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Apostilas de Computação sobre Teorias da Comunicação, o que é teoria, o que é comunicação, Questões envolvendo teoria e comunicação, Paradigma clássico da comunicação.
Tipologia: Notas de estudo
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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL ESPECIALIZAÇÃO EM TEORIAS DA COMUNICAÇÃO E DA IMAGEM DISCIPLINA: TEORIAS DA COMUNICAÇÃO PROF. RICARDO JORGE DE LUCENA LUCAS
Atualizada em 2010
O quê estudar? Qual seu tema? Qual o problema que seu tema propõe?
Teoria - vem do grego, theoria (significa, dentre várias possibilidades, contemplação, espetáculo, especulação, concepção mental, reflexão sobre algo). Para alguns, pela theoria o homem se aproxima de Theous - Deus. Teoria = conjunto de leis que sistematizam e/ou definem um fenômeno, ou um conjunto de hipóteses que tentam confirmar/verificar/corrigir um fenômeno. Teorias tendem ou a convergir ou a entrar em choque. Ciência = campo do saber que tenta explicar de modo o mais completo possível um certo campo de fenômenos. Para alguns, a ciência é limitada, pois se constitui de um “recorte da realidade” acrescida de jargões de uma dada área. Paradigma = modelo ou “fórmula” que é a base de uma teoria dominante. Aquilo que membros de uma comunidade científica partilham (Thomas S. Kuhn); ao mesmo tempo, uma comunidade científica é formada de indivíduos que partilham um paradigma (observação: sentido de “partilhar um paradigma” não é o mesmo de “concordar com um paradigma”). Paradigma pode tanto facilitar quanto “emburrecer” a ciência. Verdade científica = limitada no tempo, no espaço e num dado meio científico-social. Metanarrativas (grandes narrativas) = saberes que tentam explicar a realidade a partir de um determinado foco (“significado transcendental”, diria Jacques Derrida: o capital, no capitalismo; o operariado, no socialismo; o inconsciente, na psicanálise; Deus, no catolicismo etc.). Ponto de viragem: física clássica física quântica observação direta escolha subjetiva certezas probabilidades Se verdade científica é algo limitado, ela pode ser colocada em xeque. Alguns apontam para uma “crise dos paradigmas” (Jean-François Lyotard, Michel Serres, Bruno Latour), uma vez que percebe-se que não há saber que explique o todo ontológico da realidade (marxismo, capitalismo, comunismo, psicanálise etc.)
Questões envolvendo teoria e comunicação:
comunicação intrapessoal - efetuada consigo próprio; emissor e receptor coincidem. ( E = R) comunicação interpessoal (ou face-a-face, presencial) - entre diferentes pessoas, que são simultaneamente emissor e receptor. (E/R <-> E/R) comunicação intergrupal - entre diferentes grupos sociais. comunicação massiva - apoiada nos tradicionais meios de comunicação de massa (MCM), como rádio, televisão e mídia impressa. Emissor e receptor são instâncias separadas pelo tempo e/ou espaço. R MCM (E) R R comunicação mediada pelo computador - efetuada através de computadores interligados em rede, operando em “tempo real” (Internet, intranets). Traz aspectos da comunicação interpessoal (onde pessoas são simultaneamente emissor e receptor) e da comunicação massiva (há um suporte técnico mediando os agentes sociais envolvidos no processo). E/R E/R E/R E/R E/R E/R Comunicação ocorre ainda entre:
COMUNICAÇÃO = conceito que se confunde com outros conceitos paralelos (informação e transmissão) Isso ocorre porque, nas sociedades tradicionais (pré-modernas), comunicação e informação tendencialmente “caminhavam” juntas. Além disso, uma noção de comunicação vai se desenhar na primeira metade do século XX (consolidando-se nos anos 40-50), a partir do momento em que os meios de comunicação de massa (rádio, cinema, televisão) vão se tornando elementos cotidianos na vida das pessoas. COMUNICAÇÃO vem do latim COMMUNICATIO , onde: CO + MUNIS + TIO SIMULTANEIDADE + ESTAR ENCARREGADO DE + AÇÃO-ATIVIDADE Ou seja, a idéia de comunicação implica em uma atividade ou ação na qual se pressupõe um compartilhar de algo. A partir desses radicais, surgem outras palavras afins, como COMUNGAR. Dicionários designam geralmente a comunicação como:
ECONOMIA = pensamento fisiocrata - FRANÇA, SÉC. XVIII ( François Quesnay ) Premissa = fisiocratas eram anti-mercantilistas (mercantilismo pregava o centralismo do estado nas decisões). Fisiocratas adotam o lema do laissez-faire, laissez-passer (“deixar fazer, deixar passar”) e a figura da “mão invisível do mercado”. Progresso político-econômico viria com o desenvolvimento dos meios de comunicação (ou melhor, das vias fluviais, marítimas e terrestres de comunicação), interligando diferentes pontos, fazendo circular produtos e renda. Ou seja: há uma visão de interdependência entre as partes, sistêmica, no qual tudo precisa funcionar bem para que todos estejam bem. Economia de fluxo, de trocas, era vista como algo “natural”. ANTROPOLOGIA = estudo sobre dádiva - FRANÇA, SÉC XIX-XX ( Marcel Mauss ). Premissa = troca é um fato social total (conforme definição do tio, Émile Durkheim , ou seja, quando a totalidade do social está presente, ou ainda, quando o fato é puramente social, não pode se dar apenas na instância do estritamente individual). Mauss = dádiva é um fato social baseado numa tríade: dar, receber e retribuir (objetos materiais ou simbólicos), criando laços sociais. DÁDIVA = processo de mão dupla “desigual”, pois: QUEM DÁ, PODE RECEBER - QUEM RECEBE, DEVE RETRIBUIR Está em vantagem, portanto, quem dá, criando uma obrigação para quem deve retribuir. Mesmo que o recebedor não queira “entrar no sistema”, ele já está nele ao receber, e mesmo que se recuse a receber ou a retribuir. Ou seja: o que está em jogo aqui são a honra e o prestígio (de dar ou de retribuir). DIFERENÇAS ECONOMIA: TROCA = LUCRO (MERCADO + SOLIDÃO) ANTROPOLOGIA: TROCA = HONRA (ALIANÇA + SOCIABILIDADE)
INFORMAÇÃO = mensagem referente a acontecimento inesperado, desconhecido ou novo, do ponto-de-vista de quem NÃO o conhece e que depende das probabilidades de acontecer ou não. INFORMAÇÃO = matéria-prima da comunicação e da cultura de massas (novelas, noticiários, eventos esportivos etc.), uma vez que trabalham com subentendidos do tipo “saiba que”. INFORMAÇÃO = transmissão UNILATERAL de um suposto SABER, da parte de quem sabe (EMISSOR) direcionado para um ou mais destinatários que supostamente NÃO SABEM DE OU DESCONHECEM ALGO. Preocupação: que mensagem emitida seja a mesma a ser recebida pelo destinatário, sem perda de elementos ou falhas de transmissão. Mensagem enviada (emissor) = Mensagem recebida (receptor) COMUNICAÇÃO = baseia-se na TROCA INFORMAÇÃO = baseia-se na TRANSMISSÃO DE ALGO (MENSAGEM) Antigamente (sociedades pré-modernas), comunicação e informação caminhavam juntas, ou seja, partilhavam a mesma EXPERIÊNCIA para os indivíduos envolvidos. Com o desenvolvimento da comunicação de massa, instâncias da comunicação e da informação se separam. SODRÉ: “a regra do jogo é fingir que o medium (o intermediário técnico entre falante e ouvinte) equivale à completa realidade comunicacional dos sujeitos. E o primeiro grande falseamento operado por essa ficção é confundir informação com comunicação ” (SODRÉ, 1977: 24) COMUNICAÇÃO DE MASSA (THOMPSON) = “série de fenômenos que emergiram historicamente através do desenvolvimento de instituições que procuravam explorar novas oportunidades para reunir e registrar informações, para produzir e reproduzir formas simbólicas, e para transmitir informação e conteúdo simbólico para uma pluralidade de destinatários em troca de algum tipo de remuneração financeira. Sejamos mais precisos: eu usarei a expressão ‘comunicação de massa’ para me referir à produção institucionalizada e difusão generalizada de bens simbólicos através da fixação e transmissão de informações ou conteúdo simbólico ” (THOMPSON, 1998: 32. Grifos no original).
RETÓRICA = primeira sistematização de conhecimentos e idéias acerca da Comunicação. Influenciou outros campos do discurso (Jornalismo, Publicidade, Direito, Pedagogia etc.) É ampliada por Górgias na Grécia antiga, depois por demais sofistas. Sofistas = combatidos por Platão, por praticarem, em vez da boa retórica em busca da Verdade ( psicagogia : formação das almas pela palavra), uma má retórica ( logografia : fala-se sobre qualquer coisa em troca de dinheiro e “exibicionismo”). Aristóteles sistematiza Retórica para tratar do verossímil (aquilo a que não cabe uma verdade, pois trata do “que lhe parece” - opinião - e não “do que é”) e transforma-a, efetivamente, na primeira teoria da Comunicação:
Inventio - busca dos argumentos para convencer a um auditório, depende:
A Comunicação volta a ser estudada sistematicamente só no início do século XX (em particular no período entre as duas Grandes Guerras), com o advento e expansão dos MCM. Essas retomadas influenciaram boa parte dos anos 60/70 (70/80 no Brasil). Suas origens: CONTEXTO = EUA, pós-I Guerra Mundial INFLUÊNCIAS = behaviorismo (John Watson) + condicionamento clássico (Ivan Pavlov). Visão psicanalítica (inconsciente, ego) é aqui ignorada. América do Norte Teorias matemáticas, pensamento funcionalista norte-americano e ideário de Marshall McLuhan Europa a teoria crítica da Escola de Frankfurt e a semiologia francesa Behaviorismo comportamento humano é analisável porque observável, graças aos estímulos que provocam respostas (atos do indivíduo); recusam-se conceitos mentais (não-observáveis) E > R (estímulo provoca resposta) Condicionamento pavloviano tentava mostrar que biologia natural podia ser influenciada por estímulos externos. Padrões comportamentais não eram herdados ou genéticos, apenas, mas também alterados E externo > atividade natural Cria-se a idéia dos MCM como instâncias criadoras de “estímulos” (conteúdos), que provocariam “respostas” (efeitos) junto à audiência (vide notícias sobre a guerra, propaganda, programa de rádio A Guerra dos Mundos, de Orson Welles etc.). É a base para a Teoria da Agulha Hipodérmica (ou Teoria da Bala Mágica ou da Correia de Transmissão): MCM = onipotentes, poderosos X massa = impotente, passiva (massa = sociedade de indivíduos isolados, conforme pensamento de Gustave Le Bon e José Ortega y Gasset ) PLEBE, Armando & EMANUELE, Pietro. Manual de Retórica. São Paulo, Martins Fontes, 1992. REBOUL, Olivier. Introdução à Retórica. São Paulo, Martins Fontes, 1998.
É no final dos anos 40, dentro desse cenário de paranóia/medo, que surgem, nos EUA, dois dos paradigmas mais clássicos da Comunicação e que orientarão grande parte dos estudos posteriores na área: o modelo teórico de Harold Lasswell e a Teoria Matemática da Informação de Shannon & Weaver. Harold Lasswell 1948, “A Estrutura e a Função da Comunicação na Sociedade” quem? diz o quê? em qual canal? para quem? com quais efeitos? Viés funcionalista: vê o sistema social como um organismo cujas partes, de funções específicas, devem funcionar bem para o todo funcionar bem Meta: funcionalidade do sistema Claude Shannon e Warren Weaver 1949, “A Teoria Matemática da Comunicação” Viés matemático-informacional: vê partes componentes do sistema (e não o processo comunicacional) comunicativo apenas do ponto-de-vista técnico, com particular preocupação de que os sinais da mensagem transmitida cheguem ao destinatário do mesmo modo que “saíram” da fonte. Meta: transmissão otimizada da mensagem, sem preocupação com o seu conteúdo fonte destinatário mensagem mensagem codificador (E) sinal canal sinal decodificador (R) sentido da transmissão (ruído) Diferenças nas propostas paradigmáticas de Lasswell e de Shannon & Weaver: Em ambos os casos, só uma coisa importa: o sistema (social ou técnico) Shannon & Weaver preocupação apenas com o funcionamento técnico (não semântico) do sistema comunicativo. Lasswell preocupação com o papel da mídia na sociedade. Funções: vigilância + correlação das partes sociais + transmissão da herança cultural
Lazarsfeld chegou a trabalhar nos anos 50 junto com Adorno (a quem acusou de não fazer a verificação das hipóteses com as quais trabalhava) e, apesar de defender a administrative research , percebeu três funções dos MCM, juntamente com Robert King Merton:
Outro conjunto de idéias sobre os MCM vem do Canadá (anos 60) na polêmica obra de Marshall McLuhan, seguidor das idéias de Harold Innis (começo dos anos 50), geógrafo e economista. Foco de Innis = determinismo tecnológico; tecnologias da comunicação (e outras também, como transporte) são base de processos políticos e econômicos. Traços culturais de cada civilização antiga estão ligados aos meios por ela usados (meio “predispõe” uma forma social específica). Comunicação, tecnologia e esfera econômica = favorecem “monopolização do conhecimento” por parte de um grupo que cria/domina uma nova tecnologia, criando um “desequilíbrio” na sociedade (experts x “analfabetos tecnológicos”). Resultado: ou se impede o desenvolvimento ou surgem novos mecanismos para tentar “corrigir” esse desequilíbrio. Dimensões fundamentais = tempo e espaço (cada meio se adapta melhor a uma dimensão do que a outra). Exemplos: papel e papiros (da ordem da inscrição e leves) e comunicação eletrônica tendem a vencer o espaço, por se “moverem” mais facilmente; pedra, pergaminho e argila (da ordem da inscrição mas pesados e resistentes) tendem a vencer o tempo. Esses aspectos influenciam no desenvolvimento de uma civilização. Innis troca as considerações sobre os efeitos e os conteúdos (mensagens) por questionamentos sobre os canais. Seu pensamento terá influências, diretas ou indiretas, nas obras de McLuhan, Pierre Lévy, Derrick de Kerchove e Régis Debray. McLuhan - para alguns, precursor dos estudos midiológicos (“lógica da mídia”). Foge do formalismo do funcionalismo, mas não do funcionalismo em si (ao prever a “aldeia global”, espécie de “expansão/conexão mundial” da mídia até então localizada, por exemplo). McLuhan privilegia em suas análises o sensorial, nunca o ideológico. Importava para ele como o canal e a mensagem (“massagem”) atuavam no receptor, mas não o quê a mensagem significava. Para McLuhan, um novo meio modifica a percepção sensorial da realidade, uma vez que ele é uma extensão de algum sentido humano; um novo meio cria um novo ambiente, com conseqüências psíquicas e sociais. Meios se influenciam, se alternam, superam um ao outro, mas não se destróem.