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behaviorismo, Notas de estudo de Psicologia

cap. 2 - cap. 2

Tipologia: Notas de estudo

Antes de 2010

Compartilhado em 29/10/2009

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Parte I. A Abordagem de Modificação de Comportamento
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INTRODUÇÃO
Muitas das melhores conquistas da sociedade, assim como alguns de seus mais prementes
desafios sociais e de saúde — como racismo, doença cardíaca, AIDS, terrorismo—, estão
firmemente embasados em comportamento. De acordo com um recente estudo publicado no
Journal of the American Medical Association, aproximadamente 50% dos óbitos nos Estados Unidos
são causados por comportamentos pouco saudáveis. Tais fatos levaram mais de 50 organizações
científicas dos Estados Unidos a proclamarem os primeiros 10 anos do novo milênio como a
“Década do Comportamento”. Mas o que é comportamento? Antes de tentar responder,
consideremos as seguintes situações:
1. Criança retraída. Uma turma de crianças de pré-escola está no parquinho. Enquanto a maioria
das crianças está brincando, um garotinho está sentado, quieto e sozinho, não fazendo
qualquer esforço para participar das brincadeiras. Dedicadamente, um professor tenta, como já
o fez muitas vezes, persuadir essa criança a brincar com as outras. Mas o garoto,
inabalavelmente, mantém seu isolamento social em relação às outras crianças.
2. Lentidão. Cássia é uma menina de sete anos com muito pouca coordenação viso-motora. Ela
freqüenta uma escola para crianças com desenvolvimento atípico. Apesar de ser capaz de tirar
o casaco e as botas, todas as manhãs, colocando-os no local apropriado, demora muito tempo
para realizar tais tarefas, geralmente perdendo mais de uma hora no vestiário. Os professores
temem que tal lentidão esteja interferindo com o desenvolvimento da autoconfiança de Cássia.
No entanto, não sabem o que fazer, uma vez que todas as suas insistências não fazem com
que a garota se apresse.
3. Jogar lixo no chão. Tom e Ceci acabaram de chegar ao local onde pretendem acampar e
observam, com desagrado e espanto, o lixo deixado por campistas anteriores. “Eles não se
importam com o meio ambiente?” pergunta Ceci. “Se as pessoas continuarem com isso,” diz
Tom, “não vai sobrar natureza para ninguém usufruir.” Com pesar, comentam entre si que
algo deveria ser feito a respeito do problema, mas nenhum dos dois sabe dizer qual seria a
solução.
4. Estudo improdutivo. Com dois trabalhos para entregar na semana seguinte e um exame trimestral
na mesma ocasião, Samuel se pergunta de que maneira vai conseguir terminar seu primeiro
ano de faculdade. Na semana anterior ao exame, praticamente não dorme, por virar as noites
estudando e mal consegue uma nota C-menos no teste. Nenhum dos trabalhos, no entanto,
ficou pronto, e ele quase que certamente perderá pontos, ainda que seus professores venham a
aceitar seus trabalhos atrasados.
5. Escrever um romance. Karina trabalha em um banco, mas sua verdadeira ambição é escrever um
romance. Embora a maior parte de suas noites e finais de semana estejam relativamente livres,
ela ainda não começou a escrever. Ao invés disso, passa a maior parte do tempo livre
assistindo à televisão, costurando, cozinhando, fazendo visitas e saindo com amigos.
Infelizmente, está ficando cada vez mais evidente que a ambição de Karina nunca se realizará.
6. Excesso de velocidade. Acidentes ocorrem com freqüência na estrada que dá acesso ao Distrito
Paraíso. Apesar das placas de sinalização claramente afixadas, muitos motoristas só reduzem a
velocidade quando já estão bem dentro dos limites da cidade. Isso é especialmente perigoso
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Parte I. A Abordagem de Modificação de Comportamento

INTRODUÇÃO

Muitas das melhores conquistas da sociedade, assim como alguns de seus mais prementes desafios sociais e de saúde — como racismo, doença cardíaca, AIDS, terrorismo—, estão firmemente embasados em comportamento. De acordo com um recente estudo publicado no Journal of the American Medical Association , aproximadamente 50% dos óbitos nos Estados Unidos são causados por comportamentos pouco saudáveis. Tais fatos levaram mais de 50 organizações científicas dos Estados Unidos a proclamarem os primeiros 10 anos do novo milênio como a “Década do Comportamento”. Mas o que é comportamento? Antes de tentar responder, consideremos as seguintes situações:

  1. Criança retraída. Uma turma de crianças de pré-escola está no parquinho. Enquanto a maioria das crianças está brincando, um garotinho está sentado, quieto e sozinho, não fazendo qualquer esforço para participar das brincadeiras. Dedicadamente, um professor tenta, como já o fez muitas vezes, persuadir essa criança a brincar com as outras. Mas o garoto, inabalavelmente, mantém seu isolamento social em relação às outras crianças.
  2. Lentidão. Cássia é uma menina de sete anos com muito pouca coordenação viso-motora. Ela freqüenta uma escola para crianças com desenvolvimento atípico. Apesar de ser capaz de tirar o casaco e as botas, todas as manhãs, colocando-os no local apropriado, demora muito tempo para realizar tais tarefas, geralmente perdendo mais de uma hora no vestiário. Os professores temem que tal lentidão esteja interferindo com o desenvolvimento da autoconfiança de Cássia. No entanto, não sabem o que fazer, uma vez que todas as suas insistências não fazem com que a garota se apresse.
  3. Jogar lixo no chão. Tom e Ceci acabaram de chegar ao local onde pretendem acampar e observam, com desagrado e espanto, o lixo deixado por campistas anteriores. “Eles não se importam com o meio ambiente?” pergunta Ceci. “Se as pessoas continuarem com isso,” diz Tom, “não vai sobrar natureza para ninguém usufruir.” Com pesar, comentam entre si que algo deveria ser feito a respeito do problema, mas nenhum dos dois sabe dizer qual seria a solução.
  4. Estudo improdutivo. Com dois trabalhos para entregar na semana seguinte e um exame trimestral na mesma ocasião, Samuel se pergunta de que maneira vai conseguir terminar seu primeiro ano de faculdade. Na semana anterior ao exame, praticamente não dorme, por virar as noites estudando e mal consegue uma nota C-menos no teste. Nenhum dos trabalhos, no entanto, ficou pronto, e ele quase que certamente perderá pontos, ainda que seus professores venham a aceitar seus trabalhos atrasados.
  5. Escrever um romance. Karina trabalha em um banco, mas sua verdadeira ambição é escrever um romance. Embora a maior parte de suas noites e finais de semana estejam relativamente livres, ela ainda não começou a escrever. Ao invés disso, passa a maior parte do tempo livre assistindo à televisão, costurando, cozinhando, fazendo visitas e saindo com amigos. Infelizmente, está ficando cada vez mais evidente que a ambição de Karina nunca se realizará.
  6. Excesso de velocidade. Acidentes ocorrem com freqüência na estrada que dá acesso ao Distrito Paraíso. Apesar das placas de sinalização claramente afixadas, muitos motoristas só reduzem a velocidade quando já estão bem dentro dos limites da cidade. Isso é especialmente perigoso

porque têm ocorrido casos em que veículos em excesso de velocidade quase atropelam uma criança na cidade. Caso isso se mantenha, eventualmente alguma criança será seriamente ferida ou morta.

  1. Uma fobia. Alberto é um jovem saudável e normal, mas tem uma singularidade: tem pavor de aviões. Se lhe perguntassem por que tem medo de aviões, não seria capaz de dizer. Racionalmente, sabe que é pouco provável que algo de ruim lhe aconteça quando estiver num avião. Sua fobia, além de inconveniente, é também muito embaraçosa, uma vez que seus amigos parecem não compreender por que ele não viaja de avião para acompanhá-los em viagens de férias.
  2. Enxaquecas. Enquanto preparava o jantar para a família, Bete estava vagamente ciente de uma sensação esquisita, apesar de familiar, que se apossava dela. Depois, repentinamente, ela sentiu náuseas. Temerosa, olhou ao redor, sabendo, por experiências passadas, o que esperar. “Tom, Juca”, ela chamou os filhos que assistiam à televisão na sala, “vocês vão ter que terminar de preparar o jantar para vocês — estou tendo outra crise”. Ela então correu para o seu quarto, fechou rapidamente a janela e deitou-se na cama. Finalmente, após cerca de seis horas de dor quase insuportável, seus sintomas se abrandaram e ela conseguiu se reunir novamente à família. Mas a ameaça de “mais uma das enxaquecas de mamãe”, que podia ocorrer de novo a qualquer momento, sem previsão, ainda pairava sobre a família de Bete.
  3. Gerenciamento de pessoal. João e Brenda tomavam café, certa manhã, no restaurante Bom Apetite, de sua propriedade. “Vamos ter que fazer alguma coisa a respeito dos funcionários do turno da noite”, disse Brenda. “Quando cheguei, hoje de manhã, a máquina de sorvete não estava bem limpa e os copinhos e as tampas não haviam sido repostos”. “Isso é apenas a ponta do iceberg”,disse João. “Você tinha que ver a grelha! Talvez precisemos de algum tipo de programa de motivação de pessoal. Precisamos fazer alguma coisa!”
  4. Desempenho esportivo. Uma jovem ginasta realiza extremamente bem os seus treinos rotineiros. No entanto, é comum ela se distrair nas competições, tendo problemas em se concentrar em seu desempenho, usualmente apresentando-se abaixo do seu potencial. Nem ela, nem seu treinador sabem como resolver tal problema.
  5. Adaptação a uma casa de repouso. A mãe de Maria tem 88 anos e viveu sozinha durante os últimos sete anos. Infelizmente, está ficando claro que ela não pode mais cuidar de si mesma. Maria fez preparativos para sua mãe se mudar para uma casa de repouso, mas a mãe está extremamente ansiosa por ter que “viver com estranhos”. Maria não sabe como ajudar sua mãe a enfrentar sua ansiedade.

A observação cuidadosa indica que cada uma das situações acima está relacionada a algum tipo de comportamento humano. No conjunto, elas ilustram a variedade de problemas com os quais especialistas em modificação de comportamento podem lidar. De fato, se você ler este livro com bastante cuidado, encontrará tais tipos de problemas comportamentais discutidos em algum ponto das páginas que se seguem. Também serão discutidos vários outros tipos de casos. A modificação de comportamento, como você verá, é aplicável a praticamente todas as áreas do comportamento humano.

O QUE É COMPORTAMENTO?

Antes de podermos falar em modificação de comportamento, devemos primeiro perguntar: a que nos referimos com a palavra comportamento? Alguns sinônimos comumente usados incluem “atividade”, “ação”, “desempenho”, “resposta” e “reação”. Essencialmente, comportamento é qualquer coisa que uma pessoa diz ou faz. Tecnicamente, comportamento é qualquer atividade de um organismo, seja ela muscular, glandular ou elétrica. A cor dos olhos de uma pessoa é comportamento? Piscar é comportamento? As roupas que a pessoa está usando são

falar de maneira mais precisa a respeito do comportamento. A que nos referimos quando dizemos que uma pessoa é inteligente? Para muitas pessoas, inteligência é algo com que se nasce, uma espécie de “poder cerebral herdado” ou capacidade inata para aprender. Mas nunca observamos ou medimos diretamente algo desse tipo. Num teste de inteligência, por exemplo, medimos simplesmente o comportamento das pessoas — suas respostas a questões — ao fazer o teste. A palavra inteligente é utilizada melhor na forma de adjetivo (por exemplo: “ele é um orador inteligente ”, “seu discurso é inteligente ”) ou como advérbio (por exemplo: “ela escreve inteligentemente ”), para descrever como as pessoas se comportam sob certas condições, tais como fazer um teste, e não como um nome de alguma “coisa”. Uma pessoa descrita como inteligente talvez resolva rapidamente problemas que outros acham difíceis; talvez tenha um bom desempenho na maioria das provas de um curso; talvez leia muitos livros; talvez converse com fluência sobre muitos assuntos; ou talvez obtenha boa pontuação num teste de inteligência. Dependendo de quem usa a palavra, inteligência pode significar quaisquer dessas coisas ou todas elas — mas, qualquer que seja o significado, se refere a formas de se comportar. Assim, neste livro, evitamos utilizar a palavra inteligência como um substantivo. O que dizer de uma atitude? Suponha que Sara, professora de Joãozinho, relate que ele tem uma atitude ruim em relação à escola. O que a Sara quer dizer com isso? Talvez queira dizer que Joãozinho muitas vezes falta às aulas; que se recusa a trabalhar em sala de aula, quando está presente; e xinga a professora. Independentemente do ela queira dizer ao falar da “atitude ruim” de Joãozinho, está claro que é o comportamento do menino que realmente a preocupa. Criatividade também se refere aos tipos de comportamento em que uma pessoa tem probabilidade de se engajar sob certas circunstâncias (para uma abordagem comportamental da criatividade, ver Marr, 2003). O indivíduo criativo freqüentemente emite comportamentos que são inovadores ou pouco usuais e que, ao mesmo tempo, têm efeitos desejáveis. Outros termos psicológicos, tais como desenvolvimento atípico (discutido em mais detalhes no Capítulo 2), dificuldades de aprendizagem, autismo etc. também são rótulos para certas maneiras de se comportar. Não se referem a anormalidades mentais invisíveis. Como os psicólogos e outros especialistas decidem que alguém tem um desenvolvimento atípico? Decidem isso, basicamente, porque observam que a pessoa, numa determinada idade:

não consegue amarrar os cadarços dos sapatos; não controla os esfíncteres; come apenas com os dedos ou com uma colher; tem um desempenho em testes psicológicos, no qual a combinação das respostas resulta num QI de 75 ou menos.

Como os especialistas decidem que uma criança em idade escolar tem uma dificuldade de aprendizagem? Tomam a decisão com base em certos comportamentos que observam, tais como:

dedicar-se a uma tarefa apenas por poucos segundos ou minutos (tipicamente rotulado de curto período de atenção); fitar um item por muitos minutos (tipicamente rotulado de perseveração ); mover-se freqüentemente de uma posição, local ou tarefa para outra (muitas vezes rotulado como hiperatividade ); confundir palavras ao falar, como “dia” e “tia” (rotulado de déficit de fala ); inverter palavras ao ler, tal como em “ia” e “aí” (rotulado de déficit de leitura ou dislexia ).

Como os especialistas diagnosticam uma criança como autista? Tomam essa decisão com base em determinados comportamentos que observam. Por exemplo, podem observar que uma criança:

muitas vezes repete determinadas perguntas em vez de respondê-las adequadamente (de forma mais genérica, apresenta prejuízo da comunicação); quando chamada, não responde ou se afasta da pessoa que chama (de forma mais genérica, demonstra

comportamento social prejudicado); engaja-se em vários comportamentos auto-estimulatórios, tais como balançar-se para frente e para trás, rodar objetos com os dedos ou agitar as mãos diante dos olhos; tem um desempenho muito inferior à média numa variedade de tarefas de autocuidado, tais como vestir-se e alimentar-se.

Outros rótulos comumente utilizados para se referir a problemas psicológicos incluem: transtorno de déficit de atenção/hiperatividade, ansiedade, depressão, baixa auto-estima, dificuldades interpessoais e disfunção sexual. Por que termos sintéticos ou rótulos de padrões de comportamento são utilizados com tanta freqüência na Psicologia e na vida cotidiana? Em primeiro lugar, eles podem ser úteis para fornecer, rapidamente, informações gerais sobre como o indivíduo rotulado pode se comportar. Uma criança de 10 anos, que tenha sido rotulada como tendo severo desenvolvimento atípico, por exemplo, não será capaz de ler nem mesmo num nível de primeira série. Em segundo lugar, os rótulos podem sugerir que determinado programa de tratamento será útil. Alguém que tenha problemas devido à irritação freqüente pode ser encorajado a participar de um programa de controle da raiva. Uma pessoa inassertiva pode se beneficiar com um curso de treino de assertividade. No entanto, o uso de rótulos sintéticos também tem desvantagens. Uma delas é que podem levar a pseudo-explicações sobre o comportamento ( pseudo significa falso). Por exemplo, uma criança que inverte palavras ao ler, tal como “ia” e “aí”, pode ser rotulada como disléxica. Se perguntarmos por que a criança inverte palavras e nos for dada a resposta: “Porque ela é disléxica”, então o rótulo sintético para tal comportamento foi usado como uma pseudo-explicação do comportamento. (Outro nome para pseudo-explicação é raciocínio circular.) Uma segunda desvantagem da rotulação é que os rótulos podem afetar negativamente a forma como o indivíduo poderia ser tratado. Os professores, por exemplo, podem ter menor probabilidade de encorajar as crianças a persistir na solução de problemas, caso tais crianças tenham sido rotuladas como vítima de abuso sexual ou mentalmente retardada (Bromfield, Bromfield e Weiss, 1988; Bromfield, Weisz e Messer, 1986). Outra desvantagem da rotulação é que pode fazer com que nos concentremos nos comportamentos problemáticos do indivíduo, em vez de enfocarmos seus pontos fortes. Suponha, por exemplo, um adolescente que regularmente deixa de arrumar a própria cama, mas que corta a grama do jardim e coloca o lixo na rua nos dias certos. Caso os pais descrevam o filho como “preguiçoso”, tal rótulo pode fazer com que se concentrem mais no comportamento problemático, do que em elogiar os comportamentos positivos. Neste livro, damos grande ênfase à importância de definir todos os tipos de problemas em termos de déficits comportamentais (muito pouco comportamento de um determinado tipo) ou de excessos comportamentais (muito comportamento de um determinado tipo). Fazemos isso por diversas razões. Em primeiro lugar, queremos ajudá-lo a evitar os problemas inerentes ao uso dos rótulos sintéticos genéricos, discutidos anteriormente. Segundo, independentemente dos rótulos atribuídos a um indivíduo, é o comportamento que preocupa — e é o comportamento que deve ser tratado para reduzir o problema. Certos comportamentos que os pais vêem e ouvem muitas vezes fazem com que procurem ajuda profissional para seus filhos. Certos comportamentos que os professores vêem e ouvem muitas vezes fazem com que procurem ajuda profissional para seus alunos. Certos comportamentos que podem ser vistos ou ouvidos fazem com que governos organizem instituições, clínicas, centros comunitários de tratamento e programas especiais. E certos comportamentos que você emite podem fazer com que procure um programa de autodesenvolvimento. Em terceiro lugar, atualmente há disponibilidade de procedimentos específicos que podem ser usados na escola, no trabalho, em casa — na realidade, praticamente em qualquer lugar onde haja necessidade de instalar comportamentos mais desejáveis. Essas técnicas são conhecidas, coletivamente, como modificação de comportamento.

Duas características finais são que a modificação de comportamento enfatiza a demonstração científica de que uma determinada intervenção foi responsável por determinada mudança de comportamento, e dá grande importância à responsabilidade de todos os envolvidos nos programas de modificação de comportamento: cliente, funcionários, administradores, consultores etc.^1 Assim, a modificação de comportamento envolve a aplicação sistemática de princípios e técnicas de aprendizagem para avaliar e desenvolver comportamentos privados e públicos dos indivíduos, a fim de ajudá-los a funcionar melhor em sociedade.

AVALIAÇÃO COMPORTAMENTAL

Na seção anterior, dissemos que a característica mais importante da modificação de comportamento é a utilização de medidas do comportamento para julgar se o comportamento de um indivíduo teria ou não sido melhorado por um programa de modificação de comportamento. Os comportamentos que precisam ser melhorados através de um programa de modificação de comportamento são freqüentemente chamados de comportamentos-alvo. A avaliação comportamental envolve a coleta e a análise de informações e dados, a fim de (a) identificar e descrever comportamentos-alvo; (b) identificar possíveis causas do comportamento; (c) orientar a seleção de um tratamento comportamental adequado; e (d) avaliar o resultado do tratamento. Um tipo de avaliação comportamental que se tornou especialmente importante é denominado de análise funcional. Essencialmente, tal abordagem (discutida no Capítulo 22) envolve o isolamento, através de experimentação, das causas do comportamento-problema e a remoção ou reversão de tais causas. Na medida em que o interesse na modificação de comportamento se expandiu nas últimas quatro décadas, o mesmo ocorreu com a demanda por orientações para realizar avaliações comportamentais. Para maiores informações sobre avaliação comportamental, recorra aos Capítulos 20, 21 e 22 deste livro, assim como ao livro de Bellack e Hersen (1998).

Anotação 1

MODIFICAÇÃO COMPORTAMENTAL E TERMOS RELACIONADOS

Vários termos estão estreitamente relacionados com modificação do comportamento. Análise do Comportamento se refere ao estudo científico das leis que governam o comportamento dos seres humanos e outros animais. Pode-se pensar na Análise do Comportamento como a ciência na qual a modificação do comportamento se baseia. Análise Aplicada do Comportamento é a modificação do comportamento na qual, tipicamente, está se tentando analisar ou demonstrar claramente as variáveis que controlam o comportamento em questão. A Análise Aplicada do Comportamento, tipicamente, enfatiza comportamentos públicos que sejam socialmente significativos (p. ex., remover o lixo, educação pública, habilidades como pais) ou clinicamente significativos (p. ex., controle da raiva, cuidados com os idosos), e inclui uma forte ênfase nos princípios de aprendizagem freqüentemente referidos como condicionamento operante (descrito nos Capítulos 3 a 13). O termo terapia comportamental é tipicamente usado para se referir à modificação do comportamento colocada em prática no comportamento disfuncional. O termo modificação do comportamento abrange tanto o termo terapia comportamental quanto análise comportamental aplicada, e é o termo que nós, de forma geral, utilizamos neste livro. (O uso histórico de tais termos e outros similares é discutido no Capítulo 29.) A modificação do comportamento inclui todas as aplicações explícitas dos princípios do comportamento para melhorar comportamentos públicos e privados dos indivíduos — estando ou não no ambiente da clínica e tendo ou não demonstrado explicitamente o controle de variáveis. Termos relacionados que se pode encontrar incluem modificador do comportamento, analista do comportamento,

(^1) Agradecemos a Rob Hawkins por trazer estes dois últimos pontos à nossa atenção.

engenheiro comportamental e orientador de desempenho. Tais termos se referem a um indivíduo que, deliberadamente, aplica princípios do comportamento para melhorar o comportamento, quer tal indivíduo seja um professor, pai/mãe, esposa, supervisor, colega de trabalho, psicólogo, assistente social ou a própria pessoa cujo comportamento está sendo modificado.

ALGUNS EQUÍVOCOS A RESPEITO DA MODIFICAÇÃO DE

COMPORTAMENTO

É provável que você já tenha encontrado a expressão modificação de comportamento antes de ler este livro. Infelizmente, como existe uma série de mitos e equívocos a respeito desta área, parte do que você já ouviu provavelmente é falsa. Considere as seguintes afirmações:

Mito 1: A utilização, por parte dos modificadores de comportamento, de recompensas para mudar comportamento é suborno. Mito 2: A modificação de comportamento envolve o uso de drogas, psicocirurgia e terapia com eletrochoques. Mito 3: A modificação de comportamento só muda os sintomas; ela não atinge os problemas subjacentes. Mito 4: A modificação de comportamento pode ser aplicada para lidar com problemas simples, tais como ensinar crianças a usar o banheiro ou superar o medo de alturas, mas não é aplicável a problemas complexos como baixa auto-estima ou depressão. Mito 5: Os modificadores de comportamento são frios e insensíveis e não desenvolvem empatia com seus clientes. Mito 6: Os modificadores de comportamento lidam apenas com comportamento observável; não lidam com os pensamentos e sentimentos dos clientes. Mito 7: A modificação de comportamento está superada.

Em diversas seções deste livro você encontrará evidências que refutam tais mitos e equívocos.

O ENFOQUE DESTE LIVRO

O principal objetivo deste livro é descrever as técnicas de modificação de comportamento de maneira agradável, interessante e prática. Como foi escrito para pessoas de várias áreas de atuação e para estudantes, pretendemos ajudar os leitores a aprender não somente a respeito de modificação de comportamento, mas também como utilizá-la para superar déficits e excessos comportamentais. “Espere aí” você pode dizer. “A partir de muitos de seus exemplos, tem-se a impressão de que este livro foi planejado, basicamente, para pessoas interessadas no comportamento observável de indivíduos com deficiências severas”. Em resposta a tal observação, queremos ressaltar que os procedimentos de modificação de comportamento descritos neste volume podem ser usados para modificar o comportamento de qualquer indivíduo. Mesmo pessoas normais na maioria dos aspectos têm algum comportamento que gostariam de aprimorar. Um comportamento que alguém gostaria de melhorar pode ser classificado como um déficit comportamental ou como um excesso comportamental, e pode ser público ou privado. Listamos abaixo alguns exemplos de cada tipo.

Exemplos de déficits comportamentais

  1. Uma criança não pronuncia as palavras de maneira clara e não interage com outras crianças.
  2. Um adolescente não faz as tarefas escolares, não ajuda em casa e não discute problemas e dificuldades com seus pais.
  3. Um adulto não dá atenção às leis de trânsito ao dirigir, não agradece aos outros por favores e não mantém os horários dos compromissos agendados com o cônjuge.

Esperamos que este livro forneça respostas satisfatórias para professores, orientadores, psicólogos, estudantes, adolescentes, pais, mães e outros que dizem: “Obrigado, Sr. ou Sra. Especialista, mas o que posso fazer a respeito?” (Essa é a pergunta feita pela mãe da Figura 1-1.) Esperamos também que este livro forneça aos estudantes, que estão se iniciando em modificação de comportamento, um entendimento sobre o por quê de os procedimentos serem eficazes.

É ÓBVIO QUE A MENINA TEM DISFUNÇÃO CEREBRAL MÍNIMA!

HHMM! (^) NÃO, NÃO, DEVE SER UMA ENCEFALOPATIA!

ESPECIALISTAS

OBRIGADA, ESPECIALISTAS, MAS O QUE POSSO FAZER A RESPEITO?

MÃE E CRIANÇA

Figura 1-1 Especialistas “ajudando” a mãe a lidar com a filha?

QUESTÕES PARA ESTUDO

  1. O que é comportamento, genérica e tecnicamente? Dê três sinônimos de comportamento.
  2. Diferencie comportamento e produtos do comportamento. Dê um exemplo de um comportamento e de um produto do comportamento.
  3. Diferencie comportamentos públicos e privados. Dê dois exemplos de cada.
  4. O que são comportamentos cognitivos? Dê dois exemplos.
  5. Descreva duas dimensões do comportamento. Dê um exemplo de cada.
  6. Numa visão comportamental, o que é inteligência? E criatividade?
  7. Cite três desvantagens de se utilizar rótulos sintéticos para se referir a indivíduos e a suas ações?
  8. O que é déficit comportamental? Dê dois exemplos.
  9. O que é excesso comportamental? Dê dois exemplos.
  10. Por que os psicólogos comportamentais descrevem problemas comportamentais em termos de déficits e excessos comportamentais específicos?
  1. O que os modificadores de comportamento querem dizer com o termo ambiente? Dê um exemplo.
  2. O que são estímulos? Descreva dois exemplos.
  3. Descreva sete características que definem a modificação de comportamento.
  4. Defina modificação de comportamento.
  5. Defina avaliação comportamental.
  6. A que se refere a expressão comportamento-alvo? Dê um exemplo de um comportamento- alvo seu, que você gostaria de melhorar. O seu comportamento-alvo é um déficit comportamental a ser superado ou um excesso comportamental a ser reduzido?
  7. Liste quatro mitos ou equívocos a respeito da modificação de comportamento.
  8. Diferencie, brevemente, análise do comportamento, terapia comportamental, análise do comportamento aplicada e modificação do comportamento.

EXERCÍCIOS DE APLICAÇÃO

Na maioria dos capítulos deste livro, nós lhe fornecemos exercícios para aplicar os conceitos que você aprendeu. Geralmente, apresentamos dois tipos de exercícios de aplicação: (a) exercícios que envolvem o comportamento de terceiros; e (b) exercícios de automodificação, nos quais você aplica ao seu próprio comportamento os conceitos que aprendeu sobre a modificação de comportamento.

A. Exercício Envolvendo Terceiros

Considere alguém que não você mesmo. Do seu ponto de vista, identifique:

  1. dois déficits comportamentais que essa pessoa precisa superar;
  2. dois excessos comportamentais que precisa reduzir. Em cada exemplo, indique se você descreveu: a) um comportamento específico ou um rótulo sintético genérico; b) um comportamento observável ou um comportamento encoberto; c) um comportamento ou o produto de um comportamento.

B. Exercício de Automodificação

Aplique o exercício acima a você próprio.

ANOTAÇÕES E DISCUSSÃO ADICIONAL

1. A avaliação comportamental surgiu na década de 60, como alternativa à avaliação psicodiagnóstica tradicional. As abordagens psicanalíticas sobre o comportamento anormal surgiram com Freud e outros, que consideravam o comportamento anormal como um sintoma de um distúrbio mental subjacente, num mecanismo da personalidade. Um dos principais objetivos da avaliação psicodiagnóstica tradicional era identificar o tipo de distúrbio mental que presumivelmente estava subjacente ao comportamento anormal. Para auxiliar os terapeutas a diagnosticar clientes com diferentes tipos de supostas doenças mentais, a Associação Psiquiátrica Norte-Americana desenvolveu o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM I, 1952). Posteriormente, o manual foi revisado como DSM II, em 1968; DSM III, em 1980; DSM III-R (R significa “revisto”), em 1987; o DSM IV, em 1994, e o DSM-IV-TR (TR significa texto revisado), em 2000. Os modificadores de comportamento pouco utilizaram os dois primeiros DSMs, porque não concordavam com o modelo freudiano do comportamento anormal, no qual os DSMs se baseavam, e porque havia pouca evidência de que diagnósticos baseados em tal modelo fossem confiáveis ou válidos (Hersen, 1976). No entanto, o DSM-IV foi consideravelmente aperfeiçoado, em relação aos manuais anteriores, em muitos aspectos. Em primeiro lugar, ele se baseia primariamente em pesquisas, ao invés de na teoria de Freud. Em segundo lugar, transtornos individuais (p. ex.: transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno de ansiedade