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Neste capítulo definimos o conjunto dos números complexos (denotado por C) usando o plano xy (denotado por R2) para os representar os números complexos, ideia original de J. R. Argand. Depois de introduzirmos a soma e multiplicação de números complexos.
Tipologia: Notas de aula
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Neste cap´ıtulo definimos o conjunto dos n´umeros complexos (denotado por C) usando o plano xy (denotado por R^2 ) para os representar os n´umeros com- plexos, ideia original de J. R. Argand. Depois de introduzirmos a soma e mul- tiplica¸c˜ao de n´umeros complexos vamos provar que o conjunto dos n´umeros complexos forma um corpo, ver Teorema 1.2.4 em baixo. Isto ´e essenci- almente o conte´udo da Sec¸c˜ao 1.2. Nas Sec¸c˜oes 1.3 e 1.4 vamos explorar outras propriedades dos n´umeros complexos usando o plano xy tais como, representa¸c˜ao em coordenadas polares, interpreta¸c˜ao geom´etrica da multi- plica¸c˜ao de n´umeros complexos, resolu¸c˜ao de equa¸c˜oes envolvendo n´umeros complexos etc. Resta dizer que na Sec¸c˜ao 1.1 apresentamos uma breve nota sobre o surgimento dos n´umeros complexos a qual tamb´em serve de motiva¸c˜ao para a introdu¸c˜ao destes n´umeros.
O nascimento dos n´umeros complexos pode ser datado do s´eculo XVI, quando alguns matem´aticos Italianos se envolveram na tarefa de encontrar a f´ormula resolvente para as equa¸c˜oes do terceiro grau. Parece ter sido Niccolo Fon- tana (1499-1557) (mais conhecido por Tart´aglia) o primeiro a apresentar essa f´ormula, embora fosse o seu colega Gerolamo Cardano (1501-1576) o primeiro a public´a-la. A f´ormula para a equa¸c˜ao do terceiro grau na forma
x^3 − px + q = 0
2 Cap´ıtulo 1. N´umeros Complexos
´e dada por
x =
3
q 2
q^2 4
p^3 27
3
q 2
q^2 4
p^3 27
Ao aplicar a f´ormula (1.1) `a equa¸c˜ao
x^3 − 15 x − 4 = 0 (1.2)
obtemos
x = 3
3
A equa¸c˜ao (1.2), conhecida por equa¸c˜ao Bombelli (1526-1573), Cardano dizia que a f´ormula n˜ao se aplicava. Bombelli pensou na seguinte conjectura.
Conjectura: Como os radicandos em (1.3) s´o diferem de um sinal, o mesmo dever´a acontecer com as suas ra´ızes c´ubicas.
Assim resolveu o sistema
√ (^3) 2 + √−121 = a + bi
√ (^32) − √−121 = a − bi
obtendo as solu¸c˜oes a = 2 e b = 1
aplicando aa regras (
−b)^2 = −b e (
−b)^3 = −b
−b. Portanto a raiz da equa¸c˜ao (1.2) ´e, segundo (1.3)
Na realidade 4 ´e uma raiz de (1.2), como se verifica facilmente. Assim se deram os primeiros passos na cria¸c˜ao dos n´umeros complexos.
4 Cap´ıtulo 1. N´umeros Complexos
y = ℑ(z)
x = ℜ(z)
w
z = x + yi
z + w
x
y
Figura 1.1: Representa¸c˜ao geom´etrica de n´umeros complexos na forma alg´ebrica.
a′^ = bb
′+ a ab′^ + bbb ′+ a = 0
⇔
a′^ = bb
′+ a a^2 b′^ + b + b^2 b′^ = 0
a′^ = bb ′+ a b′^ = (^) a 2 −+bb 2
⇔
a′^ = (^) a 2 a+b 2 b′^ = (^) a 2 −+bb 2 Assim z′^ ≡ z−^1 =
a a^2 + b^2
−b a^2 + b^2
1.2 Defini¸c˜oes e propriedades 5
Exemplo 1.2.3 A partir das f´ormulas para o quociente e para o produto mostre que
a) z z^12 = z 1
1 z 2
, z 2 ∈ C\ {(0, 0)} 0 ∧ z 1 ∈ C.
b) (^) z 11 z 2 =
1 z 1
1 z 2
, z 1 , z 2 ∈ C\ {(0, 0)}.
Resolu¸c˜ao Seja z 1 = a + bi e z 2 = c + di a) Por um lado tem-se
z 1 z 2
ac + bd c^2 + d^2
−ad + bc c^2 + d^2
i. (1.4)
por outro
z 1
z 2
= (a + bi)
c − di c^2 + d^2
= (a + bi)
c c^2 + d^2
d c^2 + d^2
i
ac + bd c^2 + d^2
−ad + bc c^2 + d^2
i. (1.5)
Como as partes reais e imagin´arias de (1.4) e (1.5) s˜ao iguais, tem-se que os n´umeros s˜ao iguais. b) O processo ´e an´alogo:
1 z 1 z 2
ac − bd + (ad + bc) i
=
ac − bd (ac − bd)^2 + (ad + cb)^2
−ad − cb (ac − bd)^2 + (ad + cb)^2
i
z 1
z 2
a − bi a^2 + b^2
c − di c^2 + d^2
ac − bd (ac − bd)^2
−ad − cb (ad + cb)^2
i
e a igualdade tamb´em se verifica. Temos as seguintes propriedades, como consequˆencia das propriedades de R : Propriedades da adi¸c˜ao:
1.2 Defini¸c˜oes e propriedades 7
i.e, (R^2 , θ) e (R^2 \ {(0, 0)} , φ) s˜ao grupos abelianos. Define-se C :=
z : z = a + bi; a, b ∈ R ∧ i^2 = − 1
e as seguintes opera¸c˜oes em C :
(a + bi) +C (c + di) := a + c + i (b + d)
(a + bi) ·C (c + di) := ac − bd + i (ad + bc) Seja f : R^2 → C, (x, y) 7 → x + yi. f ´e um isomorfismo de (R^2 , θ, φ) sobre (C, +C, ·C) i.e., uma trans- forma¸c˜ao que transforma a opera¸c˜ao θ na opera¸c˜ao +C e a opera¸c˜ao φ na opera¸c˜ao ·C. Para simplifica¸c˜ao da nota¸c˜ao, e por abuso de lingua- gem representa-se +C por + e ·C por ·.
Proposi¸c˜ao 1.2.5 Seja z ∈ C. Ent˜ao existe w ∈ C tal que w^2 = z. O corpo C ´e a menor extens˜ao de R onde w^2 = z tem sempre solu¸c˜ao. Note que −w tamb´em satisfaz a equa¸c˜ao.
Prova. Seja z = a + bi. Pretendemos encontrar w = x + yi tal que
a + bi = (x + yi)^2 ⇔
x^2 − y^2 = a 2 xy = b
A existˆencia de solu¸c˜oes pode ser garantida pela an´alise do gr´afico da Fi- gura 1.2. Temos
a^2 + b^2 =
x^2 − y^2
x^2 + y^2
⇔ x^2 + y^2 =
a^2 + b^2 ⇔ −a + x^2 + x^2 =
a^2 + b^2 ⇔ x^2 =
a +
a^2 + b^2
∧ y^2 =
−a +
a^2 + b^2
8 Cap´ıtulo 1. N´umeros Complexos
a, b > 0
x^2 − y^2 = a
2 xy = b
x
y
a √ a
Figura 1.2: Exemplos de curvas de x^2 − y^2 = a e 2xy = b.
Seja
α =
a +
a^2 + b^2
∧ β =
−a +
a^2 + b^2
Concluimos, pois, que para b > 0, temos
x =
1 2
a +
a^2 + b^2
y =
1 2
−a +
a^2 + b^2
x = −
1 2
a +
a^2 + b^2
y = −
1 2
−a +
a^2 + b^2
e para b < 0, temos
x = −
1 2
a +
a^2 + b^2
y =
1 2
−a +
a^2 + b^2
x =
1 2
a +
a^2 + b^2
y = −
1 2
−a +
a^2 + b^2
10 Cap´ıtulo 1. N´umeros Complexos
z ¯
y z
x −θ
θ
Figura 1.3: Representa¸c˜ao de z e ¯z.
Defini¸c˜ao 1.3.2 Dado z = x + yi ∈ C, chama-se valor absoluto de z, ao n´umero real n˜ao negativo |z| =
x^2 + y^2.
Geometricamente |z| ´e o comprimento do vector (x, y), (ver Figura 1.4).
Proposi¸c˜ao 1.3.3 Para quaisquer z, z 1 , z 2 ∈ C temos
|z|^2 = ℜ(z)^2 + (ℑ(z)^2.
|z| > |ℜ(z)| e |z| ≥ |ℑ(z)|.
zz¯ = x^2 + y^2 = |z|^2 , |z¯| = |z| , z−^1 = (^) |z¯z| 2.
|z 1 z 2 | = |z 1 | |z 2 |.
∣z z^12
∣ =^ | |zz^12 || , z 2 6 = 0.
1.3 Complexos conjugados. Valores absolutos 11
|z| =
x^2 + y^2
z = x + yi
x
y
Figura 1.4: Representa¸c˜ao geom´etrica de |z|.
Prova. Faremos a prova s´o de 7. a) |z 1 | = |z 2 + (z 1 − z 2 )| ≤ |z 2 | + |z 1 − z 2 |
⇔ |z 1 − z 2 | ≥ |z 1 | − |z 2 | (1.6)
b) Mudando o papel de z 1 com z 2 temos:
|z 2 − z 1 | ≥ |z 2 | − |z 1 |
⇔ − |z 1 − z 2 | ≤ |z 1 | − |z 2 | (1.7)
De (1.6) e (1.7) concluimos que
− |z 1 − z 2 | ≤ |z 1 | − |z 2 | ≤ |z 1 − z 2 |
⇒ |z 1 − z 2 | ≥ ||z 1 | − |z 2 ||.
Exemplo 1.3.4 Prove que se |z| = 1, ent˜ao ∣ ∣ ∣ ∣
az + b ¯bz + ¯a
para quaisquer n´umeros complexos a e b.
1.4 Forma polar. Potˆencias e quocientes 13
pelo que podemos escrever z = x + yi ⇔ z = r (cos θ + i sin θ). Esta ´e a representa¸c˜ao de z na forma polar.
Observa¸c˜ao 1.4.1 1. Para cada z ∈ C, arg z n˜ao ´e ´unico, na verdade, dado que sin θ e cos θ s˜ao fun¸c˜oes peri´odicas de per´ıodo 2π, se θ ´e o argumento de z, ent˜ao θ + 2kπ, (k ∈ Z) tamb´em o ´e. No entanto, se fixarmos um intervalo θ 0 ≤ arg z < θ 0 + 2π a representa¸c˜ao ´e ´unica;
Teorema 1.4.2 Dados z 1 , z 2 ∈ C com z 1 = r 1 (cos θ 1 + i sin θ 1 ) e z 2 = r 2 (cos θ 2 + i sin θ 2 ), ent˜ao z 1 z 2 = r 1 r 2 (cos (θ 1 + θ 2 ) + i sin (θ 1 + θ 2 )), i.e, |z 1 z 2 | = |z 1 | |z 2 |
e arg (z 1 z 2 ) = arg z 1 + arg z 2 (mod2π)
Prova. Basta multiplicar os n´umeros complexos com a representa¸c˜ao na forma polar e usar as f´ormulas trigonom´etricas
cos θ 1 cos θ 2 − sin θ 1 sin θ 2 = cos (θ 1 + θ 2 )
e sin θ 1 cos θ 2 + cos θ 1 sin θ 2 = sin (θ 1 + θ 2 )
Exemplo 1.4.3 Fixemos o intervalo [0, 2 π[, z 1 = − 1 , z 2 = −i. Calcule z 1 z 2 usando a forma polar.
Resolu¸c˜ao As coordenadas polares de z 1 s˜ao:
|z 1 | = 1 e arg z 1 = π
e para z 2 temos:
|z 2 | = 1 e arg z 2 =
π
Assim
|z 1 z 2 | = |z 1 | |z 2 | = 1 e arg (z 1 z 2 ) = arg z 1 + arg z 2 =
π
14 Cap´ıtulo 1. N´umeros Complexos
arg(−1) + arg(−i)
arg(−1) arg((−1)(−i)) arg(−i)
−i
i
y
x
Figura 1.6: Multiplica¸c˜ao do n´umero complexo −1 por −i.
como 52 π n˜ao est´a no intervalo escolhido, [0, 2 π[, devemos subtrair 2π para colocar o argumento de z 1 z 2 no intervalo [0, 2 π[, (ver Figura 1.6).
Observa¸c˜ao 1.4.4 Outra forma de ver a multiplica¸c˜ao de n´umeros comple- xos ´e a seguinte: seja z ∈ C, define-se
ψz : C → C, w 7 → zw.
Pelo teorema 1.4.2 sabemos que o efeito de ψz ´e rodar cada n´umero complexo de um ˆangulo igual a arg z no sentido contr´ario ao dos ponteiros do rel´ogio e ampliando o comprimento pelo factor |z|. ψi simplesmente roda cada n´umero complexo de π 2 , (ver Figura 1.7).
A aplica¸c˜ao ψz ´e linear, i.e,
ψz (αw 1 + βw 2 ) = αψz (w 1 ) + βψz (w 2 )
com α, β ∈ R e w 1 , w 2 ∈ C. Assim ψz pode ser representada pela sua matriz. Pondo z = a + bi, sabemos da ´algebra linear que a matriz de ψz ´e dada por
M (ψz ) =
a −b b a
16 Cap´ıtulo 1. N´umeros Complexos
e pela unicidade da representa¸c˜ao polar, temos
ρn^ = r ∧ nψ = θ + 2kπ, k ∈ Z
⇔ ρ = n
r ∧ ψ =
θ + 2kπ n
, k ∈ Z
Atendendo `a periodicidade do seno e do co-seno, temos
ψ =
θ + 2kπ n
, k = 1, 2 , · · · , n − 1.
Assim
z = n
r
cos
θ + 2kπ n
θ + 2kπ n
, k = 1, · · · , n − 1.
Exemplo 1.4.6 Resolva a equa¸c˜ao z^8 = 1.
Resolu¸c˜ao Como 1 = 1 (cos 0 + i sin 0), ent˜ao
1
(^18) = 8
cos
0 + 2kπ 8
0 + 2kπ 8
, k = 1, 2 , · · · , 7
Que d´a as seguintes ra´ızes: k = 0 : z 0 = 1 k = 1 : z 1 =
√ 2 2 +^ i
√ 2 2 k = 2 : z 2 = i k = 3 : z 3 = −
√ 2 2 +^ i
√ 2 2 k = 4 : z 4 = − 1 k = 5 : z 5 = −
√ 2 2 −^ i
√ 2 2 k = 6 : z 6 = −i k = 7 : z 7 =
√ 2 2 −^ i
√ 2
De um modo geral as ra´ızes n-´esimas da unidade formam um pol´ıgono con- vexo regular com um v´ertice em z = 1 (ver Figura 1.8).
Exemplo 1.4.7 Sendo w uma das raiz n-´esima da unidade diferente dela pr´opria, mostre que
1 + w + w^2 + · · · + wn−^1 = 0
Resolu¸c˜ao Atendendo a que a soma em quest˜ao est´a em progress˜ao geom´etrica de raz˜ao w, temos: n∑− 1
j=
wj^ =
1 − wn 1 − w
Como w ´e uma raiz n-´esima da unidade, ent˜ao wn^ = 1, logo
1 − wn 1 − w
1 − w
1.4 Forma polar. Potˆencias e quocientes 17
Figura 1.8: As oito ra´ızes da unidade.
−i
i
z 3 z 1
z (^5) z 7
y
x
Exerc´ıcio 1.1 Prove que, para qualquer inteiro k
i^4 k^ = 1, i^4 k+1^ = i, i^4 k+2^ = − 1 , i^4 k+3^ = −i.
Mostre como este resultado d´a uma f´ormula para in, n ∈ N escrevendo n = 4 k + j, 0 ≤ j ≤ 3. Calcule i^2000.
Exerc´ıcio 1.2 Determine a parte real e a parte imagin´aria do n´umero com- plexo z + 2 z − 1
sabendo que z = x + yi.
Exerc´ıcio 1.3 Prove que ℜ(iz) = ℑ(z) e que ℑ(iz) = ℜ(z), ∀z ∈ C.
Exerc´ıcio 1.4 Prove a seguinte igualdade
| 1 − zw¯ |^2 − |z − w|^2 = (1 − |z|^2 )(1 − |w|^2 ), z, w ∈ C.