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Sofrimento social, Notas de aula de Anestesia

contradição à dor, esta seria uma sensação fisiológica e o sofrimento, por sua vez, ... questão da inutilidade social de boa parte da população.

Tipologia: Notas de aula

2023

Compartilhado em 17/01/2023

Jandiara62
Jandiara62 🇵🇹

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bg1
743
Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 116, p. 743-768, out./dez. 2013
Sofrimento social
Social suffering
Rosangela Werlang*
Jussara Maria Rosa Mendes**
Resumo: Este estudo trata do sofrimento social em perspectiva
contemporânea. O sofrimento não é temática nova, todavia, as trans‑
formações socioeconômicas hodiernas fazem surgir novas formas de
vida e trabalho que têm remetido à precariedade. O sofrimento social
é um sofrimento que se instala/esconde nas zonas de precariedade, nas
zonas sociais de fragilidade e cuja ação implica na perda ou possibili‑
dade de perda dos objetos sociais: saúde, trabalho, desejos, sonhos,
vínculos sociais, ou seja, o todo da vida composto pelo concreto e pelo
subjetivo que permite o viver.
Palavras‑chave: Sofrimento. Sofrimento Social. Autoexclusão.
Abstract: This study deals with social suffering in a contemporary perspective. Suffering is not a
new theme, however, contemporary socio‑economic transformations arise new forms of life and work
that could be causing strong situations of precariousness. Social suffering is a suffering that installs/
hides in areas of insecurity, social areas of fragility, and its action implies loss or possibility of loss of
social objects like health, work, desires, dreams, social bonds, that is, the whole of life composed of
the concrete and the subjective that allows living
Keywords: Suffering. Social suffering. Self‑exclusion.
* Mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS). Mestre em Direi‑
tos Humanos e Desenvolvimento pela Universidade Pablo de Olavide, Sevilha, Espanha. Doutora em Psico‑
logia Social e Institucional pela UFGRS. Diretora acadêmica e professora da Faculdade de Integração do
Ensino Superior do Cone Sul, Garibaldi, Rio Grande do Sul, Brasil. Professora convidada do curso de Espe‑
cialização e Ética e Direitos Humanos da UFRGS. E‑mail:[email protected].
** Docente e pesquisadora do Programa de Pós‑Graduação em Psicologia Social e Institucional. Mes‑
tre em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul; doutora em Serviço Social
pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Pós‑doutoranda em Serviço Social pela Universität
Kassel, República Federal da Alemanha. Consultora da Coordenação da Área Técnica de Saúde do Traba‑
lhadordoMinistériodaSaúde.ConsultoradoConselhoNacionaldeDesenvolvimentoCientíficoeTecno
lógico. E‑mail: [email protected].
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Sofrimento social

Social suffering

Rosangela Werlang*

Jussara Maria Rosa Mendes**

Resumo: Este estudo trata do sofrimento social em perspectiva contemporânea. O sofrimento não é temática nova, todavia, as trans‑ formações socioeconômicas hodiernas fazem surgir novas formas de vida e trabalho que têm remetido à precariedade. O sofrimento social é um sofrimento que se instala/esconde nas zonas de precariedade, nas zonas sociais de fragilidade e cuja ação implica na perda ou possibili‑ dade de perda dos objetos sociais: saúde, trabalho, desejos, sonhos, vínculos sociais, ou seja, o todo da vida composto pelo concreto e pelo subjetivo que permite o viver. Palavras‑chave : Sofrimento. Sofrimento Social. Autoexclusão.

Abstract: This study deals with social suffering in a contemporary perspective. Suffering is not a new theme, however, contemporary socio‑economic transformations arise new forms of life and work that could be causing strong situations of precariousness. Social suffering is a suffering that installs/ hides in areas of insecurity, social areas of fragility, and its action implies loss or possibility of loss of social objects like health, work, desires, dreams, social bonds, that is, the whole of life composed of the concrete and the subjective that allows living

Keywords : Suffering. Social suffering. Self‑exclusion.

  • Mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS). Mestre em Direi‑ tos Humanos e Desenvolvimento pela Universidade Pablo de Olavide, Sevilha, Espanha. Doutora em Psico‑ logia Social e Institucional pela UFGRS. Diretora acadêmica e professora da Faculdade de Integração do Ensino Superior do Cone Sul, Garibaldi, Rio Grande do Sul, Brasil. Professora convidada do curso de Espe‑ cialização e Ética e Direitos Humanos da UFRGS. E‑mail : [email protected]. ** Docente e pesquisadora do Programa de Pós‑Graduação em Psicologia Social e Institucional. Mes‑ tre em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul; doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Pós‑doutoranda em Serviço Social pela Universität Kassel, República Federal da Alemanha. Consultora da Coordenação da Área Técnica de Saúde do Traba‑ lhador do Ministério da Saúde. Consultora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecno‑ lógico. E‑mail : [email protected].
  1. Introdução

N

ão é nova a discussão acerca do sofrimento, todavia, ganha contornos diversos conforme avança o tempo. A dificuldade maior consiste na sua definição, uma vez que o sofrimento aparece de distintas formas. Embora a questão do sofrimento, não raras vezes, apareça envolven‑ do elementos de dor física, a maioria dos autores que trata dessa temática enfatiza que seria muito mais do que isso. 1 O sofrimento estaria presente nos sentimentos de isolamento social, de perda, de sentimentos aliados à depressão, ansiedade, culpa, humilhação e estresse. As pessoas sofrem quando há estados de privação material, com a perpetuação da injustiça social e com a perda da liberdade em todas as suas formas e expressões.^2 Conquanto o sofrimento tenha sido estabelecido em contradição à dor, esta seria uma sensação fisiológica e o sofrimento, por sua vez, seria espécie de resposta psicológica, subjetiva à dor.^3 A questão do sofrimento encontra‑se presente em vários autores da sociologia clássica, como Durkheim, Marx e Engels e Weber, no entanto, sempre tratado como inspiração, como influên‑ cia em seus estudos e não como o fundamento per se. Assim, este estudo trata do sofrimento social na perspectiva de autores contemporâneos, buscando ampliar esta concepção, tratando‑a enquanto patologia das sociedades contemporâneas.

  1. O sofrimento de origem social

O sofrimento tem se manifestado ao longo dos tempos e em diferentes forma‑ ções sociais, todavia, contemporaneamente, ganha força quando iniciam os escritos que denunciam a situação dos trabalhadores nos locais de trabalho. No entanto, o uso deste conceito ainda é recente, especialmente no que se refere às Ciências Sociais de maneira geral. Dejours procurou examinar a questão envolvendo a saú‑ de dos trabalhadores e o sofrimento a que estes se encontram expostos. Trata‑se do sofrimento daqueles que perderam o emprego ou não conseguiriam empregar‑se novamente, e recolocarem‑se no mercado de trabalho. Esse fato, de acordo com o

  1. Wilkinson, Ian. Suffering : a sociological introduction. Cambridge, UK: Polity Press, 2005. p. 16.
  2. Idem, ibidem, p. 17.
  3. Ibidem, p. 21.

so de “cristalização” que pode tornar o trabalhador insensível àquilo que justamen‑ te traz o sofrimento. Desta forma, pode‑se negar o sofrimento do outro e, ao mesmo tempo, negar o sofrimento próprio, calando‑se. O trabalho como gerador de sofri‑ mento (e ao mesmo tempo de prazer) é analisado por Dejours, na relação com a saúde, como já apontado, uma vez que na execução das tarefas relativas à profissão e nas vivências subjetivas do trabalho há uma luta constante pelas melhorias das condições de trabalho e de saúde. Assim, o objeto de estudo analisado é o sofri‑ mento em uma dimensão específica: o sofrimento no trabalho.^8

Os trabalhadores estariam expostos a toda uma série de atividades inúteis, desinteressantes e sem conteúdo. Por isso, os sentimentos vividos são de cansaço, que advém tanto do esforço físico quanto da ausência de conteúdo presente no próprio trabalho. Enfim, para Dejours, o trabalho exerce um impacto sobre o apa‑ relho psíquico humano gerando sofrimento, eis que não é possível, na maioria das vezes, exercer modificações nas tarefas que se executa, dotando‑a de conteúdo e de sentido, de acordo com os desejos e necessidades daquele que o realiza. Ou seja, isto se daria quando a interação efetiva entre o homem e o trabalho é dificultada. Há, neste sentido, insatisfação e, também, medo quando a tarefa realizada encontra‑se cercada de riscos. Contra a angústia ou a insatisfação são criadas estratégias defen‑ sivas. Tais estratégias não são identificadas de imediato, todavia, ficam invisibili‑ zadas ou revestidas na forma de ideologia defensiva. Assim, para que a relação de trabalho seja favorável ao trabalhador, faz‑se necessário, entre outros elementos, que as exigências da tarefa a ser realizada, tanto aquelas intelectuais, motoras ou psicossensoriais, estejam de acordo com as necessidades do trabalhador, gerando prazer ao invés de desprazer.^9 Ademais, faz‑se necessário que o conteúdo do traba‑ lho seja fonte de satisfação e que a “desalienação” seja elemento de transformação social.

Bourdieu também trará contribuições importantes ao estudo da questão en‑ volvendo o sofrimento, notadamente através de estudo em que trata da reestrutura‑ ção produtiva ou industrial e da “nova pobreza” que surge ancorada neste processo. 10 Destaca, outrossim, um sistema social que tem feito recuar o que o autor chama de “a grande miséria”, mas que, ao mesmo tempo e diferenciando‑se, tem multiplica‑

  1. Cf. Dejours, Christophe. A loucura do trabalho : estudo de psicopatologia do trabalho. 5. ed. ampl. São Paulo: Cortez, 1992.
  2. Dejours, 1992, op. cit., p. 62.
  3. Cf. Bourdieu, Pierre (coord.). A miséria do mundo. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1997.

do espaços sociais que têm oferecido as condições favoráveis para o desenvolvi‑ mento, sem precedentes, de todas as formas de “pequenas misérias”. No campo das Ciências Sociais, seria difícil, segundo o autor, reconhecer os sinais sociais do mal‑estar que se vive no mundo contemporâneo, visto que, assim como as doenças, o mal‑estar não está necessariamente evidente. Bourdieu refere‑se às violências nas mais diferentes expressões, notadamente à violência inerte das estruturas econômi‑ cas e sociais protagonistas de muitas “pequenas misérias” e às violências da vida cotidiana. Assim, os inúmeros sofrimentos a que se está exposto na contempora‑ neidade seriam oriundos do choque de interesses, de disposições, de estilos de vida diferentes que a coabitação apresenta, destacando‑se, neste contexto, os locais de moradia e trabalho. Para Bourdieu, é no interior dos grupos sociais que as expe‑ riências são vividas e percebidas. É dentro dos grupos que podem ser percebidas as distinções em termos de estilos de vida que apartariam classes sociais, gerações ou etnias. Basal, nesta análise, é o vínculo estabelecido entre o social e as questões individuais. Ademais, insta adjazer que aquilo que é armado socialmente pode também ser desfeito, desarmado, a exemplo do que Marx já afirmara previamente em suas obras. Para Bordieu, a maioria dos mecanismos econômicos e sociais que está na origem dos sofrimentos mais cruéis não é fácil de ser descontinuada ou transformada. A realidade social é tensa e densa, complexa e geradora de situações de pobreza, miséria, frustração. A realidade social seria, assim, vista como atroz com todos aqueles que desconhecem suas regras de funcionamento. Seria perversa com todos aqueles que chegaram tarde, que não se empenharam, uma vez que o espaço dos vitoriosos é estreito, fechado, estando sob vigilância e exigindo sacri‑ fícios daqueles que ali desejam estar. Entre este sacrifício encontrar‑se‑ia, inclusi‑ ve, a possibilidade da autodestruição.^11

A realidade social muda e, com esta, as expressões das desigualdades e con‑ tradições que ganham contornos difíceis de serem delineados, conformando espaços de exclusão e afetando a vida das pessoas em todas as suas faces. O sofrimento vai ganhando forma: a forma das estruturas sociais violentas, geradoras da precarieda‑ de em todas as suas dimensões.^12 Aos efeitos da precariedade sobre aqueles por ela afetados acrescentam‑se os efeitos sobre todos que parecem ser poupados. “Ela nunca se deixa esquecer; está presente em todos os momentos, em todos os cérebros.

  1. Bourdieu, 1997, loc. cit.
  2. Bourdieu, Pierre. Contrafogos : táticas para enfrentar a invasão neoliberal. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 120.

Por sua vez, Castel buscará compreender a questão do sofrimento na estreita relação com os vínculos sociais, a integração social ou, ainda, a partir dos processos de dissociação, de desfiliação, da “anomia” dos grupos sociais.^18 Nesta discussão encontra‑se presente a questão envolvendo indivíduos que “flutuariam” na estrutu‑ ra social sem encontrar local de aconchego. Apresenta o autor a relação próxima entre a ausência da atividade produtiva e a coesão social. A falta do trabalho gera isolamento e esse fato, por sua vez, poderia produzir processos de exclusão, de desfiliação. Para Castel, a vulnerabilidade social traria em seu bojo a precariedade do trabalho e, ao mesmo tempo, a ausência dos suportes de proximidade, dos su‑ portes sociais geradores de confiança. Desta forma, a questão social seria caracte‑ rizada por uma inquietação quanto à capacidade de manutenção da coesão social. A ameaça da ruptura seria apresentada por grupos cuja existência poderia abalar a coesão do conjunto da sociedade.^19 Observa o autor, neste sentido, alguns perfis que comporiam tais grupos acima referenciados. Entre estes estariam os indigentes, as crianças sem pais, os cegos, os paralíticos e os estropiados de toda ordem. Em comum, apresentam a questão de não conseguirem, por si mesmos, suprir as suas necessidades básicas, uma vez que não podem trabalhar. Outro grupo, segundo Castel, encontrar‑se‑ia composto por aqueles que seriam capazes de trabalhar, en‑ tretanto, não o fazem. Entra nesta descrição a figura do indigente válido.^20 Tais grupos estariam à mercê do que o autor chamará de advento do livre acesso ao trabalho, do advento dos contratos e da liberdade para empreender. Tais dispositivos remeteriam, por seu turno, a um “lado obscuro” que seria a “individualidade nega‑ tiva”, relativa a todos aqueles que se encontram sem suporte, sem vínculos, sem qualquer reconhecimento e, ademais, privados de proteção social. As vulnerabili‑ dades sociais que nasciam do excesso de coerções nas sociedades pré‑industriais passam agora a dar‑se a partir do enfraquecimento das proteções. Com as novas exigências do trabalho tem‑se a desestabilização dos trabalhadores estáveis, a ins‑ talação da precariedade do trabalho, o desemprego, o emprego precário. Ademais, o no man’s land social, os “supranumerários” que não estão integrados nem são integráveis ao sistema. 21 Não há mais pertencimento e, paralelamente, surge a questão da inutilidade social de boa parte da população. Esse fator afeta a identi‑

  1. Castel, Robert. As metamorfoses da questão social : uma crônica do salário. Petrópolis: Vozes, 1998.
  2. Ibidem , p. 41.
  3. Castel, 1998, loc. cit.
  4. Ibidem, p. 530.

dade de todos aqueles que a tiveram forjada sobre a questão do trabalho, gerando sofrimento e, ainda, a possibilidade de autodestruição. Enfim, para o autor, haveria produção de vulnerabilidades sociais cuja gênese dar‑se‑ia a partir da perda do lugar de trabalhador de alguns grupos sociais. O trabalho assalariado gera vínculos sociais, todavia, a falta de espaço na organização da divisão do trabalho gera, por sua vez, indivíduos despregados da tessitura social, que não conseguem acessar lugares estáveis. Tal seria a “nova questão social”, ou seja, a crise do caráter inte‑ grador que o trabalho pode proporcionar, ocasionando a perda da coesão social e sofrimento dos indivíduos que não acessam mais um lugar na organização social através do trabalho. Desta forma, desemprego e precarização seriam as marcas da nova questão social. Como já mencionado, três processos marcariam o quadro no qual essa nova questão social se desenvolve: a desestabilização dos estáveis, a instalação da precariedade e o déficit de lugares. Os atingidos por esses elementos ficam alheios ao que o autor chama de “circuito das trocas produtivas”, tornando‑se inúteis e é aí que se instalaria uma crise de identidade pelo trabalho. É aí também que se instalaria o processo de desfiliação,^22 ou seja, a ausência de “inscrição do sujeito em estruturas portadoras de sentido”.^23 O desfiliado não está completamen‑ te sem vínculos, não é um excluído, mas está distante do centro de coesão social. Por fim, resta versar que para Castel haveria duas dimensões de acoplamento dos indivíduos no social: uma econômica e uma social. Na econômica estaria o empre‑ go em suas diferentes formas, até se chegar à situação de desemprego. Na dimensão social estariam outras formas de inserção do indivíduo, como a família, a vizinhan‑ ça e a comunidade, que podem se tornar retraídas. Nas dimensões de acoplamento ou inserção, os indivíduos poderiam situar‑se em quatro tipos de zonas: zonas de integração, vulnerabilidade, assistência e desfiliação. Na primeira zona, de integra‑ ção, os indivíduos estariam de posse de um emprego estável, possuindo relações sociais também sólidas. Estão, como o próprio nome já diz, integrados. Já na zona de vulnerabilidade, o indivíduo sente‑se ameaçado pela precariedade do trabalho e dos laços sociais que vão aos poucos sendo enfraquecidos. Na terceira zona, de assistência, encontra‑se o público que garantirá (ou deveria garantir) o não desli‑ gamento do indivíduo do social, vez que este se encontra enfraquecido pela ação da precarização e também pelos laços familiares que tendem à decomposição. Por fim, a zona de desfiliação, na qual os indivíduos não apenas são atingidos pelo

  1. Ibidem, p. 536.
  2. Ibidem.

Ou seja, o caminho não se daria de maneira direta. A autonomia, a independência seria permeada pela presença do outro, percurso necessário à sua própria constitui‑ ção. Neste sentido, seria o não proprietário um indivíduo, uma vez que o status de indivíduo funda‑se na questão relativa à propriedade privada?^29 A divisão, a sepa‑ ração entre propriedade e trabalho encerraria uma clivagem: haveria duas maneiras, duas formas de ser de um indivíduo. Os dotados de capacidade para serem inde‑ pendentes, autônomos, e os subordinados que se encontrariam em condições indig‑ nas de vida. Tal indignidade seria própria de uma classe considerada perigosa, bárbara, imoral que, paradoxalmente, através do trabalho teria algumas garantias através do direito ao trabalho. Assim, o trabalhador construirá sua própria seguran‑ ça a partir do trabalho, um equivalente à propriedade privada. Um direito à segu‑ rança inscrita na lei e garantida pelo Estado. É o que Castel chamará de “homólogo da propriedade privada” para os indivíduos não proprietários, dando suporte à sua independência.^30

Tal equivalente seria um novo tipo de recurso ou garantia do Estado, que Castel chama de propriedade social, diferente da propriedade privada, mas que asseguraria uma propriedade através da segurança, assegurando uma “reabilitação social dos não proprietários” 31. Neste sentido, haveria um indivíduo que se cons‑ tituiria a partir de uma ausência: um modelo de indivíduo positivo construído a partir da proteção salarial, da proteção do trabalhador na sociedade assalariada que nasce com a modernidade. Todavia, a liberdade, a segurança, a autonomia do in‑ divíduo constituída a partir das proteções sociais, encontra‑se em colapso. A pre‑ tensa “invulnerabilidade” construída encontra‑se ameaçada: não há mais estabili‑ dade, reduzem‑se os direitos e as proteções derivadas da propriedade social. Assim, a “grande transformação” remonta à vulnerabilidade, à incerteza, à instabilidade das posições profissionais.^32 É este indivíduo que entra em sofrimento devido à sua fragilidade, uma vez que paralelamente à perda ou enfraquecimento das pro‑ teções que dão o direito à existência, tem‑se um processo de descoletivização ou o que Castel chamará de reindividualização das relações de trabalho. Neste pro‑ cesso, em que os indivíduos são interpelados, não haveria os recursos necessários para se entrar no jogo. Alguns, com mais recursos, aderem ao discurso neoliberal

  1. Castel, 2003, op. cit. , p. 55.
  2. Ibidem, p. 57.
  3. Ibidem.
  4. Castel, 2003, loc. cit.

empreendendo, colaborando. Os demais, que não atendem ao discurso do novo processo de individualização, perdem: perdem status, retornam à situação de vul‑ nerabilidade inicial, entrando em processo de desfiliação, uma vez que há, parale‑ lamente, um processo de descoletivização dos coletivos de trabalho.^33 Enfim, para Castel é preciso refiliar os indivíduos vulneráveis, seja através dos suportes clássi‑ cos da propriedade social, seja através da criação de novos suportes sociais. Toda‑ via, esta posição é ainda abstrata e geral e sobre a qual se faz necessário debruçar a fim de torná‑la mais precisa. A nova conjuntura apresentaria situações novas, inéditas que seria preciso enfrentar.^34 Tais transformações não raras vezes fazem com que o indivíduo seja responsabilizado pelo seu destino, por sua própria sobre‑ vivência. Pode‑se dizer que se encontra em curso um movimento de descoletiviza‑ ção das proteções e das perspectivas e, paralelamente, de responsabilização do indivíduo no que concerne, especificamente, ao trabalho.^35

Desta maneira, o sofrimento social deve ser pensado na sua estreita relação com a vulnerabilidade estrutural de uma sociedade de propriedade de si, ou seja, relaciona‑se à autonomização da existência enquanto norma social de uma socie‑ dade que não oferece as garantias para que esta mesma autonomização se dê. Não há mais suportes institucionais, não há proteções formais. Assim, as fragilidades individuais, nascidas das exigências sociais de autonomia e de realização, se dariam em uma configuração social que, paradoxalmente, desinstitucionaliza e privatiza a atividade social de maneira geral. É neste contexto que o indivíduo deve permear, se localizar, viver e sobreviver. Contudo, este contexto traz implicações, uma vez que a modernidade trouxe ao centro o indivíduo e lhe diz: és livre, és autônomo, és responsável, 36 mas, ao mesmo tempo, retira as sustentações sociais e os dispo‑ sitivos de formação desse mesmo indivíduo. Configura‑se, assim, um contexto de vulnerabilidade, uma vulnerabilidade endógena, inerente à própria configuração social. É aí que o sofrimento social brota, dessa situação paradoxal, resultante de uma autonomia obrigada ao indivíduo, sem suportes socialmente disponíveis. Como bem afirma Soulet, ao referir‑se às expressões de sofrimento social, não importa se as formas extremas de sofrimento social, como o suicídio, se manifes‑

  1. Ibidem, p. 60.
  2. Ibidem, p. 61.
  3. Soulet, Marc‑Henry. La souffrance sociale, pathologie des sociétés contemporaines. Étique Publique , v. 11, n. 2, p. 72, 2009.
  4. Soulet, op. cit., p 76.

situação de degradação das condições de trabalho avança. Neste contexto, haveria um aumento das doenças profissionais que se tornam uma tendência inquietante entre os trabalhadores, sendo geradora de sofrimento.

  1. A perda dos objetos sociais

Buscando ampliar o esquema de Castel exposto anteriormente e que reme‑ te aos processos de integração, vulnerabilidade, assistência e desfiliação, Prévost, a partir de estudo de Furtos, inclui nesta configuração teórica a questão relativa à desilusão e à dor, incluindo em tais dimensões a perda do objeto social. 40 Um objeto social seria uma forma de segurança, é um status e é também um vínculo social. Tais objetos permitem o relacionamento com os demais membros do gru‑ po social, o reconhecimento da própria existência, e se poderia jogar com tais objetos durante a vida toda (a exemplo de uma partida de futebol, como alude comparativamente o autor). 41 Neste sentido, a perda dos objetos sociais pode significar a perda da capacidade de jogar, a capacidade de interação com outros sujeitos, entrando‑se em processo de exclusão. Ainda, um objeto social seria qualquer coisa idealizada dentro de uma dada sociedade em resposta a um siste‑ ma de valores: permite determinado status social, reconhecimento da existência e autoriza relações. A questão é que a manutenção ou a perda de alguns objetos não dependem apenas da pessoa, de si mesmo, ainda mais dentro de uma socie‑ dade “pós‑salarial” em cujo seio a precarização é crescente. 42 O esquema de Castel é, então, revisitado através da experiência clínica de Furtos, aliando, aos processos delineados por Castel, a desilusão, o luto, as perdas. Assim, os proces‑ sos psíquicos seriam dependentes do social, todavia, não seriam mecanicamente determinados. Neste sentido, as zonas descritas por Castel são, de certa forma, complementadas.

  1. Cf. Prévost, Marianne. La souffrance psycho‑sociale: regards de Jean Furtos. Santé Conjuguée , n. 48, 2009.
  2. Furtos, Jean. Les effets cliniques de la souffrance psychique d’origine sociale. Mentalidées , n. 11, p. 26, 2007.
  3. Furtos, 2007, loc. cit.

Quadro 1 — As quatro zonas de perda do objeto social Integração pelo trabalho +^

Integração

  • Precariedade “normal”;
  • Desilusão e melancolia não catastrófica;
  • Antecipação da perda sem comprometer o futuro. Sofrimento que permite viver

Assistência

  • Precariedade compensada por objetos sociais substitutivos;
  • Sintomas psíquicos reversíveis;
  • Antecipação aberta. Sofrimento que permite viver

vulnerabilidade

  • Precariedade exacerbada;
  • Desilusão e melancolia problemáticas;
  • Antecipação^ catastrófica^ da^ perda, desabamento;
  • Estresse, melancolia. Sofrimento que impede viver

Desfiliação

  • Autoexclusão de si mesmo;
  • Dessubjetivação;
  • Problemas de comportamento;
  • Reversibilidade problemática;
  • Narcisismo negativo. Sofrimento que impede sofrer

Inserção social Fonte : Adaptação da autora a partir de Prévost, op. cit., p. 78.

No quadro anterior se pode observar a zona de integração, na qual a perda do objeto social está pensada dentro do escopo da “normalidade”, sendo ordinária dentro de uma sociedade salarial que se fragiliza e, também, onde o individualismo é acentuado. Há a consciência da precariedade, mas há a conservação do lugar social, dos vínculos sociais e, sobretudo, há a possibilidade de encontrar auxílio ou cuidado, quando da perda ou do sofrimento infligido. Há, ademais, a possibilidade de encontrar apoio social no caso da tristeza e da melancolia, de decepção, de de‑ silusão e de novas ilusões criadoras também. 43 Neste sentido, a questão está em que os indivíduos localizados neste espaço ou zona de integração sofrem também, to‑ davia, o sofrimento a que estão expostos lhes permite viver: as desilusões não são catastróficas, não há o sofrimento por antecipação da perda e o futuro não se en‑ contra ainda comprometido: é possível viver. Por sua vez, a zona da vulnerabilida‑ de apresentada por Castel é ultimada: tem‑se neste espaço vulnerabilidades também

  1. Prévost, op. cit., p. 78.

tência dentro de um grupo ou coletivo humano. Como mundo, o autor identifica uma totalidade e, ao mesmo tempo, um pertencimento: uma totalidade de pertencimento. 49 De acordo com o autor, pode‑se pensar no mundo‑universo, no mundo da mundia‑ lização, no mundo do show‑biz , no mundo do bebê, no mundo do trabalho etc. A questão concentra‑se no fato de que tal mundo deveria constituir‑se em um modelo de integração, visando diminuir o sofrimento daqueles que o habitam.^50 Neste sen‑ tido, a questão do sofrimento reenvia à precariedade essencial do ser humano e à dependência do outro, que se encontraria alojado em sua constituição. A necessida‑ de de reconhecimento como digno de existência dentro de um mundo precário traz em si o risco do não reconhecimento, da exclusão como uma forma de condenação social. Assim, o risco pode advir de condições objetivas, todavia, o medo de sofrer e a impossibilidade de sofrer o próprio sofrimento podem conduzir a situações de autoexclusão ou, como afirma Furtos, a dessubjetivação de si mesmo.^51 Assim, a precariedade social conduziria à necessidade de mudanças nos objetivos da organi‑ zação de um mundo assentado na precariedade das relações de toda ordem. Uma sociedade precária é definida por Furtos como aquela marcada pela obsessão, pela angústia gerada pela possibilidade da perda dos objetos sociais, tais como o empre‑ go, o dinheiro, a moradia, o status social, a saúde, gerando sofrimento. Sofrer não seria, neste sentido, uma doença, nem o sofrimento psíquico uma doença mental, no entanto, seria preciso observar que esse mesmo sofrimento pode impedir o sujeito de viver, de querer viver, de se manter vivo.

Cabe ressaltar que a precariedade social não deve ser confundida com a po‑ breza, uma vez que é possível viver sem precariedade dentro de uma sociedade “pobre” e, da mesma maneira, se poderia viver precariamente dentro de uma so‑ ciedade considerada “rica”. A precariedade social traz consigo uma questão refe‑ renciada ao status social precário que, por sua vez, é diferente da precariedade psicológica, existencial. Embora haja certa correlação entre a precariedade social e a precariedade psíquica, esta não se dá de forma reflexa. Assim, para Furtos, seria importante distinguir uma precariedade considerada “normal”, que se encontra na vertente de uma vulnerabilidade ordinária, significando que as pessoas não podem viver sós, sem a companhia de outros para que seja possível dar conta da própria vida, de uma precariedade exacerbada, exasperada em que hoje a sociedade se

  1. Furtos, loc. cit.
  2. Furtos, Jean. Précarité du monde et souffrance psychique. Dossier La souffrance psychique. Rhi‑ zome. Bulletin national santé mentale et précarité, n. 5, p. 5‑6, 2001.
  3. Ibidem.

encontra.^52 A “precariedade normal” seria constitutiva do ser humano e teria como paradigma o bebê e os adultos que o cercam de cuidados garantindo a sua sobrevi‑ vência. Essa sobrevivência, por sua vez, não se encontra articulada apenas às ne‑ cessidades fisiológicas, mas, também, àquelas emocionais, resultantes das angústias que apelam ao outro, ao vínculo estabelecido com o outro. Este pertencimento primeiro traria em si uma exigência de reconhecimento mútuo, ou seja, inicialmen‑ te o sujeito deve ser considerado digno de existir no grupo primeiro, a família que, por sua vez, também se encontra inserida em outros grupos de pertencimento e, posteriormente, de pertencer ao mundo, de existir na humanidade. 53 O autor afirma que esta vulnerabilidade normal, ordinária, acompanha o ser humano ao longo da vida. Tal vulnerabilidade humana essencial estaria sempre vinculada ao fato de ser reconhecido ou não e da possibilidade contínua de exclusão. Todavia, quando fun‑ ciona bem, levaria a uma tripla confiança: a confiança no outro que estaria lá quan‑ do se precisasse dele, a confiança em si mesmo como um ser dotado de valor e, por fim, a confiança no futuro, uma vez que em situações semelhantes de risco, o re‑ sultado seria o mesmo, ou seja, a confiança nos vínculos sociais carregaria em si a possibilidade do futuro da própria sociedade.

Destarte, no contexto hodierno caberia destacar que a história de cada um, esta história ordinária, a história da precariedade primeira, “a precariedade normal”, encontra‑se deformada: há uma insegurança exacerbada que pode levar à perda da tripla confiança de que se falou anteriormente: a perda da confiança em si mesmo, a perda da dignidade de existir e a perda da confiança no futuro que acaba se tornando ameaçador ou, ainda, que tende ao desaparecimento. 54 É neste contexto de deformação e mesmo de insegurança que surgirá a possibilidade da perda dos objetos sociais, das coisas concretas como o emprego, o dinheiro, a aposentadoria, a habitação, a formação, os bens etc.^55 Assim, haveria três modalidades clínicas do sofrimento psíquico de origem social no contexto de precariedade. A primeira delas seria a do sofrimento “normal”, articulado à existência do outro que pode também, de forma contraditória, estimular, ajudar a viver. Há a consciência da precariedade “original” e, neste sentido, a luta delineia‑se à preservação, à conservação dos laços sociais e, ademais, à possibilidade de ser auxiliado no caso da perda ou do sofrimento, através dos mecanismos da própria estrutura do sujeito, como a capacidade da tristeza, da

  1. Furtos, 2007, op. cit.
  2. Ibidem, p. 27.
  3. Ibidem.
  4. Ibidem.

fiança nos outros, perda de confiança no futuro, ou seja, a precariedade que ataca a tripla confiança de que se falou anteriormente.

Pobreza e insegurança podem estar articuladas também. No entanto, a preca‑ riedade teria em sua constituição uma parte positiva também, vinculada à necessi‑ dade do ser humano de estar conectado aos outros, acreditando, sobretudo, nos laços ou vínculos sociais e emocionais estabelecidos. Contudo, é no lado negativo da precariedade que se encontram os efeitos psicossociais.^60 Tais efeitos compreen‑ dem o “bom estresse”, porém, pode acionar processos de individualismo excessivo, de isolamento, de doenças psicossomáticas, depressão e desmoralização. Entretan‑ to, o impacto mais perigoso seria o da paranoia social, em que as pessoas ou grupos passam a ser considerados inimigos, e o processo de isolamento social ganha corpo, às vezes articulado a componentes violentos. A dignidade humana, nesta zona, é atingida no seu cerne. Há desmoralização, vergonha, desespero e os mecanismos que operam neste tipo de paranoia seriam espécie de alienação do ego, cuja rever‑ sibilidade seria justamente o processo de desalienação.^61

Esta síndrome da autoexclusão foi analisada por Furtos a partir de observações clínicas que destacaram aspectos psicossociais em uma equipe multidisciplinar de trabalho em saúde. A partir de uma precariedade exacerbada, seria possível se chegar ao limiar do processo de exclusão, com a perda dos sentimentos que fazem com que o sujeito se reconheça como ser humano, podendo levar à desagregação familiar. A pessoa não mais se sente incluída e o processo de autoexclusão se dá objetivando não mais sofrer, não mais sentir sofrimentos considerados extremos como aqueles ligados à agonia psíquica, ao desespero. Assim, a pessoa exclui‑se utilizando mecanismos de dessubjetivação extrema, como a negação, a projeção etc. Nesta fase, a exclusão social funcionará como uma exclusão psíquica, que pode ser considerada como um “narcisismo negativo”. O narcisismo, neste caso, seria submetido à pulsão de morte com desinvestimento nas representações. Assim, a ruptura dos vínculos sociais não seria acompanhada apenas por problemas graves de saúde no plano somático, mas também comportamental, e o sofrimento gerado não seria assumido pelo sujeito.^62 Para o autor, tal situação seria o último resquício de liberdade antes do suicídio.

  1. Furtos, Jean. An introduction to the pathologies of the precarity: the self exclusion syndrome. Program IGP, 2012. Amrita Institute of Medical Sciences Cochin Kerala. Índia, January, n. 17, 2012.
  2. Ibidem_._
  3. Furtos, Jean. Epistémologie de la clinique psychosociale: la scène sociale et la place des psy_. Pratiques en santé mentale_ , n. 1, p. 7, 2000.

Originalmente, tais sofrimentos foram descritos a partir das observações das relações sociais das pessoas em situação de vulnerabilidade social, daquelas despro‑ vidas de moradia, jovens em situação de risco e pessoas com doenças mentais. No entanto, gradualmente, tais mecanismos foram sendo encontrados em vários grupos sociais, expressos como burn out ou mesmo o sofrimento no trabalho. A síndrome da autoexclusão tratada por Furtos pode ser descrita como uma patologia contemporânea conectada à atmosfera especulativa do processo de mundialização do capital que se encontra em curso e que tem trazido, segundo o autor, a precariedade negativa em sua pior forma.^63 Daí à necessidade de uma clínica da desfiliação, de uma clínica da precariedade que possa fazer crescer a precariedade positiva, aquela dos vínculos sociais que unem os sujeitos em diferentes esferas da vida em comunidade.^64

O termo autoexclusão, neste sentido, articularia uma psicogênese e, ao mesmo tempo uma sociogênese. A exclusão significa o lado externo da comunidade huma‑ na, de não ser reconhecido como membro da comunidade ou um grupo social de‑ terminado. No plano social, implicaria estar excluído do trabalho, da habitação, da cultura, da cidadania, das relações sociais.^65 No plano psíquico, dá o sentido do sentir‑se excluído das comunidades de pertencimento, de não se estar inscrito em um grupo social ou societal determinado. O termo auto, por sua vez, traz a ativida‑ de psíquica interna que subjaz à situação da exclusão que o sujeito perde a capaci‑ dade de exercer sobre si mesmo uma atividade psíquica que mude a situação para não sofrer. Essa atividade psíquica responde ao ambiente social e, simultaneamen‑ te, responde à história do sujeito, ao processo de dessocialização.^66 A síndrome da autoexclusão possui uma dinâmica pautada pelo desencorajamento do sujeito, uma lógica de vida duramente articulada à submissão ao princípio da realidade e não necessariamente ao princípio do prazer. Como sinais, haveria a anestesia, a hipos‑ tesia, a inibição do pensamento, a reação terapêutica negativa, a vergonha, as rupturas e, por fim, a morte. Haveria um processo de dessubjetivação que consis‑ tiria em uma desabitação de si mesmo, agindo sobre o corpo e o pensamento. Os sinais seriam uma espécie de embotamento afetivo ou, ao revés, uma hipomania, uma excitabilidade permanente e, também, uma inibição intelectual.^67

  1. Furtos, 2000, op. cit., p. 7
  2. Furtos, 2012, op. cit.
  3. Furtos, Jean (org.). Les cliniques de la précarité : contexte social, psychopathologie et dispositifs. Paris: Elsevier Masson, 2008a. p. 108.
  4. Ibidem.
  5. Furtos, 2008a, loc. cit.