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cap.9 - cap.9
Tipologia: Notas de estudo
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“Carlos, você já foi correr hoje?”
MELHORANDO O COMPORTAMENTO DE EXERCITAR-SE DE CARLOS^1
Após uma aposentadoria precoce aos 55 anos, Carlos decidiu fazer algumas mudanças em sua vida. Mas não sabia ao certo por onde começar. Sabendo que tinha que modificar alguns de seus antigos hábitos, inscreveu-se num curso de modificação de comportamento no centro comunitário local. A seguir, a conselho de seu médico, resolveu iniciar um programa regular de exercícios. Carlos, durante toda a vida, sempre foi um sedentário. Tipicamente, chegava em casa após o trabalho, pegava uma lata de cerveja e se plantava em frente ao aparelho de TV. Carlos deu início ao seu programa de exercícios com uma promessa a sua esposa de que correria quatrocentos metros todos os dias. Mas, após algumas tentativas, ele voltou a sua rotina sedentária. Sua expectativa foi muito alta para muito pouco tempo. Decidiu, então, tentar um procedimento chamado modelagem que havia estudado em seu curso de modificação de comportamento. Os três estágios abaixo resumem tal procedimento.
Nos dois capítulos anteriores, descrevemos como o treino de discriminação de estímulos e o esvanecimento podem ser utilizados para estabelecer controle de estímulo adequado sobre um comportamento, desde que tal comportamento ocorresse ao menos
(^1) Este caso se baseia em outro descrito por Watson e Tharp (1997).
ocasionalmente. Mas o que fazer quando um comportamento desejado nunca ocorre? Em tal caso, não é possível aumentar a freqüência do comportamento, apenas esperando que ele ocorra e depois o reforçando. No entanto, um procedimento chamado modelagem pode ser utilizado para instalar um comportamento que o indivíduo nunca emitiu. O modificador de comportamento começa por reforçar uma resposta que ocorre com freqüência superior a zero e que se pareça, pelo menos remotamente, com a resposta final desejada. (Carlos, por exemplo, foi reforçado inicialmente por caminhar uma vez ao redor da casa porque tal comportamento ocorria ocasionalmente e porque se aproximava remotamente do comportamento (inexistente) de correr quatrocentos metros.) Quando tal resposta inicial está ocorrendo numa freqüência elevada, o modificador de comportamento pára de reforçá-la e começa a reforçar uma resposta ligeiramente mais próxima à resposta final desejada. Assim, a resposta final desejada é por fim instalada pelo reforçamento de aproximações sucessivas da mesma. Por essa razão, a modelagem às vezes é chamada de “método das aproximações sucessivas”. A modelagem pode ser definida como o desenvolvimento de um novo comportamento através do reforçamento sucessivo de respostas cada vez mais próximas ao comportamento final desejado e da extinção das respostas anteriormente emitidas. Os comportamentos que um indivíduo adquire durante a vida se desenvolvem a partir de uma variedade de fontes e influências. Às vezes, um comportamento novo se desenvolve quando o indivíduo emite algum comportamento inicial e o ambiente (seja o ambiente físico, sejam outras pessoas) então reforça variações pequenas de tal comportamento, durante uma série de ocorrências. Eventualmente, o comportamento inicial pode ser modelado de maneira que a forma final não se pareça mais com ele. Por exemplo, a maioria dos pais utiliza a modelagem para ensinar seus filhos a falar. Quando um bebê começa a balbuciar, alguns dos sons emitidos se aproximam remotamente de palavras do idioma dos pais. Quando isso acontece, os pais geralmente reforçam o comportamento com abraços, carícias, beijos e sorrisos. Os sons “mmm” e “paa” recebem, tipicamente, doses excepcionalmente grandes de reforço por parte de pais que falam português. Eventualmente, “mã-mã” e “pa-pa” são emitidos e são fortemente reforçados, e o “mmm” e o “paa” mais primitivos, são submetidos à extinção. Num estágio posterior, o reforço é dado quando a criança diz “ mamãe ” e “ papai ”, e “mã-mã” e “pa-pa” são colocados em extinção. O mesmo processo ocorre com outras palavras. Primeiro, a criança passa por um estágio em que aproximações muito remotas de palavras do idioma dos pais são reforçadas. Depois, a criança entra em um estágio em que a fala infantil (ou seja, aproximações mais claras de palavras verdadeiras) é reforçada. Finalmente, os pais e outras pessoas exigem que a criança pronuncie as palavras de acordo com as práticas da comunidade verbal, antes que o reforço seja apresentado. Por exemplo: se uma criança diz “ua” num estágio inicial, lhe é dado um copo de água, e se ela está com sede, isso reforça a resposta. Num estágio posterior, “aua”, em vez de “au”, é reforçado com água. Finalmente, é exigido que a criança diga “água”, antes que o reforçador água seja apresentado. Logicamente, tal descrição simplifica extremamente a maneira pela qual uma criança aprende a falar. No entanto, serve para ilustrar a importância da modelagem no processo pelo qual crianças normais progridem gradualmente do balbuciar para a fala infantil e, por fim, para falar de acordo com as convenções sociais prevalentes. Outros processos que têm papéis importantes no desenvolvimento da fala são discutidos em outras partes do livro; por exemplo, o reforçamento automático, descrito no Capítulo 4, a equivalência de estímulos, no Capítulo 8, e o esvanecimento no Capítulo 9. Há cinco aspectos ou dimensões do comportamento que podem ser modelados: topografia, freqüência, duração, latência e intensidade (ou força). Topografia se refere à
modelagem de intensidade, em um programa de modificação de comportamento, envolveu ensinar uma menina socialmente retraída, cuja fala mal se podia ouvir, a falar cada vez mais alto, até chegar a um volume normal de voz (Jackson e Wallace, 1974). Ver Tabela 10- para um resumo das dimensões do comportamento. Anotação 1 (^) A modelagem é tão comum na vida diária, que a maioria das pessoas nem têm
consciência dela. Às vezes, o procedimento de modelagem é aplicado sistematicamente (como no caso de Carlos), às vezes não sistematicamente (como quando os pais modelam a pronúncia correta das palavras ditas por seus filhos) e, às vezes, a modelagem ocorre devido às conseqüências existentes no ambiente natural (você aperfeiçoa gradualmente seu método para virar as panquecas na frigideira). É preciso cuidado para evitar confusão entre modelagem e esvanecimento. Ambos são procedimentos de mudança gradual. No entanto, como descrito no Capítulo 9, o esvanecimento envolve o reforçamento de uma resposta específica na presença de ligeiras mudanças num estímulo, de maneira que o estímulo venha gradualmente a se parecer com aquele que você quer que controle aquela resposta em particular. A modelagem, por sua vez, envolve o reforçamento de ligeiras mudanças no comportamento, de maneira que ele venha gradualmente a se parecer com o comportamento-alvo.
1. Especificando o Comportamento Final Desejado
O primeiro estágio da modelagem é identificar claramente o comportamento final desejado, que muitas vezes é chamado de comportamento terminal. No caso de Carlos, o comportamento final desejado era correr quatrocentos metros todos os dias. Com uma definição tão específica quanto essa, havia pouquíssima possibilidade de que Carlos ou sua esposa desenvolvessem expectativas diferentes a respeito do desempenho dele. Caso as diferentes pessoas que estão trabalhando com o mesmo indivíduo esperem coisas diferentes, ou se uma das pessoas não for consistente, de uma sessão de treinamento para a próxima, então é provável que o progresso seja lento. Uma identificação exata do comportamento final desejado aumenta as chances de reforçamento consistente das aproximações sucessivas de tal comportamento. O comportamento final desejado deve ser determinado de maneira que todas as características relevantes do mesmo (sua topografia, quantidade, latência e intensidade) sejam identificadas. Além disso, as condições sob as quais o comportamento deve ou não ocorrer têm que ser determinadas, e quaisquer outras diretrizes eventualmente necessárias para a consistência devem ser fornecidas.
2. Escolhendo um Comportamento Inicial
Como o comportamento final desejado inicialmente não ocorre e como é necessário reforçar algum comportamento que se aproxime dele, você deve identificar um ponto de partida. Este deve ser um comportamento que ocorra com freqüência suficiente para ser reforçado dentro do tempo de duração da sessão e deve se assemelhar ao comportamento final desejado. Por exemplo: o comportamento de Carlos de andar ao redor da casa uma vez (aproximadamente 30 metros) é algo que ele fazia periodicamente. Esse era o comportamento mais próximo, entre os que ele regularmente emitia, do objetivo final de correr quatrocentos metros. Num programa de modelagem, é crucial saber não apenas onde você está indo (o comportamento terminal), mas também o nível de desempenho do indivíduo no início do
programa. O objetivo do programa de modelagem é passar do comportamento atual para o desejado através do reforçamento de aproximações sucessivas, ainda que os dois comportamentos sejam muitos dessemelhantes. Por exemplo: num estudo clássico, Isaacs, Thomas e Goldiamond (1960) aplicaram modelagem para reinstalar comportamento verbal em um homem esquizofrênico catatônico que estivera mudo por 19 anos. Usando goma de mascar como reforçador, o pesquisador acompanhou o paciente através de passos de modelagem que avançaram de movimento de olhos em direção à goma de mascar, para movimentos faciais, movimentos de boca, movimentos de lábios, vocalizações, emissão de palavras até, finalmente, a fala compreensível.
3. Escolhendo os Passos da Modelagem
Antes de iniciar o programa de modelagem, é de grande auxílio planejar as aproximações sucessivas através das quais a pessoa será conduzida, na tentativa de se aproximar do comportamento final desejado. Por exemplo: suponha que o comportamento final desejado, num programa de modelagem para uma criança, seja dizer “papai”. Foi observado que a criança diz “paa”, e tal resposta é definida como comportamento inicial. Suponhamos que tenhamos decidido partir do comportamento inicial “paa”, passando pelas seguintes etapas: “pa-pa”, “papa”, “papi” e “papai”. Inicialmente, o reforço é apresentado durante algumas vezes diante da emissão do comportamento inicial (“paa”). Quando tal comportamento estiver ocorrendo repetidamente, o treinador passa para a etapa 2 (“pa-pa”) e reforça tal aproximação durante várias ocorrências. Tal procedimento passo a passo continua, até que a criança finalmente diga “papai”. Quantas aproximações sucessivas deve haver? Em outras palavras, qual o tamanho razoável para cada passo? Infelizmente, não há diretrizes específicas para identificar o tamanho ideal de cada passo. Ao tentar especificar as etapas comportamentais, do comportamento inicial até o comportamento terminal, o modificador de comportamento pode tentar pensar nos passos ele próprio seguiria. Além disso, algumas vezes é útil observar aprendizes que já conseguem emitir o comportamento terminal e pedir-lhes que emitam o comportamento inicial e as aproximações subseqüentes. Quaisquer que sejam as diretrizes ou hipóteses usadas, é importante tentar mantê-las e, ao mesmo tempo, ser flexível caso o treinando não avance rápido o bastante ou esteja aprendendo mais rápido do que era esperado. Algumas diretrizes a serem seguidas no programa comportamental são oferecidas na seção seguinte.
Anotação 2
4. Avançando no Ritmo Certo
Quantas vezes cada aproximação deve ser reforçada, antes de passar para a aproximação seguinte? Mais uma vez, não há regras específicas para responder a tal pergunta. No entanto, há várias regras baseadas na experiência que podem ser seguidas no reforçamento de aproximações sucessivas de uma resposta final desejada:
a. Reforce a aproximação várias vezes antes de passar para o passo seguinte. Em outras palavras, evite o sub-reforçamento de uma etapa da modelagem. Tentar passar para um novo passo, antes que a aproximação anterior esteja bem instalada, pode resultar em perda da aproximação anterior através de extinção, além de não alcançar a nova aproximação. b. Evite reforçar um número excessivo de vezes quaisquer dos passos da modelagem. O item a adverte contra ir rápido demais. É igualmente importante não progredir de maneira excessivamente lenta. Caso uma aproximação seja reforçada por tanto tempo que se torna extremamente forte, novas aproximações terão menor probabilidade de aparecer.
Figura 10-1 Uma aplicação errada da modelagem.
Outro exemplo da má utilização da modelagem, observado às vezes em crianças com desenvolvimento atípico, leva a comportamento autodestrutivo. Lembre-se do caso da criança que batia a cabeça em superfícies duras, que foi dado nos Capítulos 8 e 9 como possível exemplo de ciladas na utilização do treino de discriminação de estímulos e do esvanecimento, respectivamente. Ele também poderia ser um exemplo de cilada da modelagem. Suponha que, devido a uma situação familiar incomum e lastimável, uma criança pequena receba pouca atenção social quando emite comportamento adequado. Um dia, a criança talvez caia acidentalmente e bata a cabeça de leve contra um piso duro. Mesmo que a criança não tenha se machucado seriamente, um pai (ou mãe) pode vir correndo e cumular a criança com atenções exageradas a respeito do incidente. Devido a tal reforço, e porque tudo o mais que a criança faz de adequado raramente evoca atenção, ela tem probabilidade de repetir a resposta de bater levemente a cabeça contra o piso. Nas primeiras vezes em que isso voltar a ocorrer, o pai (ou mãe) talvez continue a reforçar a resposta. Aos poucos, no entanto, ao ver que a criança não está realmente se machucando, a pessoa talvez pare de reforçá-la. Uma vez que o comportamento foi agora colocado em extinção, a intensidade do comportamento pode aumentar (ver Capítulo 5). Ou seja, a criança pode começar a bater a cabeça com mais força, e o barulho ligeiramente mais alto talvez faça com que o pai (ou a mãe) venha correndo novamente. Caso tal processo de modelagem continue, a criança eventualmente baterá a cabeça com força suficiente para causar danos físicos. É extremamente difícil, se não impossível, usar extinção para eliminar um comportamento tão violentamente autodestrutivo. Teria sido melhor nunca ter permitido que o comportamento se desenvolvesse até o ponto em que os pais da criança foram forçados a continuar a reforçá-lo, aumentando sua força. Muitos comportamentos indesejados comumente observados em crianças com necessidades especiais — por exemplo: ataques violentos de birra, agitação constante, machucar outras crianças, vômitos voluntários —são, com freqüência, produtos de modelagem. É bem possível que tais comportamentos possam ser eliminados através de uma combinação de extinção do comportamento indesejado e reforçamento positivo do comportamento desejado. Infelizmente, isso muitas vezes é difícil de fazer, porque (a) o comportamento às vezes é tão prejudicial que não se pode permitir que ocorra nem uma vez durante o período em que a extinção deveria acontecer, e (b) adultos que ignoram os princípios do comportamento às vezes frustram, sem saber, os esforços daqueles que estão cuidadosamente tentando aplicar tais princípios. No Capítulo 22, descrevemos como diagnosticar e tratar comportamentos problemáticos que podem ter sido desenvolvidos inadvertidamente através de modelagem. Como na medicina, no entanto, a melhor “cura” é a prevenção. De maneira ideal, todas as pessoas responsáveis por cuidar de outras pessoas deveriam ser conhecedoras tão profundas dos princípios de comportamento, que evitariam a modelagem de comportamentos indesejados. Outra cilada. Outro tipo de cilada é quando uma pessoa, inadvertidamente, deixa de aplicar a modelagem quando esta deveria ser aplicada. Alguns pais, por exemplo, simplesmente não são muito sensíveis ao comportamento de balbuciar de seu filho. Talvez esperem demais da criança, desde o início, e não estejam inclinados a reforçar aproximações remotas da fala normal. (Alguns pais, por exemplo, parecem esperar que seu pequenino gênio diga “Pai!”, de cara, e não ficam nem um pouco impressionados quando a criança diz “pa-pa”.) Ou talvez seus problemas pessoais os impeçam de devotar a necessária atenção à criança. O tipo oposto de comportamento também existe. Ao invés de não apresentar suficiente reforço para o comportamento correto, alguns pais dão à criança
bastante reforço de maneira não-contingente. Talvez sejam tão preocupados com o bem- estar da criança, que fornecem a ela todos os tipos de reforço, sem que a criança jamais tenha que dizer ou fazer algo para isso. Em outras palavras, embora a modelagem seja um processo que a maioria dos pais aplica mais ou menos adequadamente (provavelmente sem nem mesmo estarem totalmente cientes de o estarem fazendo, na maioria dos casos), há alguns pais aos quais isso não se aplica. Assim, muitas variáveis podem impedir que uma criança fisicamente normal receba a modelagem necessária para estabelecer comportamentos normais. Caso uma criança não tenha aprendido a falar até uma certa idade, pode ser rotulada como tendo déficit de desenvolvimento ou autismo. É bem possível que existam indivíduos com déficits de desenvolvimento cuja deficiência exista não devido a algum defeito físico ou genético, mas simplesmente porque nunca foram expostos a procedimentos eficazes de modelagem.
A. Exercício Envolvendo Terceiros
Pense numa criança normal, com idade entre dois e sete anos, com quem você tenha contato (por exemplo: irmão, irmã, vizinho). Especifique um comportamento real dessa criança que você poderia tentar desenvolver através da utilização de um procedimento de modelagem. Identifique o ponto inicial que você escolheria, o reforçador e as aproximações sucessivas que você usaria.
B. Exercícios de Auto-Modificação
Questões para Estudo sobre as Anotações