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Este é um trabalho de pesquisa bibliográfica, que versa sobre o comércio internacional e seu impacto na economia Moçambicana.
Tipologia: Trabalhos
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Na presente pesquisa, pretende-se analisar o impacto das relações comerciais externas na economia moçambicana. Considerando ser o comércio externo o reflexo da estrutura económica, da competitividade e das políticas económicas e públicas, em geral, esta análise tem ainda como objectivo estudar a evolução da economia e sobre quais as variáveis de comércio externo mais influenciam o crescimento económico.
Por outro lado a localização estratégica de Moçambique dentro da região da África Austral confere a este um papel de vital importância na rede de prestação de serviços de transporte e comunicações na região. Como país fornecedor de serviços ferroviários e rodoviários de trânsito na África Austral, Moçambique posiciona-se como uma porta privilegiada de acesso ao mar, de entrada e saída de mercadorias de e para vários países vizinhos, os chamados países do Hinterland.
O trabalho está organizado em 5 capítulos: sendo o primeiro a introdução, o segundo a descrição da metodologia utilizada na pesquisa, no terceiro capítulo faz-se a apresentação do referencial teórico sobre o impacto do comércio internacional sobre a economia moçambicana, no quarto capítulo apresenta-se as conclusões resultantes das análises da pesquisa e no quinto capítulo, são apresentadas todas obras usadas e consultadas na pesquisa.
1.1. Objectivos
1.1.1. Objectivo Geral
Analisar o impacto do Comércio internacional sobre a Economia Moçambicana
1.1.2. Objectivos Específicos
Avaliar evolução da balança comercial e o peso do comércio externo para o PIB nacional Descrever algumas características da economia moçambicana que precisam ser aprimoradas face ao comércio Internacional Analisar a importância dos Corredores dos transportes e de desenvolvimento para o comércio Internacional
3.1. Comércio Internacional
Quando se fala em comércio a ideia que temos no imediato é a troca de mercadorias entre duas pessoas singulares ou colectivas. Assume-se que o comércio está apenas circunscrito à troca de mercadorias entre habitantes de um determinado país. No entanto é mais que sabido que são poucos os países que não dependem do exterior; as trocas comerciais com outros países entram no domínio do comércio internacional que desempenha um papel importantíssimo (muitas vezes vital) para certos países, e não poucos no mundo. (Munguambe, 2003)
Mesmo países com recursos naturais variados e uma indústria nacional bastante desenvolvida (v.g. Inglaterra, Rússia, Estados Unidos, China, França, República Federal da Alemanha) dificilmente poderiam sobreviver se fechassem as suas fronteiras ao comércio inter-países. Tomando casos extremos como o dos Países Menos Desenvolvidos, dos quais faz parte a República de Moçambique, podemos afirmar que as relações económicas internacionais são o sustentáculo dessas economias.
Moçambique por exemplo depende muito (e de forma determinante) das importações, subsídios, donativos e empréstimos em divisas para abastecer as populações em bens duradoiros e de consumo corrente e para adquirir "inputs" (Ex: matérias-primas, matérias subsidiárias, peças sobressalentes, "Kits" e outras componentes mais ou menos acabadas) para pôr em funcionamento as nossas empresas e fábricas instaladas pelo país fora.
É sabido também que grande parte dos produtos que fabricamos ou colhemos em bruto destinam-se aos mercados estrangeiros onde obtemos os recursos financeiros (em divisas) para pagar as nossas importações e as dívidas que contraímos.
Por outro lado a situação geográfica privilegiada do nosso país, a proximidade do mar e a existência de naturais e bons portos fazem com que tenhamos uma economia naturalmente aberta à prestação de serviços (transporte, carga e descarga) em benefício dos países do "hinterland", casos do Zimbabwe, Malawi, Suazilândia, Lesotho, Zâmbia e a própria África do Sul. Em condições normais (inexistência de guerra e infra- estruturais portuárias reabilitadas) as receitas provenientes da prestação de serviços deste tipo são as que permitem um certo desafogo na situação cambial de Moçambique.
3.2. Principais conceitos e definições
Os conceitos aqui listados foram extraídos de INE (2017), que por sua vez teve como base o Manual de Conceitos e Definições Estatísticas de Moçambique na sua primeira revisão do ano 2013.
3.3. Produto Interno Bruto (PIB), PIB por habitante e taxa de câmbio
O PIB e o PIB por habitante aumentaram de forma significativa e consistente ao longo dos últimos 20 anos, exceptuando-se em dois períodos curtos, de 2008 a 2010 e de 2014
3.4.1. Exportações
As principais exportações de bens agrícolas são: tabaco, algodão e castanha de caju. Somente o primeiro produto revela um aumento das exportações. O aumento da produção de tabaco resulta da ampliação do investimento das empresas (alargamento das áreas em sistema de contratação com os camponeses) e primeira industrialização local. Os principais bens exportados são o carvão mineral, o alumínio, o gás e a energia. Todos apresentam crescimento, excepto o alumínio, que possui variações significativas, o que é justificado pela volatilidade dos preços-
Os quatro principais bens exportados (alumínio, carvão, gás e tabaco) representaram, cumulativamente, entre 2011 e 2019, cerca de 61% do total das exportações desse período.
Gráfico 2: Principais exportações - Proporção do total das exportações
Fonte: Extraído de OMR (2021)
De notar que, dos cinco bens com maior peso na balança comercial, nenhum pertence ao chamado grupo de bens tradicionais de exportação. A importância desses bens, resulta de grandes investimentos recentes (“mega projectos”) que alteraram, de forma significativa, a estrutura económica e as balanças comercial e de pagamentos.
3.4.2. Importações
As principais importações de bens de consumo alimentar são: o arroz, o trigo e óleos alimentares, todos eles com tendência para aumentar.
As principais importações de bens não alimentares são: maquinaria para grandes investimentos e construção civil em infra-estruturas públicas, combustíveis, materiais de
construção, alumino bruto e automóveis, também com tendências crescentes, excepto os automóveis. Os cinco bens mais importados representam aproximadamente 59% do total das importações do total exportado entre 2001 e 2019.
As importações principais são bens de consumo final (arroz, trigo, óleos alimentares, combustíveis e automóveis, e de consumo intermédio (alumínio bruto e materiais de construção.
Gráfico 3: Principais importações - Proporção do total das importações
Fonte: Extraído de OMR (2021)
Os países com quem Moçambique possui mais comércio externo tiveram alguma mudança durante o período analisado, ao que se pode designar de parceiros tradicionais de comércio externo (África do Sul, que mantém a posição cimeira, Portugal e Estados Unido). Surgem os Países Baixos (sobretudo devido ao alumínio), a China e a Índia. Portugal perdeu a sua importância histórica natural, tendo ainda um ligeiro significado nas importações (4,5% do total das importações entre 2011 e 2019). À excepção da África do Sul, as relações externas de Moçambique são aparentemente diversificadas, embora, tanto a origem, como o destino, dos principais bens transaccionados sejam concentrados (por exemplo, alumínio, carvão, energia, tabaco, madeira, bens alimentares perecíveis).
A tendência das últimas duas décadas mostra relações de troca desfavoráveis no intercâmbio comercial externo (calculadas como a média ponderada dos preços dos produtos exportados e importados ao longo do tempo), o que significa perda do poder
devido às dívidas ocultas e perda de credibilidade do país, quanto à sua capacidade de assegurar os compromissos de pagamento e dos níveis de risco que colocaram o país na categoria de “lixo” pelas agências de rating.
Gráfico 4: Dívida Externa/PIB, Exportações/Dívida Externa, em percentagem
Fonte: Extraído de OMR (2021)
3.6. Instituições de comércio externo
Vários são os aspectos que dificultam ainda mais os equilíbrios e as contas do comércio externo e, consequentemente, da economia. Destaca-se apenas a transparência/corrupção e actividades ilegais de bens exportados. O gráfico 18 revela a diferença do volume de madeira exportada declarada e registada pelo Banco de Moçambique e o que consta de importações da China de madeira de Moçambique, estatísticas da FAO. (OMR, 2021)
Entre 2000 e 2017 o valor acumulado das exportações de madeira corresponde a cerca de 39%, isto é, as receitas em divisas pela exportação da madeira correspondem a 39% do valor exportado, segundo a FAO. Vários casos de contrabando e de exportação ilegal de madeira são frequentemente apreendidas pelas autoridades moçambicanas, o que indica a existência de redes de tráfico que podem, fundamentar as diferenças observadas.
Se a esta realidade forem adicionados os valores do tráfico de marfim e cornos de rinocerontes, da exportação de bens e serviços com qualidade declarada inferior (traduzindo-se em menores receitas em divisas e de impostos), dos contratos com preços abaixo do mercado internacional (caso do gás e de energia de Cahora Bassa exportada para a África do Sul), das comissões e exportação ilegal de divisas, designadamente
para fins de financiamento do terrorismo, entre outras fugas de divisas, pode-se depreender que o volume de divisas não arrecadadas pelo país é substancial. Estes e outros aspectos revelam a importância de profundas reformas institucionais e do combate à fraude e corrupção, que é mais profundo que as más práticas dos funcionários das alfândegas e dos agentes da polícia.
3.7. Análise das relações comerciais externas
Dos dados apresentados (combinação da análise descritiva e dos resultados do modelo econométrico), pode-se concluir os seguintes aspectos principais:
a) A economia cresce, mas, simultaneamente, aumenta o défice da balança comercial, a dívida externa, diminui a taxa de cobertura e aumenta a abertura da economia. Esta realidade significa que a economia está crescentemente virada para o exterior (extroversão da economia – medida pela taxa de abertura, o que é confirmado no modelo de regressão), tornando-se mais dependente, não só devido a esta relação, como devido à natureza dos bens comercializados, que reflectem uma economia importadora de alimentos e de bens de consumo não alimentares e de matérias-primas, e exportadora de recursos naturais e de commodities agrícolas com poucos efeitos multiplicadores internos (valor acrescentado nacional). b) Existem sinais de reestruturação da economia com o aumento da importação de bens alimentares essenciais (sobretudo para o meio urbano) e com um crescente défice na oferta interna (excepto o trigo, que sempre foi importado), o que traduz uma menor oferta nacional comparativamente com a oferta interna total, sendo o défice suprido pelas importações. No período analisado, surgem novos bens exportados (alumínio, carvão, gás e tabaco); isto é, o extrativismo de recursos naturais (minerais, energia, terra e trabalho) constitui uma das características principais da economia, crescentemente especializada no sector primário; c) O comércio externo está diversificado em termos de países de origem e de destino, mas concentrado em termos de produtos, o que reflecte o investimento externo, também concentrado no sector extrativo e na produção de commodities. A economia está crescentemente afunilada em sectores intensivos em capital (transformação do alumínio, carvão, gás e energia), pouco geradores de emprego, com escasso valor acrescentado interno e, portanto, com poucas
b) O aprofundamento de um padrão de acumulação centrado no exterior em consequência da extroversão da economia, o predomínio do investimento externo em fases primárias de cadeias de valor verticalizadas, sem criação de relações intersectoriais e não promotoras de pequenas e médias empresas e de emprego, significa que apenas a criação de um tecido empresarial de pequena e média dimensão nos sectores referidos pode gerar um padrão de acumulação e cadeias de valores endógenas, criando poupanças e capacidade de investimento interno. c) A forte dependência externa e limitada capacidade de resistência a choques da economia e comércio internacional, bem como a mudanças climáticas, implica que a alteração desta realidade só será possível com a priorização dos sectores mencionados, a emergência do tecido empresarial que substitua importações, os incentivos às exportações e internalização das cadeias de valor.
3.9. Corredores e o Comércio Internacional
3.9.1. Corredores dos Transportes
De acordo com Chichava (2005)^2 , os corredores de transportes, são as rotas e infra- estruturas de transporte ligando um ponto a outro através de vários tipos de transportes de carga ou de passageiros, para o hinterland e vice-versa, por via ferroviária e rodoviária. Esses corredores apresentam um grande potencial em termos de arrecadação de receitas e atracção de investimentos. O transporte ferroviário é o que maior peso arrecada na avaliação integrada dos factores e actividades que constituem um Corredor de Transportes mas, podem ocorrer casos em que o transporte de maior preponderância seja o rodoviário ou marítimo.
Nos anos 80, com a formação da Comissão de Transportes e Comunicação da África Austral (SATCC) e com o consequente acesso ao financiamento internacional, Moçambique tinha ao seu dispor os meios económicos necessários para a reconstrução dos sistemas de transportes e comunicação. Assim surgiram no país os corredores de transportes de Maputo, Limpopo, Beira e Nacala.
Neste contexto, foi dada à SATCC a responsabilidade principal a de desenvolver as actividades e projectos no âmbito dos transportes e comunicações em particular, nomeadamente a reabilitação de todas as infra-estruturas de transportes, a reabilitação
(^2) Doutor José Chichava do capítulo sobre sector de transportes em Moçambique.
das frotas dos vários modos de transportes, a modernização e expansão das redes de telecomunicações e a formação técnico-profissional. No entanto, os investimentos realizados nos corredores de transportes nos anos 80 na época da SADCC foram subutilizados e as receitas de transportes que se prognosticaram não ocorreram devido à situação de desestabilização militar e económica provocada no nosso país pelo regime do apartheid da África do Sul (Chichava, 2005:7).
Como forma de dar continuidade aos projectos em curso, em situação de paz preconizada a partir de 1992, os corredores de transportes, dentro das Iniciativas de Desenvolvimento Espacial, foram transformados em corredores do desenvolvimento como principais artérias de expansão do desenvolvimento económico e de atracção do investimento privado em parceria com o sector público.
3.9.2. Corredores de Desenvolvimento
Os Corredores de Desenvolvimento foram concebidos na perspectiva de, não só permanecerem unicamente como facilitadores do comércio internacional dos países do hinterland , mas também contribuírem no desenvolvimento do país a partir de dentro com a criação de novos empregos, equilíbrio da Balança de Pagamentos, etc.
Os corredores de desenvolvimento não são apenas as vias de comunicação como as linhas férreas e as estradas que ligam os nossos portos do Índico aos países do hinterland. São sobretudo as Iniciativas de Desenvolvimento Espacial que, como o nome indica, inspiram o desenvolvimento integrado e harmonioso de todos os espaços ao longo de tais linhas de comunicação numa largura de dezenas de quilómetros de cada lado delas e vão muito para além da fronteira chegando a unir três países como são os casos dos corredores de Nacala e de Mtwara no norte de Moçambique.
O conceito de Corredor de Desenvolvimento (CD) não é algo novo. As questões regionais no planeamento e desenvolvimento económico, conduziram a que vários governos perseguissem estratégias que ligassem áreas geográficas com interesses comuns (o exemplo de governos da Comunidade Para o Desenvolvimento da África Austral, COMESA).
Ngwenya, citado por Abdulremane (2006), o Corredor de Desenvolvimento não é algo físico, é um conceito económico, é toda a ligação de infra-estruturas, isto é, linhas férreas e telecomunicações que estão conectadas ao porto.
A análise do comércio externo revela a importância deste sector na economia devido ao peso que possui, sobretudo das importações (bens de consumo final e bens intermédios) e na formação e evolução do PIB.
A economia nacional possui uma poupança interna muito baixa, o investimento depende principalmente de capitais externos que se dedicam às produções para exportações integradas em cadeias de valor verticalizadas e externalizadas, concentrado na extracção de recursos naturais e na exploração da terra e do factor trabalho para a produção de commodities, aumentando a natureza extrovertida da economia com aprofundamento da especialização produtiva no sector primário, o que constitui característica das economias subdesenvolvidas.
Nas últimas duas décadas, e por consequência do investimento estrangeiro, assiste-se a mudanças na estrutura económica e do comércio externo, com afunilamento sectorial e espacial do crescimento, concentração do comércio externo por países de origem e destino dos principais bens e serviços, gerando mais pobreza e desigualdades sociais.
Em síntese, o comércio externo contribui para o afunilamento sectorial e espacial da economia e para a especialização produtiva no sector primário, configurando uma economia extractiva e extrovertida, e, portanto, dependente. O padrão não inclusivo aprofunda-se com geração de mais pobreza e de desigualdades sociais e territoriais.
Os resultados do modelo, combinados com a análise descritiva, suportada pelos gráficos, podem indicar os focos sectoriais a incentivar de modo a se gerar um crescimento mais endógeno (menos dependente, crescentemente assente na poupança e no investimento interno, mais inclusivo e com efeitos na redução da pobreza).