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Apostila sobre Elementos de Matemática, parte Lógica e Conjuntos, elaborada pelo prof. Ulysses Sodré da UEL
Tipologia: Notas de estudo
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Vers˜ao compilada no dia 27 de Abril de 2007.
Departamento de Matem´atica - UEL
Prof. Ulysses Sodr´e E-mail: [email protected] Matem´atica Essencial: http://www.mat.uel.br/matessencial/
Resumo: Notas de aulas constru´ıdas com materiais utilizados em nossas aulas na Universidade Estadual de Londrina. Desejo que elas sejam um roteiro para as aulas e n˜ao espero que estas no- tas venham a substituir qualquer livro sobre o assunto. Alguns conceitos foram obtidos em livros citados na Bibliografia, mas os assuntos foram bastante modificados. Em portuguˆes, h´a pouco material de dom´ınio p´ublico, mas em inglˆes existem diversos ma- teriais que podem ser obtidos na Rede Internet. Sugerimos que o leitor fa¸ca pesquisas para obter materiais gratuitos para os seus estudos.
Mensagem: ‘Ora, a f´e ´e o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que n˜ao se vˆeem. Porque por ela os antigos alcan¸caram bom testemunho. Pela f´e entendemos que os mundos foram criados pela palavra de Deus; de modo que o vis´ıvel n˜ao foi feito daquilo que se vˆe.’ A B´ıblia Sagrada, Hebreus 11:1-
Cap´ıtulo 2
Elementos de L´ogica e Conjuntos
‘Tu, por´em, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, e que desde a infˆancia sabes as sagradas letras, que podem fazer-te s´abio para a salva¸c˜ao, pela que h´a em Cristo Jesus. Toda Escritura ´e divi- namente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justi¸ca; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente preparado para toda boa obra.’ A B´ıblia Sagrada, II Tim´oteo 3:14-
Nesta se¸c˜ao, n´os tratamos sobre proposi¸c˜oes (ou senten¸cas) l´ogicas, suas val- idades e falsidades, al´em do modo de combinar ou ligar proposi¸c˜oes para produzir novas proposi¸c˜oes. Primeiro, vamos apresentar uma defini¸c˜ao de proposi¸c˜ao l´ogica.
Defini¸c˜ao 1 (Proposi¸c˜ao). Uma proposi¸c˜ao (ou senten¸ca ou frase) ´e um con- junto de palavras ou s´ımbolos que exprimem uma afirma¸c˜ao de modo com- pleto.
Defini¸c˜ao 2 (Proposi¸c˜ao l´ogica). Uma proposi¸c˜ao (ou senten¸ca ou frase) l´ogica ´e uma express˜ao que ´e verdadeira ou falsa.
A L´ogica Matem´atica (bivalente) est´a apoiada em dois princ´ıpios:
2.1. PROPOSIC¸ ˜OES (OU SENTENC¸ AS) L ´OGICAS 3
Observa¸c˜ao 1. Jan Lukasiewicz (1920) estudou a L´ogica trivalente, ad- mitindo a existˆencia de trˆes situa¸c˜oes: Verdadeiro , falso ou ´e poss´ıvel. Detalhes sobre isto podem ser encontrados na p´agina 92 do livro “Introdu¸c˜ao `a L´ogica Matem´atica” de Benedito Castrucci, GEEM, S˜ao Paulo, 1973. O paranaense Newton C. A. Costa tamb´em estudou o assunto.
Exemplo 1. Proposi¸c˜oes.
N˜ao ´e fun¸c˜ao da L´ogica decidir se uma particular proposi¸c˜ao ´e verdadeira ou falsa, pois existem proposi¸c˜oes cuja validade ou falsidade ainda n˜ao tenha sido estabelecida at´e hoje, como:
Teorema 1 (Conjectura de Goldbach). Todo n´umero par maior do que 2 ´e a soma de dois n´umeros primos.
Existe um defeito em nossa defini¸c˜ao, pois nem sempre ´e f´acil determinar se uma senten¸ca ´e uma senten¸ca l´ogica ou n˜ao.
Por exemplo, considere a senten¸ca Eu estou mentindo, n˜ao estou?. O que vocˆe pensa desta senten¸ca?
Existem senten¸cas que s˜ao proposi¸c˜oes l´ogicas, do ponto de vista da nossa defini¸c˜ao.
Defini¸c˜ao 3 (Conectivos). Conectivos s˜ao palavras ou grupos de palavras usadas para juntar duas senten¸cas.
Conectivo Significado Conjun¸c˜ao e Disjun¸c˜ao ou Nega¸c˜ao n˜ao Condicional se ... ent˜ao Bicondicional se, e somente se,
2.1. PROPOSIC¸ ˜OES (OU SENTENC¸ AS) L ´OGICAS 5
Observa¸c˜ao 3 (Tabela-Verdade da Disjun¸c˜ao). Reunimos em uma tabela, todas as informa¸c˜oes relacionando afirma¸c˜oes Verdadeiras e Falsas sobre a disjun¸c˜ao: p q p ∨ q V V V V F V F V V F F F
Observa¸c˜ao 4 (Demonstrar uma disjun¸c˜ao). Para demonstrar que uma proposi¸c˜ao p ∨ q ´e verdadeira, vamos assumir que a proposi¸c˜ao p ´e falsa e usar este fato para deduzir que a proposi¸c˜ao q ´e verdadeira. Se a proposi¸c˜ao p ´e verdadeira, o nosso argumento j´a est´a correto, n˜ao importa se a proposi¸c˜ao q ´e verdadeira ou falsa.
Defini¸c˜ao 7 (Validade da Nega¸c˜ao). A nega¸c˜ao de p, denotada por ¬p (lˆe-se: n˜ao p) ´e verdadeira se a proposi¸c˜ao p ´e falsa, e ´e falsa se a proposi¸c˜ao p ´e verdadeira.
Exemplo 4. Nega¸c˜ao.
Observa¸c˜ao 5 (Tabela-Verdade da Nega¸c˜ao). Reunimos em uma tabela, todas as informa¸c˜oes relacionando afirma¸c˜oes Verdadeiras e Falsas sobre a nega¸c˜ao: p ¬p V F F V
Defini¸c˜ao 8 (Validade da Condicional). A condicional entre p e q, denotada por p → q (lˆe-se: se p, ent˜ao q) ´e verdadeira se a proposi¸c˜ao p ´e falsa ou se a proposi¸c˜ao q ´e verdadeira ou ambas, e ´e falsa nas outras situa¸c˜oes.
Observa¸c˜ao 6 (Tabela-Verdade da Condicional). Reunimos em uma tabela, todas as informa¸c˜oes relacionando afirma¸c˜oes Verdadeiras e Falsas sobre a
2.1. PROPOSIC¸ ˜OES (OU SENTENC¸ AS) L ´OGICAS 6
condicional: p q p → q V V V V F F F V V F F V
Observa¸c˜ao 7 (Senten¸ca falsa). Uma proposi¸c˜ao p → q ´e falsa se a proposi¸c˜ao p ´e verdadeira e a proposi¸c˜ao q ´e falsa. Isto significa que construindo uma conclus˜ao falsa de uma hip´otese verdadeira, o nosso argumento ser´a falso. Por outro lado, se a nossa hip´otese ´e falsa ou se a nossa conclus˜ao ´e verdadeira, ent˜ao o nosso argumento ainda pode ser aceito.
Exemplo 5. Senten¸cas falsas.
Defini¸c˜ao 9 (Validade da Bicondicional). A bicondicional entre p e q, deno- tada por p ←→ q (lˆe-se: p se e somente se q) ´e verdadeira se as proposi¸c˜oes p e q s˜ao ambas verdadeiras ou ambas s˜ao falsas, e ´e falsa nos outros casos.
Exemplo 6. Bicondicionais.
Observa¸c˜ao 8 (Tabela-Verdade da Bicondicional). Reunimos em uma tabela, todas as informa¸c˜oes relacionando afirma¸c˜oes Verdadeiras e Falsas sobre a bicondicional: p q p ←→ q V V V V F F F V F F F V
2.2. TAUTOLOGIAS E EQUIVALˆENCIA L ´OGICA 8
Exemplo 7 (Tabela-Verdade de uma proposi¸c˜ao composta). Construiremos a Tabela-Verdade de uma proposi¸c˜ao composta como (p ∨ q) ∧ ¬(p ∧ q), utilizando novas vari´aveis u, v e w, para simplificar esta proposi¸c˜ao `a forma u ∧ w, onde:
u : (p ∨ q) v : (p ∧ q) w : ¬v
p q u : p ∨ q V V V V F V F V V F F F
p q v : p ∧ q V V V V F F F V F F F F
2.2. TAUTOLOGIAS E EQUIVALˆENCIA L ´OGICA 9
Como temos uma grande quantidade de informa¸c˜oes, ´e comum reunir a Tabela- Verdade final de u ∧ w com todas as opera¸c˜oes, tomando a forma:
p q p ∨ q p ∧ q ¬(p ∧ q) (p ∨ q) ∧ ¬(p ∧ q) V V V V F F V F V F V V F V V F V V F F F F V F
Exemplo 8 (Algumas condicionais). Implica¸c˜oes.
Exemplo 9 (Algumas bicondicionais). Tautologias:
2.2. TAUTOLOGIAS E EQUIVALˆENCIA L ´OGICA 11
Teorema 4 (Leis de inferˆencia). Se p, q e r s˜ao proposi¸c˜oes l´ogicas, as seguintes proposi¸c˜oes s˜ao tautologias:
Defini¸c˜ao 12 (Senten¸cas equivalentes). Diz-se que duas proposi¸c˜oes p e q s˜ao logicamente equivalentes se a proposi¸c˜ao p ←→ q ´e uma tautologia. Isto significa que as duas senten¸cas l´ogicas representam o mesmo objeto do ponto de vista da L´ogica.
Exemplo 10. Senten¸cas equivalentes.
Exemplo 11. Quatro importantes equivalˆencias l´ogicas. Usando as tabelas- verdade, mostrar que as quatro proposi¸c˜oes l´ogicas abaixo s˜ao equivalentes:
Exerc´ıcio: Demonstrar que
2.2. TAUTOLOGIAS E EQUIVALˆENCIA L ´OGICA 12
Observa¸c˜ao 13 (Setas simples e duplas). Algumas vezes usamos setas simples como ←→ em bicondicionais, mas usamos setas duplas ⇐⇒ para mostrar que a proposi¸c˜ao da esquerda ´e logocamente equivalente `a proposi¸c˜ao da direita.
Exemplo 12. Algumas equivalˆencias l´ogicas.
2.4. OPERAC¸ ˜OES COM CONJUNTOS 14
O conjunto que n˜ao tem elementos ´e o conjunto vazio, denotado por ∅.
Exemplo 13. Alguns conjuntos importantes.
Se P ´e um conjunto descrito pela proposi¸c˜ao p = p(x), isto ´e, P = {x : p(x)} e Q ´e um conjunto descrito pela proposi¸c˜ao q = q(x), isto ´e Q = {x : q(x)}, sendo P e Q conjuntos relativos a um certo universo U, definimos novos conjuntos:
Interse¸c˜ao P ∩ Q = {x : p(x) ∧ q(x)} Reuni˜ao P ∪ Q = {x : p(x) ∨ q(x)} Complementar P c^ = {x : ¬p(x)} Diferen¸ca P − Q = {x : p(x) ∧ ¬q(x)}
Com as defini¸c˜oes acima, n˜ao ´e dif´ıcil mostrar que
Defini¸c˜ao 13 (Subconjunto). Um conjunto P ´e um subconjunto do conjunto Q, denotado por P ⊆ Q ou por Q ⊇ P , se todo elemento de P tamb´em ´e um elemento de Q.
2.4. OPERAC¸ ˜OES COM CONJUNTOS 15
Observa¸c˜ao 14. Se P = {x : p(x)} e Q = {x : q(x)} em um universo U, ent˜ao P ⊆ Q se, e somente se, a proposi¸c˜ao l´ogica p(x) → q(x) ´e verdadeira para todo x ∈ U.
Defini¸c˜ao 14 (Conjuntos iguais). Dois conjuntos P e Q s˜ao iguais, denotado por P = Q, se eles contˆem os mesmos elementos, isto ´e, se cada conjunto ´e um subconjunto do outro conjunto, isto ´e, se P ⊆ Q e Q ⊆ P.
Defini¸c˜ao 15 (Conjuntos disjuntos). Dois conjuntos A e B s˜ao disjuntos se, A ∩ B = ∅.
Defini¸c˜ao 16 (Subconjunto pr´oprio). Dizemos que P ´e um subconjunto pr´oprio de Q, denotado por P ⊂ Q ou por Q ⊃ P , se P ⊆ Q mas P 6 = Q.
Os resultados sobre Conjuntos s˜ao demonstrados a partir de seus an´alogos em L´ogica.
Teorema 5 (Leis distributivas). Se P , Q e R s˜ao conjuntos, ent˜ao
Demonstra¸c˜ao da Primeira lei distributiva para conjuntos. Faremos uso da Primeira lei Distributiva para proposi¸c˜oes l´ogicas. Se as proposi¸c˜oes p = p(x), q = q(x) e r = r(x) est˜ao respectivamente relacionadas aos conjuntos P , Q e R com respeito a um dado universo U, ent˜ao P = {x : p(x)}, Q = {x : q(x)} e R = {x : r(x)}. Assim, temos dois conjuntos
P ∩ (Q ∪ R) = {x : p(x) ∧ (q(x) ∨ r(x))} (P ∩ Q) ∪ (P ∩ R) = {x : (p(x) ∧ q(x)) ∨ (p(x) ∧ r(x))}
Se x ∈ P ∩ (Q ∪ R), ent˜ao p(x) ∧ (q(x) ∨ r(x)) ´e verdadeira. Pela primeira lei distributiva para fun¸c˜oes sentenciais, a equivalˆencia l´ogica
(p(x) ∧ (q(x) ∨ r(x))) ←→ ((p(x) ∧ q(x)) ∨ (p(x) ∧ r(x)))
´e uma tautologia.
2.5. QUANTIFICADORES L ´OGICOS 17
Exerc´ıcio: Definir a reuni˜ao, a interse¸c˜ao e as leis de De Morgan para trˆes conjuntos.
Vamos voltar ao exemplo x ´e par tratado no in´ıcio da Se¸c˜ao 2.3, e restringir a nossa aten¸c˜ao aos valores de x pertencentes ao conjunto Z de todos os n´umeros inteiros. Assim:
Em geral, usamos uma fun¸c˜ao proposicional da forma p = p(x), em que a vari´avel x est´a em algum conjunto X muito bem estabelecido.
Defini¸c˜ao 17 (Quantificadores). Os s´ımbolos ∀ (para todo) e ∃ (existe um) s˜ao, respectivamente, denominados quantificadores universal e existencial.
Observa¸c˜ao 15 (Sobre quantificadores). Os s´ımbolos ∀ (para todo) e ∃ (ex- iste um) devem ser usados sempre antes da afirma¸c˜ao l´ogica! Caso necessite usar ap´os a afirma¸c˜ao, use palavras nos lugares dos s´ımbolos.
Assim, podemos considerar as duas proposi¸c˜oes abaixo, escritas nas suas re- spectivas formas simplificadas:
2.6. NEGAC¸ ˜AO DE PROPOSIC¸ ˜OES COM QUANTIFICADORES 18
Observa¸c˜ao 16 (Vari´avel muda). A vari´avel x na proposi¸c˜ao ∀x : p(x) ´e uma vari´avel muda, significando que a letra x pode ser trocada por qualquer outra letra. Assim, n˜ao h´a diferen¸ca l´ogica entre a proposi¸c˜ao ∀x : p(x) e a proposi¸c˜ao ∀y : p(y) ou a proposi¸c˜ao ∀z : p(z).
Exemplo 14. Algumas frases e as suas respectivas simplifica¸c˜oes:
Para cada x real, x^2 ´e n˜ao negativo ∀x ∈ R, x^2 ≥ 0 Existe um n´umero real tal que x^2 = 4 ∃x ∈ R : x^2 = 4 Para cada x real, existe y real tal que x + y = 0
∀x ∈ R, ∃y ∈ R : x + y = 0
Para quaisquer n´umeros reais x e a, vale a identidade (produto not´avel) x^2 − a^2 ≡ (x − a)(x + a)
∀x, a ∈ R : x^2 − a^2 ≡ (x − a)(x + a)
Para cada ε > 0 , existe δ > 0 tal que se |x−a| < δ ent˜ao |f (x)−f (a)| < ε
∀ε > 0 , ∃δ > 0 : |x − a| < δ ⇒ |f (x) − f (a)| < ε (Lagrange): Todo n´umero natural ´e a soma dos quadrados de quatro in- teiros
∀n ∈ N, ∃a, b, c, d ∈ Z : n = a^2 + b^2 + c^2 + d^2
(Goldbach): Todo n´umero par natu- ral maior do que 2 ´e a soma de dois n´umeros primos
∀n ∈ N − { 1 }, ∃p, q primos : 2n = p + q
N˜ao se sabe at´e o momento se a conjectura de Goldbach ´e verdadeira ou falsa. Este ´e um problema ainda sem solu¸c˜ao na Matem´atica.
Desenvolveremos uma regra para negar proposi¸c˜oes com quantificadores. Ao afirmarmos que: Todos os alunos s˜ao feios , talvez vocˆe n˜ao goste. Parece