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Os estilos afetivos pelos quais seria melhor não se apaixonar: como identificá-los e enfrentá-los.
Tipologia: Teses (TCC)
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Para Pierina e Hugo, aos afetos que perduram
Por que falhamos tanto no amor? Por que tanta gente escolhe a pessoa errada ou se concentra em relações tão perigosas como irracionais? Por que nos resignamos a relações dolorosas? Acreditamos que o amor é infalível e esquecemos algo elementar para a sobrevivência amorosa: nem todas as propostas de afeto são convenientes para o nosso bem-estar. Gostemos ou não, algumas maneiras de amar são francamente insuportáveis e esgotantes, mesmo que tenhamos instinto masoquista e vocação para a servidão. Não estou dizendo que essas pessoas não sejam merecedoras de amor, apenas afirmo que qualquer vínculo de afeto no qual nossos valores essenciais sejam ameaçados é contraindicado para a felicidade, não importa quanto amor lhe dediquemos. Concordo que a vida a dois não é uma coisa fácil, e que todos devemos “sacrificar” algo (entenda-se: num sentido construtivo) para que a relação prospere; não obstante, os modos de amar que descreverei neste livro são especialmente difíceis de abordar e de tolerar , inclusive para os “amantes do amor”, que tudo sofrem com estoicismo. Esses estilos afetivos disfuncionais desgastam o outro e lhe tiram a energia vital, o consomem de forma lenta ou o confundem até o ponto de sentir-se irracionalmente culpado ou de acreditar que sofrer por amor é um fato normal e generalizado (como se amar e ser vítima fossem a mesma coisa). É verdade que todos nós temos “pequenas loucuras” pessoais e que ninguém é perfeito, mas as formas de se relacionar que mencionarei vão muito além de uma simples e inofensiva preferência, não se trata de meras besteirinhas: são atitudes muito nocivas para quem decide entrar no jogo do amor. Reconhecê-las nos permitirá tomar decisões mais sadias e inteligentes a respeito do nosso futuro amoroso, seja evitando essas relações, se ainda não fomos flechados, ou enfrentando-as, se já estamos vivendo a dois ou envolvidos afetivamente. Prevenção e enfrentamento, duas estratégias de sobrevivência guiadas pela razão. Ouve-se falar que é preciso aceitar o parceiro tal como é, que não é conveniente lhe pedir para fazer coisas que não gosta ou não quer fazer, ou seja, há uma essência a ser acatada por respeito ao outro. Concordo com isso, mas também há condições. Eu diria: deve-se aceitar o modo de ser do parceiro, sempre e quando não tenhamos de nos sacrificar psicologicamente nessa tentativa. Aceito você como é, se isso não implicar me autodestruir para fazê-lo feliz, porque, se a minha felicidade é inversamente proporcional à sua, algo está funcionando mal entre nós. Diante de uma incompatibilidade de fundo, a vontade e as boas intenções não costumam ser suficientes para resolver o problema. Como sustentar uma relação sadia e agradável com alguém que acredita ser especial e único e só é capaz de amar a si mesmo? Como alcançar uma relação ao menos digna com quem o considera uma pessoa descartável ou com alguém cujos sentimentos em relação a você oscilam de forma constante entre o amor e o ódio? Como sobreviver a um amor torturante que não o deixa respirar ou a um amor subversivo e ambivalente que não pode viver “nem com você, nem sem você”? Como manter uma relação com reciprocidade e carinho quando seu par o impede de expressar afeto? Como viver o amor em paz com alguém que o controla porque acredita que você é um ser inútil e
desconfiança, mas a convivência com ele pode se transformar numa experiência aterradora e asfixiante. Seria um erro pensar que estou me referindo a casos isolados ou excêntricos. Calcula-se que a soma de todos os estilos, em casos extremos (transtornos da personalidade), atinge entre vinte e trinta por cento da população. E, se considerarmos os casos moderados, o número aumenta substancialmente. Os parceiros/vítimas dos indivíduos que apresentam esse tipo de personalidades às vezes tentam equilibrar a questão recorrendo à tática do “deixa disso”, uma estratégia de compensação muito apreciada pela cultura casamenteira que proclama que se aguente tudo a qualquer custo. “Ele é egoísta, mas nem tanto”; “Gosta de seduzir, mas não é tão grave”; “É muito ciumenta, mas eu sei lidar com ela”; “Não é uma pessoa muito expressiva, mas devo entender que essa é a sua maneira de ser”; “Ele é agressivo, mas está melhorando”; “É bastante instável, mas eu me adapto e tenho paciência”. A maioria desses mas não é nada mais do que formas arranjadas de autoengano e justificativas diante do medo ou da impossibilidade de resolver o desencontro afetivo. Ou por acaso deveríamos manter o amor na Unidade de Terapia Intensiva por toda a vida? Não estou afirmando que é preciso jogar a toalha no primeiro desentendimento; não defendo as relações descartáveis, o que sugiro é a aplicação de um realismo afetivo que permita definir até quando se deve seguir esperando a metamorfose do ser amado. As pessoas que decidem romper com algumas das formas de amar mencionadas não o fazem da noite para o dia. Ao contrário: a grande maioria delas luta, pede ajuda profissional e vai além das suas forças tentando dar segundas, terceiras, quartas e quintas oportunidades, inclusive quando a sua integridade física e psicológica está em jogo. Não é preciso exagerar; às vezes devemos depor as armas e compreender que determinadas batalhas não são nossas ou, simplesmente, não nos convêm. As pessoas que tiveram a oportunidade de se aproximar deste tema e aplicá-lo à vida cotidiana sentem-se mais seguras na hora de resolver os problemas do casal e aprendem a tomar decisões baseadas em evidências. No entanto, há quatro perguntas sobre os estilos afetivos que se repetem com regularidade, e considero importante esclarecê-las:
É possível ter características de diferentes estilos ao mesmo tempo? Sim, é possível. Alguns perfis podem se sobrepor em certos aspectos. Por exemplo, a indiferença é comum ao estilo antissocial, ao narcisista e ao esquizoide, mas só neste último atinge a expressão máxima. De todo modo, ainda que seja possível apresentar certos traços dos diferentes estilos ao mesmo tempo, sempre haverá alguns que se destacam sobre os demais. O que define cada maneira de amar é uma “essência psicológica” específica. É melhor considerar os estilos afetivos como um guia para pensar em si e também para pensar o amor. Você não considera que as características de cada estilo são um pouco rígidas? Os estilos que apresento não respondem a uma listagem categórica e definitiva (lista de sintomas); ao contrário, representam a dinâmica interna de como algumas pessoas vivem e sentem o amor, seu modus operandi , suas motivações e sua estrutura cognitivo-afetiva. Os estilos afetivos disfuncionais são mais frequentes em homens ou em mulheres? As pesquisas recentes mostram a seguinte variação: a) os amores caóticos e subversivos são mais frequentes em mulheres (mais os primeiros do que os segundos); b) no estilo histriônico-teatral, ambos os sexos brigam pelo primeiro lugar (como veremos, o “histeriquismo” já é unissex) e c) os demais estilos afetivos são mais comuns em homens (uma vez mais, o sexo masculino assume a dianteira em questões de insalubridade). O que é então um estilo afetivo? É uma maneira de processar a informação afetiva: senti-la, avaliá-la e
incorporá-la à vida a dois. Se o modo de processar tal informação é distorcido e conduzido por esquemas negativos a respeito de si mesmo, do mundo e do futuro, esse estilo será nocivo para a saúde mental e emocional – a sua e a do seu parceiro.
Cada um dos oito perfis psicológicos propostos ocupa um capítulo deste livro. Cada um deles apresenta, em linguagem acessível para o público em geral: a) os traços principais de cada estilo afetivo e suas implicações para a vida a dois; b) as vulnerabilidades pessoais que explicam por que nos envolvemos nesse tipo de relação; c) até onde é possível manter uma relação saudável com cada estilo afetivo doentio e quais seriam os custos; d) como reconhecer essas maneiras de amar antes de se apaixonar, e, por último, e) o que aconteceria se o leitor descobrisse que tem alguns dos traços característicos mencionados. O estilo limítrofe-instável, devido à sua estrutura caótica e desorganizada, é o único perfil que, em alguns pontos, não seguirá exatamente o esquema dos demais, ainda que eu tenha mantido os títulos gerais para não alterar a leitura. No ordenamento dos capítulos, não segui as convenções tradicionais das classificações psicológicas ou psiquiátricas, mas uma sequência que facilitasse a leitura. À exceção da introdução, que considero imprescindível para compreender o sentido do texto, cada capítulo pode ser lido na ordem que o leitor desejar, ainda que seja mais conveniente deixar o estilo limítrofe-instável para o final. Os estilos afetivos disfuncionais apresentados foram documentados com os avanços mais recentes da psicologia clínica cognitiva e de outras disciplinas afins, e também com um abundante material de casos extraídos de diversas fontes científicas e da experiência clínica do autor. Este texto é dirigido a qualquer pessoa que deseje revisar sua vida afetiva e fazer do amor uma experiência satisfatória. Não é um livro otimista, nem pessimista, mas realista. Você não encontrará aqui as melhores regras para viver com tal estilo disfuncional e tapar o sol com a peneira. Ao contrário, conseguirá estabelecer espaços de reflexão para compreender melhor a sua relação a dois e esclarecer até onde se justifica lutar por ela ou não. Inclusive, poderá descobrir que o problema está em você e não na pessoa amada. As três perguntas que guiam este percurso são simples e ao mesmo tempo profundas: “Qual é a maneira de amar do meu parceiro?”, “Qual é a minha maneira de amar?”, “Até que ponto podemos ficar juntos sem nos machucar?”. Se enxergarmos as coisas como são, sem vieses nem esperanças ingênuas, poderemos tomar decisões corretas orientadas a melhorar a nossa qualidade de vida, ainda que às vezes nos doa ou que o caminho a seguir nos incomode. Parto da simples premissa de que amar não é sofrer, e que temos direito a ser felizes. Esse é o bem supremo que ninguém poderá nos tirar; que assim seja em nome do amor.
Amar uma pessoa histriônico-teatral é se deixar levar por um furacão de grau cinco. Algumas das suas características são: querer ser sempre o centro das atenções, ser excessivamente emotiva, mostrar comportamentos sedutores, cuidar de forma exagerada do aspecto físico, adotar atitudes dramáticas e impressionistas, ver intimidade onde não há e ser muito intensa nas relações interpessoais (em especial quando há amor no meio). As pessoas que têm essa maneira de amar desenvolvem um ciclo amoroso com mau prognóstico. No princípio, as suas relações afetivas estão impregnadas de uma paixão frenética e fora de controle e, depois, como numa queda livre, costumam terminar os relacionamentos de maneira drástica e tormentosa. O amor histérico não só é sentido, mas também é carregado e suportado, porque, ao exigir atenção e aprovação durante as 24 horas do dia, a relação se torna esgotante. Como viver bem com alguém que nunca está afetivamente satisfeito? Jorge conheceu Manuela na universidade e sentiu-se arrebatado por ela desde o primeiro instante: era jovem, sexy e alegre. Todos os homens a desejavam, e isso não a desagradava em absoluto; ao contrário, procurava ser o centro das atenções e exercia um forte magnetismo sobre o sexo oposto. Divertia-se com os homens como o gato com o rato: se exibia, os provocava e, logo, os deixava nas nuvens. Havia aprendido a brincar com a testosterona masculina sem se envolver nem sexual nem afetivamente. Com Jorge, ocorreu algo diferente. A timidez que ele demonstrou e a sua introversão gerou em Manuela o objetivo de conquistá- lo, coisa que conseguiu sem muito esforço. Em pouco tempo já estavam vivendo juntos. Na realidade, Jorge queria mantê-la sob controle porque temia que, de tanto jogar, ela lhe fosse infiel. Quando chegaram ao meu consultório, a convivência estava bastante deteriorada e suas insatisfações eram parecidas: nenhum se sentia amado pelo outro. Manuela exigia mais mimos e atenção: “Parece que ele não se importa comigo... Preciso que ele seja mais carinhoso e que me dedique mais tempo... Gostaria de vê-lo mais ligado a mim”. Por outro lado, Jorge desejava que ela fosse mais sóbria e menos exibida, e também queria melhorar as relações sexuais: “Ela não gosta de sexo, não é o que aparenta... Na verdade, não me sinto desejado... Acho que é frígida ou algo assim...”. No começo da relação, ingênuo, Jorge havia pensado que Manuela só manifestava o comportamento sedutor com ele, mas quando descobriu que o flerte e o exibicionismo eram parte do seu modo de ser, sentiu um misto de medo e desilusão. Ele tentou fazê-la mudar o estilo provocante de se vestir e o modo de se relacionar com os outros homens, mas não conseguiu. O caso teve um final surpreendente: Manuela o deixou por um de seus melhores amigos. Numa consulta, me disse: “Estou apaixonada de verdade! Falamos em casamento; ele é maravilhoso!”. Quando perguntei por Jorge, o namorado por quem chorava havia apenas algumas semanas, respondeu: “Ah, o Jorge... Não sei, isso já passou... Agora estou tão feliz!”. Como se fosse uma febre ou uma doença, Jorge não mais existia na memória emocional de Manuela, que o tinha apagado de seu disco rígido como quem elimina um vírus. Diferentemente do que se costuma pensar, o estilo histriônico não é exclusivo das mulheres. A cultura pós-moderna fez com que um número considerável de homens entrasse no jogo exibicionista. Basta ir a uma danceteria da moda para encontrar um mundo “histeroide” no qual tanto os homens como as mulheres fazem alarde dos seus mais encantadores atributos.
Homens de pele bronzeada e hidratada, roupa de grife, acessórios chamativos, olhares sugestivos e músculos à mostra fazem o deleite de um sem-número de belas damas que estão na mesma onda: os lindos com as lindas, no compasso de um grupo de pavões cujo cortejo se torna cada vez mais barroco. Sexo? Não necessariamente. Na filosofia do “histeriquismo”, atrair pode ser mais excitante do que fazer sexo; provocar paixão, mais impactante do que se apaixonar; se iludir e fantasiar, mais estimulante do que telefonar; sentir, muito mais vantajoso do que pensar. Borboleteios e voyeurismo às avessas: o ocaso da sensibilidade. Olha-se, mas não se toca, ou se chega a tocar, é na superfície. Uma subcultura que gera ereções em cadeia e paixonites discretas, cada vez mais inacabadas.
Chamar a atenção a qualquer custo é a exigência vital do estilo histriônico-teatral. Um amigo não concebia que a mulher pudesse estar bem e se divertir sem ele. Segundo o ponto de vista dele, o verdadeiro amor implica sentir-se incompleto ou desequilibrado quando o parceiro não está presente. Se a esposa saía às vezes com amigas ou ia ao cinema e se divertia, o homem entrava numa espécie de choque existencial. A pretensão era, sem dúvida, exagerada: “Devo ser o centro da vida dela” ou “Ela não deveria aproveitar as coisas sem mim”. Meu amigo era uma pessoa muito emotiva e dramática na condução dos seus sentimentos e se envolvia demais em tudo que fazia. Quando estava junto da mulher, talvez devido à sua grande necessidade de aprovação, era ativada nele uma curiosa forma de contabilidade amorosa que o levava a se perguntar repetidamente o quanto e por que ela o amava. Além disso, não suportava o silêncio. Cada vez que a via pensativa e ensimesmada, tentava trazê-la à realidade: “No que está pensando?”, “Por que não me conta?”. O seu maior desejo, quase uma obsessão, era poder penetrar e escavar a mente da mulher para saber quão importante ele era para ela. Esse comportamento sufocante não era motivado pelos ciúmes, mas pelo medo produzido por um apego doentio. Um dia qualquer, ao ver que nada podia aliviar o seu sofrimento, perguntei a ele o que a esposa deveria fazer para que se sentisse tranquilo. A resposta corroborou com o diagnóstico: “Não prescindir de mim em nenhum momento, que ela respire pelos meus pulmões, veja com meus olhos, que sejamos um só... É pedir muito quando há amor verdadeiro?”. O assédio afetivo existe e compete pela primeira posição com o assédio moral e sexual. Ele desejava, de uma maneira quase delirante, que a companheira fosse um prolongamento do seu ser, e que por isso deveria mantê-la sempre presa e hipnotizada. A matemática do amor torturante é absurda assim: a quantidade de amor necessária para me satisfazer é diretamente proporcional ao grau de atração que exerço sobre a pessoa que amo, e o grau de atração é medido pela atenção obtida. A confusão que as pessoas histriônico-teatrais apresentam é devida ao fato de igualarem o amor ao desejo. É evidente que não é assim: o apetite pela pessoa amada é só uma parte da experiência afetiva. Se você olhar ao redor verá que a maioria das pessoas casadas não está nem com super-homens nem com supermulheres, simplesmente porque a “fascinação” não se encontra nas belas curvas ou na musculatura bem definida. La Rochefoucauld dizia em uma de suas máximas: “Há coisas belas que têm mais brilho quando permanecem imperfeitas do que quando estão acabadas”. Talvez se referisse à beleza que ganha significado na maneira de ser do outro: um sorriso malicioso pode mais do que dentes “brilhantes de tão brancos”; um caminhar cadenciado pode mais do que um belo traseiro; uma expressão inesperada e oportuna pode mais do que um rosto bonito; nos apaixonamos por quem carrega o corpo, e não pelo corpo.
Cortejo e aparência Que estratégias uma pessoa histriônico-teatral costuma usar para conservar o outro sob controle? Em princípio, são duas: a sedução libertária e os cuidados com o aspecto físico. Uma mulher comentava comigo como se fosse uma grande vitória: “Desde que
aumentei o tamanho do meu busto, meu marido mudou a sua maneira de ser... Fica louco só de me olhar, vive obcecado pelos meus seios. Até compra blusas com decotes pronunciados para mim! Nunca pensei que uma cirurgia plástica pudesse melhorar o meu casamento”. Não deixa de ser estranho que a felicidade interpessoal esteja fundamentada no tamanho dos seios; parece que existe uma “geometria afetiva”. Sendo totalmente respeitoso no que concerne aos gostos pessoais, me pergunto o que ocorreria se o homem passasse por uma fase anal e começasse a sugerir uma renovação das nádegas para que a “relação funcione melhor”. Enquanto uma mulher histriônica se considerar atraente e puder competir no mundo da sedução, sentirá que a vida lhe sorri, mas, se o passar dos anos deixar marcas, a “crise estética” será inevitável. O medo da velhice ou do que poderíamos chamar de “síndrome da diva em decadência” termina quase sempre em depressão. Essa fobia ao envelhecimento se tornou muito mais evidente nos últimos anos devido ao hiperconsumo, como assinala o sociólogo Lipovetski. Os comportamentos de sedução que nossos antepassados primitivos usavam, tal como afirmam Carl Sagan e Ann Druyan no livro Sombra de antepassados esquecidos , foram modificados ou eliminados pela civilização. Vejamos dois exemplos do que ocorre no mundo dos chimpanzés:
Charles Darwin foi um dos primeiros a observar que, quando as fêmeas estão em plena ovulação e são suscetíveis à gravidez, suas vulvas e outras regiões vizinhas adquirem uma cor vermelha resplandecente, como se fossem “anúncios sexuais ambulantes” que enlouquecem os chimpanzés machos, que por sua vez também se exibem emitindo sinais olfativos e manifestando outros indicadores visuais. O cortejo do macho começa com um alarde, logo ele sacode umas ramas e pisa em folhas secas para se fazer notar, encara fixamente a fêmea, se aproxima e lhe estende o braço. Os pelos ficam eriçados e exibe o “pênis ereto de cor vermelho-brilhante que contrasta com o escroto preto”. Difícil de ser ignorado por uma fêmea no cio.
A natureza sabe o que faz: vulvas inchadas e pênis avermelhados eretos apontados, um festival multicor de sexo inesgotável que assegura a sobrevivência da espécie. A coisa hoje é um pouco mais sutil; no entanto, muitas condutas exibicionistas das pessoas histriônicas seguem sendo chamativas e, às vezes, incômodas para os demais observadores. Dois exemplos:
Uma jovem, na terceira vez que saía com um pretendente muito charmoso, ficou estupefata ao ver que o homem subiu de repente na mesa e começou a se contorcer como um stripper profissional. Tudo em público! Obviamente, a jovem não voltou a sair com ele, apesar da insistência. Uma mocinha “vestida para matar”, espremida num shortinho minúsculo que deixava à mostra sua roupa íntima e os demais atributos físicos, não entendia por que os homens a olhavam. Quando lhe expliquei que a maneira de ela se vestir era bastante insinuante e provocativa, me respondeu: “Graças a Deus que me olham, seria horrível passar despercebida”.
A emotividade das pessoas histriônico-teatrais é efusiva e sem contenção. Ainda que
É conhecida como a “síndrome do poço sem fundo”: faça o que fizer, ela ou ele sempre vai querer mais e melhor. O que guia a relação não é a alegria de que o outro exista, mas uma profunda insatisfação afetiva. É de fato angustiante sentir que não podemos preencher as expectativas das pessoas que amamos, sejam elas nosso parceiro, nossos pais ou amigos. Na realidade, se você está com uma pessoa exigente em termos de afeto, não é que “o seu amor” não a preencha: “nenhum amor” será suficiente para ela. A idealização e a necessidade de saber-se amado é tanta que jamais alcança o nível esperado. Um homem se queixava numa consulta: “Não sei mais o que fazer, nada a satisfaz, sempre quer mais e mais”. Um dia depois, a esposa me dizia entre lágrimas: “Não posso viver assim, me falta amor”. Duas frustrações entrelaçadas que se afogam mutuamente. Para a maioria das pessoas com esse estilo, a necessidade de ser amado funciona como uma espiral ascendente, típica dos transtornos de dependência: “Cada vez que me dão amor, confirmo que valho alguma coisa e sou um ser maravilhoso. Logo, quanto mais eu for amado, maior será o meu grau de satisfação e, portanto, quero mais”. Como consequência, se faltar a dose de “amor” adequada, sairão a procurá-la em outro lugar. O melhor proponente afetivo, o que mais se derreter frente ao encanto sedutor do exibicionista, será quem terá as melhores opções de conquista. Entre uma relação apaixonada que asfixie e uma que libere, ainda que a paixão não seja cinematográfica, algumas pessoas preferem a segunda opção. E, para muitos, é mais importante a taquicardia e o arrebatamento, em que predomine a sensação sobre todo o resto: paixão, mais do que amor.
É muito fácil cair nas redes histriônicas, pois a mistura de sedução e de boa aparência é arrasadora para qualquer mortal necessitado de aprovação e/ou de erotismo. Não esqueçamos que essas pessoas são “especialistas” em agarrar os demais e jogá-los de cabeça no jogo avassalador da sedução ou galanteio. Ainda que as causas pelas quais poderíamos nos envolver num amor torturante sejam muitas, me centrarei em três vulnerabilidades específicas e suas necessidades associadas. Se você apresenta alguma delas, poderá se transformar numa presa fácil de qualquer encantador de serpentes: “Preciso de um parceiro light , que não complique a minha vida”, “Preciso de alguém mais extrovertido do que eu” e “Preciso que me valorizem”.
Para as pessoas que apresentam um esquema de superficialidade/frivolidade, a atitude light dos histriônicos é bastante atrativa e relaxante. Uma vez que não querem complicar suas próprias vidas, a trivialidade das pessoas histriônicas vem a calhar. A norma é pensar pouco e sentir muito. Concordamos que a compatibilidade afetiva não tem por que se dar na mais alta transcendência; há casais cujo ponto de contato mais profundo são as pipocas em um cinema vespertino. E daí? O problema poderia aparecer quando um anda navegando na quintessência do saber, e o outro está ao rés do chão. Mas não falta quem queira transformar o parceiro histriônico-teatral em um Einstein apaixonado, e aí as coisas se complicam porque os olmos não dão peras. Lembro o caso de um paciente, muito culto e circunspecto, que se sentiu atraído pelas curvas e pela sensualidade de uma mulher histriônica. Só para assinalar algumas discrepâncias: ela gosta de ir a bailes e de dançar rumba; ele, de literatura, cinema e arte; ela se vestia impecavelmente, e ele parecia um palhaço; ela não lia nem as manchetes dos jornais, e ele devorava até os obituários. Só os unia o espírito da conquista em plena efervescência. Apesar disso e dos maus augúrios, o homem tentou “educá-la” e inseri-la num mundo mais intelectual para que seus amigos e amigas pudessem aceitá-la. Nem é preciso dizer que a experiência foi um fracasso retumbante. A mulher não negociou a sua essência e em poucos meses abandonou o erudito pelo baterista de uma banda de rock, muito mais afim com as suas preferências pessoais. Não é possível nadar em águas diferentes. Se cada vez que você entra mar adentro o seu par fica na margem, algo vai mal. Uma vez perguntei a um paciente que desejava se divorciar qual era a diferença fundamental e irreconciliável que o afastava da mulher. O homem pensou um bom tempo antes de me responder, tanto que ajeitei meus papéis e peguei a caneta para não perder os detalhes.
anos, confessou: “Eu sei que é absurdo, mas a minha ex me fez acreditar que meu pênis era enorme... A verdade é que eu nunca me preocupei com isso, mas ao ver que ela vivia impressionada com o tamanho dele, acreditei. Até que há pouco tempo saí com uma mulher mais madura, e ela me disse que ele era pequeno, mas que não me preocupasse porque o tamanho não era o mais importante numa relação sexual”. Será que, consciente ou inconscientemente, o estilo histriônico não diz justo o que o outro quer escutar para obter afeto e atenção em troca? Vi relações nas quais as mentiras ditas estão tão bem montadas que a realidade atrapalha. Se a sua autoestima é pobre, o histriônico saberá adoçar os ouvidos e alegrar a vista até que o seu ego se recupere. Então surge a pergunta: qual será o prognóstico de um casal em que ambos são histriônicos? Bastante ruim. Esse encontro de personalidades similares, mais que um “encontro”, seria um choque de trens a toda velocidade, porque logo estariam competindo entre eles para ganhar a atenção do entorno, e isso seria insuportável para os dois.
De acordo com a minha experiência clínica, um histrionismo leve ou moderado se deixa conduzir e até pode ser agradável se soubermos e pudermos dosá-lo. O inconveniente acontece quando se exagera na “pimenta” e o amor se torna tóxico. Ainda que não seja uma tarefa fácil, a chave para ficar com uma pessoa histriônica é que ela aprenda a controlar os estados de ânimo e a dependência. Entre a frieza do amor distante (esquizoide) e o arrebatamento afetivo do histriônico, há um ponto médio onde o amor não incomoda e é agradável.
As pessoas costumam recorrer a duas estratégias básicas para sobreviver a um estilo histriônico-teatral: uma linha branda (se transformar num urso de pelúcia e se deixar invadir sem oferecer a menor resistência) e uma linha dura (restringir a expressão de afeto e demarcar limites). Vejamos cada uma dessas opções.
Deixar-se invadir pelo sentimento do outro e não oferecer resistência O custo principal aqui é perder os espaços de referência e transformar a relação em algo sumamente enjoativo. Não colocar limites e se entregar a uma pessoa histriônica implica aceitar as consequências de uma sedução constante e de um amor que se manifestará segundo por segundo. Os que escolhem essa estratégia de convivência devem reunir duas condições: estar em bom estado físico e não ser claustrofóbicos. Reconheço que há gente que quase nunca se sente invadida por nada nem por ninguém; no entanto, a grande maioria dos seres humanos marca uma zona de exclusão buscando salvar a sua autonomia. Precisam de momentos de solidão para funcionar bem. Caso contrário, o acúmulo e a pressão externa ou interna, ainda que estejam patrocinadas pelo amor, sempre produzirão uma reação agressiva ou defensiva: essa é a resposta natural da vida quando lhe tiramos a mobilidade. Um paciente comentava comigo que as relações sexuais com a esposa haviam se transformado numa verdadeira tortura porque ela avaliava o grau de atração que exercia sobre ele por meio da rigidez da ereção do pênis. A senhora, saiba-se lá com que método, havia desenvolvido a habilidade de medir, com o toque, a vontade do marido. Se a rigidez não estava no nível esperado, o interrogatório era inevitável: “Você não gosta de mim como antes?”, “Tem alguma coisa errada?”, “Fiz algo mal?”. E depois chegava ao imperativo categórico: “Mostre o quanto me ama!”. A angústia desse homem era tamanha que um dia me pediu um atestado que o liberasse de suas obrigações matrimoniais devido ao stress que sofria. Os comportamentos que guiam esta estratégia são:
Ter paciência se a pessoa histriônico-teatral tem ataques de ira.