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Reduzindo - o-Estigma, Notas de estudo de Direito

USO DE DROGA

Tipologia: Notas de estudo

2016

Compartilhado em 27/04/2016

ricardo-pinto-aragao-6
ricardo-pinto-aragao-6 🇧🇷

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Autores Telmo Mota Ronzani Ana Regina Noto Pollyanna Santos da Silveira

Colaboradores Ana Luísa Marlière Casela Bárbara Any Bianchi Bottaro de Andrade Érika Pizziolo Monteiro Gabriela Correia Lubambo Ferreira Jéssica Verônica Tibúrcio de Freitas

Revisão Técnica Raquel Peyraube

Reduzindo o estigma entre

usuários de drogas

guia para profissionais e gestores

Edição atualizada

Juiz de Fora

Sumário

04. Apresentação 05. Introdução 06. O estigma e os serviços de saúde 07. Mas o que é estigma? 09. Será que os usuários de drogas percebem o estigma associado à

sua condição?

11. Qual o impacto do estigma para o tratamento? 11. Como enfrentar o estigma? 13. Estratégias de redução de estigma 14. Como avaliar o estigma internalizado? 16. Qual o papel da família para a recuperação de dependentes de

substâncias e como incluí-la no tratamento?

17. Como posso utilizar este material? 18. Referências consultadas

• Apresentação

Apesar dos relatos do uso milenar de drogas, a mudança do contexto de uso, anteriormente ligado para fins ritualísticos, passando principalmente para o recreacional e ligados ao prazer, tem trazido alguns desafios para a sociedade moderna. Acrescenta- se a isso aspectos geopolíticos, culturais, ideológicos e econômicos envolvidos no tema que são base para interpretações do que pessoas e sociedades pensam e julgam sobre o comportamento de consumo de drogas. Portanto, é importante entendermos em que contexto fazemos nossos julgamentos sobre “o que é usar drogas” e o que está por trás do que é lícito ou ilícito. Frente à complexidade do tema, temos o grande desafio de organizar nossos serviços e sistemas de cuidados aos usuários de drogas para evitar que estes reflitam visões equivocadas sobre como “resolver o problema das drogas”. O preconceito, discriminação e estigma aos usuários é uma barreira importante para o tratamento. Para além das abordagens técnicas de cuidado, a esfera da relação entre profissional e usuário aparece como um fator fundamental para o cuidado adequado. Sabemos que muitos portadores de sofrimento mental e usuários de drogas são alvo de estigmas que os excluem do direito ao cuidado à saúde. Por essa razão, este material tem como objetivo apresentar alguns conceitos e ferramentas úteis para profissionais de diversas áreas e gestores. Pretende-se, assim, contribuir para um tratamento mais adequado do estigma relacionado aos usuários de drogas e para a realização de intervenções junto aos mesmos a fim de reduzir o estigma e, consequentemente, melhorar o cuidado da saúde dessas pessoas. Este é um material desenvolvido pelo Centro de Referência em Pesquisa, Intervenção e Avaliação em Álcool e Drogas (CREPEIA) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), resultado de alguns anos de pesquisa na área. O material é de uso livre e gratuito para profissionais e gestores de várias áreas.

FIGURA 2 Vulnerabilidade social associada ao uso de drogas Fonte: elaborado pelos autores

Frente a esse contexto, é importante avaliar o uso de drogas e os usuários em uma relação complexa na qual a dimensão humana precisa ser considerada. Ou seja, é a forma como a pessoa se relaciona com a droga que deve ser considerada e não a droga em si. Muitos usuários perdem a oportunidade de terem acesso a um cuidado adequado por serem vítimas de preconceito e estigmatização nos serviços de saúde. Para reverter essa situação, é preciso haver uma mudança de postura por parte dos profissionais.

• O estigma e os serviços

de saúde

Uma das razões que interferem diretamente no cuidado de dependentes de álcool e outras drogas é o estigma, que faz com que os usuários sejam vistos como perigosos, violentos e únicos responsáveis pela sua condição. Diversas razões podem justificar a estigmatização do uso de drogas por parte dos profissionais de saúde, incluindo o fato de que, muitas vezes, o consumo de drogas não é visto como um problema de saúde, mas

como falha de caráter, fazendo com que seja atribuída ao usuário a responsabilidade pelo aparecimento e pela solução do seu problema. Tal postura restringe as possibilidades de acolhimento e acesso para pessoas que apresentam problemas com o uso de drogas. O estigma e a discriminação de usuários de drogas afeta negativamente a qualidade dos serviços prestados, podendo constituir uma barreira para a busca por ajuda, além de limitar o acesso e a utilização dos serviços. Alguns exemplos de crenças estigmatizantes no cenário dos serviços de saúde que podem limitar as possibilidades de acolhimento aos usuários:

Com isso, os profissionais:

Não têm motivação para desenvolver estratégias de prevenção e tratamento por acreditarem que os usuários não irão conseguir parar de consumir drogas e, consequentemente, tendem a se afastar desses pacientes.

• Mas o que é estigma?

O estigma é uma construção social que representa uma marca a qual atribui ao seu portador um status desvalorizado em relação aos outros membros da sociedade. Ocorre na medida em que os indivíduos são identificados com base em alguma característica indesejável que possuem e, a partir disso, são discriminados e desvalorizados pela sociedade. Esse tipo de estigma é chamado de estigma social ou público.

• Será que os usuários

de drogas percebem

o estigma associado

à sua condição?

A percepção do estigma ocorre à medida que o usuário se torna consciente das visões negativas que as outras pessoas da sociedade têm sobre o uso de drogas. Essa percepção pode desencorajá-lo a buscar serviços de tratamento na tentativa de evitar que ele seja visto como parte de um grupo estigmatizado. Além disso, como uma consequência direta da percepção do estigma, os usuários podem passar a concordar com essa visão negativa da sociedade e aplicar os estereótipos negativos a si próprios, o que caracteriza o estigma internalizado.

FIGURA 5 O processo da internalização do estigma Fonte: adaptado de Corrigan e Watson (2002)

O estigma internalizado é um processo subjetivo que faz com que o usuário de drogas tente esconder a sua condição dos outros para que consiga evitar as experiências de discriminação. As consequências desse processo são extremamente prejudiciais:

FIGURA 6 Consequências do estigma internalizado para os indivíduos usuários de drogas Fonte: adaptado de Ahern et al. (2007), Corrigan e Rao (2012), e Livingston et al. (2011).

FIGURA 7

Questionamentos sobre a própria visão sobre os usuários de drogas

Fonte: elaborada pelos autores

• Estratégias de redução

de estigma

Considerando o impacto negativo da estigmatização para o tratamento dos usuários de drogas, estratégias de redução de estigma têm sido apresentadas como uma forma de se abordar essa temática nos serviços de saúde. Apresentaremos, a seguir, algumas possíveis estratégias de enfrentamento para trabalhar as visões estigmatizantes da população em geral e dos próprios usuários acerca do uso de drogas e com relação às expectativas negativas sobre o futuro deles.

FIGURA 8 Estratégias de redução do estigma Fonte: adaptado de Rusch, Angermeyer e Corrigan (2005), e Livingston et al. (2011)

Estratégias de redução do estigma social

  • Protesto: se refere à mobilização social sobre aspectos relacionados ao uso de drogas, entre eles, o uso de linguagem pejorativa através da qual a mídia exerce um papel de divulgação de imagens negativas em relação aos usuários de drogas.
  • Contato: promover o contato com usuários de substâncias pode ajudar a diminuir opiniões negativas a respeito deles, a partir da troca de experiências, bem como da possibilidade de testar algumas crenças errôneas.

FIGURA 9 Fatores que compõem a ISMI-BR Fonte: adaptado de Ritsher, Otilingam e Grajales (2003), e Soares (2011)

Como corrigir a ISMI-BR?

1) Some as pontuações das questões de 1 a 29; 2) A pontuação mínima será de 29 pontos e a pontuação máxima de 116 pontos; 3) Compare o valor total da pontuação; 4) Quanto maior a pontuação, mais alto o nível de percepção do estigma internalizado do dependente de álcool e outras drogas.

• Qual o papel da família

para a recuperação de

dependentes de substâncias

e como incluí-la no

tratamento?

As pessoas que crescem em ambientes familiares sem regras claras e com uma relação pobre com os membros da família apresentam maiores chances de se engajarem em comportamentos de risco, como o abuso de álcool e outras drogas. É sabido que pessoas com problemas com álcool e outras drogas sofrem um impacto negativo em suas relações sociais e familiares, resultando no afastamento do convívio social, uma vez que as drogas passam a ser o foco central dos indivíduos.

Links úteis

  • VIVA VOZ: http://www.brasil.gov.br/crackepossivelvencer/cuidado/onde-encontrar-ajuda/vivavoz
  • Beber menos: https://www.informalcool.org.br/
  • Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD): http://portal.mj.gov.br/senad/
  • Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (OBID): http://www.obid.senad.gov.br

Referências consultadas

Ablon, J. (2002). The nature of stigma and medical conditions. Epilepsy & Behavior , 3 (6), 2-9.

Ahern, J., Stuber, J., & Galea, S. (2007). Stigma, discrimination and the health of illicit drug users. Drug and Alcohol Dependence , 88 (2-3), 188–196.

Corrigan, P. W., & Rao, D. (2012). On the Self-Stigma of Mental Illness: Stages, Disclosure, and Strategies for Change. Canadian Journal of Psychiatry , 57 (8), 464-469.

Corrigan, P. W., & Watson, A. C. (2002). The paradox of self-stigma and mental illness. Clinical Psychology-Science and Practice , 9 (1), 35-53.

Duarte, C. E., Morihisa, R. S. (2008). Experimentação, uso, abuso e dependência de drogas. In Prevenção ao uso de álcool e outras drogas no ambiente de trabalho: conhecer para ajudar (pp. 41-49). Brasília: Secretaria Nacional Antidroga e Serviço Social da Indústria.

Goffman, E. (1978). Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada (2ª ed.). Rio de Janeiro: Zahar.

Link, B. G., & Phelan, J. C. (2001). Conceptualizing Stigma. Annual Review of Sociology , 27, 363-385.

Livingston, J. D., Milne, T., Fang, M. L., & Amari, E. (2011). The Effectiveness of Interventions for Reducing Stigma Related to Substance Use Disorders: A Systematic Review. Addiction , 107 (1), 39-50.

Peluso, É. T. P., & Blay, S. L. (2004). Community Perception of Mental Disorders: A Systematic Review of Latin American and Caribbean Studies. Soc Psychiatry Psychiatr Epidemiol , 39 (12), 955-961.

Ritsher, J. B., Otilingam, P. G., & Grajales, M. (2003). Internalized stigma of mental illness: psychometric properties of a new measure. Psychiatry Research , 121 (1), 31-49.

Rusch, N., Angermeyer, M. C., & Corrigan, P. W. (2005). Mental illness stigma: Concepts, consequences, and initiatives to reduce stigma. European Psychiatry , 20 (8), 529-539.

Silveira, P. S. (2010). Estigmatização do uso de álcool e outras drogas entre profissionais de saúde de Juiz de Fora (dissertação de Mestrado). Universidade Federal de Juiz de Fora, MG, Brasil.

Soares, R. G. (2011). Validação da versão brasileira da “Escala de Estigma Internalizado de Transtorno Mental (ISMI) adaptada para Dependentes de Substâncias” (dissertação de Mestrado). Universidade Federal de Juiz de Fora, MG, Brasil.