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Apostila com a temática da probabilidade publicada em 2006 da professora da UFF Ana Maria Lima de Farias
Tipologia: Resumos
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Não perca as partes importantes!





























































































DEPARTAMENTO DE ESTATÍSTICA
PROBABILIDADE
No nosso cotidiano, lidamos sempre com situações onde está presente a incerteza do resultado, embora, muitas vezes, os resultados possíveis sejam conhecidos. Por exemplo: o sexo de um embrião pode ser masculino ou feminino, mas só saberemos o resultado quando o experimento se concretizar, ou seja, quando o bebê nascer. Se estamos interessados na face voltada para cima quando jogamos um dado, os resultados possíveis são 1, 2, 3, 4, 5, 6, mas só saberemos o resultado quando o experimento se completar, ou seja, quando o dado atingir a superfície sobre a qual foi lançado. É conveniente, então, dispormos de uma medida que exprima a incerteza presente em cada um destes acontecimentos. Tal medida é a probabilidade. No estudo das distribuições de freqüências, vimos como essas são importantes para entendermos a variabilidade de um fenômeno aleatório. Por exemplo, se sorteamos uma amostra de empresas e analisamos a distribuição do número de empregados, sabemos que uma outra amostra forneceria resultados diferentes. No entanto, se sorteamos um grande número de amostras, esperamos que surja um determinado padrão que reflita a verdadeira distribuição da população de todas as empresas. Através de um modelo teórico, construído com base em suposições adequadas, podemos reproduzir a distribuição de freqüências quando o fenômeno é observado diretamente. Esses modelos são chamados modelos probabilísticos e eles serão estudados na segunda parte do curso de Estatística. A probabilidade é a ferramenta básica na construção de tais modelos e será estudada nesta primeira parte.
Consideremos o lançamento de um dado. Queremos estudar a proporção de ocorrências das faces desse dado. O primeiro fato a observar é que existem apenas 6 resultados possíveis, as faces 1, 2, 3, 4, 5, 6. O segundo fato é uma suposição sobre o dado: em geral, é razoável supor que este seja equilibrado. Assim, cada face deve ocorrer o mesmo número de vezes e, portanto, essa proporção deve ser 16. Nessas condições, nosso modelo probabilístico para o lançamento de um dado pode ser expresso da seguinte forma:
Face 1 2 3 4 5 6 Total Freqüência teórica 16 16 16 16 16 16 1
1
Suponhamos que uma mulher esteja grávida de trigêmeos. Sabemos que cada bebê pode ser do sexo masculino (M) ou feminino (F). Então, as possibilidades para o sexo das três crianças são: MMM, MMF, MFM, FMM, FFM, FMF, MFF, FFF. Uma suposição razoável é que todos esses resultados sejam igualmente prováveis, o que equivale dizer que cada bebê tem igual chance de ser do sexo masculino ou feminino. Então cada resultado tem uma chance de 18 de acontecer e o modelo probabilístico para esse experimento seria
Sexo MMM MMF MFM FMM FFM FMF MFF FFF Total Freq. teórica 18 18 18 18 18 18 18 18 1
Por outro lado, se só estamos interessados no número de meninas, esse mesmo experimento leva ao seguinte modelo probabilístico:
Meninas 0 1 2 3 Total Freq. teórica 18 38 38 18 1 Nesses exemplos, vemos que a especificação de um modelo probabilístico para um fenômeno casual depende da especificação dos resultados possíveis e das respectivas probabilidades. Vamos, então, estabelecer algumas definições antes de passarmos à definição propriamente dita de proba- bilidade.
Um experimento aleatório é um processo que acusa variabilidade em seus resultados, isto é, repetindo- se o experimento sob as mesmas condições, os resultados serão diferentes. Contrapondo aos experi- mentos aleatórios, temos os experimentos determinísticos, que são experimentos que, repetidos sob as mesmas condições, conduzem a resultados idênticos. Neste curso, estaremos interessados apenas nos experimentos aleatórios.
O espaço amostral de um experimento aleatório é o conjunto de todos os resultados possíveis desse experimento. Vamos denotar tal conjunto pela letra grega ômega maiúscula, Ω. Quando o espaço amostral é finito ou infinito enumerável, é chamado espaço amostral discreto. Caso contrário, isto é, quando Ω é não enumerável, vamos chamá-lo de espaço amostral contínuo.
Os subconjuntos de Ω são chamados eventos aleatórios; já os elementos de Ω são chamados eventos elementares. A classe dos eventos aleatórios de um espaço amostral Ω, que denotaremos por F (Ω) , é o conjunto de todos os eventos (isto é, de todos os subconjuntos) do espaço amostral. A título de ilustração, consideremos um espaço amostral com três elementos: Ω = {ω 1 , ω 2 , ω 3 }. A classe dos eventos aleatórios é
F (Ω) = {∅, {ω 1 } , {ω 2 } , {ω 2 } , {ω 1 , ω 2 } , {ω 1 , ω 2 } , {ω 2 , ω 3 } , {ω 1 , ω 2 , ω 3 }} Os eventos, sendo conjuntos, serão representados por letras maiúsculas do nosso alfabeto, en- quanto os elementos de um evento serão representados por letras minúsculas.
Mais especificamente:
Ω =
Os eventos são: A = {(i, j) : i = 1, 2 , ; j = 1, 2 , 3 , 4; i 6 = j}
ou mais especificamente
A = {(1, 2) , (1, 3) , (1, 4) , (2, 1) , (2, 3) , (2, 4)}
B = {(i, j) : i = 1, 2 , 3 , 4; j = 1, 2; i 6 = j}
ou B = {(2, 1) , (3, 1) , (4, 1) , (1, 2) , (3, 2) , (4, 2)} C = {(i, j) : i = 1, 2; j = 1, 2; i 6 = j}
ou C = {(1, 2) , (2, 1)}
Exemplo 1.6 Três cartas são retiradas, sem reposição, de um baralho que tem três cartas de cada uma das cores azul, vermelha, preta e branca. Dê um espaço amostral para esse experimento e liste os eventos:
A : todas as cartas selecionadas são vermelhas. B : uma carta vermelha, uma carta azul e uma carta preta são selecionadas. C : três diferentes cores ocorrem. D : todas as 4 cores ocorrem.
Solução: Vamos denotar por A, V, P e B as cores azul, vermelha, preta e branca, respectivamente. Então
S = {(x 1 , x 2 , x 3 ) : xi = A, V, P, B; i = 1, 2 , 3 }
A = {(V, V, V )} B = {(V, A, P ) , (V, P, A) , (A, V, P ) , (A, P, V ) , (P, A, V ) , (P, V, A)} C = {(x 1 , x 2 , x 3 ) : xi = A, V, P, B; i = 1, 2 , 3; x 1 6 = x 2 6 = x 3 }
Ou
Como temos 4 cores diferentes e apenas 3 extrações, não é possível obter todas as cores; logo,
D = ∅
O evento interseção de dois eventos A e B é o evento que equivale à ocorrência simultânea de A e B (ver Figura 1.1). Seguindo a notação da teoria de conjuntos, a interseção de dois eventos será representada por A ∩ B.
Figura 1.1: Interseção de dois eventos: A ∩ B
Note que x ∈ A ∩ B ⇔ x ∈ A e x ∈ B (1.1)
Exemplo 1.7 Consideremos o experimento “lançamento de dois dados” e os eventos A =“soma das faces é um número par” e B = “soma das faces é um número maior que 9”. Calcule A ∩ B. Solução: O espaço amostral desse experimento, que tem 36 elementos, é
Ω = {(1, 1), (1, 2),... , (1, 6), (2, 1),... , (2, 6),... , (6, 6)}
Para que um elemento pertença à interseção A ∩ B, ele tem que pertencer simultaneamente ao evento A e ao evento B. O evento B é
B = {(4, 6) , (5, 5) , (5, 6) , (6, 4) , (6, 5) , (6, 6)}
Dos seus elementos, os únicos que pertencem ao evento A, isto é, que têm soma das faces par, são os eventos (4, 6) , (5, 5) , (6, 4) e (6, 6). Logo, A ∩ B = {(4, 6) , (5, 5) , (6, 4) , (6, 6)}. Note que não precisamos listar o evento A! Ele tem 18 elementos!
Figura 1.3: União de dois eventos: A ∪ B
Note que x ∈ A ∪ B ⇔ x ∈ A ou x ∈ B (1.2)
Exemplo 1.9 Consideremos o experimento do lançamento de duas moedas, onde o espaço amostral é Ω = {KK, KC, CK, CC}. Sejam os eventos A = “ocorrência de exatamente 1 cara” e B = “duas faces iguais”. Então A = {KC, CK} e B = {CC, KK} ; logo, A ∪ B = Ω e A ∩ B = ∅. Seja C o evento “pelo menos uma cara”; então C = {KC, CK, KK} e B ∪ C = Ω e B ∩ C 6 = ∅.
O complementar de um evento A, denotado por A ou Ac, é a negação de A. Então, o complementar de A é formado pelos elementos que não pertencem a A (ver Figura 1.4).
Figura 1.4: Complementar de um evento A : A
Note que x ∈ A ⇔ x /∈ A (1.3)
e também que A ∪ A = Ω (1.4)
Exemplo 1.10 Consideremos o lançamento de um dado e seja A = “face par”. Então, A é o evento “face ímpar”. Note que A = { 2 , 4 , 6 } e A = { 1 , 3 , 5 } e Ω = A ∪ A.
A diferença entre dois eventos A e B, representada por A − B, ou equivalentemente, por A ∩ B, é o evento formado pelos pontos do espaço amostral que pertencem a A mas não pertencem a B (ver Figura 1.5).
Figura 1.5: Diferença de dois conjuntos: A − B = A ∩ B
Note que x ∈ A − B ⇔ x ∈ A e x /∈ B (1.5)
e também A = (A − B) ∪ (A ∩ B) (1.6)
Além disso, A − B 6 = B − A, conforme ilustrado na Figura 1.6.
Figura 1.7: Partição do espaço amostral Ω
Exemplo 1.12 No experimento “lançamento de um dado”, os eventos A = “face par” e B = “face ímpar” formam uma partição do espaço amostral. Temos também que, qualquer que seja Ω, um evento A qualquer e seu complementar A formam uma partição, isto é, A∩A = ∅ e A∪A = Ω.
Sejam A, B, C eventos de um espaço amostral Ω. Então valem as seguintes propriedades.
A ∩ ∅ = ∅ A ∪ ∅ = A A ∩ Ω = A A ∪ Ω = Ω (1.7)
(Note que Ω é o equivalente do conjunto universal da teoria de conjuntos.)
Ω = ∅ ∅ = Ω A ∩ A = ∅ A ∪ A = Ω (1.8)
A ∩ A = A A ∪ A = A (1.9)
A ∩ B = B ∩ A A ∪ B = B ∪ A (1.10)
(A ∩ B) ∩ C = A ∩ (B ∩ C) (A ∪ B) ∪ C = A ∪ (B ∪ C) (1.11)
A ∩ (B ∪ C) = (A ∩ B) ∪ (A ∩ C) A ∪ (B ∩ C) = (A ∪ B) ∩ (A ∪ C) (1.12)
A ilustração da primeira propriedade está na Figura 1.8. Na linha superior, ilustramos o lado esquerdo da igualdade A ∩ (B ∪ C) : no diagrama à esquerda temos o evento A e no diagrama do centro temos o evento B ∪ C. Para sombrear a interseção desses dois eventos, basta sombrear as partes que estão sombreadas em ambos os diagramas, o que resulta no diagrama à direita, onde temos o evento A ∩ (B ∪ C). Na linha inferior, ilustramos o lado direito da igualdade (A ∩ B) ∪ (A ∩ C) : no diagrama à esquerda temos o evento A ∩ B e no diagrama do centro, o evento A ∩ C. Para sombrear a união desses dois eventos, basta sombrear todas as partes que estão sombreadas em algum dos diagramas, o que resulta no diagrama à direita, onde temos o evento (A ∩ B)∪(A ∩ C). Analisando os diagramas à direita nas duas linhas da figura, vemos que A ∩ (B ∪ C) = (A ∩ B) ∪ (A ∩ C). A ilustração da segunda propriedade está na Figura 1.9. Na linha superior, ilustramos o lado esquerdo da igualdade A ∪ (B ∩ C) : no diagrama à esquerda temos o evento A e no diagrama do centro temos o evento B ∩ C. Para sombrear a união desses dois eventos, basta sombrear todas as partes que estão sombreadas em algum dos diagramas, o que resulta no diagrama à direita, onde temos o evento A ∪ (B ∩ C). Na linha inferior, ilustramos o lado direito da igualdade (A ∪ B) ∩ (A ∪ C) : no diagrama à esquerda temos o evento A ∪ B e no diagrama do centro, o evento A ∪ C. Para sombrear a interseção desses dois eventos, basta sombrear todas as partes que estão sombreadas em ambos os diagramas e isso resulta no diagrama à direita, onde temos o evento (A ∪ B) ∩ (A ∪ C). Analisando os diagramas à direita nas duas linhas da figura, vemos que A ∪ (B ∩ C) = (A ∪ B) ∩ (A ∪ C).
A ∩ (A ∪ B) = A A ∪ (A ∩ B) = A (1.13)
A ∩ B = A ∪ B A ∪ B = A ∩ B (1.14)
Na primeira linha da Figura 1.10 ilustra-se a primeira propriedade A ∩ B = A ∪ B : no diagrama à esquerda temos A ∩ B; nos dois diagramas centrais, temos, respectivamente, A e B; no diagrama à direita, temos A ∪ B, que é igual ao diagrama à esquerda, ou seja, A ∩ B = A ∪ B. Na segunda linha da Figura 1.10 ilustra-se a segunda propriedade A ∪ B = A ∩ B : no diagrama à esquerda temos A ∪ B; nos dois diagramas centrais, temos, respectivamente, A e B; no diagrama à direita, temos A ∩ B, que é igual ao diagrama à esquerda, ou seja, A ∪ B = A ∩ B.
Figura 1.10: Ilustração das propriedades de De Morgan
Exemplo 1.13 Sejam A, B, C três eventos de um espaço amostral. Exprima os eventos abaixo usando as operações união, interseção e complementação:
Solução:
Exemplo 1.14 Considere o lançamento de dois dados e defina os seguintes eventos:
A = soma par B = soma ≥ 9 C = máximo das faces é 6
Calcule A ∩ B, A ∪ B, A − B, B − A, B ∩ C, B − C. Solução:
A =
Note que, de acordo com as propriedades já vistas,
(B ∩ C) ∪ (B − C) = (B ∩ C) ∪
1.4 Defina um espaço amostral para cada um dos seguintes experimentos aleatórios:
1.5 Sejam A, B, C três eventos de um espaço amostral. Exprimir os eventos abaixo usando as operações união, interseção e complementação:
No capítulo anterior, vimos que o espaço amostral para o experimento aleatório do lançamento de um dado é Ω = { 1 , 2 , 3 , 4 , 5 , 6 }. Vimos também que é usual supor que o dado seja equilibrado, o que equivale dizer que todos os resultados são igualmente prováveis. Então, se jogarmos o dado várias vezes, aproximadamente um sexto das ocorrências resultará na face 3, bem como metade das repetições resultará em um número par. Estamos analisando a chance de ocorrência dos eventos A = “face 3” e B = “face par”. O evento A é um evento elementar, enquanto o evento B é um sub- conjunto com 3 elementos, o que representaremos por #A = 1 e #B = 3. Essa é uma terminologia usual para representar o número de elementos de um conjunto, que lemos como “cardinalidade de A ou B”. É intuitivo dizer que A ocorrerá 16 das vezes, enquanto B ocorrerá 12 = 36 das vezes. Define-se, assim, a probabilidade de um evento A como a razão entre o número de elementos de A e o número de elementos de Ω. Vamos nos referir aos elementos de A − o evento de interesse − como sendo os “casos favoráveis”, enquanto os elementos de Ω são os “casos possíveis”, o que nos leva à seguinte definição.
Definição 2.1 Definição clássica de probabilidade Seja A um evento de um espaço amostral Ω finito, cujos elementos são igualmente prováveis. Define-se a probabilidade do evento A como
Pr(A) =
número de casos favoráveis número de casos possíveis
Naturalmente, nesta definição estamos supondo que #Ω > 0 , ou seja, que Ω tenha algum elemento pois, se não tivesse, não teríamos o que estudar! Esta foi a primeira definição formal de probabilidade, tendo sido explicitada por Girolamo Cardano (1501-1576). Vamos nos referir a ela como a definição clássica de probabilidade. Note que ela se baseia em duas hipóteses:
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