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Quinta Edição da Revista LibreOffice Magazine - Meninos do Brasil
Tipologia: Notas de estudo
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Não perca as partes importantes!



































































EDITORES Eliane Domingos de Sousa Vera Cavalcante REDATORES Angelita Coelho Daniel Rodriguez David Jourdain Denis Dobbin Eliane Domingos de Sousa Fábio Gomes Rocha José Ney Meirelles Klaibson Ribeiro Olivier Hallot Rodolfo Avelino Valdir Barbosa Vera Cavalcante REVISÃO Adriano Rodrigues Carlos Alberto Júnior Jean César Vasconcelos Rodolfo Marcondes S Souza Vera Cavalcante DIAGRAMAÇÃO Eliane Domingos de Sousa Valdir Barbosa Vera Cavalcante CAPA Leandro Ferra - (Quadro- chave Produções Livres) CONTATO [email protected] REDAÇÃO [email protected] A revista LibreOffice Magazine é desenvolvida somente com ferramentas livres. Programas usados: LibreOffice Draw, Inkscape e Gimp.
Do conceito ao pré conceito No Houaiss circula do adjetivo “espontâneo” ao substantivo que compõe a frase “... é aquele que se dedica a um trabalho sem vínculo empregatício, prestando ajuda quando necessário”. São duas definições de voluntário em um dicionário. Essa capacidade de doação é algo que não é tangível, não pode ser percebido por pessoas que não têm isso como parte de educação de “berço” ou no seu DNA. Das que tem, nem todas deixam que essa “loucura” espontânea saia de suas entranhas e tome a liberdade de fluir para o mundo em que vivem. Mas os que assumem essa veia de voluntário, fazem um bem enorme, primeiro a si mesmo e depois ao mundo. E são pessoas imperceptíveis na multidão. São pessoas de todas as cores, idades, crenças e diferentes níveis de educação. O trabalho voluntário nas comunidades de Software Livre – nas diversas atividades tais como desenvolvimento de software, documentação, tradução, divulgação e etc, não é visível para a grande maioria das pessoas. Isso faz com que achem que são um “bando de loucos”, antissociais, nerds e etc. E que seu envolvimento e trabalho em comunidades é coisa de amador. Não. Com certeza é coisa de amante. No Houaiss significa “que ou aquele que tem gosto ou inclinação por alguma coisa”. Inclinação de colaborar, dividir o que sabe, para saber mais e aprender mais. E você que acha que ser profissional é usar os pacotes de caixinha, caros ao bolso da grande maioria da população, não gostaria de experimentar esse lado amador do software livre? De repente você é um dos que tem aquela loucura espontânea adormecida, e com essa experiência não se descobre um amante. Voluntário e capaz de se doar a uma causa. Os amadores vão adorar aumentar a legião de colaboradores voluntários. Esta edição é dedicada a todos os voluntários. Aos colaboradores desta edição, os sinceros agradecimentos por mais esse lançamento. Boa leitura! Vera Cavalcante
Por Vera Cavalcante e Olivier HallotPor Vera Cavalcante e Olivier Hallot Ar tigo Desde o antigo OpenOffice.org 1.0, passando pelo BrOffice até o lançamento do LibreOffice 3.3, a comunidade Brasileira se restringia a alguns voluntários nas áreas de tradução e localização e promoção do software livre no Brasil. Muitas festas, muitas fotos, muitos tapinhas nas costas, mas muito pouco código. Com a chegada do LibreOffice em Setembro de 2010, uma mudança radical ocorreu, não somente no software mas também no relacionamento entre o projeto e seus desenvolvedores. A partir da chegada do LibreOffice as vias para o desenvolvimento abriram-se. No Brasil, salvos honrosas exceções, eramos principalmente consumidores de software livre e quase nada de contribuidores. A permanecer esse status quo e continuaríamos deitados eternamente em berço esplêndido, hipocritamente contemplativos do trabalho dos outros povos. Era necessário mudar este perfil, sair da letargia e do oportunismo inconsequente de só aproveitar das bondades do software livre e nada retribuir, sequer desenvolver uma indústria que possa ser saudável e próspera em software livre.
Ar tigo Nas palavras de Mao Tse Tung, uma longa caminhada começa com o primeiro passo. E com muito orgulho demos o primeiro passo em 2012 no FISL quando iniciamos uma oficina de desenvolvimento do LibreOffice, atraindo o interesse dos nossos “meninos do Brasil”. Um ano depois temos mais de 300 patches aplicados no código do LibreOffice, e com orgulho sabemos que nossos “meninos” são agora respeitados desenvolvedores capazes de abraçar o imenso legado do código do LibreOffice, para torná-lo uma ferramenta completa e moderna de edição dos mais variados tipos de documento. Essa “meninada” está aqui nesta revista mostrando ao leitor por que desenvolver para o LibreOffice é uma oportunidade única de autocapacitação e satisfação pessoal. O próximo passo será a certificação de suas habilidades de desenvolvedores pela The Document Foundation. Daí em diante, o céu é o limite. Então, quem são, o que fazem, e o que buscam os meninos do Brasil do LibreOffice?
Estudante de Ciência da Computação em Santa Catarina, mora na cidade de Gaspar ao lado da capital do estado e trabalha em uma empresa de tecnologia como programador C++. Tem 23 anos. Admite que sempre teve interesse no projeto LibreOffice e viu a oportunidade de colaborar quando esteve no FISL 2012 e conheceu Olivier Hallot. Depois de uma boa conversa entrou para a turma que colabora voluntariamente. Alguns fatores foram decisivos para iniciar o trabalho voluntário. Satisfação pessoal, incrementar o currículo, aprender e aperfeiçoar o aprendizado foram preponderantes para essa decisão, como também treinar o inglês. O desejo de conhecer pessoas envolvidas com projetos de Software Livre também falou bem fundo. O contato com profissionais do mundo inteiro, como engenheiros de software muito habilidosos, segundo Marcos, ajuda bastante em relação ao aprendizado de programação e trabalho em equipe, principalmente pelo fato
Ar tigo Era o que faltava. Juntou o útil ao agradável e começou a desenvolver para o LibreOffice. Ricardo reconheceu, no colega Marcos de Souza, um notável entusiasmo durante as oficinas no FISL, que o contagiou. A vontade de aprender e incrementar o currículo foi marcante, para começar a contribuir com o projeto, pois acredita que para quem ainda não está na área de desenvolvimento de software mas quer começar, é ideal ter contato com um código extenso e funcional como do LibreOffice. Essa é a sua primeira experiência com trabalho voluntário e colaborativo. Ricardo sente-se feliz em ver o seu trabalho somado ao da comunidade gerando bons resultados e satisfação aos usuários do LibreOffice, principalmente por ser feito com muita vontade. O relacionamento com a comunidade de desenvolvedores do LibreOffice flui facilmente. Recorre aos colaboradores internacionais, os chamados “MegaDevs” quando precisa de respostas ou ajuda e é atendido rapidamente. Isso resulta num aprimoramento das técnicas necessárias a organização do código. Ricardo se tornou membro da The Document Foundation em março de 2013, pelo trabalho de refatoração de código, limpeza de “coisas obsoletas” para dar lugar para “coisas” mais atuais. Espera ainda, poder participar mais ativamente no futuro, quando tiver um pouco mais de tempo disponível para tal.
Natural de Brusque e morando atualmente em Gaspar em Santa Catarina, José Guilherme Vanz, 21 anos, é mais conhecido pelo pessoal da comunidade brasileira como Vanz. É estudante de Ciência da Computação na Fundação Universidade Regional de Blumenau. Trabalha como desenvolvedor C++ em uma empresa de desenvolvimento de games, aplicativos de entretenimento digital e realidade aumentada para dispositivos móveis. Por gostar muito de desenvolvimento de software e programação decidiu contribuir no projeto.
Ar tigo Essa é uma oportunidade de aprender muito e trocar ideias com excelentes engenheiros de software, que estão dispostos a ajudar e ensinar coisas novas. Trabalhando em uma empresa de software convencional, não teria a oportunidade de aprender, reconhece Vanz. Fazer parte de um grande projeto como o do LibreOffice é um desafio. Traz satisfação pessoal e incrementa o currículo. Os desafios que vão surgindo a medida que se aprofunda no código e a interação, entre todos os membros da equipe em busca de soluções, é muito motivador. Alguns desenvolvedores da equipe são pessoas que tomou como exemplo de metas profissionais, não pela empresa em que trabalham mas pelo nível de conhecimento que possuem. Diz que ficará muito feliz se chegar perto disso. Uma coisa muito bacana dentro da comunidade do LibreOffice foi sua receptividade. Ajuda e incentivo recebi todas as vezes que precisei, afirma Vanz. Todos estão sempre dispostos a ajudar na solução dos problemas encontrados durante o desenvolvimento do projeto. Além disso, o primeiro "Good job" de um engenheiro que você considera sua meta profissional não dá pra esquecer! Chama a atenção de Vanz a organização de projetos tão grandes como o LibreOffice. Gostou de aprender mais sobre C++ com os desenvolvedores, pois seus conhecimentos da linguagem foram obtidos estudando por conta própria. E acha bastante proveitoso poder usar a linguagem “de verdade”. Participou de algumas comunidades tais como Mozilla e Apache Hadoop, mas somente observando como funcionam. É membro da TDF desde janeiro de 2013 e para ser aceito deu contribuições no código fonte. Sua expectativa é conseguir participar cada vez mais da comunidade e no desenvolvimento do projeto.
Rodolfo Ribeiro – 30 anos nasceu em Recife, mas desde os 10 anos reside em Vitória no Espirito Santo. Engenheiro eletricista com ênfase em eletrônica e telecomunicações formado há 9 anos pela UFES.
Ar tigo Rodolfo vê a comunidade de desenvolvedores do LibreOffice muita ativa tanto produzindo quanto discutindo rumos. Existem dois valores que a The Document Foundation defende e que Rodolfo sempre foi favorável. São eles:
Seu interesse por Software Livre começou a partir do OpenOffice.org, ao perceber o altíssimo valor que o software livre poderia agregar à indústria e à sociedade.
Ar tigo O código do LibreOffice tem mais de 15 anos de idade. Neste período as tecnologias evoluíram e por razões históricas, muito desse código-fonte tornou-se obsoleto. Para piorar, ele é tão grande que nem mesmo os mais antigos desenvolvedores conhecem tudo sobre ele. Para Olivier, em muitos momentos, há uma verdadeira “arqueologia” digital, onde se descobre partes do código que ninguém sabe o propósito daquilo. É nesse espírito de colaboração entre os programadores antigos e os novatos, que o LibreOffice é hoje desenvolvido, usando as melhores práticas de desenvolvimento e hacking colaborativo. E com esse espírito, buscam criar oportunidades para que, muitos jovens programadores participem da magia do LibreOffice, contribuindo para seu aperfeiçoamento. Atualmente, são organizados eventos especiais de haking - os hack-fests - para reunir esta moçada e conversar sobre assuntos muito sérios em C++, tais como classes, membros, construtores, refatoração, sobrecarga, etc. E você que está pensando em colaboração voluntária, aceita esse desafio? Ajude a aumentar o time “dos meninos do Brasil”. VERA CAVALCANTE - Empregada na área administrativa em empresa pública até setembro de 2011. Usuária de ferramentas livres desde 2004 quando conheceu e passou a utilizar o OpenOffice versão 1.0 na empresa e particularmente. Desde então, ministrou treinamentos do OpenOffice/BrOffice/LibreOffice para os colegas na empresa e fora dela. E-mail: [email protected]
Entrevista
1. Como você teve seu primeiro contato com o Software Livre? A primeira vez que tive contato com softwares livres foi na época da faculdade, no Centro Nacional de Supercomputação (CESUP) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Isso foi no início de 1997. Na época estava iniciando no CESUP uma bolsa de iniciação científica. O CESUP sempre foi um celeiro de talentos da administração de redes, com uma equipe formada por mestrandos, doutorandos e analistas com alta especialização. Apesar de a minha bolsa ser voltada para desenvolvimento, o meu contato com essas pessoas era diário. Edgar Meneghetti, que depois de muito tempo eu voltaria a encontrar na Assembleia Legislativa do Estado, encomendou pelo correio um pacote de CDs com diversas distribuições Linux. Durante alguns dias, esses CDs foram a diversão de todos. Vale lembrar que, mesmo em um centro de excelência como o CESUP, um simples download de 600 Mb era algo praticamente inviável. Assim, acabei instalando pela primeira vez um Red Hat Linux. O resultado da experiência foi muito mais conceitual do que prático. Como meu trabalho estava focado sobre Oracle e Visual Basic, deixei de lado o uso do Red Hat. Conceitualmente, no entanto, a descoberta de uma nova forma de desenvolvimento foi uma satisfação enorme para mim, que já considerava frustrante o acesso a um software somente mediante a um licenciamento proprietário. Tempos depois, já em 1999, a Procergs convidou algumas organizações estaduais para integrar ações de comunicação para a política de apoio ao software livre, entre elas, a TVE/RS, onde eu era coordenador de TI. Como representante da TVE/RS junto à Procergs, passei a trabalhar com um grupo fantástico do qual faziam parte Mario Teza, Ronaldo Lages, Marcelo Branco, Marcos Mazoni, Clarisse Copetti, Claudio Dutra, Sady Jacques, entre outros tantos. Essa equipe deixou um grande legado para o software livre no país e muito do que veio depois teve origem no trabalho desenvolvido por lá.
Entrevista
2. E o seu primeiro contato com o LibreOffice? O meu primeiro contato com o embrião da The Document Foundation e do LibreOffice deu-se na OpenOffice.org Conference de 2010, em Budapeste, Hungria. Eu fazia parte da delegação do projeto BrOffice.org e estava lá para apresentar o trabalho de documentação voltado para inclusão digital no Brasil. Durante a conferência, um outro membro da equipe brasileira, Olivier Hallot, informou-me de uma articulação comunitária com o objetivo de tornar o desenvolvimento do OpenOffice.org ainda mais livre, meritocrático e autogestionável. De fato, apesar de estar próximo dos dez anos, a promessa de uma fundação independente para a organização do projeto não tinha se tornado uma realidade. Além disso, a Oracle, meses depois de comprar a Sun, ainda não havia apresentado claramente os seus propósitos para o OpenOffice.org. O contexto indicava, então, que o melhor caminho a seguir seria uma renovação das estruturas. 3. Na sua opinião, o que melhorou após 2 anos da fundação da TDF e do LibreOffice? O LibreOffice é um sucesso essencialmente porque acelerou o processo de desenvolvimento do software. O número de contribuições de código desde o início do projeto só aumentou e isso é reflexo de uma mudança na atitude em relação aos novos voluntários. O LibreOffice é um dos projetos mais abertos a novas contribuições[1]^ e isso é reconhecido pela comunidade e pelo mercado. Muito desse perfil se deve aos Easy Hacks[2], uma proposta de mentoria para novos desenvolvedores resolverem pequenos desafios no código fonte do LibreOffice. Muitos desses hacks foram e ainda são fundamentais para o processo de limpeza de código proposto no início das atividades da TDF. Vale dizer ainda que essa abertura do projeto também define o perfil dos desenvolvimentos complexos. Você já experimentou a conexão do LibreOffice 4.x com algum ECM como o Alfresco, por exemplo? Com você poderá ver, é possível trabalhar com o seu documento no repositório diretamente através da interface do LibreOffice. A implementação desse novo recurso foi um trabalho excelente, resultado direto do novo momento do projeto.
Entrevista
5. Gustavo, você comentou sobre o projeto de extensões. Quais são as suas atividades dentro do projeto LibreOffice? Além de revisor no projeto de Extensões, administro dois serviços de validação de documentos para o Controle de Qualidade. Continuo realizando palestras e participando de eventos, além de trabalhar na documentação, em especial no “Guia de Introdução às funções do LibreOffice Calc”[4], um documento de minha autoria que apresenta mais de 50 fórmulas do Calc em exemplos. Fiquei muito contente com o retorno obtido com o lançamento desse material e preciso mencionar que Vera Cavalcante fez um ótimo trabalho revisando todas as fórmulas e Júlio Neves foi o primeiro a contribuir com a próxima versão. Espero preparar a segunda edição em breve e espero receber mais contribuições detalhadas da comunidade sobre o uso de fórmulas e funções do Calc. Voltando às extensões, pretendo me dedicar mais a API de desenvolvimento. Tenho vários artigos escritos sobre o uso da API e sete extensões publicadas no portal. Uma delas, a Valor por extenso, feita em parceria com Noelson Duarte a partir de uma sugestão de Vitorio Furusho. Esse tipo de desenvolvimento me agrada porque a API do LibreOffice é um instrumento muito poderoso para manipulação de documentos em qualquer formato e o trabalho com as extensões permite transformar isso em algo útil para o usuário. Minha última atividade sobre esse tema foi a apresentação de um documento de uso da API do LibreOffice utilizando Java, na lista brasileira de desenvolvimento do LibreOffice. Esse é outro documento onde novas contribuições são bem-vindas.
Entrevista
6. Você trabalha há bastante tempo como consultor para projetos corporativos de utilização do LibreOffice e do padrão ODF. Quando surgiu a ideia de montar o negócio? Para falar de como surgiu o meu trabalho, é necessário considerar o antepassado histórico do LibreOffice, o StarOffice. No final da década de 1990, ele, mesmo proprietário, era o principal pacote de aplicativos utilizado sobre Linux. Era, além disso, o principal pacote sem custo sobre Windows. Como falei, por esse período eu estava na TVE/RS e havia uma necessidade muito grande de avaliação de alternativas em relação ao licenciamento do Microsoft Office. Por isso, em 2001, fiz o meu primeiro projeto de migração para o StarOffice. Um projeto pequeno, é verdade, mas que me deu a certeza de que era possível fazer isso em dimensões ainda maiores. Nesse projeto, substituímos o Microsoft Office pelo StarOffice nos novos computadores da redação de jornalismo da rádio FM Cultura. Se com o StarOffice era possível, com o OpenOffice.org as coisas ficaram mais fáceis. Especialmente a partir da versão 1.1, que já fazia exportação para PDF. Em 2003 concluí que valeria a pena tentar viver de software livre trabalhando exclusivamente com projetos voltados para aplicativos de escritório. Abri minha própria empresa e desde então, como consultor, trabalhei em mais de uma centena de projetos. 7. E é fácil implantar o LibreOffice? A complexidade dos projetos é variável. Depende de fatores como o tamanho, a cultura interna, os recursos e o comprometimento da organização. Em linhas gerais, se a organização conhecer bem o seu ambiente e elaborar um bom projeto, com o apoio do corpo diretivo, uma comunicação clara para os usuários e uma preparação técnica adequada, a possibilidade de sucesso é muito grande. A TDF tem trabalhado significativamente nesse tema e publicou, em março, um documento que sintetiza as etapas fundamentais de um bom projeto[5].
Entrevista
9. Mas há espaço para o LibreOffice nesse cenário? Sim, há espaço. A certeza disso está no fato de que há muitas organizações que desejam criar e manter sua própria estrutura de serviços de edição de documentos na nuvem, seja por vontade própria ou por restrição legal. Hoje, Microsoft e Google ofertam um conjunto de serviços baseados nas suas nuvens públicas, o que não atende a necessidade deste perfil de organizações. O LibreOffice poderá ser a grande alternativa livre para esse tipo de implementação quando a sua versão online estiver pronta e disponível. Naturalmente, as principais interessadas em ter a sua própria nuvem são as entidades governamentais. Há uma perspectiva legal, estratégica e soberana nisso, já que estamos falando no armazenamento de documentos públicos brasileiros em locais desconhecidos e sujeitos à lei de outras nações. As últimas notícias sobre o tema deixaram muito claro que isso deixou de ser uma especulação conspiratória[6]. 10. E como está o desenvolvimento dessa versão online? Em meados de 2011 eu testei detalhadamente a versão online para apresentá-la na primeira edição do Fórum Espírito Livre[7], que aconteceu em novembro do mesmo ano. Nesse aprendizado, contei com a mentoria fundamental de Michael Meeks. Ele é um desenvolvedor admirável não só pelo conhecimento mas pela disponibilidade permanente de acolher novos desenvolvedores. Nesse período, fiz meus primeiros easy hacks no código-fonte do LibreOffice. Pessoalmente, foi uma experiência muito importante para entender e completar meu conhecimento no projeto. No entanto, não pretendo repeti-la tão cedo. Não tenho tempo para recuperar a minha experiência em C da época da faculdade e, ao mesmo tempo, como falei antes, meu interesse está muito mais voltado para o uso da API do LibreOffice. Voltando ao LibreOffice Online, o resultado da minha prática foi bastante promissor. É comparável, por exemplo, ao que acontece no Microsoft Office 365: da mesma forma que este, o LibreOffice online mantém as mesmas características de usabilidade existentes na sua versão tradicional.
Entrevista Tecnicamente, essa versão do LibreOffice é baseada na tecnologia de renderização no navegador que foi desenvolvida com a GTK+ 3.2 com a habilitação do backend Broadway. No entanto, ainda é complicado pensar em usá-lo em produção. A razão é que ele ainda precisa de complementos para ser utilizado em um ambiente real: segurança de acesso, API de conexão, controle de armazenamento no cliente, controle de impressão no cliente, etc. O desenvolvimento, portanto, é constante. Há muito a ser feito.
11. Fale sobre o projeto de Lei ODF, aprovado no estado do Rio Grande do Sul. O Rio Grande do Sul foi o terceiro estado brasileiro, depois de Paraná e Rio de Janeiro, a ter uma lei específica que prioriza o uso de padrões abertos, em especial o ODF, para a edição e disponibilização de documentos eletrônicos. Com pequenos detalhes, a lei gaúcha ampliou a prioridade pelo ODF também no legislativo e no judiciário, o que acabou referendando a utilização já existente do LibreOffice na Assembleia Legislativa e no Tribunal de Justiça do Estado. O momento é muito diferente do que o de 12 anos atrás. No entanto, tenho certeza de que o Estado do Rio Grande do Sul assumirá novamente um papel de protagonismo no software livre brasileiro, assim como o Governo Federal e o Estado do Paraná fez em anos anteriores. O que muda dessa vez é que o software livre já está consolidado. Não é mais uma tecnologia ou um conceito disruptivo como no passado, mas é considerado consensualmente a melhor base para que se implementem dois conceitos que hoje estão na pauta dos gestores públicos: dados abertos e acesso à informação.