formação dos horizontes do solo cuja estrutura nada mais tem a ver com aquela da rocha mãe (Figura 2).
Os níveis de organização da cobertura pedológica estão embutidos uns nos outros e suas ordens de grandeza variam do quilômetro (km) ao micrometro (mm) ou mesmo ao angströn (Å). Isto significa que dentro de uma cobertura pedológica ocorrem diferentes horizontes e volumes de solos que se superpõem, justapõem, superimpõem, etc. e que devem ser identificados em campo mediante a abertura de trincheiras ou em cortes de estrada. Cada um desses horizontes é composto por um conjunto de agregados e vazios que quando cortados e colados a lâminas permitem identificar, na escala micromorfológica, o arranjo dos constituintes que compõe o fundo matricial. A micromorfologia de solos permite a identificação e o estudo detalhado dos constituintes dos horizontes do solo e de suas relações (tipos de organização, hierarquia e cronologia das organizações) e é uma ferramenta importante nas deduções a respeito de processos pedológicos. A micromorfologia da alteração da rocha permite o
acompanhamento de todas as transformações sofridas por esta até tornar-se solo.
Descrição sumária de lâminas delgadas
Solo
Alteração do gneiss Fig. 2. Solo desenvolvido in situ a partir de gneiss (SP).
(^6) Pseudomorfose: processo de alteração parcial ou total de um mineral primário em secundário com a preservação da forma original. (^7) Neoformação: processo de formação de mineral secundário a partir da cristalização in situ de produtos resultantes dos processos de dissolução, hidrólise, etc..
2%
5%
10%
20%
30%
40%
50%
Fig. 3. Padrão de freqüência de grãos do esqueleto (adaptado de Fitzpatrick , 1984).
Dimensão ¾ silte: 2 - 50 μm ¾ areia muito fina: 50 - 100 μm ¾ areia fina: 100 - 200 μm ¾ areia média: 200 - 500 μm ¾ areia grossa: 500 - 1000 μm ¾ areia muito grossa:1000 – 2000 μm
Grau de seleção ¾ perfeitamente selecionado: só uma fração presente ¾ bem selecionado: 5 a 10% de contribuição de outras frações ¾ moderadamente selecionado: 10 a 30% de distribuição de outras frações ¾ pobremente selecionado: não há fração dominante ¾ mal selecionado: há grande variedade de frações
Os constituintes do esqueleto devem ainda ser descritos quanto à : Textura superficial: forma em que se encontram as superfícies externas dos grãos (ex.: cariados, picotados, polidos, ferruginizados, etc.); Esfericidade (arredondamento, angulosidade) é avaliada por meio de comparação visual utilizando tabelas como propostas por Pettijohn (1975), Suguio (1980), Briggs (1977), etc. (Figura 4); Mineralogia - para a identificação mineralógica dos grãos constituintes do esqueleto utiliza-se critérios óticos encontrados em manuais de mineralogia como os de
Winchell (1951), Phillips (1971), Fabries et al. (1982) e atlas de micromorfologia como os de Delvigne (1998), o de MacKenzie & Guilford (1988), dentre outros.
Fig.4. Classes usadas para daterminações de arredondamento: A=muito angulosa; B= angulosa; C= subangulosa; D= subarredondada; E= arredondada; F= bem arredondada. Fonte: Shepard, 1967 in Suguio (1980).
Forma: intergranulares ou de empilhamento, cavidades, vesículas, canais, alvéolos ou câmaras e fissuras (Figura 5). Dependendo do tipo de material, as vezes é difícil distinguir os canais das fissuras.
Simples Complexos
agregados
6 -^ FISSURAS
Oblíquas Complexas
5 - ALVÉOLOS OU CÂMARAS
3 - VESÍCULAS
2- CAVIDADES
1 - INTERGRANULARES ou de EMPILHAMENTO
P = poro plasma esqueleto
Orto Meta
P
Junção Oblíquas Complexas
P
grão P
P
P P
reorientaçãoplásmica
P P
P
P
P
P
P
4- CANAIS
Fig. 5. Classificação morfológica dos poros (adaptado de Brewer, 1976).
Origem: ¾ criados no processo de pedogênese: pedoporos ¾ criados pela ação biológica (fauna e flora), geralmente cortam estruturas pré-existentes e têm forma de canais e alvéolos: bioporos.
Fig. 6. Padrões de extinção.
Distribuição: de base, referenciada e relativa para o esqueleto. Vários autores propuseram diversas classificações da distribuição relativa do fundo matricial, mas aqui será apresentada somente aquela proposta por Brewer (1976). ¾ porfiroesquélica: Quando o plasma é contínuo e envolve os grãos do esqueleto (Figura 7a). aglomeroplásmica: O plasma ocorre solto, desprendido ou como preenchimento incompleto entre os grãos do esqueleto (Figura 7b).
Fig. 7a (LN): Fundo matricial porfiroesquélico (Filizola, 1993).
Fig. 7b (LN): Fundo matricial aglomeroplásmico (Filizola, 1993).
Fig. 10. (LP): Estrutura plásmica Mossépica (Filizola, 1993).
¾ VOSSÉPICA - separações associadas às paredes dos poros (Figura 11).
Fig. 11. (LP): Estrutura plásmica Vossépica (Boulet, inédita).
¾ ESQUELSSÉPICA - separaçõe plásmicas ligadas às superfícies dos grãos do esqueleto.
Fig.12 (LN e LP): Estrutura plásmica Esquelssépica (Boulet, inédita).
¾ MASSÉPICA – todo o plasma é constituído de domínios, cuja extinção estriada pode ser segundo uma ou duas direções (bimassépica). Quando as duas direções formam um padrão tipo treliça a denominação é Latissépica (Figura 13).
Fig. 13. (LP): Estrutura plásmica Latissépica (Filizola, 1993).
¾ OMNISSÉPICA - separações plásmicas cujas estriações são complexas e emaranhadas. ¾ CRÍSTICA - os cristais são identificáveis individualmente, mas em geral são muito pequenos.
Fig. 14. (LP): Estrutura plásmica Crística (Filizola, 1993).
¾ ONDÚLICA - quase isotrópico em aumentos fracos, e fraca anisotropia com leve extinção ondulante, em fortes aumentos e luz de intensidade alta. ¾ ISÓTICA - isotropia devido a opacidade causada por ferro, material orgânico, etc..
Microscopia eletrônica de varredura e microssonda
O microscópio eletrônico de varredura (Figura 15) é eficaz para o reconhecimento das formas dos cristais em especial. Também auxilia na detecção do arranjo entre constituintes, da microporosidade e da presença de unidades criptocristalinas. O reconhecimento cristalográfico é visual por comparação com os edifícios cristalinos conhecidos. A microssonda, que normalmente está acoplada ao microscópio de varredura, faz a análise química pontual dos elementos, permitindo estabelecer a composição química dos locais selecionados. Uma vez passado na microssonda, o ponto fica inutilizado. Como o custo dessas análises é muito elevado elas devem ser feitas apenas nos locais selecionados que não foram completamente elucidados com a microscopia ótica e
Exemplares desta edição podem ser adquiridos na: Embrapa Meio Ambiente Endereço : Rodovia SP 340 km 127, Caixa Postal 69, Tanquinho Velho 13.820-000 Jaguariúna/SP Fone : (19) 3867- Fax : (19) 3867- E-mail : [email protected]
1 a^ edição eletrônica 2006
Presidente : Ladislau Araújo Skorupa. Secretário-Executivo : Sandro Freitas Nunes. Bibliotecário : Maria Amélia de Toledo Leme. Membros : Cláudio César de A. Buschinelli, Heloisa Ferreira Filizola, Manoel Dornelas de Souza, Maria Conceição P. Young Pessoa, Marta Camargo de Assis, Osvaldo Cabral
Tratamento das ilustrações : Sandro Freitas Nunes. Editoração eletrônica : Sandro Freitas Nunes.
Comitê de Publicações
Expediente
Comunicado Técnico, 41
Monitor
Bobinas devarredura
Lente do sistema de iluminação
Canhão de elétron
Amostra Detector
Objetiva
Fig. 15. Esquema de funcionamento de um microscópio eletrônico de varredura. Fonte: http://acept.la.asu.edu/PiN/rdg/elmicr/elmicr.shtml
Referências
BREWER, R. Fabric and mineral analysis of soils. Hungston: Robert E. Krieger, 1976. 482 p.
BRIGGS, D. Sediments. London: Butterworts, 1977. 193 p.
DELVIGNE, J.E. Atlas of micromorphology of mineral alteration and weathering. Ottawa: The Canadian Mineralogist, 1998. 495 p. (Special Publication, 3).
FABRIES, J.; TOURET, J.; WEISBROD, A. Determination des minéraux des roches au microscope polarisant de Marcel Roubault. Paris: Éditions Lamarre-Poinat, 1982. 382 p.
demais análises. Podem ser examinadas além das lâminas sem lamínulas, os agregados naturais (estes não impregnados).
FILIZOLA, H.F. O papel da erosão geoquímica na evolução do modelado da bacia de Taubaté -SP. 1993. Tese (Doutorado) - FFLCH-USP, São Paulo, 1993.
FILIZOLA, H.F.; GOMES, M.A.F. Coleta e impregnação de amostras de solo para análise micromorfológica. Jaguariúna: Embrapa Meio Ambiente, 2004. 4p. (Embrapa Meio Ambiente. Comunicado Técnico, 20).
FITZPATRICK, E.A. Micromorphology of soils. New York : Robert E. Krieger, 1984. 482p.
KUBIENA, W.L. Micropedology. Ames: Collegiate Press,
MACKENZIE, W.S.; GUILFORD, C. Atlas of rock-forming minerals in thin section. New York: John Wiley & Sons,
PAULA, N. de; YAMAMOTO, J.K.; TOGNON, A.A. Seções delgadas de solos: método de impregnação com resina plástica Araldite. Boletim IG-USP , Publ. Esp. (Jornadas Científicas) n.9, p. 193-196, 1991.
PETTIJOHN, F. Sedimentary rocks. 3.ed. New York: Harper & Row, 1975. 628p.
PHILLIPS, W.R. Mineral optics : principles and techniques. San Francisco: Freeman, 1971. 249 p.
SUGUIO, K. Rochas sedimentares. São Paulo: Edgar Blücher: Ed. Universidade de São Paulo, 1980. 500 p.
WINCHELL, A. N. Elements of optical mineralogy. New York: John Wiley and Sons, 1951. 551p.