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O termo cura de carnes se refere à conservação de um produto por adição de sal, compostos fixadores de cor (nitratos e/ou nitritos), açúcar e condimentos, onde também é obtida a melhora das propriedades sensoriais. Pode-se afirmar que a utilização de nitrato foi descoberta casualmente devido sua presença como impureza no cloreto de sódio empregado.
Tipologia: Notas de estudo
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Prof. Roberto de Oliveira Roça Laboratório de Tecnologia dos Produtos de Origem Animal Fazenda Experimental Lageado, Caixa Postal, 237. F.C.A. - UNESP - Campus de Botucatu Fones: 6802-7200; cel (14)975-7991;. FAX: (14)6821- CEP 18.603-970 - BOTUCATU - SP E-mail: [email protected]
O processamento da carne originou-se nos tempos pré-históricos. Possivelmente o primeiro tipo de carne processada foi a dessecada pelo sol e somente mais tarde foi utilizada a dessecação pelo fogo lento de madeira para dar um produto seco e defumado. A salga e a defumação da carne eram uma prática antiga, realizada em tempos de Homero, 850 a.C.. Estes produtos cárneos eram processados com o objetivo de conservá-los para o consumo em períodos posteriores. O termo cura de carnes se refere à conservação de um produto por adição de sal, compostos fixadores de cor (nitratos e/ou nitritos), açúcar e condimentos, onde também é obtida a melhora das propriedades sensoriais. Pode-se afirmar que a utilização de nitrato foi descoberta casualmente devido sua presença como impureza no cloreto de sódio empregado. A cura de carnes é um procedimento que tem por finalidade conservar a carne por um período de tempo mais longo, além de conferir-lhe determinadas qualidades sensoriais, como sabor e aroma mais agradáveis e coloração vermelha ou rósea atraente.
Para incorporar a mistura de cura nos produtos cárneos são utilizadas diversas técnicas. Qualquer que seja o método empregado, a exigência básica constitui na boa distribuição dos ingredientes de cura por todo produto. Uma distribuição inadequada ou irregular ocasionará o
desenvolvimento de uma cor pobre, com possibilidade de deterioração nas áreas não atingidas pela mistura de cura. A velocidade de cura em peças de carne depende da velocidade de difusão dos ingredientes de cura pelos tecidos que depende, por sua vez dos métodos de aplicação dos mesmos, do tamanho das peças de carne, da quantidade de cobertura de gordura e da temperatura. A indústria tem introduzido muitas alterações nas práticas de cura com o objetivo de obter produtos de qualidade mais uniforme e econômicos, reduzir os riscos que tem os produtos curados quando o mercado flutua e diminuir a incidência de alterações bacterianas da carne durante a cura e o processamento. Em produtos de salsicharia, os ingredientes de cura são incorporados durante os processos de mistura e moagem. São adicionados em forma seca ou como solução concentrada e são distribuídos uniformemente por todo produto durante a trituração e preparo da massa. Essa técnica é conhecida como cura direta. O método mais antigo é a cura à seco , que constitui na aplicação dos agentes de cura na forma seca sobre a superfície da carne. É um processo lento. Outro processo é a cura por imersão em salmoura , onde as peças são submersas em uma solução formada pelos componentes de cura dissolvidos em água. Este método de cura também é lento e necessita muito tempo para a salmoura se difundir por todo produto. Tanto a cura a seco como cura por imersão em salmoura, quando aplicados em peças grandes de carne como pernil, paleta, corre o risco de produzir alterações bacterianas antes da penetração eficaz dos agentes de cura. Esses processos são utilizados isoladamente em produtos que constituem autênticas especialidades. A penetração dos agentes de cura é muito mais rápida e sua distribuição mais uniforme quando são injetados diretamente nos tecidos. Constitui a cura por injeção de salmoura. Nas peças de carne, cujo sistema
TABELA 1- Conteúdo do sal no músculo de suíno curado sem congelação prévia e curado após congelação e descongelação (%). Tempo de imersão em salmoura a 25% (horas)
não congelado congelado e descongelado 5 1,5 2, 10 2,1 2, 20 3,0 3, 60 4,5 5, FONTE: LAWRIE, R.A., 1967
Concentração de sal limitante para o crescimento microbiano:
% de sal microrganismos 5 Clostridium botulinum tipo E, Pseudomonas fluorescens 6 Shigella, Kebsiella 8 E. coli, salmonelas, Bacillus cereus, Clostridium botulinum tipo A, Clostridium perfringens 10 Clostridium botulinum tipo B, Vibrio parahaemolyticus 15 Bacillus subtilis, estreptococcus 18 Staphylococcus aureus 25 espécies de Penicillium e de Aspergillus 26 Halobacterium halobium, Bacterium prodigiosum ,^ espécies^ de Spirillium Fonte: PRÄNDL ET AL.,
Quase todas salas de cura comerciais trabalham sob temperatura de 2 a 4ºC. Essa temperatura retarda o crescimento de quase todas as bactérias até que se complete a penetração do sal, porém, permite ao mesmo tempo o
crescimento das bactérias redutoras de nitratos que são essenciais quando a cura se faz com o nitrato de sódio. As temperaturas de cura inferiores de 2ºC retardam as reações de cura e as superiores a 4ºC favorecem o crescimento de bactérias responsáveis por alterações. Entretanto, pode ser utilizado o sistema de cura a quente com a utilização de salmouras quentes, ou cura de carnes na fase de pré-rigidez, que apresentam melhor rendimento e economia de tempo.
A tolerância do nitrito varia amplamente entre diferentes grupos de bactérias. Existem diversas explicações das propriedades bacteriostáticas do nitrito. Nas fórmulas de cura, podem ser adicionados nitrito de sódio ou nitrito de potássio, embora raramente é utilizado o nitrito de potássio. O nitrito de sódio é um sal de ácido relativamente fraco e de uma base forte. É uma substância cristalina, muito solúvel em água de cor amarela pálida. Suas soluções aquosas são ligeiramente alcalinas e tem também cor amarelo pálido. O íon nitrito possui grande reatividade. Nos sistemas biológicos, o íon nitrito ou o ácido nitroso pode intervir em muitas reações químicas. A reação de Van Slyke constitui um exemplo clássico da liberação de nitrogênio ao reagir o ácido nitroso com os alfa- aminoácidos para formar o alfa-hidroácidos correspondentes. RCHNH 2 COOH + HNO 2 → RCHOHCOOH + N 2 + H 2 O Como conseqüência desta reação, o nitrito adicionado pode desaparecer durante a cura de carnes. Quando as carnes curadas contém vinagre ou outros ácidos, o nitrito desaparece mais rapidamente, via reação de Van Slyke. As reações mais importantes são do óxido nítrico (NO), que é derivado do ácido nitroso, com os pigmentos hemo da carne. O sumário das reações químicas mais importantes desde a conversão de nitrato de sódio a nitrito de sódio até a formação de óxido nítrico pode ser esquematizado da seguinte maneira:
2NaNO 3 bactérias^ 2NaNO2 + O (nitrato de sódio) (nitrito de sódio)
NaNO 2 + H 20 pH 5,4 - 6,0^ HNO2 + NaOH (ácido nitroso)
3 HNO 2 substâncias redutoras^ 2NO + HNO 3 + H 20 (óxido nítrico)
Na carne existem em plena atividade, substratos e enzimas, especialmente do ácido tricarboxílico, que podem proporcionar equivalentes redutores como NADH. A formação de óxido nítrico pode ser acelerada adicionando substâncias redutoras (ascorbatos e isoascorbatos) na mistura de cura. O óxido nítrico é o principal produto de decomposição do nitrito adicionado, juntamente com a mioglobina na reação de cura. A Figura 1 indica as várias rotas químicas na reação de cura. Este esquema não mostra a complexidade existente. O principal pigmento da carne no momento de submete-la à cura é a mioglobina. Em presença de nitrito e outros subprodutos de reação deste composto, os pigmentos da carne podem sofrer numerosas alterações que dependem de fatores intrínsecos (pH, potencial de óxido-redução, atividade enzimática) e extrínsecos (aditivos, acidificação e aquecimento). Como o nitrito é um agente oxidante da mioglobina, provavelmente a reação inicial consiste na conversão da mioglobina e oximioglobina em metamioglobina. O óxido nítrico pode combinar-se com a metamioglobina originando a nitrosometamioglobina, que pode reduzir-se ao nitrosomioglobina (pigmento da carne curada sem ação do calor). Esta redução pode ser realizada na carne naturalmente (lento) ou por redutores adicionados na mistura de cura. O nitroso hemocromo é o pigmento final que devem ter todas carnes curadas submetidas ao aquecimento. Esta reação implica na desnaturação da parte protéica da mioglobina, mas fica intacta a estrutura hemo unida ao óxido nítrico. A cor do nitroso hemocromo é rosa, em contraste com o nitrosomioglobina que possui uma cor mais avermelhada. A cor do pigmento desnaturado (nitroso hemocromo) é mais estável do que o pigmento nitrosomioglobina. O nitroso hemocromo é estável ao calor, porém instável à luz e oxidações.
O nitrito consumido em quantidades excessivas é tóxico. Uma dose única maior do que 15-20 mg/Kg de peso vivo pode ser letal. Entretanto, o nível máximo permitido em produtos cárneos é de 20 a 40 vezes abaixo da dose letal. Portanto, a utilização de nitrito em níveis recomendados não constitui nenhum problema de toxidade. A reação do nitrito com aminas secundárias pode originar nitrosaminas que são compostos carcinogênicos. A concentração de nitrosaminas em produtos cárneos curados geralmente é menor do que 50ppb (partes por bilhão), sendo que a maioria das amostras analisadas são negativas. O nitrito inibe a germinação do C. botulinum e previne a formação de toxinas nos produtos cárneos curados. Se admite que a concentração mínima de nitrito necessária para inibir o C. botulinum seja de 150 ppm. Investigações estão sendo realizadas para encontrar um substituto para o nitrito, porém ainda não foi encontrado nenhuma substância igual ou superior ao nitrito no desenvolvimento de cor e na ação antimicrobiana. De acordo com o R.I.I.S.P.O.A., o emprego de nitratos e nitritos está restrito aos seguintes limites: Art. 372. O emprego dos nitratos e nitritos, de sódio ou de potássio, ou qualquer combinação entre eles, só pode ser feito em quantidades tais que, no produto para o consumo, o teor em nitrito não ultrapasse a 200 partes por milhão (0,02%). Art. 373. Os nitritos de sódio ou de potássio só podem ser empregados, isoladamente ou em combinação, nas seguintes proporções máximas: 1 - 240 g para cada 100 litros de salmoura (0,24%) e, salmoura); 2- 60g para cada 100 Kg de carne, na cura a seco, de mistura com o sal (0,06% a seco); 3 - 15 g para cada 100 Kg de carne picada ou triturada, de mistura com o sal (0,015% no método direto).
A qualidade de quase todas as carnes curadas é melhor após seu processamento, e por esse motivo, tem importância a conservação da qualidade. É aplicado um tratamento térmico na maior parte das carnes curadas com a finalidade de destruir quase todos os microorganismos que são capazes de crescer a baixa temperatura. Como conseqüência da cura e processamento térmico, a vida útil das carnes curadas sob refrigeração é maior do que as carnes frescas. A seguir, são apresentados as principais alterações que podem ocorrer nas carnes curadas.
Escurecimento A superfície de corte ou exterior dos presuntos e embutidos às vezes adquire uma cor marrom como resultado da desidratação. Esta cor é devida ao pigmento da carne curada transformar-se em metamioglobina e ocorre freqüentemente em conseqüência das condições de armazenamento do produto. O aparecimento desta alteração pode ser retardada, utilizando invólucros pouco permeáveis à água e ao oxigênio.
Descoloração por cura deficiente A cor fraca pode ser um indício da baixa quantidade de nitrito empregada na cura e do baixo nível do nitrito residual. Nos produtos com essa alteração a cor interior é rosa pálida e também tende a perder a cor quando exposta ao oxigênio.
Esverdecimento por cura excessiva Durante a cura, as quantidades excessivas de nitrito originam também um esverdecimento do pigmento da carne curada conhecido como
“queimadura do nitrito”. Tendo em vista que o nitrito tem maior capacidade de reação em meio ácido, a queimadura do nitrito constitui um problema especialmente nos embutidos fermentados ou produtos com vinagre devido sua elevada acidez. O esverdecimento originado da queimadura do nitrito se deve à oxidação do pigmento da carne curada.
Descoloração pela luz O nitrosomioglobina e nitroso hemocromo são susceptíveis à descoloração pela luz. Esta alteração é importante quando a carne fica exposta ao ar com iluminação fluorescente. A descoloração pela luz é feita em duas fases: a dissociação do óxido nítrico do grupo hemo que é catalisada pela luz torna-se marrom acinzentado devido ao pigmento denominado hemicromo, que tem no grupo hemo o ferro férrico (Fe+++). O método mais eficaz para prevenir esta alteração é a embalagem à vácuo ou a utilização de películas impermeáveis ao oxigênio. Em certos casos o uso de ascorbato retarda a descoloração pela luz.
Descoloração por ranço A rancidez da gordura afeta também as características sensoriais do produto. Durante o armazenamento prolongado sob congelação as salsichas freqüentemente rancificam e a superfície do produto descolora. Para evitar esta alteração, deve prestar atenção na seleção e armazenamento das matérias primas empregadas na fórmula e exclusão completa de oxigênio na embalagem do produto.
Descoloração química Qualquer substância química oxidante que entra em contato com a superfície da carne curada produz sua descoloração. Pode ocorrer problemas deste tipo com o uso de hipocloritos como desinfetantes, se alcançar a superfície das carnes curadas.
superfície dos produtos cárneos por contato direto ou por contaminação aerógena.
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