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Tudo que poder ler, sempre que poder ler, enquanto poder!, Notas de aula de Português (Gramática - Literatura)

Socialize melhor,aprenda algumas regras sobre socialização

Tipologia: Notas de aula

2021

Compartilhado em 24/05/2021

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RITUAL DA LUA: O ETERNO RETORNO DO FEMININO.
Professora Regina Meira Aguiar.
Resumo
É cada vez maior o número de mulheres cultas e de classe média que se
reúnem para cultuar a lua. O ritual observa signos e símbolos que remontam as
origens da humanidade. O texto procura desenvolver as características desse ritual,
buscando semelhanças com os rituais das feiticeiras medievais, para contribuir com
um viés de análise do feminino na história da religião.
Introdução:
“Deusa da lua e da magia,
mostre-me a resposta.
Deusa dos mistérios,
revela-me todos os destinos”.
Essa pequena oração acima, ensinada pelas mulheres mais velhas a todas as
jovens que são iniciadas na arte da Quiromancia e do Tarô, foi-me ensinada já não
me lembro quando, nem onde. Sei que as mulheres que a ensinaram estão mortas.
Ágrafas, 1 seus “saberes” foram recebidos e transmitidos oralmente e perderam-se
num mundo cada vez mais “escrito”, científico e tecnológico. Imersa no mundo
racional-capitalista e cristão, também eu fui perdendo a “fé” nos poderes mágicos da
lua. Lembro-me inclusive, de ter “confessado” inúmeras vezes o “pecado” de ver a
lua como mãe, tão poderosa como a própria mãe de Jesus. Pediram-me que
desistisse dessa visão. Hoje posso dizer que desisti. Desisti da confissão.
Nos meados dos anos 80, comecei a “ver”, cada vez mais, a mesma oração
reproduzida em agendas, cartazes capas de livros esotéricos, livros infantis, filmes
de televisão que tratavam do mysterium tremendum. Mais ou menos modificada, a
oração era sempre dita num dia de lua cheia benigna (mais adiante, tentarei
diferenciá-la da lua cheia maligna) por uma mulher jovem nua ou de trajes
transparentes.
Um outro fato propulsor das questões que tentarei desenvolver aqui foi a
percepção, nessa época, de um número crescente de colegas de profissão, todas de
nível universitário e de classe média, que começaram a aconselhar, umas às outras,
inclusive a mim, sobre rituais mágicos ligados à lua, no sentido de solucionar as
1Diz-se ágrafos aos povos que não desenvolveram um sistema de escrita próprio e ágrafas pessoas que
não sabem escrever.
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RITUAL DA LUA: O ETERNO RETORNO DO FEMININO.

Professora Regina Meira Aguiar.

Resumo

É cada vez maior o número de mulheres cultas e de classe média que se reúnem para cultuar a lua. O ritual observa signos e símbolos que remontam as origens da humanidade. O texto procura desenvolver as características desse ritual, buscando semelhanças com os rituais das feiticeiras medievais, para contribuir com um viés de análise do feminino na história da religião.

Introdução: “Deusa da lua e da magia, mostre-me a resposta. Deusa dos mistérios, revela-me todos os destinos”.

Essa pequena oração acima, ensinada pelas mulheres mais velhas a todas as jovens que são iniciadas na arte da Quiromancia e do Tarô, foi-me ensinada já não me lembro quando, nem onde. Sei que as mulheres que a ensinaram estão mortas. Ágrafas, 1 seus “saberes” foram recebidos e transmitidos oralmente e perderam-se num mundo cada vez mais “escrito”, científico e tecnológico. Imersa no mundo racional-capitalista e cristão, também eu fui perdendo a “fé” nos poderes mágicos da lua. Lembro-me inclusive, de ter “confessado” inúmeras vezes o “pecado” de ver a lua como mãe, tão poderosa como a própria mãe de Jesus. Pediram-me que desistisse dessa visão. Hoje posso dizer que desisti. Desisti da confissão. Nos meados dos anos 80, comecei a “ver”, cada vez mais, a mesma oração reproduzida em agendas, cartazes capas de livros esotéricos, livros infantis, filmes de televisão que tratavam do mysterium tremendum. Mais ou menos modificada, a oração era sempre dita num dia de lua cheia benigna (mais adiante, tentarei diferenciá-la da lua cheia maligna) por uma mulher jovem nua ou de trajes transparentes. Um outro fato propulsor das questões que tentarei desenvolver aqui foi a percepção, nessa época, de um número crescente de colegas de profissão, todas de nível universitário e de classe média, que começaram a aconselhar, umas às outras, inclusive a mim, sobre rituais mágicos ligados à lua, no sentido de solucionar as

(^1) Diz-se ágrafos aos povos que não desenvolveram um sistema de escrita próprio e ágrafas pessoas que

não sabem escrever.

questões do cotidiano, até problemas profissionais, de difícil solução no plano lógico-racional. Após um debate acirrado com uma dessas “mestras da magia-da-lua”, sobre a importância da lua nova^2 e os motivos que, a meu ver, levavam ao desprezo por essa fase lunar pelos agentes dos “mil e um cursos” que ela havia feito. Tornei-me sem querer e durante dois anos, a líder de um “Coven”, nome que elas trouxeram, via neo-esoterismo, da tradição celta-bretã. Constantemente, dividida entre o gosto e a crença pelo mundo mágico e o prazer em produzir ciência e ensinar – aprendendo dentro de instituições racionais capitalistas que me possibilitam o “bien-être” numa sociedade de consumo. Compreendendo, por herança da tradição científica européia que “fazemos nossa própria história” e por herança mística de que somos ajudadas por “forças” desprovidas de lógica. E, após três luas minguantes de ritual mágico por sabedoria e virtude, decidi que não seria uma profissional mística, e que antes me dedicaria às questões científicas. Mas, como diria Paulo Freire, o saber que se aprende “fazendo” pode ser acumulado a outros saberes, jamais é perdido. Assim, ao ingressar no curso de Pós- graduação em Ciências da Religião – escolha mais do que pertinente para o meu “sentir-me no mundo” – algumas questões, antes desconexas, apenas leves surpresas por ver o mesmo “texto” se repetindo em ambientes completamente diferentes e até mesmo opostos, começaram a tomar corpo em minha mente, sobretudo, durante os cursos da Prof.ª Drª Maria José F. Rosado Nunes, e seus “toques” feministas e da leitura do “Tratado de História das Religiões de Mircea Eliade”, capítulo IV: A lua e a mística lunar, obra que dá o fundamento simbólico, a essas questões tidas como crendices e ignorâncias populares para a maioria dos cientistas sociais. A dúvida central desse texto, que agora exponho ao debate e para a qual pretendo iniciar um viés de resposta é que houve nos primórdios da humanidade um período matriarcal e que apesar da falta de dados concretos, os mitos antiqüíssimos podem confirmar essa “ginocracia das origens; que correspondia a uma religião da vida, a um dos ciclos das estações e a um predomínio absoluto do amor e do acasalamento, da vida, do nascimento e da morte” (Terrin 1994: 84)... “a partir do segundo milênio a.C., está documentada a superação do homem sobre a mulher, e está também documentada a situação de inferioridade a que a mulher foi relegada, em quase todos os âmbitos culturais e religiosos” (Terrin, 1994:83) e mais adiante... “não mais o instinto religioso, mas a instituição: não mais a liberdade religiosa, mas a lei. As deusas são submetidas aos deuses”. “Na verdade, a mulher é a contradição em nível lógico e ontológico do princípio do ser, pois provoca o devir ; é o provocador do devir por excelência”. (Terrin, 1994:100) Ora, se “o devir é a norma lunar” (Eliade, 1998: 145), se durante o processo civilizador (Elias, 1994) da Europa pré-cristã as mulheres, cujos rituais (atribuídos a bruxarias e adorações demoníacas), têm profundas semelhanças com os rituais do culto à lua, recebe todo o ódio daqueles que, pelo seu ascetismo, rejeitam o devir que elas simbolizam, e, se em nossos dias, a mulher (e aqui penso na ocidental, culta e de classe média) nunca foi tão livre e senhora de seu destino e portanto faz “às claras” esse ritual, inclusive, com convites divulgados pela mídia. Seria possível pensar que, na verdade esse culto nunca morreu e mais, tal como a própria lua

(^2) A fase da lua Nova para tradição cigana do sub-grupo Calon é a fase do recolhimento, da busca interior

e no mundo material daquilo que devemos nos separar.

crescimento e de toda mudança; o amor que significa volta ao lar, abrigo, e o longo silêncio em que tudo tem seu início e no qual tudo encontra seu fim”. 4 Alguns símbolos ritualísticos são fixos, isto é, utilizados em todas as fases da lua como, por exemplo, a serpente em forma de anel, que é usado sempre no dedo anelar. O dedo médio tem a função lunar de ligar o mundo superior com o mundo inferior e se usa anel nesse dedo, quando não se deseja mais participar do ritual. A serpente aparece também no vaso ritual da lua cheia. É que a serpente significa “regeneração”, pois ela muda de “casca” periodicamente. Outros símbolos são específicos a cada fase. A lua Nova é o período escuro sombrio, o período de Kali que Terrin (1998: 104) chama de o poder do tempo e da morte e Eliade (1998: 150) de “época sombria”, por isso deve-se usar num ritual mágico da lua nova pérolas negras (ou contas que se lhe assemelham). O círculo ritualístico é de ritmo lento e o cântico apenas com o nome Kali ou Malakali repetido. E é o período em que se planta o desejo (o pedido) da lunação. Quando se pede paz aos mortos e é o período de descida ao lado obscuro da alma. Tempo das viúvas, das traídas, das abandonadas, as que tiveram filhos precocemente mortos plantarem as sementes (são mais usadas as do alho, da cebola e outras plantas de bulbo, pois a água contida neles, simbolicamente as lágrimas femininas, vão alimentar a nova planta) do renascimento afetivo. As vestimentas são de cores que vão do negro ao verde escuro. O ritual da lua crescente se faz no sentido de “costurar” o que está separado, de tecer a trama do destino. O símbolo da crescente é a agulha em forma de lua crescente com a qual se deve costurar os desejos. “Tecer não significa somente predestinar e reunir realidades diferentes, mas também “criar”, fazer sair da sua própria substância, como faz a aranha, que urde, ela própria sua teia”. (Eliade, 1998:

  1. É a lua da esperança, da adolescência revivida em qualquer idade, do novo amor ou do “retorno” do amor sob novos augúrios. O círculo ritual é na verdade um semicírculo e os cânticos são de pedidos de coragem para tecer seu próprio destino. Creio ser por isto que alguns círculos neo-esotéricos, desprezam a lua nova e já começam o ritual na crescente. Esses “défricheurs” (Ortiz, 1998: 206) não suportariam descer antes, aos próprios infernos para, só então, tecer seu destino e pensam ser possível construir edifícios sem alicerces subterrâneos. Mas, aqui não é o espaço, nem o tempo para esse debate. O ritual da lua cheia é o mais conhecido. Esteticamente belo, sonoro, ritmado, feito num círculo mágico. Onde, de mãos dadas, as mulheres vestidas com tecidos leves e claros cantam e giram em círculo cada vez mais rápido, tendo ao centro uma fogueira, o que provoca êxtase 5 nas participantes, e certo “frenesi” nos assistentes. Por isso é mais divulgado na mídia, aparecendo constantemente nos filmes e novelas da televisão. Nem todas as luas cheias são iguais. Por serem o centro da magia, a lua plena no céu pode revelar augúrios distintos. Se acontecerem junto aos solstícios geralmente tais luas são benéficas, melhores aquelas que vêm com uma auréola branca. Aziagas, as que são circundadas por um círculo vermelho. Terríveis, geralmente produzem derramamento de sangue. As luas cheias de equinócio trazem a benção da paz, da concórdia e da justiça e se vierem com círculos dourados podem

(^4) Jung in Psychologial Aspects of the Mother Archetypc citado por James Hollis “Rastreando os Deuses”

Paulus, 1995. (^5) O fogo é desde a pré-história associado às religiões. Representa a vida e a morte, a origem e o fim de

todas as coisas, e é nesse sentido um dos mais importantes emblemas de transformação e regeneração.

trazer um período de grande prosperidade. É claro que, hoje com o avanço tecnológico, a astronomia tem explicações simples e claras para essas mensagens lunares, mas as praticantes de rituais mágicos acreditam que a ciência está coberta pelo véu da ilusão. A lua cheia é a lua de Demeter^6 , a lua do amor em seu sentido maior. É a mulher de coração nos olhos, buscando o amor imensurável, oferecendo àquele que habita em seus infinitos braços. É quando ela procura seu filho em cada ser da natureza, quando quer ser a ave-mãe e ninho a um só tempo. É quando seu colo se torna parto e suplica dolorosamente, pelo lançar de âncoras de todas as embarcações. É o tempo de receber, alquimicamente, o que se plantou na lua nova. As pérolas, agora brancas, já devem trazer a intuição da concretização da magia da lua escura. É a lua-mãe. A minguante é o inverso da nova, no círculo, nos símbolos e nos pedidos mágicos. É quando se usa o punhal ou a foice, para simbolicamente cortar tudo o que nos perturba ou que é motivo de ilusão, outro atributo lunar. Nessa fase lunar se pede à lua sabedoria para tecer nosso destino e virtude para compreender a solidão e a finitude, causa e razão de tudo. Nessa lua se pede o dom da Magia. No final do ritual cada participante separa-se das outras cantando com voz cada vez mais baixa a oração: “agora penso na morte, para encontrar o que sou, antes de tornar-me outra”.

2 – RITUAL DE BRUXARIA MEDIEVAL E O RITUAL DA LUA.

Numa forma sumária quero expor aqui algumas semelhanças entre os dois rituais e tentar contribuir para esclarecer os motivos do martírio de tantas mulheres no passado cristão. Tenho convicção que só o tema daria dezenas de dissertações de mestrado, sem que nenhuma repetisse a outra. Contudo, gostaria de expor um viés para que outras colegas, interessadas pelo assunto, possam em forma de uma pesquisa científica, desenvolvê-lo. Uma das figuras de grande simbologia ritualística e de vivência para as magas da lua e que foi visto de maneira preconceituosa sofrendo os mesmos martírios que as mulheres e que quase não aparecem nas bibliografias que tratam do mito é o gato. É por isso, que eu gostaria de lembrar um pouco a sua figura. Animal noturno, sagaz, silencioso, sensual, intuitivo, amoroso, limpo e livre. Porém, desapegado e feroz quando oprimido, preso ou violentado. O gato foi desde os primórdios considerado um animal lunar, pois dorme em forma de círculo, canta para a lua plena e tem uma relação de amor e ódio com a água, pois ao mesmo tempo em que se alimenta de seu fruto (o peixe) não a aceita em seu corpo. Por tudo isso, o gato é modelo de virtudes para a maga da lua e como é muito intuitivo, anuncia os perigos não visíveis no ambiente e, parecem renascer em situações limites como guerras e desastres naturais. Outros símbolos e signos comuns ao ritual da lua e rituais de bruxaria já foram trabalhados por diversos autores tais como: o círculo, o vestir-se de negro (lua nova), a dança nua ou seminua (lua cheia), o uso de “chifres” (lua crescente ou minguante), a serpente, o cálice com vinho no ritual da lua cheia maligna, o besuntar-se de

(^6) Demeter – deusa da mitologia grega, mãe de Perséfone e que, apesar de esposa de Zeus, não são as

características de esposa que carrega, mas a de mãe por excelência, capaz de lutar com o deus dos infernos.

tantos símbolos ligados, há um tempo que não se temia o “devir”, possui ainda o oito de copas que significa a transformação da vida afetiva.

Resumindo, até nas cartas de divinação é possível perceber a passagem de uma cultura baseada no predomínio da mulher – lua – serpente – para a situação de inferioridade a que foi legada, invertendo o sentido dos símbolos, dando àqueles que representam o feminino, um sentido de vício, concupiscência e loucura. O Tarô traz em suas lâminas a lembrança da passagem da comunidade clãmica, onde a “regra da mãe” ordenava o grupo, para o período em que o poder masculino começou a acumular propriedades e descobriu que sua força e coragem podiam aumentar suas posses. “Essa mudança coincidiu com o início, do culto do Sol sob um sacerdócio masculino, que veio substituir os cultos da lua, bem anteriores, que permaneciam nas mãos das mulheres” (Harding, 1985: 60). É o arcano XVIIII – o Sol do Tarô que promete a glória que a carta da lua do baralho cigano anuncia.

4 – A FASE CRESCENTE DO RITUAL DA LUA.

“A lua nunca foi adorada em si mesma , mas no que ela revelava de sagrado, quer dizer, na força que está concentrada nela, na realidade e na vida inesgotável que manifesta”. (Eliade 1998: 131).

Essa realidade se manifesta também, podemos crer, no retorno do culto à lua feito livremente, sem pejo ou medo de repressão que muitos grupos de mulheres hoje praticam em todo o mundo. Interpretado muitas vezes como parte da “bricolagem” neo-esotérica. Os estudiosos do fenômeno religioso têm colocado esse ritual como exemplo que caracteriza do individualismo religioso pós-moderno. Penso que o problema é mais profundo.

Nas últimas décadas os laços de coesão familiar afrouxaram. O grande número de divórcios e maternidades fora do casamento tem produzido o aumento de famílias nucleares conduzidas pelas “regras da mulher”. Livres, bem sucedidas profissionalmente, mas sós e donas de seu próprio saber e da busca de conhecimento. Minha tese é que, na busca de sentido, comum ao seu tempo, acabam tomando conhecimento do ritual da lua (via teosofia), terminando por identificá-lo com o resgate do sagrado eminentemente feminino, e, portanto capaz de dar sentido às suas vidas, respostas aos sentimentos e angústias impossíveis de serem respondidas pelas religiões reveladas, patriarcais e masculinas.

A liberação e independência econômico-cultural das mulheres ocorreram primeiramente nos Estados Unidos, por isso é lá que ocorre o pioneirismo na exposição à luz do ritual da lua bem como sua representação cristã puritano – a festa das bruxas – caricatura provocativa da “leitura” que o ascetismo-cristão masculino fez do ritual da lua. Essas mulheres norte-americanas e européias já desenvolveram um profundo trabalho de resgate do religioso feminino, não só através do ritual em si, que seria um momento de troca, de purificação e lapidação do self, como também de toda uma bibliografia específica (principalmente na área da psicologia), no sentido de resgatar o arquétipo da lua ou Grande Mãe escondida nas Deusas greco-romana.

Herdeiras da cultura-européia, as magas da lua do hemisfério norte, utilizam termos e conceitos^8 oriundos da tradição celta-bretã, que contém, de fato, os pedaços de memória de suas antepassadas deixadas à margem da História. Privilegiam “suas” estações do ano, dando à lunação de maio caráter benéfico em detrimento da de outubro, inteiramente dedicada, à entrada da alma no lado obscuro. Estão perfeitamente corretas, já que é nas árvores milenares despidas de folhas, que, por intuição ou até na busca de dados concretos onde se encontra – alguma marca, inscrição, desenhos etc – que poderão representar traços da memória feminina ancestral. Discordo que, nos do hemisfério-sul devamos seguir paripasso esse padrão, já que, nossa natureza é oposta e é nela que iremos nos nutrir da mística lunar. Temos que ser sábias o suficiente para perceber que o tempo de renascer aqui é outubro e o tempo de “Héstia/Lares”^9 é maio, mesmo que a tradição cristã-católica o denomine “mês-das-noivas”. Contudo, devemos aprender, com nossas “irmãs” do hemisfério norte, a coragem de promover o retorno da mística feminina, da pesquisa incessante nos “sinais” deixados – quer por pesquisa científica, intuição e até incorporação de espíritos, por mulheres que a história fez esquecer. Os trabalhos de pesquisa revolucionários dessas psicólogas, sociólogas da religião ou místicas nos darão subsídios para buscar nossa própria memória, pois esses conhecimentos “são parecidos com uma música que fosse feita não para ser mais ou menos passivamente executada, ou mesmo escutada, mas sim para fornecer princípios de composição”. (Bourdieu, 1989: 63)

CONCLUSÃO

Se uma época “sombria” é seguida, em todos os planos cósmicos, de uma época “luminosa”, pura, regenerada (Eliade, 1998: 151), é possível pensar que o aumento do número de mulheres que buscam através do ritual da lua, um espaço para juntar forças , demonstra uma busca pela mística essencialmente feminina e que dê subsídios para a construção (reconstrução) da história das mulheres. Todos sabemos que as crenças mágicas que envolvem a relação mulher-lua são tão numerosas quanto o número de etnias existentes na Terra e que, quanto mais ligados à vida agrária maior à afinidade com os fenômenos naturais. Cultuar a lua, então, significa prever as intempéries naturais que prejudicam a agricultura. Além disso, na vida comunitária se nasce e se morre junto às mulheres aparentadas, cabendo a elas às previsões desses eventos, bem como os agrícolas e os que regem a vida dos animais domésticos. Contudo, o que tentei desenvolver aqui é que, um número cada vez maior de mulheres, oriundas do topo da pirâmide social de sociedades de ponta do mundo

(^8) Exemplo disso é o termo “coven” para o circulo, o uso de cálice para o vaso ritual e espada medieval no

lugar do punhal. (^9) Héstia-lares – deusa greco-latina do inconsciente e da lua. Representada nas casas romanas pela lareira,

acabou por simbolizar o habitat humano – o lar. Simboliza ainda o estágio da velhice e as mulheres enclausuradas em instituições.

Milita em defesa da mulher e estuda a questão de gênero junto a instituições ligadas ao PCB e Pastoral da Igreja Católica há décadas.Atualmente trabalha como voluntária na Pastoral da Solidariedade Social na Paróquia São Domingos em Perdizes.