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Ondas Eletromagnéticas - Física III - POLI - 2005
Tipologia: Notas de aula
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Prof. Valdir Bindilatti 1 ◦^ semestre de 2006
Notas revistas por:
Prof. Daniel Cornejo Profa. M´arcia Fantini Prof. S´ergio Morelh˜ao
Baseadas nas notas do Prof. Aluisio Neves Fagundes para o 1 ◦^ semestre de 2005.
A contribuic¸ ˜ao de Maxwell ao Eletromagnetismo registra tamb´em a previs˜ao da existˆencia de ondas eletromagn´eticas. Esta previs˜ao feita por Maxwell em 1860 foi demonstrada Heinrich Hertz em 1887. Inicialmente vamos ver como as equac¸ ˜oes de Maxwell conduzem a uma equa¸c˜ao de onda para o campo eletromagn´etico. Depois vamos estudar uma classe particular de soluc¸ ˜oes desta equac¸ ˜ao, as ondas planas. Este tipo mais simples de soluc¸ ˜ao permite determinar propriedades das ondas eletromagn´eticas que resultam ser gerais, ou seja, que se aplicam a qualquer tipo de onda eletromagn´etica.
Vamos reescrever as equac¸ ˜oes de Maxwell, na sua forma diferencial, para o v´acuo, ou seja, uma regi˜ao do espac¸o completamente vazia onde n˜ao h´a cargas (ρ = 0) nem correntes el´etricas (J = 0):
∇·E = 0 (4.1) ∇·B = 0 (4.2)
∇×E = −
∂t
∇×B = μ 0 0
∂t
Tomemos o rotacional de ambos os membros da Lei de Faraday (4.3). Invertendo a ordem das derivadas espaciais e temporais, teremos:
∂t
Podemos eliminar o campo magn´etico B desta equac¸ ˜ao atrav´es da Lei de Amp`ere- Maxwell (4.4), obtendo uma equac¸ ˜ao que envolve apenas o campo el´etrico:
∇× (∇×E) = −μ 0 0
∂t^2
Ondas planas s˜ao func¸ ˜oes que se propagam numa direc¸ ˜ao fixa do espac¸o. Estritamente falando uma onda eletromagn´etica plana s ´o pode ser gerada por uma distribuic¸ ˜ao in- finita de cargas ou correntes com simetria plana. Entretanto, quando consideramos uma pequena regi˜ao do espac¸o bem distante das cargas e correntes, podemos tratar qualquer onda como plana. Por exemplo, a luz proveniente do sol se propaga radial- mente a partir dele. Quando observada numa pequena regi˜ao da terra, entretanto, a divergˆencia angular de um feixe de luz solar ´e completamente desprez´ıvel. Podemos tratar a luz como se propagando numa direc¸ ˜ao fixa.
Como uma onda plana se propaga numa direc¸ ˜ao fixa, podemos adotar esta direc¸ ˜ao como a direc¸ ˜ao do eixo z. A func¸ ˜ao que descreve esta onda plana s ´o depende da coor- denada z e do tempo t, sendo independente das coordenadas x e y. A forma geral para o campo eletromagn´etico de tal onda ´e
E(r,t) = E(z,t) = ˆexEx(z,t) + ˆeyEy(z,t) + ˆez Ez (z,t) (4.7) B(r,t) = B(z,t) = ˆexBx(z,t) + ˆeyBy(z,t) + ˆez Bz (z,t) (4.8)
Ou seja, num determinado instante, o campo el´etrico (ou magn´etico) ´e o mesmo em qualquer ponto de um plano z = constante. Na realidade estamos tratando de um problema em 1 dimens˜ao. Para um campo eletromagn´etico deste tipo as equac¸ ˜oes de onda assumem a forma
∂^2 Ex ∂z^2
c^2
∂^2 Ex ∂t^2
∂^2 Bx ∂z^2
c^2
∂^2 Bx ∂t^2 ∂^2 Ey ∂z^2
c^2
∂^2 Ey ∂t^2
∂^2 By ∂z^2
c^2
∂^2 By ∂t^2 ∂^2 Ez ∂z^2
c^2
∂^2 Ez ∂t^2
∂^2 Bz ∂z^2
c^2
∂^2 Bz ∂t^2
Aqui adotamos c^2 = 1/μ 0 0. O parˆametro c tem dimens˜ao de velocidade, e como veremos ´e a velocidade de propagac¸ ˜ao das ondas eletromagn´eticas no v´acuo. Ele ´e uma constante universal denominada velocidade da luz no v´acuo, porque a luz ´e uma onda eletromagn´etica. As equac¸ ˜oes para as trˆes componentes do campos el´etrico e magn´etico s˜ao idˆenticas e tem uma forma que vocˆe j´a deve ter encontrado, por exemplo quando estudou as ondas se propagando numa corda tensionada. Neste caso a equac¸ ˜ao se aplica ao des- locamento lateral da corda. Tomando o comprimento da corda ao longo da direc¸ ˜ao ˆez o deslocamento transversal de um ponto localizado em z, f (z,t) por exemplo, obedece a equac` ¸ ˜ao: ∂^2 f ∂z^2
v^2
∂^2 f ∂t^2
onde a velocidade com que as ondas se propagam na corda v =
T /ρ e determinada´ pela tens˜ao na corda, T e sua densidade linear de massa (massa por unidade de com- primento), ρ.
A soluc¸ ˜ao da equac¸ ˜ao de onda em uma dimens˜ao, (4.9), tem uma forma geral simples. A equac¸ ˜ao de onda ´e satisfeita por qualquer func¸ ˜ao em que as coordenadas espacial e temporal s ´o se apresentam na combinac¸ ˜ao z ± vt. Vamos verificar este resultado. Vamos definir uma vari´avel u = az + bt, com a e b constantes, e tomar a func¸ ˜ao f (z,t) na forma f (z,t) = F (u) = F (az + bt),
onde F (u) e uma func´ ¸ ˜ao cont´ınua e diferenci´avel de uma ´unica vari´avel. Para substituir na equac¸ ˜ao de onda, vamos calcular as derivadas parciais, levando em conta que u = az + bt e que, portanto, ∂u∂z = b e ∂u∂t = a. Derivando em relac¸ ˜ao a z obtemos:
∂F ∂z
dF du
∂u ∂z
= aF ′, e
∂^2 f ∂z^2
∂z^2
= a
∂z
dF du
= a
d^2 F du^2
∂u ∂z
= a^2 F ′′,
onde adotamos uma notac¸ ˜ao compacta para as derivadas de uma func¸ ˜ao de uma ´unica vari´avel F (u):
F ′^ ≡
dF du
d^2 F du^2
Derivando em relac¸ ˜ao a t termos:
∂F ∂t
dF du
∂u ∂t
= bF ′, e
∂^2 f ∂t^2
∂t^2
= b
∂t
dF du
= b
d^2 F du^2
∂u ∂t
= b^2 F ′′.
Levando as segundas derivadas `a equac¸ ˜ao de onda (4.9), obtemos
∂^2 f ∂z^2
= a^2 F ′′(u) =
v^2
∂^2 f ∂t^2
b^2 v^2
F ′′(u) ⇒
b^2 a^2
= v^2 ⇔
b a
∣ =^ v.
Note que a ´unica condic¸ ˜ao necess´aria para que a func¸ ˜ao seja soluc¸ ˜ao da equac¸ ˜ao de onda ´e que a raz˜ao entre os parˆametro a e b, em u = az + bt, tenha o mesmo m ´odulo que v. A func¸ ˜ao F (u) permanece completamente arbitr´aria. H´a duas formas simples e equivalentes de escrever u:
As opc¸ ˜oes com o sinal negativo, F (u = z − vt) ou F (u = t − z/v) representam uma onda que se propaga no sentido positivo do eixo z com velocidade v, como ilustra a Figura 4.1. O deslocamento espacial da onda vem do fato de que qualquer valor fixo da vari´avel u = u 0 , associado ao valor fixo da func¸ ˜ao F (u 0 ), equivale a um valor diferente da coordenada espacial em cada instante de tempo: z = u 0 + vt, ou z = v(t − u 0 ). Com o sinal positivo, F (u = z +vt) ou F (u = t+z/v) representam uma onda que se propaga no sentido negativo do eixo z, porque, para u = u 0 , z = u 0 − vt ou z = v(u 0 − t).
contidas na equac¸ ˜ao original s˜ao perdidas. Embora as equac¸ ˜oes de onda sejam iden- ticamente satisfeitas por quaisquer seis func¸ ˜oes arbitr´arias, o resultado tem que ser compat´ıvel com as equac¸ ˜oes originais. Neste processo de verificac¸ ˜ao, veremos que h´a relac¸ ˜oes que devem ser satisfeitas entre estas func¸ ˜oes, que v˜ao definir um formato particular para as ondas eletromagn´eticas. Vejamos primeiro a Lei de Gauss (4.1) para o campo el´etrico.
∂Ex ∂x
∂Ey ∂y
∂Ez ∂z
= E z′ = 0 ⇒ Ez (z − vt) = constante.
Aqui usamos a notac¸ ˜ao F ′(u) = d dFu introduzida anteriormente. Assim, a Lei de Gauss requer que a componente do campo el´etrico paralela a direc¸ ˜ao de propagac¸ ˜ao de uma onda plana, z no caso, n˜ao dependa nem da posic¸ ˜ao nem do tempo. Ou seja, s ´o ´e ad- mitida uma componente Ez do campo el´etrico uniforme e est´atica. De forma comple- tamente an´aloga, a Lei Gauss para o campo magn´etico (4.2) exige que Bz seja uniforme e est´atica. Como um campo constante e est´atico n˜ao caracteriza nenhuma propagac¸ ˜ao exclu´ımos estes campos do que chamamos de onda eletromagn´etica fazendo Ez = 0 e Bz = 0. Assim, toda a ac¸ ˜ao ondulat´oria de uma onda eletromagn´etica s ´o envolve as componentes de E e B no plano perpendiculara direc¸ ˜ao de propagac¸ ˜ao. Isto ca- racteriza as ondas eletromagn´eticas como ondas transversais. Embora tenhamos obtido o resultado considerando ondas planas, a transversalidade ´e uma propriedade carac- ter´ıstica de qualquer onda eletromagn´etica. Vamos agora utilizar a Lei de Faraday (4.3), utilizando apenas as componentes on- dulat ´orias dos campos Ex, Ey e Bx, By. Lembrando que elas s ´o dependem de z e t, temos
∇×E =
ˆex ˆey ˆez ∂ ∂x
∂ ∂y
∂ ∂z Ex Ey 0
= −ˆex
∂Ey ∂z
∂Ex ∂z
= −ˆexE y′ + ˆeyE′ x.
e
−
∂t
= −ˆex
∂Bx ∂t
− ˆey
∂By ∂t
= ˆexvB x′ + ˆeyvB′ y.
Igualando as componentes, teremos
∂t
vB′ x = −E y′ vB′ y = E′ x.
A igualdade das derivadas implica que cada par de func¸ ˜oes s ´o podem diferir por uma constante. Aparece novamente, um campo uniforme e est´atico que n˜ao tem car´ater on- dulat ´orio. Suprimindo esta parcela da onda eletromagn´etica, a Lei de Faraday implica:
vBx = −Ey, e vBy = Ex.
Ou seja, das seis func¸ ˜oes iniciais, s ´o restaram duas func¸ ˜oes n˜ao especificadas, porque as Equac¸ ˜oes de Maxwell imp ˜oem uma dependˆencia estreita entre os campos el´etrico e magn´etico da onda eletromagn´etica. Para uma descric¸ ˜ao geom´etrica desta relac¸ ˜ao, vamos escrevˆe-la usando o produto vetorial. Verifique que ela ´e equivalente a
vB = ˆez ×E ou E = vB׈ez ,
cB
ˆk
Figura 4.2: Os campos el´etrico e magn´etico de uma onda plana representados num determinado instante de tempo em posic¸ ˜oes ao longo de uma reta paralela `a direc¸ ˜ao
de propagac¸ ˜ao ˆk. A figura ilustra a relac¸ ˜ao cB = ˆk×E que se aplica em cada ponto do espac¸o em qualquer instante.
o que implica que os vetores E e B s˜ao perpendiculares entre si. Anteriormente mostra- mos que a onda eletromagn´etica ´e transversal, ou seja, os campos el´etrico e magn´etico s˜ao ambos perpendiculares `a direc¸ ˜ao de propagac¸ ˜ao. Como o m ´odulo do produto ve- torial de dois vetores ortogonais ´e o produto dos m ´odulos, e, por definic¸ ˜ao |ˆez | = 1, temos sempre |cB| = |E|.
Chamemos de ˆk o versor que aponta na direc¸ ˜ao e sentido da propagac¸ ˜ao da onda. O parˆametro v tem m ´odulo c mas pode assumir os valores +c, para uma onda se pro-
pagando no sentido positivo de z (com ˆk = +ˆez ), ou −c, para uma onda se propagando
no sentido oposto, (com ˆk = −ˆez ). Utilizando o versor de propagac¸ ˜ao estas proprie- dades geom´etricas das ondas eletromagn´eticas podem ser resumidas nas express ˜oes seguintes:
ˆk · E = 0; ˆk · B = 0;
E = cB׈k; cB = ˆk×E.
A figura 4.2 ilustra a relac¸ ˜ao entre os trˆes vetores das ondas eletromagn´eticas. Em- bora tenham sido obtidas estudando ondas planas, estas propriedades s˜ao completa- mente gerais e se aplicam a qualquer tipo de onda eletromagn´etica. Note que elas implicam numa estrutura muito simples para as ondas eletromagn´eticas. Em qualquer ponto do espac¸o r em qualquer instante de tempo t, os trˆes vetores est˜ao atados entre si da maneira prescrita. Se tivermos apenas uma onda plana se propagando numa certa direc¸ ˜ao, podemos escolher esta como a direc¸ ˜ao de um eixo coordenado, como fizemos at´e aqui. Mas se tivermos mais de uma onda plana se propagando em diferentes direc¸ ˜oes, entretanto, n˜ao podemos redefinir os eixos de coordenadas para descrever cada onda. A forma
mais geral de uma onda plana se propagando numa direc¸ ˜ao qualquer kˆ, entretanto, ´e bastante simples. Basta notarmos que a coordenada z, que escolhemos na direc¸ ˜ao de
∆x
∆z
z
I