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Ilustrar Magazine, primeira revista 100% brasileira sobre ilustração, feita por ilustradores e para ilustradores.
Tipologia: Notas de estudo
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Não perca as partes importantes!

























































Qual a sua formação e quais os materiais que utiliza nas ilustrações?
Como costuma ser o processo de criação a partir de uma encomenda?
P – Como os diretores de arte reagiram a isso? R – Bem, como eu disse, comercialmente, não se deveria mudar de técnica. Isso me tirou muito trabalho. Todo mundo dizia que isso atrapalharia minha carreira. Eu comecei a receber telefonemas de diretores de arte perguntando se haviam dois Brad Hollands e qual deles eu era. Daí, eu comecei a escrever artigos e as pessoas pensaram que haviam três! Acho que eles não pensavam que artistas podiam escrever. Depois, comecei a fazer desenhos em pastel. Num estilo muito próprio.
P – Então eles achavam que haviam quatro Brad Hollands? R – Não, eles acharam que eu tinha um filho pequeno que estava fazendo meu trabalho. No final das contas, acho que a maioria das pessoas se acostumaram ao fato de uma pessoa poder fazer mais de um tipo de coisa. Hoje, eu vejo pessoas mudando de técnicas o tempo todo.
P – Olhando para a sua carreira, quem influenciou o seu trabalho? R – Todos e ninguém.
P – Quero dizer, artisticamente. Que artistas o influenciaram? R – Bem, um artista é um acumulado de impressões e sensações. Muito do que você registra das suas experiências, fica enterrado na sua cabeça e aparece de tempos em tempos. E quando você precisa de uma imagem, de repente ela aparece do nada.
P – Ok, então você se refere à influência da experiência. E sobre a influência dos artistas? R – É claro que a forma que você dá às expressões é sempre influenciada por outra arte. Mas se você não tem uma ligação direta com a sua criatividade interior, você vai acabar por copiar trabalhos de outras pessoas.
P – Estas influências evoluiram através dos anos? R – Claro. E a cada estágio você joga fora qualquer parte de cada influência que não seja verdadeira para você – enquanto retém e constrói sobre a parte que é verdadeira.
P – Pode desenvolver mais? R – Bem, os estágios do seu desenvolvimento são construídos dentro da sua embriologia psicológica. É como a evolução: Por trás da parte do seu cérebro que você faz aritimética e imagens e palavras cruzadas, você ainda tem o cérebro de uma cobra.
P – Uma metáfora interessante. Quer falar mais um pouco sobre isto? R – Quando era jovem eu fazia tiras de quadrinhos. Hoje, eu não gostaria de fazer, mas todas que eu fiz são parte dos trabalhos que eu faço. É o equivalente artístico do meu cérebro de cobra.
P – Num artigo da Print Magazine, o autor Steven Heller lista N. C. Wyeth, Edward Hopper, Leonard Baskin, Roland Topor, Goya e Heinrich como influências chave. R – Todos estes foram. Mas ele deixou de fora Hokusai, Ben Shahn e Diego Rivera, provavelmente minhas maiores influências.
P – E como cada um deles influenciou você? R – Do Ben Shahn eu aprendí que você pode reinventar figuras ao invés de desenhar realisticamente; de Hokusai aprendí a economia de estilo; de Rivera aprendí como dar às figuras um tipo de volume renascentista.
P – Todos eles – com excepção de N. C. Wyeth – foram artistas. Você não foi influenciado por ilustradores? R – Não. Eu nunca fui apaixonado por ilustração.
P – Isso não é pouco usual? Para citar Heller novamente: “Não é ironico que (Holland) tenha escolhido falar através da ilustração, talvez a mais difícil forma de arte para transmitir um pensamento individual”. R – Bem, nós vivemos num tempo dominado pela comunicação de massa. Só faz sentido trabalhar em lugares onde as pessoas vejam o seu trabalho. Mas eu nunca quis ilustrar artigos. Eu pensei que podia fazer quadros, depois casá-los com o texto.
P – O que você quer dizer com “casá-los com o texto”? R – Imagine que você é um editor. Você tranca um redator numa sala e um artista em outra. Depois você dá para os dois o mesmo trabalho. Um escreve um artigo sobre o assunto, o outro desenha uma imagem. Daí você casa os dois – e espera que o casamento dê certo.
P – É esse o modo que você aborda sua arte? R – Sim. Eu nunca entendí porquê uma forma de expressão tem que duplicar outra.
P – Citando Steve Heller novamente: “Holland queria ilustrar ideias mais do que iluminar palavras, e somente o desenvolvimento de uma nova linguagem imagética poderia libertá-lo das tradições restritas da ilustração. Seu léxico visual, uma mistura iconográfica universal e representação subjetiva, ajudaram a definir o estilo da “Op-ed” do New York Times”. R – Sim – em retrospecto – mas na época isso era muito controverso. No início dos anos 70, havia um artigo na New York Magazine chamado “All the News that’s Fit To Befuddle”. (Nota da tradução:”Todas as notícias que Confundem”)
P – Befuddle (Nota da tradução: Confuso)? R – Sim. Confuso. O artigo era sobre os desenhos que saíam no New York Times. Dizia (eu consigo citar de memória): “Alguns leitores dizem que mil anos de pesquisa não seriam suficientes para tornar estas imagens inteligíveis” – que é algo que eu devo falar sobre essa frase em particular, a propósito – mas o que o autor tentava dizer – mesmo que ele não fosse bom escritor o bastante para dizer isso simplesmente – era que muitas pessoas achavam minhas imagens sem sentido. Como se eu estivesse gozando das pessoas. A opinião dele era que ilustradores deveriam ilustrar. Muita gente partilhava desta opinião – especialmente editores.
P – E você pensava que imagens deveriam andar pelas suas próprias pernas? R – Bem, só se elas tivessem pernas. Eu não tinha problema se outras pessoas queriam ilustrações literais. Eu é que não queria fazer nenhuma.
P – Que outras formas de arte, além de visuais influenciaram o seu trabalho? Filosofia, literatura? Heller acrescenta que você foi também influenciado por filósofos como Bertrand Russel, Arthur Koestler e Loren Eisley. E ele escreve: “Alguém pode dizer que Holland é ele mesmo um filósofo confinado num corpo de ilustrador”. R - Eu sempre achei que alguém estava trancado lá. De vez em quando, eu sinto ele tentando sair.
P – Mas você vê as suas imagens tentando fazer afirmações filosóficas? R – Não é algo que eu pense quando estou pintando. Eu só tento pôr narizes no lugar certo e o número certo de dedos nas mãos. Heller talvez tenha a ideia de uma revista alemã que uma vez me chamou de “um ilustrador metafísico americano”. Eu gosto disso; esta foi nova. Depois disso, achei que gostaria de ser listado como um metafísico na agenda telefônica – imagine o tipo de trabalhos que isso traria.
P – Na pesquisa e desenvolvimento de novos conceitos, quais são as suas fontes mais produtivas? R – Meu humor intelectual.
P – E o que mais? R – Meus sketchbooks.
P – Na fase de produção de uma imagem, o trabalho manual em si, o que você aprendeu sobre manter suas imagens novas e contemporâneas? R – O que eu aprendi é não tentar. Eu começo uma imagem como se eu nunca tivesse pintado antes. Se isso não me mantiver novo, nada o fará.
P – Qual é o seu processo de criação? Você segue sempre uma orientação específica de clientes ou tem liberdade para desenvolver seus projetos? R – Bem, clientes geralmente me chamam porque querem o tipo de imagens que eu faço. Por isso, não é difícil dar-lhes o tipo de imagens que eles querem.
P – São muito conhecidos os seus esforços pelos direitos dos ilustradores profissionais. Como você vê que o cliente e o ilustrador têm mudado nestes últimos anos, na tentativa de manter nossas negociações num padrão de qualidade, assim como contratos, valores e questões de propriedade? R – A internet trouxe um momento decisivo na história da arte. A maneira como percorremos as mudanças que estão vindo nos próximos anos determinarão como os artistas irão cobrar nos próximos cem anos. Esta é a única razão porque eu me envolví nisto. Eu não gosto de briga, mas nem sempre você escolhe as suas lutas. Aqui estão como as coisas têm mudado:
No passado, nós licenciávamos nosso trabalho através de relações diretas com nossos clentes. Eles licenciavam o uso de uma imagem para um uso específico e pagavam um preço específico por isso. Normalmente nós cedíamos os direitos primários. Ficávamos com os direitos secundários – ninguém pensava que elas valeriam mais. Mas agora, com a internet, todos vêem estes direitos secundários como uma maior fonte de lucro. Assim, se tornaram num leilão de preços para quem quiser controlá-las.
Os bancos de imagem vêem que na Era da Informação, o trabalho criativo será como carros e widgets na Era Industrial. Então, os ricos como Bill Gates (que é dono da Corbis/Getty Images – banco de imagem) quer deter os direitos de arte o mais possível. Agora mesmo eles estão perdendo enormes somas de dinheiro licenciando arte para editoras porque estão virtualmente “dando” a preços predatórios. Eles “têm que fazer isso” – para pôr os clientes longe dos artistas. Eles sabem que se eles puderem prender editoras suficientes, eles poderão tirar artistas suficientes do negócio; então poderão contratar jovens artistas para trabalhar para eles à sombra de um contrato por trabalho. Assim, possuirão direitos para todos os trabalhos futuros que eles licenciarem e isso os deixará subir os preços. Se forem bem sucedidos, isso mudará o mercado totalmente. Getty e Corbis poderiam se tornar como os antigos estúdios de Hollywood. Bill Gates poderia ganhar mais dinheiro com a Corbis do que com a Microsoft. Se os artistas querem competir a esta escala, deveriam tentar criar o que eu chamo de “Copyright Bank”.
P – Pode explicar o que significa isso? R – Claro. Um “Copyright Bank” seria um banco normal, só que que você depositaria lá os seus direitos ao invés de dinheiro. Os direitos continuariam a ser seus; você poderia continuar fazendo negócios como faz agora, exceto que o “Copyright Bank” poderia negociar melhor por todos os detentores dos direitos, os artistas. Não é uma ideia nova. A primeira coisa parecida com esta começou em Paris em 1878 por Victor Hugo. Chama-se Association Litteraire et Artistique Internationale. Nos Estados Unidos, compositores começaram algo similar em 1914. Chama-se ASCAP, American Society of Composers, Authors and Publishers. Procure no Google. Se artistas puderam se juntar para começar algo como a ASCAP, penso que os artistas no futuro terão grande poder de negociação no mercado. Se não, se tornarão artistas de rua nos países do terceiro mundo.
P – Olhando para a sua carreira e com toda a experiência hoje, qual seria a razão para você dizer “vale a pena ser ilustrador”? R – Bem, eu não tenho a certeza se diria desta maneira. Ilustração é uma palavra antiga. Uma palavra em desuso. Vem de um tempo em que artistas ilustravam coisas. Nós mudamos isso. Muito do que fazemos hoje é mais do que um comentário gráfico, embora esta seja uma forma pretensiosa de dizer e eu não a usaria também. Mas é mais certeira. Uma ilustração é onde você lê algo e que ilustra o que você lê. O que muitos de nós fazemos hoje é pré-literário. Você trabalha a partir do mesmo ponto de partida como um escritor, mas entrega um ponto de vista como imagem ao invés de um artigo. É difícil de chamar isto de ilustração.
P – Então como você se “chamaria”? R – Eu nunca frequentei escola de arte ou faculdade, por isso nunca tive que me definir pelas aulas que tive. E nunca tive um cartão de visita, então nunca tive que me chamar de qualquer coisa. Mas se você se intitula ilustrador, os críticos irão definir você por aquilo que você não é.
P – Ou seja, “não é arte, não é ilustração” R – Sim. Eu sempre achei que era um engano chamar a nós mesmos ilustradores. Isso só dá às pessoas uma razão para fortalecer um velho cliché. Talvez se nos chamássemos “artistas populares”, então os críticos teriam que dizer, “isso não é arte, isso é arte popular”. Assim teríamos os críticos onde os queremos.