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Cavernas do Brasil, Notas de estudo de Geologia

Reportagem da revista "Ciencia Hoje" vol. 40 Março 2007

Tipologia: Notas de estudo

Antes de 2010

Compartilhado em 09/04/2009

fabio-cruz-12
fabio-cruz-12 🇧🇷

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as do Brasil ss da humanida. grande quantidade de registros MEDICAMENTOS e R Brasil'entra na corrida da = produção racional de fármacos FILOSOFIA POLÍTICA im busca da tradição republicana e do humanismo cívico El AMAZÔNIA “Como assegurar a soberania e o desenvolvimento sustentável? Je Mistérios geológicos em paisagens subterrâneas 2 Mesmo com a acidez da água, a for- mação de cavernas depende da presença, na rocha, de descontinuidades naturais, onde a água possa se infiltrar com faci- lidade. Tais descontinuidades podem ser a área de contato entre rochas solúveis e insolúveis, fraturas (planos de ruptura da rocha), fulhas (planos de ruptura com movimentação relativa entre os blocos) é planos entre camadas de rochas sedimen- taros. O início da dissolução das rochas leva à formação de protocavernas, ou seja, canais de dimensões reduzidas, normalmente preenchidos por água (fi- gura 2). Nessa fase, são inacessíveis a seres humanos, mas aos poucos esses canais evoluem para condulos maiores, até atingir grandes dimensões. As cavernas são, evidentemente, mui- lo mais recentes que as rochas que as abrigam. A diferença entre a época da formação dessas rochas e à época, mais recente, em que ocorre a deposição de espeleotemas (como estalactites e esta- lagmites. riadas pelo acúmulo em certos pontos de minerais carregados pela água) pode che- gar a muitos milhões de anos. No Bresil, por exemplo, a maior parte das rochas carbonáticas foi deposita- da há mais de 600 milhões de anos, enquanto as cavernas formaram-se, em sua maioria, no Quater- nário, o período geológico atual, iniciado há cerca de 2 milhões de anos Outras rochas, além das carbonáticas, permitem a formação de cavernas: são as rochas 'evaporílicas” iciclásticas”, Rochas evaporíticas — gesso ou sal, por exemplo — também possibilitam dissolução pela água, gerando um sistema cárstico. Já as rochas sili ciclásticas, entre elas os arenitos e os quartzitos, são compostas principalmente de quartzo (mineral de ílica), mas podem gerar cavernas através da lenta dissolução desse material, que normalmente aconte- ce sob clima quente. Essa dissolução também forma dliminutos canais (protocavernas), que são alargados por ação mecânica Registro de climas antigos As cavernas podem ser locais propícios para a acu- mulação de sedimentos elásticos ou químicos. Se- dimentos clásticos são detritos carregados para o interior das cavernas através de aberluras que as conectam com a superfície. Esses detritos podem ser levados por correntes de água (de enxurradas e de rios com parte de seu trajeto subterrâneo) ou podem se originar da acumulação de materiais no fundo de depressões circulares (dolinas) (figura 3) ou de abismos (cavernas verticais) (figura 4). Blocos e partículas também podem chegar ao interior das cavernas por desmoronamento de trechos do teto, quando ocorre grande ampliação dos condutos sub- terrâneos (figura 5). março de 2007 ESPELEOLOGIA Figuras. Dolina (formação decorrente do afundamento da superfície) do Buraco dasAraras, em Jardim (Ms) Figura 4. Abismo existente na fazenda Boqueirão, em Bonito (MS) * CIÊNCIA HOJE « 24 ESPELEOLOGIA Figura 5. Salão nagruta lapa Doce, com piso coberto por sedimentos arenosos de antigo rio subterrâneo, em Iraquara (BA) Figura 6. Esqueleto de preguiça- gigante retirado da Gruta Azul, emlraquara (BA) Nos casos em que as cavernas recebem detritos vindos da superfície, restos orgânicos também po- dem ser transportados e depositados em seu interior juntamente com os sedimentos clásticos. Em algumas situações, esse ambiente subterrâneo é favorável à fossilização desses restos orgânicos, recebidos às vezes por dezenas a centenas de milhares de anos, compondo um registro do passado naquele local. Um exemplo desse processo é a Gruta Azul, localizada na chapada Diamantina, na região central da Bahia, onde mergulhadores descobriram um esqueleto com- pleto de preguiça-gigante (figura 6). O animal caiu por uma abertura no teto dessa caverna e seu esque- leto ficou preservado no fundo do lago por milhares de anos, até ser retirado recentemente por paleon- tólogos [ver 'O passado submerso”, em CH nº 218) No Brasil, grande parte do conhecimento atual sobre os animais extintos nos últimos 2 milhões de anos vem do estudo de fósseis preservados em cavernas, como no caso das preguiças-gigantes (ver 'Preguiças terrícolas, is desconhecidas”, em CH nº 161). E: ses estudos foram iniciados pelo dinamarquês Pet Wilhelm Lund (1801-1880), conhecido como o “pai da paleontologia brasileira, na primeira metade do século 19, em Lagoa Santa e Curvelo (Minas Gerais), e pelo alemão Ricardo Krone (1861-1918), no final desse mesmo século, em Iporanga e Eldorado, no vale da Ribeira (São Paulo) Já os sedimentos químicos compõem os 'espeleo- temas', nome dado a todas as formações geradas por precipitação — com a ajuda da água — de minerais no ambiente das cavernas (figura 7). A água que penetra no interior dos maciços rochosos, através de pequenas fissuras e poros, é enriquecida com minerais dissolvidos. Quando a água atinge o espaço vazio das cavernas, esses materiais podem sofrer precipitação no teto, nas paredes e no chão, gerando estruturas variadas e de grande efeito visual. Apesar da enorme variedade de formas dos espeleotemas, a grande maioria destes é composta por apenas três minerais: calcita e aragonita (ambos têm a fórmula CaCO,, mas o arranjo dos cristais é diferente), e gipsita (mineral de fórmula CaSO,.2H,0). Figura 9. Mapa da distribuição de cavernas erochas carbonáticas no Brasil, de acordo com os dados do Cecav/lbama mm Rochas carbonáticas SORRERDMNEIS DO CEPA STIRCÃE 2U io é ONÇANES LH: MRS teta ESA US sã ra SAD CRMAÇãS GEOGRÁEAS SG E Mas ALLA 1520 RAS, EM, IO. climáticas ocorridas na área da caverna ao longo de milhares ou dezenas de milhares de anos Importantes informações sobre a história climáli ca do sul-sudeste brasileiro, indicando v temperatura, vegetação c da quantidade de chuvas ao longo dos últimos 110 mil anos, foram obtidas à partir do estudo de estalagmitos de calcita das cavernas Botuverá (em Botuverá, SC) e Santana (em Iporanga, SP). As pesquisas paleoclimáticas baseiam- se na determinação precisa da idade das rochas (pelo método urânio-tório), no cálculo da velocidade de scimento do espeleotema e na análise dos isóto- pos de oxigênio e carbono presentes na calcita ao longo do eixo de crescimento das estalagmites. Uma estalagmite da caverna Santana revelou uma taxa de crescimento entre 0,006 e 0,037 mm por ano (ou 0,6 a 3,7 cm em mil anos) nos últimos 115 mil anos, enquanto outra estalagmite, da caverna Botuverá, mostrou crescimento mais lento, com taxas entre 0,002 e 0,014 mm por ano (ou 0,2 a 1,4 cm em mil anos), durante os últimos 110 mil anos. As maiores taxas de crescimento foram relacion: das a períodos mais quentes é úmidos, em relação a fases mais frias e mais secas, onde o crescimento dimino nor quantidade de CaCO, em cre: devido à m solução. Em contraste com essas estalagmites de cre: cimento lento, o estudo de espeleotemas nas ca nas de São Domingos (GO), mostrou que estalagmnites formadas por aragonita rapidamente, com taxas que atingem até 0,6 mm por ano (60 cm em mil anos). É bom frisar que a coleta de espelcotemas em cavernas só pode ser feita para fins científicos, com prévia autorização do Ibama. O estudo do paleoclima dos úllimos milhares de anos é uma ferramenta muito importante para a com- preensão das mudanças climáticas globais atuais. esc nam Cavernas no Brasil As principais rochas onde essas formações geológi- cas ocorrem no Brasil são as carbonáticas, que, em- bora se distribuam por em torno de 2,89% do territó- rio nacional, abrigam 85% das cavernas conhecidas no país, seguidas pelas siliciclásticas, com A% do total, de acordo com o cadastro da Sociedade Brasi- leira de Espeleologia (SBE). As cavernas existentes em outros lipos de rochas são menos comuns e com dimensões reduzidas. Embora a área de ocorrência de rochas carbonáli- cas no Brasil seja percentualmente pequena, isso re- presenta uma grande extensão em valores absolutos (cerca de 238 mil kn?). As cavernas se distribuem de modo irregular nessa área (figura 9), o que mostra a descontinuidade dos processos cársticos ao longo dessas rochas. A presença de agrupamentos maiores de cavernas, em algumas regiões, indica que as con- dições locais são mais favoráveis ao desenvolvimento do carste e de sistemas de drenagem subte! O critério fundamental para identificar áreas mais propi- cias à formação de carste e cavernas é a associação entre tipo de rocha, relevo e clima favoráveis aos processos de dissolução. Além de solúvel, a rocha deve permitir o fluxo de água sublerrânea concen- trado em fraturas e planos de estratificação, o relevo precisa apresentar desníveis entre os pontos de entrada e saída da água subterrânea e o clima re- quer pluviosidade suficiente para recarregar as li fluxo da água subterrânea na rocha carbonática. as de Figura 10. Salão principal da gruta Lago Azul, em Bonito (MS) ; As cavernas com maior desenvolvimento sub- terrânco do Brasil ocorrem nas tochas da formação geológica chamada de Grupo Bambuí, em Minas Ge- tais, Goiás e Bahia. Na Bahia, o Grupo Una abriga cavernas com grandes dimensões, onde se destaca a Toca da Boa Vista, no município de Campo Formoso (noroeste do estado), que apresenta, segundo o ma- peamento atual, 100 km de galerias subterrâneas - é a maior do Brasil e da América Latina e uma das 10 maiores do mundo! De modo geral, as cavernas dos grupos Bambuí e Una carauterizam-se por grande desenvolvimento horizontal e relativamente peque- no desnível, e seu padrão morfológico dominante é o de redes labirínticas, como na Toca da Boa Vista, ou sistemas de rios subterrâneos convergentes, como nas cavernas na região de Posse c São Domingos, no nordeste de Goiás, No leste de São Paulo e no Paraná, as cavernas concentram-se nas rochas carbonáticas do Grupo Açungui e apresentam - em contraste com as do Brasil Central — grandes desníveis e menor desen- volvimento horizontal. Destacam-se as cavernas Santana (desnível de 61 m e extensão de 5 km) e Água Suja (120 m de desnível e 5 km de extensão), ambas em Iporanga (SP), além da caverna Tapagem (Caverna do Diabo, com 180 m de desnível e 7 km de extensão), em Eldorado (SP). Outras formações geológicas apresentam muitas cavernas, como os grupos Corumbá e Araras e parte do Grupo Cuiabá, em Matu Grosso e Mato Grosso do Sul, e a formação Jandaíra, no Rio Grande do Norte. No Mato Grosso do Sul, na serra da Bodoquena, são encontradas, nas rochas carbonáticas do Grupo Corumbá, cavernas com grandes salões submersos, como a gruta do Lago Azul (figura 10), e cavernas freáticas (subaquáticas) associadas a nascentes de rios, como a do rio Formoso, na região de Bonito. Nessa árca, a incidência de cavernas é uma das mais baixas do Brasil, considerando-se a grande extensão da superfície carbonática. As cavernas que ocorrem em rochas siliciclásti- cas estão geralmente associadas a algumas unidades geológicas que propiciam sua formação. Nessas unidades ocorrem cavernas e dolinas (depressões), como as furnas da região de Ponta Grossa (PR) e o Buraco das Araras, em Jardim (MS). Já as cavernas presentes em outras rochas, como gnaisses, micaxis- tos, basaltos, granitos, rochas alcalinas e outras, for- maram-se por causa de condições locais específicas, não estando associadas a unidades geológi Patrimônio a ser protegido A legislação brasileira considera as cavernas bens da União (Constituição, artigo 20, inciso X) e áreas de preservação permanente (Decreto federal 99.556, de outubro de 1990), em especial aquelas que con- tenham material arqueológico ou pré-histórico (Lei 3.924, de junho de 1961). O Decreto 99.556 define o patrimônio espeleológico como “o conjunto de elementos bióticos e abióticos, socioeconômicos e histórico-culturais subterrâneos ou superficiais, representado pelas cavidades naturais sublerrâneas ou a estas associados”. Os “elementos bióticos' são as espécies animais associadas a essas paisagens subterrâneas — alguns animais, inclusive, vivem ex- clusivamente nesses ambientes, como espécies de peixes albinos e cegos, entre outras. O uso das cavernas, portanto, é limitado a estu- dos técnico-científicos e a atividades de natureza espeleológica, étnico-cultural, turística, recreativa e educativa. Algumas delas, como expedições do maior porte, espeleomergulho, turismo e pesquisa, exigem autorização prévia do Ibama, especialmente quando envolvem coleta de material. A autorização depen- de do cumprimento de critérios e condições que tornem a atividade compatível com a conservação das cavernas. A prática exploratória em cavernas é, além de uma atividade científica, uma opção de lazer ou um esporte de aventura. É preciso ressaltar, no entanto, que se trata de uma atividade de risco, pois se desenvolve em um ambiente sem luz, de difícil acesso e com a presença comum de água e muitas vezes de animais perigosos, como serpentes. Assim, deve ser realizada com cautela, responsabilidade e conhecimento das técnicas, ou acompanhada de pessoas com a experiência adequada. = ESPELEOLOGIA | SUGESTÕES PARA LEITURA AULER, A.; RUBBIOL, E. & BRAND, R.As grandes cavernas do Brosil. Belo Horizonte, Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas, 2001 AULER, À. & z068|, | Espeleologia — Noções básicos (coleção de livros técnicos da Redespelea Brasil) São Paulo, eaitora Redespeleo, 2005. SUGUIO, k Geolagia do Quaternário e mudanças ambientais (passado + presente =futuro?. São Paulo, Paulo's editora, 1999. Naintemet Centro Nacional de Estudo, Proteção e Manejo de Cavernas (Cecav-lbama) Pesven, ibama.govbr/ cecav Redespeieo Brasil = tp: (vw redespelzo.org/. Sacledade Brasileira de Espeleologia (SBE) — www sbe.com.br.