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Física III - Campo Elétrico, Polarização e Deslocamento Elétrico - Poli - 2005
Tipologia: Notas de aula
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Prof. Aluisio Neves Fagundes 1 ◦^ semestre de 2006
Notas revistas por:
Profa. M´arcia C. A. Fantini
Prof. Valdir Bindilatti
A introduc¸ ˜ao de uma lˆamina de diel´etrico no interior de um capacitor plano isolado, que apresenta uma diferenc¸a de potencial V 0 entre seus terminais, provoca uma redu¸c˜ao da diferenc¸a de potencial de um fator κ, denominado constante diel´etrica, que ´e carac- ter´ıstico do diel´etrico. Como
V =
E · dS = EL (1.1)
onde L e a separac´ ¸ ˜ao entre as armaduras do capacitor, temos que o campo el´etrico no interior do capacitor fica tamb´em reduzido do mesmo fator, ou seja
V =
κ
κ
Com o capacitor isolado, a carga armazenada nas armaduras ´e a mesma (Q 0 ), e a ca- pacitˆancia fica
C =
(V 0 /κ)
= κ
= κ C 0 , (1.2)
ou seja, aumenta pelo mesmo fator κ. Como isto acontece? Com que mecanismos a mat´eria responde `a presenc¸a do campo el´etrico para apresentar tais conseq ¨uˆencias?
Vamos olhar a mat´eria a n´ıvel microsc ´opico, procurando as respostas. Numa primeira vis˜ao, vamos olhar para mol´eculas apolares, isto ´e, mol´eculas que, na ausˆencia de cam- pos el´etricos, tˆem os centros das cargas positivas e negativas coincidentes (Fig. 1.1). Quando um campo el´etrico ´e aplicado, a mol´ecula responde a este campo. A forc¸a sobre as cargas positivas ´e na direc¸ ˜ao do campo, enquanto que a forc¸a sobre as cargas negativas tem o sentido oposto. Sob a ac¸ ˜ao dessas forc¸as opostas, a mol´ecula se de- forma ligeiramente adquirindo um momento de dipolo el´etrico. Sejam +q e −q as cargas positivas e negativas totais da mol´ecula e d a distˆancia entre seus centros. O momento de dipolo el´etrico, p, ´e um vetor com m ´odulo qd, direc¸ ˜ao da reta que une os centros das cargas e sentido da carga negativa para a carga positiva:
p = qd. (1.3)
∆QP = σP ∆A
P
ρ = ρ− = −nq
ρ = ρ+ = nq
ρ = ρ− + ρ+ = 0
d
d
− − − − − − − − − − −
Figura 1.2: Distribuic¸ ˜ao de carga numa placa diel´etrica uniformemente polarizada. A distˆancia d foi exagerada para maior clareza.
P, e se denomina polariza¸c˜ao el´etrica. Tomemos um volume dV que seja infinitesimal do ponto de vista macrosc ´opico, mas que contenha um grande n ´umero de dipolos moleculares. A polarizac¸ ˜ao em qualquer ponto r dentro do volume dV e definida de´ tal forma que o produto PdV resulte no momento de dipolo el´etrico total dp contido dentro do volume dV , ou seja:
P(r)dV =
i(dV )
pi = dp. (1.4)
A soma vetorial indicada ´e sobre todos os momentos moleculares pi dentro do volume infinitesimal, resultando no momento de dipolo el´etrico total dentro dele. Para ilustrar, suponha um material diel´etrico formado por n mol´eculas por unidade de volume, uniformemente polarizado. Todas as mol´eculas tˆem o mesmo momento de dipolo, ou seja pi = qd. Assim, o momento total dentro de um volume qualquer dV , dentro do diel´etrico, ´e o n ´umero de mol´eculas no seu interior multiplicado pelo momento de cada uma, ou seja dp = ndV qd. Neste caso vemos que o vetor polarizac¸ ˜ao e´ P(r) = nqd (1.5)
para qualquer ponto r no interior do diel´etrico. Para entender melhor a situac¸ ˜ao, vamos descrever a distribuic¸ ˜ao de carga corres- pondente a esta polarizac¸ ˜ao uniforme de uma maneira alternativa. Podemos modelar a distribuic¸ ˜ao de carga pela superposic¸ ˜ao de duas distribuic¸ ˜oes de carga uniformes: a das cargas positivas ρ+ = +nq e a das cargas negativas ρ− = −nq. Quando as mol´eculas est˜ao relaxadas (nenhum campo el´etrico atuando sobre elas) a superposic¸ ˜ao das duas distribuic¸ ˜oes de carga se anula identicamente, e a densidade total de carga e nula (tanto dentro quanto fora do diel´´ etrico) como era de se esperar. Quando o diel´etrico est´a polarizado as distribuic¸ ˜oes de carga se encontram deslocadas relati- vamente, da distˆancia d. A distribuic¸ ˜ao de carga resultante est´a esquematizada na Figura 1.2 para um diel´etrico em forma de placa, com a polarizac¸ ˜ao uniforme P per- pendicular `as suas faces. Notamos que a densidade de carga total ´e nula no interior do diel´etrico, mas n˜ao nas duas lˆaminas de espessura d nas duas faces perpendiculares a P. As cargas n˜ao nulas decorrentes da polarizac¸ ˜ao de diel´etricos s˜ao denominadas car- gas de polariza¸c˜ao. No caso de polarizac¸ ˜ao uniforme, cargas de polarizac¸ ˜ao s ´o aparecem na superf´ıcie dos diel´etricos.
Vamos obter a carga de polarizac¸ ˜ao ∆QP dentro do volume delimitado pela su- perf´ıcie tracejada indicada na figura. A superf´ıcie intercepta um volume d×∆A da regi˜ao da face superior do diel´etrico onde a densidade de carga ´e ρ = nq. Assim, a carga de polarizac¸ ˜ao dentro da superf´ıcie fechada ´e
∆QP = ρd∆A = nq∆A = P ∆A.
Vocˆe pode verificar que este resultado ´e completamente equivalente a:
P · dA, (1.6)
ou seja, a carga de polarizac¸ ˜ao num volume limitado por uma superf´ıcie fechada ´e o ne- gativo do fluxo do vetor polarizac¸ ˜ao atrav´es da superf´ıcie. Esta ´ultima express˜ao ´e geral e vale em qualquer situac¸ ˜ao, n˜ao apenas para o caso de polarizac¸ ˜ao uniforme. Quando a polarizac¸ ˜ao n˜ao ´e uniforme (varia ao longo do volume do diel´etrico) esta express˜ao indica que, al´em de cargas superficiais, pode haver tamb´em cargas de polarizac¸ ˜ao no interior do diel´etrico. Como a distˆancia d e sub-microsc ´´ opica, ´e conveniente tratar as cargas de polarizac¸ ˜ao superficiais utilizando uma densidade superficial de carga, σP definida de forma que dQP = σdA. No exemplo da placa teremos:
σP = ρd = ±nqd = ±np 0 = ±P,
com os sinais positivo e negativo correspondendo as placas superior e inferior, respec- tivamente. A express˜ao acima ´e um caso particular da express˜ao geral para σP que vale para uma orientac¸ ˜ao qualquer da polarizac¸ ˜ao em relac¸ ˜aoa superf´ıcie do diel´etrico, que pode ser obtida da aplicando-se a Eq.(1.6):
σP = P · ˆn. (1.7)
Aqui ˆn ´e o versor perpendicular `a superf´ıcie do diel´etrico apontando para fora. Verifique como, no exemplo da placa, isto resulta em σP = +P na face superior, σP = −P na face inferior, e σP = 0 nas quatro faces laterais do diel´etrico.
1.2 Campos el´etricos num capacitor com diel´etrico
At´e aqui vimos como conhecendo P, a polarizac¸ ˜ao de um diel´etrico, podemos obter a distribuic¸ ˜ao das cargas de polarizac¸ ˜ao. O que falta ´e, assim, poder prever qual ser´a a polarizac¸ ˜ao de um diel´etrico. O que caracteriza um material diel´etrico ´e o fato de que os momentos de dipolo moleculares induzidos e, portanto, a pr ´opria polarizac¸ ˜ao P s˜ao proporcionais ao campo el´etrico sobre as mol´eculas. Isto pode ser expresso em termos da relac¸ ˜ao P(r) = χe 0 E(r), (1.8)
onde χe, a susceptibilidade el´etrica, ´e um parˆametro adimensional que ´e caracter´ıstico do material. Em eletrost´atica χe e uma constante para cada material.´ (Sob campos
− − − − − − − − − − −
Figura 1.3: Cargas e campos num capacitor com diel´etrico. As cargas livres ±Q 0 nos eletrodos s˜ao a fonte do campo E 0. As cargas de polariza¸c˜ao ±QP na superf´ıcie do diel´etrico s˜ao a fonte do campo EP. E e o campo resultante no interior do capacitor que determina a polarizac´ ¸ ˜ao P do diel´etrico.
A constante diel´etrica
O problema est´a resolvido e o resultado mostra que, para uma dada carga livre Q 0 nas placas, o campo el´etrico no interior do capacitor com diel´etrico ´e reduzido em relac¸ ˜ao ao campo do capacitor em v´acuo devido `a polarizac¸ ˜ao do diel´etrico. O fator de reduc¸ ˜ao
κ = 1 + χe
e a ´ constante diel´etrica do material. Tendo obtido o campo resultante, a polarizac¸ ˜ao segue da Eq. (1.8)
P = χe 0 E =
χe κ
σ 0 ˆz,
que resulta para as cargas de polarizac¸ ˜ao (com χe = κ − 1 )
σP = P =
κ − 1 κ
σ 0 , ou QP =
κ − 1 κ
1.3 Vetor deslocamento el´etrico
Os resultados anteriores foram obtidos no caso particular do capacitor de placas pa- ralelas. Em capacitores com outra geometria, as relac¸ ˜oes entre os campos el´etricos e as cargas livres ou de polarizac¸ ˜ao ser˜ao diferentes. Em qualquer outra geometria que n˜ao esta, os campos el´etricos e as polarizac¸ ˜oes, n˜ao ser˜ao uniformes, mas ter˜ao uma dependˆencia espacial ditada pela configurac¸ ˜ao das placas do capacitor. Entretanto, se o espac¸o entre as placas de um capacitor qualquer estiver completamente preenchido com um ´unico diel´etrico de constante κ, o resultado ser´a o mesmo, ou seja: para uma
− − − − − − − − − − −
ds
Figura 1.4: Lei de Gauss na presenc¸a de diel´etrico polarizado.
dada carga livre nas placas do capacitor, o campo el´etrico resultante entre elas ser´a E(r) = (^) κ^1 E 0 (r). Vamos ver porque isto acontece. Vamos aplicar a lei de Gauss a uma superf´ıcie que contenha em seu interior tanto cargas livres quanto cargas de polarizac¸ ˜ao, como a superf´ıcie S indicada pela linha tracejada da Figura 1.3: ∮
S
E · dA =
(Qlivre + Qpol).
O campo el´etrico E e o campo resultante em cada ponto da superf´´ ıcie S e a carga QS e a carga total dentro da superf´ ´ ıcie que envolve tanto as cargas livres quanto as cargas de polarizac¸ ˜ao. No caso da superf´ıcie na placa superior do capacitor da Figura 1.3: QS = −Q 0 + QP. Para qualquer caso em que haja um diel´etrico polarizado, a carga de polarizac¸ ˜ao dentro de uma superf´ıcie qualquer ´e determina pela polarizac¸ ˜ao do diel´etrico P, atrav´es pela Eq. (1.6)
Qpol = −
P · dA.
Podemos, ent˜ao, reescrever a Lei da Gauss na forma
S
E · dA = Qlivre −
P · dA,
ou (^) ∮
( 0 E + P) · dA = Qlivre.
Isto mostra que o fluxo da combinac¸ ˜ao vetorial 0 E + P sobre uma superf´ıcie qualquer e determinado apenas pelas´ cargas livres internas `a superf´ıcie. A este vetor obtido da combinac¸ ˜ao de campo el´etrico com polarizac¸ ˜ao el´etrica se d´a o nome de deslocamento el´etrico: D = 0 E + P. (1.9)
1.4 Resumo
(1.6) Qpol = −
S
P · dA (1.7) σpol = P · ˆn
S
E · dA = Qlivre + Qpol
S
D · dA = Qlivre
(1.8) P = χe 0 E (1.11) D = E
= (1 + χe) 0 = κ 0
1.5 Exemplo
Um capacitor de placas paralelas de ´area A e preenchido com dois diel´´ etricos de constantes κ 1 e κ 2 com espessuras d 1 e d 2 , respectivamente, como mostra a figura ao lado, de forma que a separac¸ ˜ao entre as pla- cas ´e d = d 1 + d 2. Qual ´e a capacitˆancia do sistema?
A
κ 1 d 1
κ 2 d 2
Figura 1.5: Capacitor plano com dois diel´etricos.
Para determinar a capacitˆancia, supomos cargas livres ±Q 0 nos eletrodos, como es- quematizado na Fig. 1.6. Por simetria, estas cargas se distribuem uniformemente nas superf´ıcies internas dos eletrodos. Assim, o vetor deslocamento el´etrico ´e uniforme no interior do capacitor apontando na direc¸ ˜ao da placa com +Q 0 para a placa com −Q 0. Nesta geometria, a lei de Gauss para o vetor D aplicada `as superf´ıcies S 1 ou S 2 indica- das na figura, resulta que o vetor deslocamento el´etrico ´e o mesmo nos dois diel´etricos.
+Q 0
−Q 0 −
−
−
−
−
−
−
−
−
−
−
−
−
−
−
−
S 2
S 1
σ = +Q 0 /A
σ = −Q 0 /A
D
d 1
d 2
Figura 1.6: Vetor deslocamento el´etrico D no capacitor plano com dois diel´etricos. Nesta geometria, D e determinado apenas´ pelas cargas livres Q 0.
E 1 = (^) ^11 D
+Q′ 1
−Q′ 1
−
−
−
−
−
−
−
−
−
−
− E 2 = (^) ^12 D +Q
′ 2 −Q′ 2
−
−
−
−
−
−
−
−
+Q 0 −
−Q 0 −
−
−
−
−
−
−
−
−
−
−
−
−
−
−
−
S 2
S 1
Figura 1.7: Campo el´etrico no capaci- tor plano com dois diel´etricos. As car- gas de polarizac¸ ˜ao Q′^ nas superf´ıcies dos diel´etricos tamb´em est˜ao indicadas.
Explicitamente:
= σ 0.
Na Fig. 1.6 o vetor D est´a representado por linhas de forc¸a. Como D = E = κ 0 E, o campo el´etrico ´e diferente em cada diel´etrico, ou seja
κ 1
, no diel´etrico 1
κ 2
, no diel´etrico 2.
κ 1
= 2, 88 × 106 V/m, no poliestireno e
κ 2
= 1, 12 × 106 V/m, no neopreno.
Para comparac¸ ˜ao, os valores da rigidez diel´etrica dos dois materiais s˜ao 24 × 106 V/m e 12 × 106 V/m, respectivamente. Se o capacitor tivesse ar entre suas placas, com C 0 = 17,7 pF, a tens˜ao necess´aria para obter a mesma carga livre Q 0 = 6,63 nC seria V 0 = Q 0 /C 0 = 374 V. O campo el´etrico entre as placas seria seria E 0 = D/ 0 = V 0 /d = 7, 49 × 106 V/m, acima da rigidez diel´etrica do ar que ´e de 3 × 106 V/m, e o capacitor n˜ao suportaria a tens˜ao aplicada. Com uma tens˜ao V = 100 V o campo el´etrico seria E = V /d = 2 , 00 × 106 V/m, com uma carga livre de apenas Q 0 = C 0 V = 1,77 nC.