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Entretanto, a obtenção de uma fórmula utilizando letras para representar quantidades como hoje fazemos, sintetizando o método de solução, é algo muito mais ...
Tipologia: Exercícios
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Como vimos antes equações quadráticas já eram resolvidas por meio de completamento de quadrados desde os tempos babilônicos. Entretanto, a obtenção de uma fórmula utilizando letras para representar quantidades como hoje fazemos, sintetizando o método de solução, é algo muito mais recente.
Isso ocorreu somente com a publicação de “La Géométrie” de Descartes, em 1637. Nessa obra, pela primeira vez, o autor utiliza as primeiras letras do alfabeto a , b , c , ... para representar constantes e as últimas x , y , z , u , ... para representar variáveis e incógnitas. Descartes também é o primeiro a escrever produtos na forma de potências ao utilizar-se de letras, por exemplo x ⋅ x como x^2 , x ⋅ x ⋅ x como x^3 , etc. É nesse contexto que a fórmula para a equação quadrática aparece como a conhecemos hoje.
Em períodos anteriores ao século XV, o processo de solução das equações quadráticas era registrado de maneira “retórica”, isto é, como uma receita textual, de modo muito semelhante ao que ocorria na época babilônica. Em [1], por exemplo, encontramos a referência dada pelo matemático indiano Brahmagupta para solução de uma equação quadrática no ano de 628 dC:
Ao número absoluto multiplicado por quatro vezes o coeficiente do quadrado, some o quadrado do coeficiente do termo médio. A raiz quadrada do mesmo, menos o coeficiente do termo médio, se dividido por duas vezes o coeficiente do quadrado, é igual ao termo médio.
As equações a que Brahmagupta se refere, quando escritas em linguagem moderna,
são da forma ax^2 + bx = c , sendo c o chamado “número absoluto”. Nesse caso, de
acordo com as explicações, pode-se concluir que x = 4 ac + b^2 − b 2 a
Apesar de esforços de matemáticos como Cardano, tentando compilar o que se conhecia sobre as soluções das equações quadráticas, as tentativas de sistematizar os diferentes tipos de solução dadas por Stevin [7], é somente em “La Géométrie” que temos uma fórmula na linguagem e notações semelhantes às que conhecemos hoje. Nessa obra, dentre várias situações, Descartes apresenta uma maneira geométrica de
se solucionar equações da forma z^2 = az − b^2 , obtendo uma fórmula explícita para z
como z =
a ±
a^2 − b^2.
O quadro a seguir, extraído de [3], mostra a evolução na forma de se representar uma equação quadrática de 1494 a 1693. Ele ilustra a dificuldade de notação que se tinha, e vale lembrar que antes desse período o processo de solução era descrito de forma retórica, como ilustramos no caso indicado por Brahmagupta, acima.
No que segue, vamos ver como deduzir a fórmula para solução da equação quadrática por meio do completamento de quadrados, e a correspondente interpretação geométrica das operações realizadas.
2.1 – Dedução por Completamento de Quadrados
Considerando que ax^2 + bx + c = 0 , primeiramente observe que deve-se ter a ≠ 0 a fim de que realmente a equação seja quadrática. Dessa forma, podemos reescrever a equação assim:
ax^2 + bx + c = 0
a^2 x^2 + abx = − ac Multiplicando por a e isolando o termo sem o x.
( ax ) 2 + b ⋅ ( ax ) = − ac
Aqui fica claro que podemos fazer uma mudança de variável colocando y = ax , para
obtermos a nova equação
y^2 + b ⋅ y = c
em que colocamos c = − ca. O ponto importante nessa mudança de variáveis é que ela preserva o termo b , utilizado no completamento de quadrados. E, ao reescrever a equação nessa forma, pode-se mais facilmente dar a ela uma interpretação geométrica.
A ideia de se fazer a transformação y = ax , e obter uma nova equação com o mesmo
termo linear não é nova. Ela é apresentada no tablete babilônico BM 13 901 para
solução da equação quadrática 11 x^2 + 7 x = 6;.
Retornando à equação, observe agora que um simples completamento de quadrados resolve o problema:
y^2 + b ⋅ y = c
y^2 + b ⋅ y + b 2
2 = c + b 2
2
y +
b 2
2 = c +
b 2
2
y + b 2
= ± c + b 2
2
y = − b 2
± c + b 2
2
Substituindo na igualdade acima as expressões b 2
b^2 4
, c = − ca e y = ax obtemos
finalmente
ax = − b 2
± − ca + b^2 4
x =
− b ± b^2 − 4 ac 2 a
2.2 – Interpretação Geométrica da Fórmula
A multiplicação da expressão ax^2 + bx + c = 0 por a , transformando-a na nova
equação y^2 + b ⋅ y = c através das mudanças de variáveis y = ax e c = − ca nos
permite dar uma interpretação geométrica ao processo de completamento do quadrado
do membro da esquerda da igualdade. De fato, com base na expressão y^2 + b ⋅ y = c
construímos a figura a seguir:
O processo que consiste em somar b 2
2 a ambos os lados da igualdade, faz com que
o membro y^2 + b ⋅ y + b 2
2 represente a área de um quadrado, como ilustra a figura
acima. Nesse caso, o quadrado terá lado y + b 2
. A conclusão então é que o lado do
quadrado será igual à raiz quadrada do termo c + b 2
2 , já que esse último número
agora tem o significado geométrico de área.
y
b /
y (^) b /
y^2 = b^2 − 4 ac
y = ± b^2 − 4 ac
Lembrando que x = y − b 2 a
, escrevemos a variável y como y = 2 ax + b. Dessa forma,
obtemos:
2 ax + b = ± b^2 − 4 ac
x = − b ± b^2 − 4 ac 2 a
Segunda Dedução:
O método que apresentamos a seguir é atribuído a Viète [3]. Na equação
ax^2 + bx + c = 0
efetuamos a substituição x = u + v. Dessa maneira,
a ( u + v ) 2 + b ( u + v ) + c = 0
au^2 + 2 auv + av^2 + bu + bv + c = 0
Reagrupando os termos em u temos
au^2 + (2 av + b ) u + av^2 + bv + c = 0
A fim de se eliminar o termo em u , ficando somente com o termo em u^2 , podemos
impor que o coeficiente de u seja zero, isto é, 2 av + b = 0. Assim, obtemos v = − b 2 a
Substituindo esse valor na equação acima, encontramos
au^2 + a −
b 2 a
2
b 2 a
' +^ c^ =^0
au^2 + ab^2 4 a^2
b^2 2 a
4 a^2 u^2 − b^2 + 4 ac = 0
u = ± b^2 − 4 ac 2 a
Lembrando que v = − b 2 a
, e também que inicialmente x = u + v , obtemos então a
fórmula
x = u + v
x = −
b 2 a
b^2 − 4 ac 2 a
Finalmente, a título de curiosidade, queremos citar o artigo de Heaton [4]. Segundo
esse autor, até 1896 não se tinha notícia da fórmula x = − b ± b^2 − 4 ac 2 a
e de sua
dedução como método para solução direta de equações quadráticas. Apesar das soluções de Descartes implicarem diretamente as de Heaton elas eram baseadas em um método dedutivo geométrico, não algébrico.